UMBERTO ECO

A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA

 

Romance ilustrado 



UMBERTO ECO 

A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA 

Romance ilustrado 

 

 

 

 

 

Traduo de Eliana Aguiar 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 ____ 1 ___ 

EDITORA R E C O R D 

RIO DE JANEIRO  SO PAULO 

2005 



SUMRIO 

 

 

 

 

 
PRIMEIRA PARTE - O ACIDENTE 

1. O mais cruel dos meses 
2. O cicio que faz a folha... 
3. Talvez algum te deflorasse 
4. Sozinho sigo pela cidade 


 

SEGUNDA PARTE - UMA MEMRIA DE PAPEL 

5. O tesouro de Clarabela 
6. O Novssimo Melzi 
7. Oito dias num sto 
8. Quando o rdio 
9. Mas Pippo no sabe 


 

10. A torre do alquimista 
11. L em Capocabana 
12. Agora vem o bom 
13. Senhorinha plida 
14. O Hotel das Trs Rosas 


 

TERCEIRA PARTE - 01 N0TO1 

15. Por fim voltaste, amiga bruma! 
16. Sopra o vento 
17. O jovem prevenido 
18. Bela s como o sol 


 Fontes das citaes e das ilustraes 



 

 

1.0 MAIS CRUEL DOS MESES 

 

 

"E o senhor, como se chama?" "Espere, 
est na ponta da lngua." 

 

Tudo comeou assim. 

Era como se acordasse de um longo sono, e no entanto ainda estava 
suspenso em um cinza leitoso. Ou quem sabe no estava acordado, mas 
sonhando. Era um estranho sonho, desprovido de imagens, povoado por sons. 
Como se no visse, mas ouvisse vozes que me contavam o que devia ver. E 
contavam que eu ainda no via nada, exceto um fumegar ao longo dos canais, 
onde a paisagem se dissolvia. Bruges, disse a mim mesmo, estava em Bruges, j 
estivera em Bruges, a morta? Onde a nvoa flutua entre as torres como o 
incenso que sonha? Uma cidade cinzenta, triste como uma tumba flo-
rida de crisntemos onde a bruma pende desbeiada das fachadas 
como um arras... 

Minha alma limpava os vidros do bonde para afogar-se na nvoa 
mvel dos sinais. Nvoa, minha incontaminada irm... Uma nvoa 
espessa, opaca, que embrulhava os rumores, e fazia surgirem 
fantasmas sem forma... Por fim chegava a um despenhadeiro enorme e via 
uma figura altssima, envolta num sudrio, o rosto de um condor imaculado 
de neve. Eu me chamo Arthur Gordon Pym. 

Mastigava a nvoa. Os fantasmas passavam, tocavam-me, desvane-
ciam-se. As luzinhas longe luziam como fogos ftuos num 
campo-santo... 

Algum caminha a meu lado sem rumor, como se tivesse os ps 
descalos, caminha sem saltos, sem sapatos, sem sandlias, uma faixa 
de nvoa me desliza sobre a face, uma frota de bbados grita l 
embaixo, no fundo da balsa. A balsa? No sou eu quem diz, so as vozes. 

A nvoa chega sobre pequenas patas de gato... Era uma nvoa que 
parecia que tinham sumido com o mundo. 

Entretanto de vez em quando era como se abrisse os olhos, e visse 
relmpagos. Ouvia as vozes: "No  um coma propriamente dito, senhora... 



No, no pense num eletroencefalograma plano, por caridade... Existe 
reatividade..." 

Algum me projetava uma luz nos olhos, mas depois da luz era de novo o 
escuro. Sentia a picada de uma agulha, de alguma parte. "Viu, tem 
mobilidade..." 

Maigret mergulha em uma nvoa to densa que no consegue ver 
nem onde pe os ps... A nvoa pulula de formas humanas, fervilha 
de uma vida intensa e misteriosa. Maigret? Elementar, meu caro Watson, 
so dez negrinhos,  na nvoa que desaparece o co dos Baskerville. 

A cortina de vapor cinza gradualmente perdia seu matiz cinzento, 
o calor da gua era extremo, e sua nuana leitosa mais intensa que 
nunca... Ento nos precipitamos nos abraos da catarata onde um 
abismo abriu-se para nos engolir. 

Ouvia gente que falava a meu redor, queria gritar e avis-los de que estava 
ali. Havia um zumbido contnuo, como se fosse devorado por mquinas 
singulares de dentes pontiagudos. Estava na colnia penal. Sentia um peso 
sobre a cabea, como se me tivessem enfiado a mscara de ferro. Tinha a 
impresso de divisar luzes azuis. 

"Apresenta assimetria dos dimetros pupilares." 

Tinha fragmentos de pensamentos, decerto estava acordando, mas no 
podia me mover. Se pelo menos conseguisse ficar acordado. Dormi de novo? 
Horas, dias, sculos? 

A nvoa retorna, as vozes na nvoa, as vozes sobre a nvoa. Seltsam, im 
Nebel zu wandern! Que lngua ? Parecia que nadava no mar, sentia-me 
prximo  praia mas no conseguia chegar l. Ningum me via e a mar me 
levava embora. 

Por favor digam-me alguma coisa, por favor toquem-me. Senti uma mo 
na testa. Que alvio. Uma outra voz: "Senhora, temos histrias de pacientes 
que desperram de repente e vo embora com as prprias pernas." 

Algum me incomodava com uma luz intermitente, com a vibrao de um 
diapaso, era como se me tivessem posto um vidro de mostarda debaixo do 
nariz, depois um dente de alho. A terra tem um cheiro de cogumelos. 

Outras vozes, mas essas de dentro: longos lamentos de locomotiva a 
vapor, padres na neblina informe encaminhando-se em fila para So 
Miguel no Bosque. 

O cu  de cinzas. Nvoa rio acima, nvoa rio abaixo, nvoa que 
morde as mos da pequena vendedora de fsforos. Os passantes nas 
pontes da Ilha dos Ces olham um nfimo cu enevoado, envoltos eles 
mesmos na nvoa como em um balo suspenso sob uma nvoa 



morena, que nem morte muita poderia desfazer. Cheiro de estao e 
de fuligem. 

Uma outra luz, mais leve. Parece que ouo, atravs da nvoa, o som 
das gaitas escocesas que se renova no brejo. 

Outro longo sono, talvez. Depois uma clareada, pareo estar num copo 
de gua e anis... 

 

Ele estava diante de mim, embora ainda o visse como uma sombra. Sentia 
a cabea anuviada, como se tivesse acordado depois de ter bebido muito. Creio 
ter murmurado alguma coisa com dificuldade, como se naquele momento 
estivesse falando pela primeira vez: "Posco reposco flagito regem o 
infinitivo futuro? Cajus rgio ejus re-ligio...  a paz de Augusta ou a 
defenestrao de Praga?" e depois: "Neblina tambm no trecho apennico de 
Autosole, entre Ronco-bilaccio e Barberino dei Mugello..." 

Sorriu-me com compreenso: "Mas agora abra bem os olhos e tente olhar 
ao redor. Sabe onde estamos?" Agora eu o via melhor, usava um jaleco - 
como se diz? - branco. Girei o olhar e consegui mover a cabea tambm: o 
quarto era sbrio e limpo, uns poucos mveis de metal e cores claras, eu 
estava na cama, com um tubo enfiado no brao. Da janela, entre as venezianas 
abaixadas, passava uma lmina de sol, primavera em torno brilha no ar e 
pelos campos exulta. Sussurrei: "Estamos... em um hospital e o senhor... o 
senhor  um mdico. Eu estive mal?" 

"Sim, esteve, depois eu lhe conto. Mas agora recuperou a conscincia. 
Coragem. Sou o doutor Gratarolo. Desculpe se lhe fao tantas perguntas. 
Quantos dedos estou lhe mostrando?" 

"Isso  uma mo e esses so dedos. So quatro. So quatro?" 

"Certo. E quanto  seis vezes seis?" 

"Trinta e seis,  bvio." Os pensamentos ribombavam na minha cabea 
mas vinham quase sozinhos. "A soma das reas dos quadrados... construdos 
sobre os catetos...  igual  rea do quadrado construdo sobre a hipotenusa." 

"Parabns. Acho que  o teorema de Pitgoras, mas no liceu eu tirava seis 
em matemtica..." 

"Pitgoras de Samos. Os elementos de Euclides. A desesperada solido das 
paralelas que nunca se encontram." 

"Parece que sua memria est em timo estado. A propsito, e o senhor 
como se chama?" 

 

Pois foi a que eu hesitei. E no entanto estava na ponta da lngua. Depois de 
um segundo respondi da maneira mais bvia. "Eu me chamo Arthur Gordon 
Pym." "O senhor no se chama assim." 



Certamente Gordon Pvm era um outro. Ele no voltou mais. Tentei chegar a 
um acordo com o doutor. "Podem me chamar de... Ismael?" 

"No, o senhor no se chama Ismael. Faa um esforo." 

Uma palavra. Como bater contra um muro. Dizer Euclides ou Ismael era 
fcil, como dizer ambarab quiqui coc trs corujas no guarda-p. Dizer quem 
eu era, ao contrrio, era como virar para trs e l estava o muro. No, no um 
muro, tentava explicar: "No  que sinta alguma coisa slida,  como andar na 
nvoa." 

"Como  a nvoa?", perguntou. 

"A nvoa aos hirtos montes chuviscando sobe e sob o mistral grita 
e branqueia o mar... Como  a nvoa?" 

"No me ponha em apuros, sou apenas um mdico. E depois estamos em 
abril, no posso mostr-la. Hoje  dia 25 de abril." 

'Abril  o mais cruel dos meses." 

"No sou muito culto mas creio que  uma citao. Podia dizer que hoje  
o dia da Libertao. Sabe em que ano estamos?" 

"Certamente depois do descobrimento da Amrica..." 

"No recorda nem uma data, uma data qualquer antes do... seu despertar?" 

"Qualquer uma? Mil novecentos e quarenta e cinco, fim da Segunda 
Guerra Mundial." 

"Muito pouco. No, hoje  dia 25 de abril de 1991. O senhor nasceu, 
parece-me, no final de 1931, e ento est chegando aos sessenta anos." 

"Cinqenta e nove e meio, nem isso." 

"timo no que diz respeito  capacidade de clculo. Olhe, o senhor sofreu, 
como dizer, um acidente. Conseguiu sair vivo, parabns. Mas evidentemente 
tem alguma coisa que ainda no est bem. Uma pequena forma de amnsia 
retrgrada. No se preocupe, s vezes duram pouco. Por gentileza, responda 
ainda algumas perguntas. O senhor  casado?" 

"Diga-me o senhor." 

"Sim,  casado, com uma amabilssima senhora que se chama Paola e que 
esteve a seu lado dia e noite, s ontem  noite consegui obrig-la a ir para 
casa, do contrrio desmoronava. Agora que despertou vou cham-la, mas terei 
de prepar-la e precisamos fazer ainda algumas verificaes." 

"E se eu a confundir com um chapu?" 

"O que disse?" 

"Tem um homem que confundiu a mulher com um chapu." 

"Ah, o livro de Sacks. Um caso famoso. Vejo que  um leitor atualizado. 
Mas no  o seu caso, ou j teria me confundido com uma estufa. No se 
preocupe, talvez no a reconhea mas no vai confundi-la com um chapu. 

Voltemos ao senhor. E ento, o senhor se chama Giambattista Bodoni. Isso 
no lhe diz nada?" 

Agora minha memria voava como um planador entre montes e vales, 
pelo horizonte interminado. "Giambattista Bodoni era um clebre tipgrafo. 
Mas estou seguro de que no sou eu. Eu poderia at ser Napoleo e seria como 
Bodoni." 

"Por que disse Napoleo?" 

"Porque Bodoni era mais ou menos de poca napolenica. Napoleo 
Bonaparte, nascido na Crsega, primeiro cnsul, desposa Josefina, torna-se 
imperador, conquista meia Europa, perde em Waterloo, morre em Sanra 
Helena, cinco de maio de 1821, eficou como que imvel." 

"Terei que voltar aqui com uma enciclopdia, mas do que me recordo o 
senhor lembrou bem. Porm no lembra quem ." F, grave? 

"Para ser honesto, bom no . Mas no  o primeiro a quem acontece uma 
coisa assim, conseguiremos sair dessa." 

Pediu-me que levantasse a mo direita e tocasse o nariz. Entendia muito 
bem o que era a direita, e o nariz. Centrado. Mas a sensao era novssima. 
Tocar-se o nariz  como ter um olho na ponta do indicador e olhar para o 
prprio rosto. Eu tenho um nariz. Grararolo bateu em meu joelho e depois 
aqui e ali na perna e nos ps com uma espcie de martelinho. Os doutores 
mensuram os reflexos. Parece que os reflexos eram os esperados. No final, 
sentia-me esgotado, e creio que adormeci. 

Acordei num lugar e murmurei que parecia a cabina de uma astronave, 
como nos filmes (que filmes, perguntou Gratarolo, todos, respondi, em geral, 
depois nomeei Star Trek). Fizeram-me coisas que no entendia com 
mquinas nunca vistas. Creio que olhavam dentro da minha cabea, mas eu os 
deixava agir sem pensar, embalado pelos zumbidos suaves, e de vez em 
quando adormecia de novo. 

 

Mais tarde (ou no dia seguinte?), quando Gratarolo voltou, eu estava 
explorando a cama. Apalpava os lenis, leves, lisos, agradveis de tocar; 
menos o cobertor, que espetava um pouco as pontas dos dedos; virava-me e 
batia a mo no travesseiro, deleitando-me ao ver que afundava dentro dele. 
Fazia chac chac e me divertia muito. Gratarolo perguntou se conseguia 
levantar da cama. Com a ajuda de uma enfermeira consegui, estava em p, 
embora a cabea me girasse. Sentia os ps pressionando o pavimento, e a 
cabea no alto. E assim que se est de p. Sobre um fio esticado. Como a 
pequena sereia. 

"Coragem, experimente ir ao banheiro e escovar os dentes. A escova de sua 
mulher deve estar l." Disse que no costumava escovar os dentes com a 
escova de um estranho e ele observou que uma esposa no  uma estranha. No 



banheiro me vi no espelho. Pelo menos estava bastante seguro de que era eu 
porque os espelhos, como se sabe, refletem aquilo que tm diante de si. Uma 
cara branca e escavada, a barba longa, duas olheiras assim. Estamos bem, no 
sei quem sou mas descubro que sou um monstro. No gostaria de me 
encontrar de noite em uma rua deserta. Mister Hyde. Identifiquei dois 
objetos, um com certeza se chama dentifrcio e o outro escova de dentes. 
Preciso comear com o dentifrcio e espremer o tubinho. Agradabilssima 
sensao, deveria faz-lo mais vezes, porm a certa altura  preciso parar, 
aquela pasta branca no comeo faz flop, como uma bolha, mas depois sai toda, 
como le serpent qui danse. No espremer mais, seno vai fazer como 
Broglio com os stracchini. Quem  Broglio? 

A pasta tem um timo sabor. timo, disse o duque.  um welie-rismo. 
Estes so, ento, os sabores: algo que lhe acaricia a lngua, mas tambm o 
palato, porm quem percebe os sabores  a lngua. Sabor de menta -y la 
bierbabuena, a las cinco de la tarde... Decidi e fiz o que todos fazem 
nesses casos, rapidamente e sem pensar muito: escovei primeiro para cima e 
para baixo, depois da esquerda para a direita, depois o cu da boca.  
interessante sentir as cerdas que entram entre dois dentes, creio que de agora 
em diante vou escovar os dentes todo dia,  bom. Passei as cerdas na lngua 
tambm. Sente-se como um arrepio mas no final se no apertar demais  bom, 
e era o que eu precisava pois minha boca estava mesmo empastada. 

Agora, disse comigo mesmo,  enxaguar. Derramei um pouco d'gua da 
torneira num copo e passei na boca, alegremente surpreso com o barulho que 
fazia, melhor ainda jogando-se a cabea para trs e fazendo... borbulhar? O 
gargarejo  bom. Inchei as bochechas e depois tudo para fora. Cuspi tudo. 
Sfrussc... catarata. Com os lbios pode-se fazer de tudo, so mobilssimos. 
Virei-me, l estava Gratarolo me observando como se fosse um fenmeno 
de circo-, e perguntei se estava tudo certo. 

Perfeito, disse ele. Meus automatismos, explicou, esto corretos. 

"Parece que temos aqui uma pessoa quase normal", observei, "salvo que 
talvez no seja eu." 

"Muito espirituoso, e isso tambm  um bom sinal. Deite-se, assim, eu 
ajudo. Diga-me: o que o senhor acabou de fazer?" 

"Escovei os dentes, foi o senhor quem pediu." 

"Certo, e antes de escovai os dentes?" 

"Estava aqui nessa cama e o senhor estava falando comigo. Disse-me que 
estamos em abril, 1991." 

"Correto. A memria a curto prazo funciona. Me diga, lembra por acaso da 
marca do dentifrcio?" 

"No. Deveria?" 

"No, claro que no. O senhor certamente viu a marca ao pegar 



0 tubo, mas se tivssemos que registrar e conservar todos os estmulos 
que recebemos, nossa memria seria uma barafunda. Por isso escolhemos, 
filtramos. O senhor fez o que todos fazem. Mas tente recordar a coisa mais 
significativa que lhe aconteceu enquanto escovava os dentes." 

"Quando passei a escova na lngua." "Por 
qu?" 

"Porque estava com a boca empastada e depois me senti bem melhor." 

"Viu? Filtrou o elemento mais diretamente associado s suas emoes, a 
seus desejos, a seus objetivos. O senhor tem emoes de novo." 

"Bela emoo escovar a lngua. Mas no me lembro de t-la escovado 
antes." 

 

"Chegaremos l. Veja, senhor Bodoni, vou tentar lhe explicar sem palavras 
difceis, mas o acidente certamente atingiu algumas zonas de seu crebro. No 
momento, embora todo dia saia um novo estudo, ainda no sabemos tudo o 
que gostaramos de saber sobre as localizaes cerebrais. Sobretudo no que diz 
respeito s vrias formas de memria. Ousaria dizer que se isso que lhe 
aconteceu acontecesse daqui a dez anos, saberamos melhor como lidar com 
sua situao. No me interrompa, eu j entendi, se tivesse acontecido cem 
anos atrs o senhor j estaria num manicmio, e fim da histria. Hoje sabemos 
bem mais, porm no o bastante. Por exemplo, se o senhor no conseguisse 
falar eu logo saberia qual a rea atingida..." 

"A rea de Broca." 

"Muito bem. Mas a rea de Broca tem mais de cem anos. No entanto o 
lugar onde o crebro conserva as lembranas ainda  matria de discusso, 
certamente as coisas no dependem de uma nica rea. No quero entedi-lo 
com termos cientficos, que alm de tudo s aumentariam a confuso em sua 
cabea - sabe quando o dentista faz alguma coisa em um dente e continuamos 
a toc-lo com a lngua por alguns dias?; se eu lhe dissesse, sei l, que no estou 
to preocupado com o seu hipocampo quanto com os lobos frontais e talvez 
com a crtex rbito-frontal direita, o senhor tentaria se tocar bem ali, e no  
como explorar a boca com a lngua. Frustraes at no acabar mais. Portanto 
esquea o que acabei de lhe dizer. Ademais cada crebro  diferente dos 
outros, e nosso crebro tem uma extraordinria plasticidade, pode acontecer 
que depois de algum tempo o senhor seja capaz de passar para uma ourra rea 
o que a rea atingida no consegue mais fazer. Est me acompanhando, estou 
sendo bastante claro?" 



"Clarssimo, prossiga. Mas no  mais rpido dizer que sou o 
desmemoriado de Collegno?" 

"Est vendo como se lembra do desmemoriado de Collegno, um caso 
clssico?  somente de si, que no  clssico, que o senhor no lembra." 

"Preferia ter esquecido o desmemoriado de Collegno e lembrado onde foi 
que nasci," 

 

"Seria um caso mais raro. Veja, o senhor logo identificou o tubinho do 
dentifrcio, mas no se lembra de que  casado - e de fato lembrar o dia do 
prprio matrimnio e identificar a pasta de dente dependem de duas redes 
cerebrais diversas. Temos diversos tipos de memria. Uma se chama implcita 
e nos permite executar sem esforo uma srie de coisas que aprendemos, 
como escovar os dentes, ligar o rdio e dar um n na gravata. Depois da 
experincia dos dentes estou pronto para apostar que o senhor sabe escrever, 
talvez at dirigir. Quando a memria implcita nos ajuda, no temos nem 
conscincia de que recordamos, agimos automaticamente. Depois tem a 
memria explcita, com a qual recordamos e sabemos que estamos 
recordando. Mas essa memria explcita  dupla. Uma  aquela que a 
tendncia agora  chamar de memria semntica, uma memria coletiva, 
aquela atravs da qual se sabe que uma andorinha  um pssaro e que os 
pssaros voam e tm penas, e que Napoleo morreu quando... quando o 
senhor faiou. E esta me parece que a do senhor est em ordem, por Deus!, 
talvez at demais, pois basta que lhe d um input e j comea a conectar 
lembranas que eu definiria como escolsticas, ou a usar frases feitas. Mas essa 
 a primeira que se forma, mesmo na criana; a criana aprende rapidamente a 
reconhecer uma mquina, ou um co, e a formar esquemas gerais, portanto se 
viu um pastor alemo uma vez e lhe dissetam que  um cachorro, ela dir 
cachorro mesmo quando vir um labrador. Mas por outro lado, a criana leva 
mais tempo para elaborar o segundo tipo de memria explcita, que chamamos 
de episdica ou autobiogrfica. No  capaz, por exemplo, de recordar de 
imediato vendo um cachorro, de que no ms anterior esteve no jardim da av 
e viu um co e que foi ela prpria quem viveu as duas experincias.  a 
memria episdica que estabelece um nexo entre o que somos hoje e o que 
fomos, seno, quando dissssemos eu, estaramos nos referindo apenas quilo 
que sentimos agora, no ao que sentamos antes, que se perderia justamente 
na nvoa. O senhor no perdeu a memria semntica mas a episdica, quer 
dizer, os episdios de sua vida. Em suma, diria que sabe tudo que os outros 
sabem, e imagino que se lhe perguntasse qual  a capital do Japo..." 

 

 





"Tquio. Bomba atmica em Hiroshima. O general MacAr-tbur..." 

"Chega, chega.  como se recordasse tudo aquilo que se aprende por ter 
lido em algum lugar ou ouvido dizer, mas no o que est associado s suas 
experincias diretas. Sabe que Napoleo foi derrotado em Waterloo, mas tente 
me dizer o que lembra de sua me." 

"Me s tem uma, me  me... Mas de minha me no lembro. 
Imagino que tive uma me porque sei que  uma lei da espcie, mas... a est... 
a nvoa. Estou mal, doutor.  horrvel. Preciso de alguma coisa para dormir 
de novo." 

"Vou lhe dar, j exigi demais do senhor. Deite-se bem, assim, assim... 
Repito, acontece, mas tem cura.  preciso muita pacincia. Mandarei que lhe 
tragam alguma coisa para beber, um ch por exemplo. Gosta de ch?" 

"Talvezsim talvez no." 

 

Trouxeram-me o ch. A enfermeira fez-me sentar apoiado nos travesseiros 
e botou um carrinho na minha frente. Jogou gua fumegante numa xcara 
com um envelopinho dentro. Devagar que queima, disse. Devagar como? 
Cheirava a taa e sentia um cheiro, como dizer, de fumaa. Queria provar o 
sabor do ch, agarrei a xcara e engoli. Atroz. Um fogo, uma chama, uma 
bofetada na boca. Ento  isso o ch fervente. Deve ser assim tambm com o 
caf e a camomila de que tanto falam. Agora sei o que quer dizer queimar. 
Todos sabem que no se deve tocar o fogo, mas eu no sabia em que momento 
se pode tocar em gua quente. Tenho que aprender a entender o limite, o 
momento no qual antes no pode e depois pode. Mecanicamente soprei o 
lquido, depois mexi com a colherinha, at decidir que j podia tentar outra 
vez. Agora o ch estava morno e bom de beber. No estava certo de qual era o 
gosto do ch, qual o do acar, um deveria ser spero e o outro doce, mas 
qual  o doce e qual o spero? Juntos porm me agradavam. Beberei sempre 
ch com acar. Mas no fervente, 

O ch me deu uma sensao de paz e relaxamento e peguei no sono. 

Acordei de novo. Talvez porque no sono eu estava coando a virilha e o 
escroto. Debaixo das cobertas suei. Chagas de decbito? Avitilha  mida, 
mas passando-se a mo nela de modo demasiado enrgico, depois de uma 
primeira sensao de prazer violento, sente-se uma frico desagradvel. Com 
o escroto  melhor: pas-sando-o por entre os dedos, delicadamente devo dizer, 
sem chegar a apertar os testculos, sente-se algo de granuloso e levemente 
peludo:  bom coar o escroto, no  que a coceira suma logo, torna-se alis 
mais forte, mas d mais gosto de continuar. O prazer  a cessao da dor, 
mas a coceira no  uma dor,  um convite a se dar prazer. A comicho da 
carne. Transigindo-se com isso comete-se pecado. O jovem prevenido dorme 



supino com as mos cruzadas no peito para no cometer atos impuros no sono. 
Coisa estranha, o prurido. E os meus colhes. Voc  um escroto. Aquele 
sim tem os colhes roxos. 

Abri os olhos. Na minha frente h uma senhora, no muito jovem, mais de 
cinqenta, me parece, com pequenas rugas em torno dos olhos, mas com um 
rosto luminoso, ainda fresco. Algumas mechas brancas, quase imperceptveis, 
quase como se ela as tivesse clareado de propsito, uma coqueteria, como 
quem dissesse no quero passar por uma mocinha mas porto bem a minha 
idade. Era bonita, mas quando jovem deve ter sido belssima. Acarinhava 
minha testa. 

"Yambo", disse-me. 

"lambo quem, senhora?" 

"Voc  Yambo,  assim que todos o chamam, E eu sou Paola. Sou sua 
mulher. Me reconhece?" 

"No senhora, desculpe, no Paola, sinto muito, o doutot deve ter lhe 
explicado." 

"Explicou, No sabe mais o que aconteceu com voc, mas ainda sabe muito 
bem o que aconteceu com os outros. Como eu fao parte de sua histria 
pessoal, no sabe mais que somos casados h mais de trinta anos, Yambo, 
querido. E temos duas filhas, Carla e Nicoletta, e trs maravilhosos netos. 
Carla casou cedo e teve dois filhos, Alessandro de cinco anos e Luca de trs, 
Giangio, Giangiacomo, o filho de Nicoletta, tambm tem trs. Primos gmeos, 
voc costumava dizer. E voc foi... ... ser ainda um av maravilhoso. E foi 
tambm um bom pai." 

"E... sou um bom marido?" 

Paola ergueu os olhos para o cu: "Ainda estamos aqui, no? Digamos que 
em trinta anos de vida h altos e baixos. Voc sempre foi considerado 
bonito..." 

"Esta manh, ontem, faz dez anos, vi uma cara horrenda no espelho." 

"Com tudo o que lhe aconteceu,  o mnimo. Mas voc foi, ainda  um 
homem bonito, tem um sorriso irresistvel e algumas no resistiram. Nem 
voc, que dizia sempre que se pode resistir a tudo menos s tentaes." 

"Peo desculpas." 

"Veja s, como os que lanavam msseis inteligentes sobre Bagd e depois 
se desculpavam quando morriam alguns civis." 

"Msseis em Bagd? No est nas MU e urna noites." 

"Houve uma guerra, a Guerra do Golfo, agora j acabou, ou no, talvez. O 
Iraque invadiu o Kuwait, os estados ocidentais intervieram. No lembra de 
nada?" 



"O mdico disse que a memria episdica - que parece que entrou em 
tilt -  ligada s emoes. Talvez os msseis sobre Bagd tenham sido uma 
coisa que me emocionou." 

"E como! Voc sempre foi um pacifista convicto e essa guerra o deixou em 
crise. Quase duzentos anos atrs, Maine de Biran distinguia trs tipos de 
memria, idias, sensaes e hbitos. Voc lembra de idias e hbitos, mas no 
de sensaes, que no entanto so as coisas mais suas." 

"Como  que sabe de todas essas coisas?" 

"Sou psicloga de profisso. Mas espere um momento: voc acabou de 
dizer que a sua memria episdica deu tilt. Por que usou essa expresso?" 

" assim que se diz." 

"Sim, mas  uma coisa que acontece no fliperama e voc ... era louco por 
flper, como uma criana." 

"Sei o que  um fliperama. Mas no sei quem sou eu, entende? A nvoa 
cobre o vale Padano. A propsito, onde estamos?" 

"No vale Padano. Vivemos em Milo. Nos meses de inverno, da nossa casa 
se v a nvoa no parque. Voc vive em Milo,  um livreiro e tem um 
antiqurio de livros." 

"A maldio do fara. Se sou Bodoni e me batizaram Giambattista s podia 
acabar assim." 

"Acabou da forma certa. Voc  muito bem considerado em seu trabalho, 
no somos milionrios mas vivemos bem. Vou ajud-lo, pouco a pouco voc 
vai conseguir se recuperar. Deus meu, quando eu penso, poderia nem ter 
acordado; os mdicos foram timos, pegaram voc a tempo. Meu amor, posso 
lhe dar as boas-vindas? Parece que  a primeira vez que voc me v. Pois bem, 
se eu o estivesse encontrando agora, pela primeira vez, casaria da mesma ma-
neira. Est bem?" 

"Voc  um amor. Preciso de voc.  a nica que pode me contar dos meus 
ltimos trinta anos." 

"Trinta e cinco. Nos conhecemos na universidade, em Turim, voc estava 
para se formar e eu era a caloura perdida nos corredores do Palcio Campana. 
Perguntei onde era uma certa sala, voc logo ficou de olho e seduziu a colegial 
indefesa. Depois, entre uma coisa e outra, eu era jovem demais e voc passou 
trs anos no exterior. Em seguida fomos morar juntos dizendo que era uma 
experincia, mas no final fiquei grvida e nos casamos, afinal voc era um 
cavalheiro. No, desculpe, tambm porque nos amvamos, de verdade, e voc 
gostava da idia de ser pai. Coragem, papai, vou faz-lo lembrar de tudo, vai 
ver." 

"A no ser que seja tudo um compl, que eu me chame Felicino 
Grimaldelli e seja arrombador, que voc e Gratarolo estejam me contando um 



monte de mentiras, sei l, talvez porque sejam do servio secreto e precisem 
construir uma nova identidade para me mandar espionar alm do Muro de 
Berlim, Ipcress Files, e..." 

"No existe mais Muro de Berlim, foi posto abaixo e o imprio sovitico 
est indo pelo ralo..." 

"Jesus, voc vira a cabea um momentinho e olha o que aprontam. Est 
bem, eu estava brincando, confio em voc. O que so os stracchini de 
Broglio?" 

"O qu? O stracchino  um queijo pastoso, mas esse  o nome que do no 
Piemonte, aqui em Milo se chama crescenza. O que h com os stracchini?" 

"Foi quando eu estava apertando o tubo de pasta de dente. Espere. Havia 
um pintor chamado Broglio, que no conseguia se manter com seus quadros 
mas no queria trabalhar argumentando que tinha uma neurose. Parece que 
era uma desculpa para ser sustentado pela irm. Finalmente os amigos lhe 
arranjaram um emprego numa empresa que fazia ou vendia queijos. Ele 
passava diante de uma grande pilha de stracchini, todos embrulhadinhos em 
papel-mantei-ga, e no resistia  tentao, por causa da neurose (dizia ele): 
pegava um por um e chac, esmagava fazendo o stracchino espirrar fora do 
embrulho. Depois de ter estragado uma centena de stracchini, foi despedido. 
Tudo por culpa da neurose, dizia que para ele sgnach i strachn* era um 
gozo irresistvel. Por Deus, Paola, essa  uma lembrana de infncia! Eu no 
perdi a memria de minhas experincias passadas?" 

Paola ps-se a rir. "Agora me lembro, desculpe. Claro, era uma histria 
que aprendeu quando era pequeno. Mas que contava sempre, era como se diz 
uma pea do seu repertrio, voc divertia seus comensais com a histria dos 
stracchini do pintor e eles a passavam adiante. No entanto infelizmente voc 
no est recordando uma experincia sua, simplesmente sabe uma histria que 
recitou muitas vezes e que para voc virou (como dizer?) um bem pblico, 
como a histria de Chapeuzinho Vermelho." 

"Voc est se tornando indispensvel para mim. Estou contente de que 
seja minha mulher. Agradeo-lhe por existir, Paola." 

"Deus meu, um ms atrs voc diria que isso  uma expresso kitsch de 
telenovela..." 

"Desculpe. No consigo dizer nada que me venha do corao. No tenho 
sentimentos, s ditos memorveis." "Pobre querido." 

"Bem, essa tambm  uma frase feita." Cretino. 

Essa Paola gosta mesmo de mim. 
* No dialeto milans, esmagar os stracchini. (N. da 77) 





Passei uma noite tranqila, sabe-se l o que Gratarolo me ps na veia. 
Despertei aos poucos, e acho que ainda estava de olhos fechados porque ouvi a 
voz de Paola que sussurrava, temendo me acordar: "Mas no poderia ser uma 
amnsia psicognica?" 

"No se pode excluir", respondia Gratarolo, "na origem desses incidentes 
sempre pode haver tenses impondetveis. Mas a senhora viu as fichas 
clnicas, as leses existem." 

Abri os olhos e disse bom-dia. Havia tambm duas mulheres e trs 
crianas, nunca vistas antes, mas podia imaginar quem eram. Foi terrvel, 
porque com a esposa, pacincia, mas as filhas, Deus meu, so sangue do seu 
sangue e os netos mais ainda, e os olhos daquelas duas brilhavam de 
felicidade, as crianas queriam subir na cama, pegavam minha mo e me 
diziam oi, vov, e eu nada. No era nem nvoa; era, como direi, apatia. Ou se 
diz ataraxia? Era como olhar animais no zoolgico, podiam ser macaquinhos 
ou girafas. Claro que eu sorria e dizia palavras gentis, mas por dentro estava 
vazio. Ocorreu-me a palavra sgurato, mas no sabia o que queria dizer. 
Perguntei a Paola:  um termo piemonts que designa aquela panela que voc 
lava bem e depois esfrega por dentro com aquela espcie de palha de ao para 
deix-la como nova, brilhante e limpa como nunca. Pois eu me sentia 
completamente sgurato. Gratarolo, Paola, as meninas estavam me enfiando 
na cabea mil detalhes da minha vida, mas era como se fossem caroos de 
feijo, mexendo a panela eles deslizavam l por dentro mas continuavam crus, 
no se diluam em nenhum caldo, em nenhum creme, nada que fizesse o gosto 
palpitar, nada que eu quisesse experimentar de novo. Aprendia coisas 
acontecidas comigo como se tivessem acontecido com outra pessoa. 

Acariciava as crianas e sentia seu cheiro sem conseguir defini-lo, exceto 
que era muito suave. Vinha-me  mente que h perfumes frescos como 
carnes de beb. E de fato minha cabea no estava vazia, nela volteavam 
memrias no minhas, a marquesa saiu s cinco no meio do caminho desta 
vida, Ernesto Sbato e a donzelinha vm dos campos, Abrao gerou Isaque 
Isaque gerou Jac Jac gerou Judas e Rocco e seus irmos, o campanrio bate a 
meia-noite santa e foi ento que vi o pndulo, no ramo do lago de Como 
dormem dois pssaros de longas asas, messieurs les anglaisje mesuis 
couch de bonne heure, aqui ou se faz a Itlia ou se mata um homem 
morto, tu quo-que lea, soldado que escapa pra s belo, irmos italianos 
ainda um esforo, o arado que traa o sulco  bom para outra volta, a Itlia 
est batida mas no se rende, combateremos  sombra ed e sbito sera, trs 
mulheres em torno ao corao e sem vento, a inconsciente azagaia brbara  
qual estendias a pequenina mo, no pedir a palavra enlouquecida de luz, dos 
Alpes s Pirmides fez a guerra e usou o elmo, frescas as minhas palavras na 

tarde para aqueles quatro poemetos das dzias, sempre libera sobre asas 
douradas, adeus montes nascidos das guas, mas meu nome  Lcia, ou 
Valentino Valentino tordilho, Guido eu gostaria que no cu descolorissem, 
conheci o tremular as armas os amores, de la musique o marchent des 
colombes, fresca e clara  a noite e o capito, ilumino-me pio boi, embora o 
falar seja intil, eu os vi em Pontida, em setembro iremos onde florescem os 
limes, aqui comea a aventura do Peleio Aquiles, tomo banho de lua diga-me 
o que fazes, no princpio a terra estava como imvel, Licht mehr Licht ber 
alies, condessa o que  ento a vida? trs corujas no guarda-p. Nomes, 
nomes, nomes, Angelo DairOca Bianca, Lord Brummell, Pndaro, Flaubert, 
Disraeli, Remigio Zena, Jurssico, Fattori, Straparola e as noites agradveis, a 
Pompadour, Smith & Wesson, Rosa Luxemburgo, Zeno Cosini, Palma o 
Velho, Arqueoptrix, Ciceruacchio, Mateus Marcos Lucas Joo, Pinquio, 
Justine, Maria Goretti, Taide puta das unhas merdosas, Osteoporose, Saint 
Honor, Baeta Ecbatana Perspolis Susa Arbela, Alexandre e o n grdio. 

A enciclopdia me caa em cima em folhas destacadas, e me vinha de 
abanar as mos como se estivesse no meio de um enxame de abelhas. 
Entretanto as crianas diziam vov, sabia que deveria am-las mais que a mim 
mesmo e no sabia quem chamar de Giangio, quem de Alessandro e quem de 
Luca. Sabia tudo de Alexandre, o grande, e nada de Alessandro, o meu 
pequenino. 

Disse que me sentia fraco e precisava dormir. Saram, eu chorava. As 
lgrimas so salgadas. Donde, eu ainda tinha sentimentos. Sim, mas 
fresquinhos da hora. Aqueles de antes j no eram mais meus. Quem sabe, 
perguntava-me, se alguma vez fui religioso: certamente, de qualquer jeito, 
perdera a alma. 

 

Na manh seguinte, Paola tambm estava, Gratarolo me fez sentar numa 
mesinha e mostrou uma srie de quadradinhos coloridos, muitssimos. 
Estendia-me um e perguntava de que cor era. Dim, dim dim, sapatinho 
rosa, dim, dim, dim, de que cor que ? Cor so-nequim, cor de carmim, 
salta fora  garibaldiml Reconheci com segurana as seis primeiras cores, 
vermelho, amarelo, verde e assim por diante. Disse naturalmente que A noir, 
E blanc, I rouge, U vert, O bleu, voyelles, je ditais quelque jour vos 
naissances latentes, mas percebi que o poeta, ou quem falava em seu nome, 
mentia. O que quer dizer que A  preto? Alis, era como descobrir as cores 
pela primeira vez: o vermelho era muito alegre, vermelho fogo, mas 
tambm muito forte - no, talvez o amarelo fosse mais forte, como uma luz 
que se acendesse de repente diante de meus olhos. E o verde me dava uma 
sensao de paz. O problema chegou com os outros quadradinhos. O que  
isso? Verde, dizia eu, mas Gratarolo insistia, que tipo de verde, em que sentido 

 diferente desse outro? Hum. Paola me explicava que um era verde-malva e 
outro verde-ervilha. A malva  uma erva, respondia eu, e as ervilhas verduras 
que se comem, redondas dentto de uma vagem longa e inchada, mas nunca 
vira nem malva nem ervilhas. No se preocupe, dizia Gratarolo, em ingls h 
mais de trinta mil termos para cores, mas em geral as pessoas sabem nomear 
no mximo oito, em mdia teconhecemos as cores do arco-ris, vermelho, 
laranja, amarelo, verde, azul, ndigo e roxo, mas j entre o ndigo e o roxo as 
pessoas no sabem distinguir bem.  preciso muita experincia para saber 
discriminar e nomear as cores, e um pintor sabe fazer isso melhor que, sei l, 
um taxista, que s precisa reconhecer as cores de um sinal de trnsito. 

Gratarolo me deu papel e caneta. Escreva, disse. "E que diabos devo 
escrever?", escrevi, e parecia que nunca fizera outra coisa, a caneta era macia e 
deslizava bem sobre o papel. "Escreva o que lhe vier  mente", disse Gratarolo. 

Mente? Escrevi: amor que na mente raciocina, o amor que move o sol e 
outras estrelas, antes s que mal acompanhado, muitas vezes o mal de viver 
encontrei, ai vida ai vida minha ai corao desse corao, no corao no se 
manda, De Amicis, dos amigos Deus me guarde, oh Deus do cu se eu fosse 
uma andorinha, se eu fosse fogo queimaria o mundo, viver ardendo e no 
sentir o mal, mal no fazer medo no ter, o medo faz noventa oitenta setenta 
mil oitocentos e sessenta, a expedio dos Mil, mil e no mais mil, as 
maravilhas do ano dois mil,  do poeta o fim a maravilha. 

"Escreva alguma coisa de sua vida", disse Paola. "O que fazia aos vinte 
anos?" Escrevi: "Tinha vinte anos. No permitirei que ningum diga que 
essa  a mais bela idade da vida." O doutor me perguntou qual a primeira 
coisa que me veio  mente quando acordei. Escrevi: "Quando Gregor Samsa 
despertou certa manh encontrou-se em seu leito transformado num 
imenso inseto." 

"Acho que j chega, doutor", disse Paola. "No o deixe seguir demais com 
essas cadeias associativas, seno acaba ficando doido." 

"Sim, e agora lhes pareo bem por acaso?" 

Quase num repente Gratarolo ordenou: "E agora assine, sem pensar, como 
se fosse um cheque." 

Sem pensar, tracei um "GBBodoni", com o esvoaar final e depois um 
pontinho redondo sobre o i. 

"Viu? Sua cabea no sabe quem , mas sua mo sim. Era previsvel. 
Vamos fazer uma outra prova. O senhor me falou de Napoleo. Como era?" 

"No consigo evocar a sua imagem. Basta a palavra." 

Gratarolo perguntou a Paola se eu sabia desenhar. Parece que, sem ser um 
artista, eu me viro bastante bem rabiscando. Pediu-me que desenhasse 
Napoleo. Fiz algo do gnero. 

"Nada mal", comentou Gratatolo, "desenhou o seu esquema mental de 
Napoleo, o tricorne, a mo no colete. Agora vou mostrar uma srie de 
imagens. Primeira srie, obras de arte." 

Reagi bem: a Gioconda, a Olmpia de Manet, isso  um Picasso ou algum 
que o imita bem. 

"Viu como conseguiu reconhec-los? Agora vamos para os personagens 
contemporneos." 

Segunda srie de fotografias, e aqui tambm, salvo alguns rostos que no 
me diziam nada, respondi de modo satisfatrio: Greta Garbo, Einstein, Tot, 
Kennedy, Moravia, etc, e qual era a profisso deles. Gratarolo me perguntou o 
que tinham em comum. Serem famosos? No, no basta, tem outra coisa. Eu 
hesitava. 

" que todos j morreram", disse Gratarolo. 

"Como, at Kennedy e Moravia?" 

"Moravia morreu no final do ano passado, Kennedy foi assassinado em Dallas, 
em 1963." "Coitados, sinto muito." 

"No se lembrar de Moravia  quase normal, morreu faz pouco, v-se que 
no teve tempo pata consolidar o acontecimento em sua memria semntica. 
Mas no entendo Kennedy, que  uma histria velha, de enciclopdia." 

"Ele ficou muito tocado com o caso Kennedy", disse Paola. "Talvez tenha 
se misturado com suas memrias pessoais." 

Gratarolo veio com outras fotografias. Numa havia duas pessoas, e a 
primeira era eu, com certeza, penteado e vestido como cristo, com o sorriso 
irresistvel que Paola mencionara. Na outra tambm havia uma cara 
simptica, mas no sabia quem era. 

"E Gianni Laivelli, seu melhor amigo", disse Paola. "Companheiros de 
escola desde o primrio at o liceu." 

"Quem so esses?", perguntou Gratarolo mostrando outra imagem. Era 
uma foto velha, ela com um penteado anos trinta, uma roupa branca 
pudicamente decotada, o nariz batatinha, mas bem miudinho, e ele com um 
repartido perfeito, talvez um pouco de brilhantina, um nariz pronunciado, um 
sorriso muito aberto. No os reconheci (artistas? No, pouco glamour e pouca 
encenao, re-cm-casados talvez), mas senti como um aperto na boca do 
estmago e - no sei como dizer - um gentil delquio. 

Paola se deu conta: "Yambo, so seu pai e sua me no dia de seu 
casamento." 

"Ainda esto vivos?", petguntei. 

"No, morreram j faz tempo. Em um acidente de carro." 

"O senhor perturbou-se quando viu a foto", disse Gratarolo. "Certas 
imagens despertam alguma coisa a dentro. Trata-se de um caminho." 

"Mas que caminho, se no consigo nem repescar meu pai e minha me 
desse buraco negro do diabo", gritei. "Vocs disseram que aqueles dois eram 
minha me e meu pai, agora j sei, mas  uma recordao que vocs me 
deram. De agora em diante vou lembrar dessa foto, deles no." 

"Quem sabe quantas vezes, nesses ltimos trinta anos, o senhor tambm se 
lembrou deles porque continuava a olhar essa foto. No pense na memria 
como um armazm onde deposita as recordaes e depois vai pesc-las 
exatamente como se fixaram na ltima vez", disse Gratarolo. "No quero ser 
tcnico demais, mas a lembrana  a construo de um novo perfil de 
excitao neuronal. Digamos que em um certo lugar tenha lhe acontecido 
uma experincia desagradvel. Mais tarde, quando o senhor se lembrar desse 
lugar, reativa aquele padro anterior de excitao neuronal, com um perfil de 
excitao semelhante mas no igual quele que foi estimulado originalmente. 
Portanto ao recordar sentir uma sensao desagradvel. Em suma, recordar  
reconstruir, com base tambm no que soubemos ou dissemos tempos depois. 
 normal,  assim que lembramos. Estou lhe dizendo isso para encoraj-lo a 
reativar perfis de excitao, no se meter toda vez a escavar como um possesso 
para encontrar alguma coisa que j esteja l, fresca como o senhor pensa t-la 
guardado da primeira vez. A imagem de seus pais nessa foto  aquela que ns 
lhe mostramos e que vemos. O senhor precisa partir dessa imagem para 
recompor algo mais, e s isso ser a sua lembrana. Recordar  um trabalho, 
no um luxo." 

"As lgubres e duradouras lembranas", recitei, "esse resto de 
morte que deixamos viver..? 

"Recordar  bom tambm", disse Gratarolo. "Algum disse que a 
recordao age como uma lente convergente numa cmara escura: concentra 
tudo e a imagem que resulta  muito mais bela que o originai." 

"Tenho vontade de fumar", disse eu. 

"Sinal de que o seu organismo est retomando um andamento normal. 
Mas se no fumar  melhor. E quando voltar para casa, lcool com moderao, 
no mais de um copo  refeio. O senhor tem problemas de presso. Do 
contrrio no poderei deix-lo sair amanh." 

"Vai deix-lo sair?", perguntou Paola ligeiramente assustada. 

" o momento de acertar as contas, senhora. Do ponto de vista fsico seu 
marido mostra bastante autonomia. No  que vai cair das escadas porque 
deixei que voltasse. Mantendo-o aqui acabaremos por esgot-lo com uma 
montanha de testes, sempte experincias artificiais, que agora j sabemos que 
resultado tero. Creio que vai lhe fazer bem voltar ao seu ambiente. As vezes 
ajuda mais sentir de novo o sabor de um alimento familiar, um cheiro, que sei 
eu? Sobre essas coisas a literatura nos ensinou mais que a neurologia..." 

No  que quisesse me fazer de sabicho, mas afinal, se s me restava 
aquela maldita memria semntica, que pelo menos a usasse: "A madeleine de 
Proust", disse. "O sabor da infuso de tlia e do bolinho o faz estremecer, sente 
uma alegria violenta. E reaflora a imagem dos domingos em Combray com a 
tia Lonie... Parece que h uma memria involuntria dos membros, as 
pernas e os braos esto cheios de recordaes entorpecidas... E quem 
era aquele outro? Nada obriga as lembranas a se manifestarem como os 
cheiros e a chamar 

"Sabe do que estou falando. At os cientistas s vezes acreditam mais nos 
escritores que em suas mquinas. A senhora  quase do ramo, no  
neurologista mas  psicloga. Posso lhe dar alguns poucos livros, descries de 
alguns casos clebres, e logo entender quais so os problemas de seu marido. 
Creio que estar junto da senhora e de suas filhas e voltar ao trabalho vai 
ajud-lo mais do que ficar aqui. E suficiente que ele venha me ver uma vez 
por semana para acompanharmos sua evoluo. Volte para casa, senhor 
Bodoni. Olhe ao redor, toque, cheire, leia os jornais, veja televiso, v em 
busca de imagens." 

"Tentarei, mas no lembro de imagens, nem de cheiros nem de sabores. S 
palavras." 

"Quem disse? Faa um dirio com suas reaes. Trabalharemos com ele." 

 

Comecei a escrever um dirio. 

 

No dia seguinte fiz as malas. Desci com Paola. Pelo visto, o hospital tinha 
ar condicionado, pois logo entendi, e s ento, o que  o calor do sol. A 
tepidez de um sol primaveril, ainda verde. E a luz: tive que apertar os olhos. 
No se pode fixar o sol: Soleil, soleil, faute clatante... 

Ao chegar ao carro (nunca dantes visto) Paola me disse para experimentar. 
"Entre, engrene, depois ligue. Sempre engrenado, acelere." Como se nunca 


tivesse feito outra coisa, soube instantaneamente onde colocar mos e ps. 
Paola sentou-se a meu lado dizendo que eu engatasse a primeira, tirasse o p 
do pedal e apertasse de leve o acelerador, o bastante para me mover um metro 
ou dois e depois frear e desligar. Assim, se eu errasse, no mximo acabava em 
cima de uma moita do jardim. Mas foi tudo bem. Estava orgulhoso. Como 
desafio andei um metro em marcha a r. Depois desci, passei a direo para 
Paola e partimos. 

"O que est achando do mundo?", perguntou-me Paola. 

"Sei l. Dizem que os gatos, quando caem da janela e batem o nariz, no 
sentem mais os cheiros e, como vivem do olfato, no conseguem mais 
reconhecer as coisas. Eu sou um gato que bateu com o nariz. Vejo coisas, 
entendo com certeza do que se trata, l embaixo as lojas, aqui uma bicicleta 
que passa, l as rvores, mas no... no os sinto em meu corpo,  como se 
tentasse enfiar o palet de um outro." 

"Um gato que tenta enfiar um palet com o nariz. Voc ainda est com as 
metforas desreguladas. Preciso contar a Gratarolo, mas vai passar." 

O carro prosseguia, eu olhava ao redor, descobria cores e formas de uma 
cidade desconhecida. 





2.0 CICIO QUE FAZ A FOLHA.. 

 
"Aonde vamos agora, Paola?" 
"Para casa, nossa casa." "E depois?" 

"E depois entramos, e voc se pe  vontade." "E depois?" 

"E depois toma uma bela chuveirada, e faz a barba, e se veste de-
centemente, e depois comemos, e depois... o que gostaria de fazer?" 

" justamente isso que no sei. Lembro de tudo que aconteceu depois de 
acordar, sei tudo sobre Jlio Csar, mas no consigo pensar no que vai me 
acontecer depois. At hoje de manh no me preocupava com o depois, no 

mximo com o antes que no conseguia lembrar. Mas agora que estamos indo 
para... para alguma coisa, vejo nvoa tambm na minha frente, no s atrs. 
No, no  uma nvoa diante de mim,  como se estivesse com as pernas bam-
bas e no pudesse caminhar.  como pular." 

"Pular?" 

"Sim, para pular  preciso dar um salto para a frente, mas para fazer isso  
preciso tomar distncia, e portanto dar uns passos para trs. Se no vai para 
trs no vai para a frente. A est, tenho a impresso de que para dizer o que 
farei preciso ter muitas idias sobre o que fazia antes.  para mudar algo que 
havia antes que nos dispomos a fazer alguma coisa. Se voc diz que devo fazer 
a barba, eu sei por qu, passo a mo no queixo, sinto que est cheio de plos e 
preciso tir-los. O mesmo se me diz que preciso comer, lembro que a ltima 
vez que comi foi ontem  noite, uma sopinha, presunto e pra cozida. Mas 
uma coisa  decidir fazer a barba ou comer, outra  dizer o que vou fazer 
depois, a longo prazo, quero dizer. No entendo o que quer dizer a longo 
prazo, pois me falta alguma coisa a longo prazo que existia antes. Deu para 
entender?" 

"Est dizendo que no vive mais no tempo. Ns somos o tempo em que 
vivemos. Voc gostava muito das pginas de Santo Agostinho sobre o tempo. 
Sempre disse que ele foi o homem mais inteligente entre quantos j viveram. 
Ele nos ensina muita coisa a ns psiclogos de hoje. Vivemos nos trs 
momentos, da espera, da ateno e da memria, e um no existe sem o outro. 
Voc no consegue se projetar para o futuro porque perdeu o seu passado. E 
saber o que Jlio Csar fez no ajuda a saber o que voc deve fazer." 

Paola viu que eu contraa os maxilares. Mudou de assunto: "Est 
reconhecendo Milo?" 

"Nunca dantes vista." Mas quando chegamos a um largo, eu disse: "Castelo 
Sforzesco. E depois tem o Duomo e o Cenculo e a Pinacoteca de Brera." 

"E em Veneza?" 

"Em Veneza tem o Grande Canal e a ponte de Rialto e So Marcos e as 
gndolas. Sei tudo o que est nos guias. Talvez nunca tenha ido a Veneza e em 
Milo vivo h trinta anos, mas para mim Milo  como Veneza. Ou como 
Viena: Kunsthistorisches Museum, o terceiro homem, Harry Lime na rota do 
Prater dizendo que os suos inventaram o relgio cuco. Mentia: o relgio 
cuco  bvaro." 

 

Entramos em casa. Um belo apartamento, com varandas para o parque. 
Realmente vi uma extenso de rvores. A natureza  bela como dizem. 
Mveis antigos, evidentemente sou uma pessoa abastada. No sei como me 
mover, onde  a sala de estar, onde a cozinha. Paola me apresenta a Anita, a 
petuana que nos ajuda em casa, a pobrezinha no sabe se deve fazer uma festa 

ou cumprimentar-me como uma visita, corre de um lado para o outro, mostra 
a porta do 
banheiro, continua a dizer: "Pobrecito el seor Yambo, ay Jesusmaria, olhe as 
toalhas limpas, senhor Yambo." 

Depois da agitao da partida do hospital, do primeiro contato com o sol, 
do trajeto, sentia-me suado. Quis cheirar minhas axilas: o cheiro do meu suor 
no me incomodou, no creio que fosse muito forte, fazia com que me sentisse 
um animal vivo. Trs dias antes de voltar a Paris, Napoleo mandava um 
recado a Josefina dizendo-lhe que no se lavasse. Ser que eu me lavava antes 
de fazer amor? No ousarei perguntar a Paola e quem sabe, talvez com ela sim 
e com outras no - ou vice-versa. Tomei uma bela chuveirada, ensaboei o 
rosto e barbeei-me lentamente, havia uma loo ps-barba de aroma leve e 
fresco, penteei-me. J tenho um ar mais civilizado. Paola levou-me at o 
guarda-roupa: evidentemente me agradam as calas de veludo, palets um 
pouco speros, gravatas de l de cores plidas (malva, ervilha, esmeralda? os 
nomes eu sei, mas ainda no sei aplic-los), camisas de xadrez. Parece que 
tambm tenho um terno escuro para casamentos e funerais. "Voc est bonito 
como antes", disse Paola, quando escolhi uma roupa informal. 

Passei por um longo corredor coberto de prateleiras cheias de livros. 
Olhava as lombadas, reconhecendo a maioria. Quero dizer, reconhecia ttulos, 
Os noivos, Orlando fitrioso, O apanhador no campo de centeio. Pela 
primeira vez tinha a impresso de estar num iugat onde me sentia  vontade. 
Retirei um volume, mas antes mesmo de olhar a capa, segurei-o pela lombada 
com a direita e com o polegar esquerdo fiz escorrerem as pginas rapidamente 
para trs. Gostava do barulho, repeti vrias vezes e perguntei a Paola se no 
devia ver um jogador de futebol chutando a bola. Paola riu, parece que havia 
uns livrinhos assim que circulavam na nossa infncia, uma espcie de cinema 
de pobre, o jogador mudava de posio a cada pgina, e folheando-as 
rapidamente ele se movia. Certifiquei-me de que todos o sabiam: queria deixar 
claro, no era uma lembrana, apenas uma noo. 

O livro era O pai Goriot de Balzac. Sem abri-lo, disse: "Pai Goriot 
sacrificava-se pelas filhas, uma delas se chamava Delfina, acho eu, entram em 
cena Vautrin, alias, Collin, e o ambicioso Rastignac, Paris  nossa. Eu lia 
muito?" 

"Voc  um leitor incansvel. Com uma memria de elefante. Sabe um monte 
de poesias de cor." Escrevia? 

"Nada seu. Sou um gnio estril, costumava dizer, nesse mundo ou se l ou 
se escreve, os escritores escrevem por desprezo pelos colegas, para ter, de vez 
em quando, alguma coisa de bom para 1er." 

"Tenho tantos livros. Desculpe, temos." 

"Aqui so cinco mil. E tem sempre o idiota de planto que entra e diz quantos 
livros o senhor tem, j leu todos?" "E o que respondo?" 

"Em geral: nenhum, de outra maneira por que os conservaria aqui? O 
senhor por acaso guarda latas de carne depois de esvazi-las? Os cinqenta mil 
que li, doei a prises e hospitais. E o idiota vacila." 

"Estou vendo muitos livros esttangeiros. Acho que conheo algumas 
lnguas." Os versos me vieram sem esforo: "Le brouillard indolent de 
l'automne est pars... Unreal City, I under the brown fog of a winter 
dawn, ! a crowd flowed over London Bridge, so many, 11 had not 
thought death had undone so many... Sptherbstnebel, kalte Trume, 
I berfloren Berg und Tal, ! Sturm entblttert schon die Bume, I und 
sie scbaun gespenstig kahl.. Pero el doctor no sabia", conclu, "que hoy 
es siempre todavia..." 

"Curioso, em quatro poesias, trs falam da nvoa." 

"Sabe, sinto-me numa nvoa. S que no consigo v-la. Sei como os outros 
a viram: Se ilumina numa curva um emero sol, um tufo de mimosas 
na brancura da nvoa." 

"Voc era fascinado pela nvoa. Dizia que nasceu dentro dela. E h anos 
quando topava com uma descrio da nvoa num livro anotava na margem. 
Depois, pouco a pouco ia fotocopiando as pginas no estdio. Acho que vai 
encontrar l o seu dossi nvoa. E depois  s esperar, ela vai voltar. Embora 
no seja mais como antigamente, Milo tem luz demais, muitas vitrinas 
iluminadas mesmo  noite, a nvoa se afasta deslizando pelas paredes." 

11A fulva neblina que roa na vidraa suas espduas, a fumaa 
amarela que n vidraa seu focinho esfrega, e cuja lngua resvala nas 
esquinas do crepsculo, pousou sobre as poas aninhadas na sarjeta, 
deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chamins, enrodilhou-se ao 
redor da casa e adormeceu? 

"Essa at eu sabia. Voc lamentava que as nvoas da sua infncia no 
existem mais." 

"Minha infncia. Tem algum lugar onde guardo os livros de quando era 
criana?" 

"No aqui. Devem estar em Solara, na casa de campo." 

 

Conheci ento a histria da casa de Solara, e de minha famlia. Nasci l, 
por engano, durante as frias de Natal de 1931. Como o Menino Jesus. Avs 
maternos mortos antes que eu nascesse, av paterna desaparecida quando eu 
tinha cinco anos. Sobrou o pai de meu pai, e ramos a nica coisa que lhe 
restava. Meu av era um estranho personagem. Na cidade onde nasci ele tinha 
uma loja, quase um armazm de livros velhos. No eram livros antigos e de 
valor, como os meus, mas apenas livros usados e muita coisa do sculo XIX. 
Alm disso, adorava viajar, e ia freqentemente ao exterior. Naquela poca 
viajar para o exterior significava ir a Lugano, no mximo, no mximo, a Paris 
ou Munique. E l recolhia coisas nas bancas, no somente livros mas tambm 
cartazes de cinema, figurinhas, cartes, velhas revistas. Naquela poca no 
existiam todos esses colecionadores de nostalgias, como hoje, dizia Paola, mas 
ele tinha alguns clientes aficionados, ou talvez colecionasse para seu prprio 
prazer. No ganhava muito, mas se divertia. E depois dos anos vinte, recebeu a 
casa de Solara como herana de um tio-av. Uma casa imensa, precisa ver, 
Yambo, s os stos j parecem as grutas de Postmia. E com muita terra ao 
redor, cultivada a meias, e assim seu av obtinha o suficiente para viver sem se 
preocupar em vender grandes quantidades de livros. 

Parece que passei ali todos os veres da minha infncia, e as frias de Natal 
e Pscoa, e muitos outros feriados, e dois anos inteiros, entre quarenta e trs e 
quarenta e cinco, quando comearam nas cidades os bombardeios. As coisas de 
meu av, meus livros escolares e meus brinquedos ainda deviam estar l. 

"No sei onde, porque era como se voc no quisesse mais v-los. Suas 
relaes com aquela casa sempre foram estranhas. Seu av morreu de desgosto 
quando seus pais morreram naquele acidente de carro, mais ou menos quando 
voc estava no liceu..." 

"O que faziam meu pai e minha me?" 

"Seu pai trabalhava numa empresa de importao, no final j era diretot. 
Sua me era dona de casa, como faziam as senhoras de bem. Seu pai 
conseguira finalmente comprar um carro, uma Lancia at, mas aconteceu o 
que aconteceu. Voc nunca foi muito explcito sobre essa histria. Estava para 
entrar na universidade, e voc e sua irm Ada perderam de uma hora para 
outra toda a famlia que tinham." 

"Tenho uma irm?" 

"Mais nova. Ficou na casa do irmo e da cunhada de sua me, tios que 
ficaram como tutores legais de vocs dois. Ada porm casou-se bem cedo, com 
dezoito anos, com um homem que a levou para viver na Austrlia. Vocs se 
vem pouco, ela vem  Itlia muito de vez em quando. Os tios venderam a 
casa de vocs na cidade, e quase toda a terra de Solara. Com o dinheiro 
puderam sustentar seus estudos, mas voc logo se tornou independente ao 

ganhar uma bolsa para a universidade, e foi viver em Turim. A partir da  
como se tivesse esquecido Solara. Eu mesma o obriguei, depois que Carla e 
Nicoletta nasceram, a ir para l no vero, tem ar puro para as meninas, mas 
suei sangue para reformar a ala em que ficvamos. E voc ia de m vontade. As 
meninas adoravam, foi a infncia delas, at hoje passam ali todo o tempo que 
podem, com as crianas. Voc s voltava por causa delas, ficava dois ou trs 
dias, mas no punha os ps naqueles que chamava de santurios, o seu quarto 
de antigamente, o dos avs e dos seus pais, os stos... Por outro lado, com 
todos os quartos que tem, daria para trs famlias viverem sem nunca se 
encontrarem. Voc fazia uns passeios pelas colinas mas depois 

 

tinha sempre alguma coisa urgente que o obrigava a voltar a Milo.  
compreensvel, a morte de seus pais como que dividiu sua vida em duas partes, 
antes e depois, e talvez a casa de Solara evocasse um mundo desaparecido para 
sempre, e voc fez um corte. Sempre tentei respeitar sua dificuldade, embora 
algumas vezes o cime tenha me levado a pensar que era uma desculpa, que 
voltava a Milo sozinho para outras histrias. Mas vamos adiante." 

"O sorriso irresistvel. Mas por que foi se casar logo com o homem que ri?" 

"Porque ria bem, e me fazia rir. Quando era pequena falava sempre de um 
colega de escola, e era Luigino pra c, Luigino pra l, todo dia voltava para 
casa contando o que Luigino aprontava. E minha me, percebendo que havia 
romance no ar, um dia perguntou por que gostava tanto de Luigino. E eu 
respondi: porque me faz rir." 

 

As experincias recuperam-se rapidamente. Experimentei o sabor de 
alguns alimentos - os do hospital tinham todos o mesmo gosto. A mostarda 
na carne cozida  muito picante, mas a carne  filamentosa e se enfia entre os 
dentes. Conhecer (reconhecer?) a ao do palito de dentes. Poder remexer os 
lobos frontais, tirar as escrias. Paola me fez provar dois vinhos e eu disse que 
o segundo era incomparavelmente melhor. Claro, disse ela, o primeiro  um 
vinho de mesa, serve no mximo para um assado, o segundo  um Brunello. 
Bem, disse eu, minha cabea pode estar desse jeito, mas o paladar funciona. 

Passei a tarde a testar as coisas, a experimentar a presso da mo sobre um 
clice de conhaque, a ver como sai o caf da cafeteira, a roar com a lngua 
duas qualidades de mel e trs tipos de gelia (prefiro damasco), a amarrotar as 
cortinas da sala de estar, a espremer um limo, a mergulhar as mos em um 



saquinho de semolina. Depois Paola me levou para um passeio rpido no 
parque, acariciei a cortia das rvores, senti o cicio que faz a folha (da 
amora?) nas mos de quem a colha. Passando por um florista no largo 
Cairoli, Paola mandou fazer um ramalhete que parecia um arlequim, que o 
florista dizia que no se deve fazer, e em casa tentei distinguir o perfume de 
flores e ervas diversas. E viu que tudo era muito bom, disse aliviado. Paola 
perguntou se me sentia um Deus, respondi que citava s por citt, mas que 
certamente me sentia um Ado a descobrir seu jardim do den. Mas um Ado 
que aprende rpido, parece, e de fato vi sobre uma mesa algumas garrafinhas e 
caixas de detergente e logo entendi que no devia provar da rvore do bem e 
do mal. 

Depois do jantar sentei-me na sala de estar. Tem uma cadeira de balano e 
instintivamente deixei-me cair sobre ela. "Fazia sempre isso", disse Paola, "e 
tomava a o seu whisky noturno. Creio que Gratarolo permitiria." Trouxe 
uma garrafa, Laphroaig, e serviu uma boa dose, sem gelo. Girei o lquido pela 
boca antes de engolir. "Delicioso, s que sabe um pouco a pettleo." Paola era 
uma aficionada. "Sabe que depois da guerra, e s ento, no comeo dos anos 
cinqenta, comeamos a beber whisky, ai meu Deus, talvez antes os hierarcas 
fascistas j bebessem, em Riccione, mas as pessoas normais no. E ns 
comeamos a beber whisky, por volta dos vinte anos, de vez em quando, 
porque custava caro, mas era como um rito de passagem. E nossos velhos nos 
olhavam perguntando como  que conseguamos beber aquela coisa com gosto 
de petrleo." 

"Bem, os sabores no me evocam nenhuma Combray." 

"Depende dos sabores. Continue a viver e vai acabar descobrindo o sabor 
certo." 

Em uma mesinha havia um mao de Gitanes, papier mas. Acendi, 
aspirei gulosamente, tossi. Dei ainda algumas tragadas e apaguei. 

Fiquei me balanando lentamente, at que comecei a ficar com sono. 
Despertaram-me as badaladas de um pndulo, e quase derramei o whisky. O 
pndulo estava dentro de mim, mas antes que pudesse identific-las as 
badaladas acabaram e eu disse: "So nove horas." E depois, a Paola: "Sabe o que 
aconteceu? Estava dormindo, e o pndulo me acordou. Nem ouvi 
distintamente as primeiras badaladas, quero dizer, no as contei. Mas assim 
que decidi cont-las me dei conta de que j tinham passado trs, e pude contar 
quatro, cinco etc. Entendi que pude dizer quatro, e esprt a quinta porque 
antes houve uma, duas, trs, e eu de alguma forma sabia disso. Se a quarta 
badalada fosse a primeira de que tivesse conscincia, pensaria que eram seis 
horas. Acho que a vida  assim tambm, s quando o passado nos vem  mente 
 que podemos antecipar o que vir. No posso contar as badaladas de minha 

vida porque no sei quantas houve anteriormenre. Por outro lado, adormeci 
porque fazia um tempo que a cadeira balanava. E adormeci num certo 
momento, porque houve momentos precedentes e porque eu me deixei levar 
esperando o momento seguinte. Mas no fossem os primeiros momentos me 
colocarem na disposio certa, se eu tivesse comeado a balanar em um 
momento qualquer, no teria esperado o que viria. E teria ficado acordado. 
At para dormir  preciso recordar. Ou no?" 

"E o efeito bola de neve. A avalanche vai em direo ao vale, mas desce 
cada vez mais rpido porque vai aumentando pouco a pouco e carrega atrs de 
si o peso daquilo que havia antes. Do contrrio no haveria avalanche, seria 
sempre uma pequena bola de neve que no desce nunca." 

"Ontem  noite... no hospital, estava entediado e comecei a cantar uma 
musiquinha. Saiu sozinha, como escovar os dentes... Tentei entender por que 
sabia aquela msica. Recomecei a cantar, mas querendo, a cano no saa 
mais e parei numa nota. Mantive-a longamente, pelo menos cinco segundos, 
como se fosse uma sirene ou uma ladainha. Pois bem, depois disso no 
conseguia ir adiante, e no conseguia porque tinha perdido o que vinha antes. 
A est, eu sou assim. Parei numa nota longa, como um disco empenado, e 
como no consigo lembrar as notas iniciais no posso acabar a msica. Fico me 
perguntando o que, afinal, tenho que acabar e por qu. Enquanto cantava sem 
pensar, era eu mesmo no durar de minha memria, que naquele caso era a 
memria... como dizer, da minha garganta, com os antes e os depois unidos, e 
eu era a cano completa, e toda vez que comeava minhas cordas vocais se 
preparavam para fazer vibrar os sons que viriam. Acho que um pianista 
tambm faz isso, toca uma nota e j prepara os dedos para as teclas que viro 
depois. Sem as primeiras notas no pode chegar s ltimas, desafina, e s se 
consegue ir das primeiras s ltimas se dentro de ns j existe de alguma 
forma a cano completa. Eu j no sei mais a cano completa. Sou... como 
madeira que queima. A madeira queima, mas no tem conscincia de ter sido 
tronco intacto, no tem como saber o que foi e quando comeou a pegar fogo. 
E assim ela se consome e basta. Vivo em pura perda." 

"No vamos exagerar com a filosofia", sussurrou Paola. 

"No, vamos sim. Onde guardo as Confisses de Santo Agostinho?" 

"Naquela prateleira esto as enciclopdias, a Bblia, o Coro, Lao Tze e os 
livros de filosofia." 

Localizei as Confisses e procurei no sumrio as pginas sobre a 
memria. Devo t-las lido porque estavam todas sublinhadas. Chego ento aos 
campos e aos vastos palcios da memria, quando estou l evoco todas as 
imagens que quero, algumas se apresentam de imediato, outras se fazem 
desejar mais longamente, sendo quase que arrancadas dos escaninhos mais 

secretos... Todas essas coisas a memria acolhe em sua vasta caverna, em suas 
sinuosidades secretas e inefveis, no enorme palcio da minha memria 
recebo o cu, a terra e o mar juntos, l me encontro a mim mesmo... A 
faculdade da memria  grandiosa,  meu Deus, sua infinita e profunda 
complexidade inspira um sentimento como de terror, e isso  o esprito, e isso 
sou eu mesmo... Nos campos e nos antros, nas cavernas incalculveis da 
memria, incalculavelmente povoadas de espcies incalculveis de coisas, por 
todos esses lugares transcorro, vo ora c ora l, sem encontrar limites em 
patte alguma... "Viu, Paola", disse eu, "voc me contou do meu av, da casa de 
campo, todos vocs tentam me restituir informaes, mas para recolh-las 
assim, para povoar de verdade essas cavernas, eu teria que colocar todos os 
sessenta anos que vivi at agora. No, no  assim que conseguirei. Tenho que 
penetrar sozinho na caverna. Como Tom Sawyer." 

No sei o que Paola respondeu, pois continuava balanando a cadeira e 
adormeci de novo. 

 

Acho que por pouco tempo, pois ouvi tocarem a campainha e era Gianni 
Laivelli. Eu e meu colega dos bancos escolares ramos como os dois Discuros. 
Abraou-me como um irmo, estava comovido, j sabia como tratar-me. No 
se preocupe, disse, sei mais da sua vida que voc mesmo. Vou lhe contar 
tintim por tintim. Eu disse no, obrigado, mas nesse meio tempo Paola 
explicou-me a nossa histria. Juntos do elementar ao liceu, depois eu fui 
estudar em Turim e ele, em Milo, economia e comrcio. Mas ao que parece 
no nos perdemos de vista, eu vendo livros antigos, ele ajuda as pessoas a 
pagar impostos, ou a no pag-los, deveramos ter ido cada um para o seu lado 
mas, ao contrrio, somos como uma famlia, seus dois netos com os meus, e 
Natal e Ano-Novo passamos sempre juntos. 

No obrigado, disse eu, mas Gianni no podia ficar calado. E como 
lembrava, parecia no entender que eu no lembrasse. Lembra, dizia, aquele 
dia em que levamos um rato para a sala de aula para assustar a professora de 
matemtica, e de quando fomos fazer o passeio a Asti para ver o Alfieri e na 
volta soubemos que tinha cado o avio do Torino, e aquela vez que... 

"No, no me lembro, Gianni, mas voc conta to bem que  como se 
lembrasse. Quem era o melhor aluno dos dois?" 

"Naturalmente voc em italiano e filosofia e eu em matemtica,  s ver 
como acabamos." 

" verdade, Paola, eu sou formado em qu?" 

"Letras, com uma tese sobre Hypnerotomachia Poliphili. Ilegvel, ao 
menos para mim. Depois foi se especializar em histria do livro antigo na 
Alemanha. Dizia que com o nome que lhe impingiram no podia fazer outra 
coisa, e depois tinha o exemplo do seu av, uma vida entre alfarrbios. Na 
volta organizou o antiqurio de livros, primeiro num quartinho e com o pouco 
capital que lhe sobrara. Mas depois as coisas andaram bem." 

"Voc vende livros que custam mais que um Porsche, sabia?", dizia Gianni. 
"Belssimos, t-los nas mos e saber que tm quinhentos anos e o papel ainda 
faz crac crac sob os dedos como se tivesse acabado de sair da prensa..." 

"Calma, calma", dizia Paola, "vamos comear a falar de trabalho nos 
prximos dias. Por enquanto vamos deix-lo ganhar intimidade com a casa. 
Um whisky, com gosto de petrleo?" 

"Petrleo? O qu?" 

" uma histria entre mim e Yambo, Gianni. Estamos recomeando a ter 
nossos segredinhos." 

Quando acompanhei Gianni at a porta, ele me tomou pelo brao e 
sussurrou em tom cmplice: "Mas ento ainda no reviu a bela Sibilla..." 

Que Sibilla? 

 

Ontem vieram Carla e Nicoletta com a famlia inteita, inclusive os 
maridos. Simpticos. Passei a tarde com os meninos. So carinhosos, estou 
comeando a me afeioar. Mas  constrangedor, a certa altura me dei conta de 
que os beijocava, os apertava no colo, sentia o cheiro de limpo, de leite e de 
talco, e me perguntei o que estava eu fazendo com aquelas crianas 
desconhecidas. Serei um pedfilo? Mantive-os  distncia, brincamos juntos, 
pediram que eu fizesse o urso, o que diabos faz um av urso, depois me pus de 
quatro fazendo arwf roarr roarr e eles pularam em cima de mim. Calma, j te-
nho uma certa idade, me di a coluna. Luca me fez pum pum com uma pistola 
de gua e pensei que era prudente morrer, a pana para o ar. Corri o risco de 
entortar a coluna, mas foi um sucesso. Ainda estou fraco e quando me levantei 
a cabea girava. Voc no pode fazer isso, disse Nicoletta, sabe que sua presso 
 ortosttica. Depois corrigiu: "Desculpe, no sabe mais. Bem, agora j sabe de 
novo," 

Continuo a viver de enciclopdia. Falo como se estivesse apoiado  parede 
e nunca pudesse me virar. Minhas memrias tm a profundidade de poucas 
semanas. As dos outros estendem-se por sculos. Uma noite dessas provei um 
licor de nozes. E disse: "Caracterstico odor de amndoas amargas." No 
parque vi dois policiais a cavalo: " O eginha eginha tordilha." Raspei a 

mo contra uma quina, e enquanto chupava um arranhozinho de nada e 
tentava experimentar 

 

o sabor do meu sangue, disse: "Muitas vezes o mai de viver encontrei.'' 
Caiu um temporal e no final regozijei-me: "Passada  a tempestade? De 
hbito, vou dormir cedo e comento: "Longtemps je me suis couch de 
bonne heure? 

Consigo me virar com os sinais de trnsito, mas outro dia atravessei a rua 
num trecho que parecia tranqilo e Paola mal teve tempo de segurar-me pelo 
brao para evitar um carro. "Mas calculei a distncia", disse eu, "ia conseguir." 

"No, no ia, ele estava correndo." 

"Ora, no sou nenhum bobo", reagi. "Sei muito bem que os automveis 
atropelam os pedestres e at as galinhas, e para evit-lo devem frear e sai uma 
fumaa negra e depois  preciso descer para dar partida no carro outra vez, 
com a manivela. Dois homens de guar-da-p com grandes culos escuros, e eu 
com as orelhas que chegavam ao cu." De onde tirei tais imagens? 

Paola me olhou. "Oua, voc sabe a que velocidade mxima pode chegar 
um automvel?" 

"Bem", disse eu, "at oitenta por hora..." Pois parece que agora so bem 
mais velozes.  evidente que conservo apenas as noes do tempo em que tirei 
a carteira. 

Espanto-me porque, atravessando o largo Cairoli, topo a cada dois passos 
com um preto tentando me vender um isqueiro. Paola me levou para dar uma 
volta de bicicleta no parque (ando de bicicleta sem problemas) e espantei-me 
por ver tantos pretos ao redor de um laguinho, tocando tambor. "Mas onde 
estamos? Em Nova York? Desde quando tem tanto preto em Milo?" 

"H algum tempo", respondeu Paola. "No se diz mais preto, se diz negro." 

"Que diferena faz? Vendem isqueiros e vm para c tocar tambor porque 
no devem ter um tosto para ir ao bar, ou talvez no os queiram por l, estou 
achando que os negros so to discriminados quanto os pretos." 

"Bem, agora  assim que se fala. Voc tambm falava assim." 

Paola notou que quando tento falar ingls cometo erros, o que no 
acontece quando falo alemo ou francs. "Parece bvio", disse ela, "o francs 
foi absorvido em criana e ficou na sua lngua como a bicicleta nas pernas, o 
alemo voc estudou nos livros quando estava na universidade e dos livros 

voc sabe tudo. J o ingls aprendeu depois, viajando, faz parte das suas 
experincias pessoais dos ltimos trinta anos, e s colou na sua lngua 
parcialmente." 

 

Ainda me sinto fraco, consigo me concentrar numa coisa por meia hora, 
uma no mximo, depois tenho que deitar um pouco. Paola me leva todo dia  
farmcia para tirar a presso.  preciso cuidar tambm da dieta: pouco sal. 

Comecei a ver televiso.  a coisa que menos me cansa. Vejo senhores 
desconhecidos que so presidente do conselho e ministro do exterior, vejo o 
rei da Espanha (no era Franco?), ex-terroristas (terroristas?) arrependidos e 
mesmo no entendendo direito do que esto falando, aprendo um monte de 
coisa. De Moto eu me lembro, as convergncias paralelas, mas quem o matou? 
Ou caiu de avio em Ustica em cima do Banco da Agricultura? Alguns 
cantores enfiam argolas nos lbulos das orelhas. E so homens. Gosto das 
histrias em captulos sobre tragdias familiares no Texas, dos velhos filmes de 
John Wayne. Os filmes de ao me incomodam, com metralhadoras que 
explodem uma sala com uma rajada, fazem saltar um automvel, que tambm 
explode, um sujeito de camiseta que d um soco e o outro que arrebenta a 
vidraa e mergulha a pique no mar, tudo junto, sala, catro, vidraa, em poucos 
segundos. Rpido demais, meus olhos danam. E para que tanto barulho? 

 

Outra noite Paola levou-me a um restaurante. "No se preocupe, eles o 
conhecem, basta pedir o de sempre." Muita festa, como vai dr. Bodoni, faz um 
bom tempo que no o vamos, o que vamos querer de bom hoje. O de sempre. 
O senhor sim, que entende das coisas, cantarolou o dono. Espaguete com 
vngoles, peixe grelhado, Sauvignon, torta de ma. 

Paola teve que intervir para que eu no pedisse um bis do peixe grelhado. 
"Mas por qu, se estou gostando?", perguntei. "Podemos pagar, acho, no custa 
uma fortuna." Paola olhou-me pensativa e depois, segurando minha mo, 
disse: "Escute, Yambo, voc conservou todos os seus automatismos, sabe muito 
bem manejar garfo e faca e servir a bebida. Mas tem uma coisa que adquirimos 
com a experincia pessoal  medida que nos tornamos adultos. Uma criana 
quer comer tudo aquilo que lhe apetece, mesmo a custo de uma dor de barriga. 
 a me que, pouco a pouco, vai lhe ensinando que precisa saber controlar seus 
impulsos, assim como faz com a vontade de fazer xixi. E assim a criana, que se 
dependesse dela continuaria a fazer coc nas fraldas e a comer tanta Nutella 
que acabaria num hospital, aprende a reconhecer o momento em que, mesmo 
que no se sinta farta, deve parar de comer. Tornando-nos adultos, apren-
demos a parar, por exemplo, depois do segundo ou terceiro copo de vinho, 
porque lembramos daquela vez em que tomamos a garrafa inteira e depois no 
conseguimos dormir. Portanto, voc vai ter que aprender de novo a 



estabelecer uma relao com a comida. Voc raciocina bem e vai aprender em 
poucos dias. De qualquer jeito, chega de bis." 

"Naturalmente, um calvados", concluiu o proprietrio trazendo a torta. 
Esperei pelo assentimento de Paola e respondi: "Calva sans dire." Pelo visto 
ele j conhecia o meu jogo de palavras, pois repetiu: "Calva sans dire." Paola 
perguntou o que o calvados me lembrava, respondi que era bom, mas nada 
alm disso. 

"No entanto, teve intoxicao de calvados naquela viagem  Normandia... 
Pacincia, deixe para l. De qualquer forma, o de sempre  uma boa frmula, 
tem um monte de lugares por aqui onde pode entrar e pedir o de sempre e 
assim fica mais  vontade." 

 

"Bem, est claro que j sabe se virar com os sinais", disse Paola, "e aprendeu 
como andam rpido os carros. Pode tentar um passeio sozinho ao redor do 
castelo e depois no largo Cairoli. Tem uma sorveteria na esquina, voc adora 
sorvete, eles vivem praticamente  sua custa. Experimente o de sempre." 

 

Nem precisei pedir o de sempre, o sorvereiro logo encheu a casquinha com 
flocos, aqui est, doutor, como sempre. Se gostava de flocos, tinha toda razo, 
 timo. E timo descobrir o sorvete de flocos aos sessenta anos, como  
mesmo aquela piada do Gianni sobre Alzheimer? O bom  que todo dia se 
encontra um monte de gente nova... 

Gente nova. MaJ acabei o sorvete, sem comer a casquinha at o fundo e 
jogando fora o ltimo pedao - por qu? Paola me explicou depois que era 
uma velha mania, desde pequeno minha me me ensinava que no se deve 
comer a ponta porque  por ali que o sorveteiro pega o sorvete com as mos 
no muito limpas, coisas de um tempo em que se vendia sorvete na catrocinha 
- quando vi uma mulher se aproximando. Elegante, cerca de quarenta anos, 
um rosto um pouco impertinente, me veio  cabea a Dama com Arminho. 
Sorriu-me j de longe e eu tambm preparei um belo sorriso, j que Paola diz 
que meu sorriso  irresistvel. 

Veio a meu encontro agarrando-me pelos dois braos: "Yambo, que 
surpresa!" Mas deve ter percebido alguma coisa no meu olhar, o sorriso no  
suficiente. "Oh, Yambo, no est me reconhecendo. Envelheci tanto assim? 
Vanna, Vanna..." 

"Vanna! Est cada dia mais bonita. E que acabei de sair do oculista e 
botaram aquela coisa para dilatar a pupila nos meus olhos, vou ficai com a 

viso turva por mais algumas horas. E ento, como vai, dama com arminho?" 
J devia ter lhe dito isso, pois tive a impresso de que seus olhos ficaram 
midos. 

"Yambo, Yambo", sussutrou acariciando meu rosto. Sentia seu perfume. 
"Yambo, ns nos perdemos. Eu sempre quis rev-lo para dizer que, mesmo 
tendo sido breve, talvez por culpa minha, ser sempre uma doce recordao. 
Foi... bonito." 

"Muito", disse eu com algum sentimento e o ar de quem relembra o jardim 
das delcias. Interpretao sobeiba. Beijou-me o rosto, sussurrou que seu 
nmero permanecia o mesmo e se foi. Vanna. Evidentemente uma tentao  
qual no conseguira resistir. Gli uo-mini, che mascalzoni! Com De Sica. 
Maldio, que gosto tem viver 

 

 

4S 

uma histria se depois no se pode, no digo contar para os amigos, mas 
sabore-la de novo nas noites de tempestade, encolhido sob os cobertores? 

 

Desde a primeira noite, sob os cobertores, Paola me fazia dormir 
acariciando minha cabea. Gostava de senti-la perrinho. Era desejo? 
Finalmente superei o pudor e perguntei se ns ainda fazamos amor. "Com 
moderao, mais que tudo por hbito", disse ela. "Sente vontade?" 

"No sei, sabe que ainda tenho poucas vontades. Mas me pergunto se..." 

"No se pergunte. Tente dormir. Ainda est fraco. E depois, eu no 
gostaria por nada que fizesse amor com uma mulher que acabou de conhecer." 

"Aventura no Orient Express." 

"Que horror, no estamos num romance de Dekobra." 



3.TALVEZ ALGUM TE DEFLORASSE 

 

 Sei me virar fora de casa, aprendi tambm a me comportar com quem me 
cumprimenta: mede-se o sorriso, os gestos de surpresa, a alegria ou a cortesia 
observando-se sorrisos, gestos e cortesias do outro. Experimentei com os 
condminos, no elevador. O que demonstra que a vida social nada mais  que 
fico, disse a Carla, que me dava os parabns. Respondeu que essa histria 
estava me deixando cnico. Evidente, se no comear a pensar que  tudo uma 
comdia, voc d um tiro na cabea. 

Bem, disse Paola, j  hora de ir ao escritrio. V sozinho, assim pode falar 
com Sibilla e ver o que lhe inspira o seu local de trabalho. Lembrei daquele 
sussurro de Gianni sobre a bela Sibilla. 

"Quem  Sibilla?" 

"Sua assistente, sua faz-tudo, eficientssima, tocou os negcios nessas 
semanas. Telefonei-lhe hoje e estava muito orgulhosa por um certo negcio 
que acabara de fechar. Sibilla, no me pergunte o sobrenome porque ningum 
consegue pronunci-lo. Uma moa polonesa. Estava se especializando em 
biblioteconomia em Varsvia quando o regime comeou a complicar, antes da 
queda do Muro de Berlim. Mesmo assim conseguiu um visto para uma viagem 
de estudos a Roma:  bonita, at demais, e deve ter descoberto um meio de 
comover algum peixe grande. O fato  que uma vez aqui no voltou mais e foi 
procurar trabalho. Encontrou voc ou voc a en- 
controu e j se vo quase quatro anos que  sua assistente. Est lhe esperando 
hoje, sabe do que aconteceu e como se comportar." 

Deu-me o endereo e o nmero do telefone do escritrio, depois do largo 
Cairoli entrar pela rua Dante e antes da Loggia dei Mercanti - que  uma loja 
que se v a olho nu - virar  esquerda e pronto, chegou. "Se tiver qualquer 
problema, entte num bar e ligue para ela, ou para mim, mandaremos um 

destacamento de bombeiros, mas no penso que ser necessrio. Ah, 
lembre-se, voc comeou falando francs com Sibilla, quando ela ainda no 
falava italiano direiro, e nunca mais pararam. Um jogo entte vocs dois," 

 

Tanta gente na rua Dante,  bom passar ao lado de uma srie de estranhos 
sem ser obrigado a reconhec-los, d segurana, deixa perceber que tambm 
os outros, setenta por cento deles esto nas mesmas condies que voc. No 
fundo poderia ser simplesmente algum que acabou de chegat a essa cidade, 
que se sente meio sozinho mas est se ambientando. Exceto que eu acabei de 
chegar a esse planeta. Algum me cumprimentou da porta de um bar, 
nenhuma exigncia de agnio dramtica, agitei a mo em sinal de saudao e 
deu tudo certo. 

Encontrei a rua e o escritrio como um escoteiro que vence a caa ao 
tesouro: uma plaquinha sbria embaixo, Studio Biblio, eu no devia ter muita 
imaginao, mas no fundo d um ar srio e, afinal, como iria cham-lo,  Bela 
Npoles? Toquei, subi, no primeiro andar a porta j estava aberta e Sibilla na 
soleira. 

"Bonjour, Monsieur Yambo... pardon, Monsieur Bodoni..." Como se fosse 
ela quem tivesse perdido a memria. Era realmente muito bonita. Cabelos 
louros lisos e longos que emolduravam o oval purssimo do rosto. Nem 
um pingo de maquiagem, talvez alguma coisa nos olhos. O nico adjetivo que 
me ocorreu foi dulcssima (uso esteretipos, eu sei, mas  graas a eles que 
consigo me mover entre os outros). Vestia jeans e uma camiseta daquelas com 
uma inscrio, Smile ou coisa do gnero, que realava, com pudor, dois seios 
adolescentes. 

 

Estvamos ambos embaraados. "Mademoiselle Sibilla?", perguntei. 

"Oui", respondeu e em seguida, rapidamente, "ohui, houi. Entrez." 

Como um delicado soluo. Emitia o primeiro oui de modo quase normal, 
logo depois o segundo como que inspirando, com um breve movimento da 
garganta e ento o terceiro expirando de novo, com um imperceptvel tom 
interrogativo. O todo fazia pensar num constrangimento infantil e ao mesmo 
tempo numa timidez sensual. Ps-se de lado para deixar-me passar. Percebi 
um perfume educado. 

Se tivesse que descrever um estdio bibliogrfico teria descrito alguma 
coisa de muito semelhante ao que via. Prateleiras de madeira escura 

carregadas de volumes antigos e volumes antigos tambm na mesa quadrada, 
pesada. Uma mesinha com um computador num canto. Dois mapas coloridos 
dos lados da janela, de vidros opacos. Luz difusa, amplas luminrias verdes. Do 
outro lado de uma porta, um longo cmodo parecia um entreposto para 
empacotamento e expedio dos livros. 

"Ento voc  Sibilla? Ou devo dizer Mademoiselle de tal, disseram que 
tem um sobrenome impronuncivel..." 

"Sibilla Jasnorzewska, sim, aqui na Itlia  um problema. Mas o senhor 
sempre me chamou de Sibilla e basta." Pude v-la sorrir pela primeira vez. 
Disse que queria me ambientar, queria ver os livros mais valiosos. Aquela 
parede l no fundo, disse-me, e apressou-se a mostrar a prateleira certa. 
Caminhava silenciosa tocando de leve o cho com o tnis. Mas talvez fosse o 
carpete que abafasse os passos. Sobre ti, virgem adolescente, paira como 
uma sombra sacra, quase que eu disse em voz alta. Mas em vez disso, disse: 
"Quem  Cardarelli?" 

"O qu?", perguntou virando a cabea e fazendo ondearem os cabelos. 
"Nada", respondi. "Deixe-me ver." 

Belos volumes de sabor vetusto. Nem todos tinham uma etiqueta na 
lombada indicando o que eram. Retirei um. Instintivamente abri para 
procurar o frontispcio com o ttulo e no encontrei. "Incun-bulo, ento. 
Encadernao quinhentista em couro de porco com impresso a frio." Passava 
as mos nas pastas experimentando um prazer ttil. "Capa ligeiramente 
desgastada." Folheei-o tocando as pginas com o dedo para ver se estalavam 
como Gianni dizia. Estalavam. "Arejado. Ah, leves manchas nas ltimas 
folhas, traa na ltima pgina, mas no afeta o texto. Belo exemplar." Fui at o 
colofo, sabendo que se chamava assim, e escandi; "Venetiis mense 
septembri... mil quatrocentos e noventa e sete. Mas seria..." Voltei  ltima 
pgina: Iamblichus de mysteriis Aegyptiorum...  a primeira edio do 
Jmblico de Ficino, no? 

"E a primeira... Monsieur Bodoni. Reconheceu?" 

"No, no reconheo nada, voc precisa aprender isso, Sibilla. 
Simplesmente sei que o primeiro Jmblico traduzido por Ficino  de mil 
quatrocentos e noventa e sete." 

"Peo desculpas, preciso me habituar.  que o senhor tinha tanto orgulho 
desse exemplar, realmente esplndido. E disse que por ora no o queria 
vender, h pouqussimos no mercado, vamos esperar que aparea em algum 
leilo ou catlogo americano, que eles so timos para fazer os preos 
fermentarem. Depois botamos o nosso exemplar em catlogo." 

"Sou um mercador esperto, ento." 

"Eu dizia que era uma desculpa, que queria t-lo um pouco consigo para 
olh-lo de vez em quando. Mas como tinha resolvido sacrificar o Ortelius, 
posso lhe dar uma boa notcia." 

"Ortelius... Qual?" 

"A Plantin 1606, 166 ilustraes em cotes e o Prergon, Encadernao de 
poca. Estava to contente por t-lo desencavado comprando a bom preo 
toda a biblioteca do comendador Gambi. Tinha finalmente resolvido coloc-lo 
em catlogo. E enquanto o senhor... enquanto no estava bem consegui 
vend-lo a um cliente, um novo, no me parecia ura verdadeiro biblifilo, 
antes um daqueles que compra como investimento porque algum lhe disse 
que hoje em dia os preos dos livros aumentam rapidamente." 

"Pena, exemplar desperdiado. E... quanto?" 

Parecia temerosa de dizer a cifra, pegou uma ficha e mostrou-me. "No 
catlogo tnhamos posto Preo a Discutir e o senhor estava preparado para 
negociar. Eu disse logo o preo mximo e o sujeito nem pediu desconto, 
assinou o cheque e pronto. Em cima do lao, como se diz." 

"Ento esses so os nveis agora..." No tinha mais noo dos preos 
correntes. "Parabns, Sibilla, quanto custou para a gente?" 

"Praticamente nada. Quer dizer, com o resto dos livros da biblioteca 
Gambi cobrimos pouco a pouco, tranqilamente, o montante do que pagamos 
por tudo, a preo fixo. Providenciei o depsito do cheque no banco. E como 
no catlogo no tinha preo, creio que com a ajuda do dr. Laivelli, ficamos 
muito bem no plano fiscal." 

"Ento sou um daqueles que fraudam o fisco?" 

"No, Monsieur Bodoni, o senhor faz o que seus colegas fazem, em geral 
paga-se tudo mas em certas operaes mais afortunadas d-se, como se diz, um 
jeitinho. O senhor  um contribuinte noventa e cinco por cento honesto." 

"De agora em diante serei apenas cinqenta. Li em algum lugar que um 
cidado deve pagar todos os seus impostos, at o ltimo centavo." Pareceu-me 
humilhada. "No se preocupe, de todo modo", disse paternalmente, "falo eu 
com o Laivelli." Paternalmente? Repliquei de forma quase brusca: "Agora 
deixe-me ver um pouco os outros livros." Ela retirou-se e foi se sentar no 
computador, silenciosa. 

Olhava os livros, folheava-os: uma Comdia para Bernardino Benali 1491, 
um Liber Phisionomiae de Escoto, 1477, um Quadripar-tito de Ptolomeu, 
1484, um Calendarium di Regiomontano de 1482 - mas para os prximos 
sculos eu tambm no estava mal, eis uma bela primeira edio do Novo 
teatro de Zonca e um Ramelli que  uma maravilha... Conhecia cada uma 
daquelas obras, como qualquer antiqurio que conhece de cor os grandes 
catlogos, mas no sabia que possua um exemplar. 

Paternalmente? Tirava os livros e recolocava no lugar, mas na verdade 
pensava em Sibilla. Gianni fizera aquela insinuao, indubitavelmente 
maliciosa, Paola deixara para falar-me dela no ltimo momento e usara 
algumas expresses quase sarcsticas, embora o tom fosse neutro, bonita at 

demais, um jogo entre vocs dois, nada de particularmente spero, mas me 
pareceu a ponto de dizer que era uma sonsa. 

Posso ter tido uma histria com Sibilla? A menina perdida que chega do 
Leste, curiosa de tudo, encontra um senhor maduro - mas quando ela chegou 
eu tinha quatro anos menos - sente sua autoridade, afinal  o patro, sabe mais 
sobre livros do que ela, ela aprende, bebe suas palavras, o admira, ele encontra 
a aluna ideal, bonita, inteligente, com aquele oui oui oui soluado e trmulo, 
comeam a trabalhar juntos, todos os dias e todo o dia, sozinhos naquele es-
critrio, cmplices em tantas pequenas e grandes trouvailles, um dia se 
roam na porta,  um timo e comea uma histria. Mas como, na minha 
idade, voc  uma menina, procure um rapaz de sua idade, por Deus, no me 
leve a srio, e ela, no,  a primeira vez que sinto uma coisa assim, Yambo. 
Estava resumindo um filme que todo mundo conhece? Ento continua como 
nos filmes, ou nos romances: Yambo, eu o amo, mas no posso continuar a 
olhar a sua mulher de frente, to querida e gentil, voc tem duas filhas, j  
av - muito obrigado por recordar que j cheiro a cadver, no, no fale assim, 
voc  o homem mais... mais... mais que j conheci, os rapazes da minha idade 
me fazem rir, mas talvez o certo seja eu ir - espera, podemos continuar como 
bons amigos, basta que nos vejamos todos os dias - mas no entende que  
justamente nos vendo todo dia que nunca conseguiremos ser s amigos - 
Sibilla, no fale assim, vamos pensar melhor. Um dia ela pra de vir ao 
escritrio, eu telefono dizendo que vou me matar, ela diz no seja infantil, 
toutpasse, mas depois  ela quem retorna, no agentou. E assim a coisa 
segue por quatro anos. Ou no segue? 

Parece que conheo todos os clichs, mas no sei combin-los de forma 
crvel. Ou talvez essas histrias sejam terrveis e grandiosas justamente porque 
todos os clichs se entrelaam de modo inverossmil e ningum mais pode 
desembara-los. Mas quando se vive um clich  como se fosse a primeira vez 
que acontece e no se sente pudor. 

Seria uma histria verossmil? Naqueles dias tinha a impresso de no ter 
mais desejos, mas assim que a vi aprendi o que  o desejo. Quero dizer, com 
algum que via pela primeira vez. Imagine estar com ela, segui-la, v-la 
deslizar ao redor como se caminhasse sobre a gua. Naturalmente, estou 
falando por falar, eu jamais comearia, agora, no estado em que estou, uma 
historia desse tipo, e depois eu seria o ltimo dos canalhas com Paola. Para 
mim  como se ela fosse a Virgem Imaculada, nem com o pensamento. Muito 
bem. Mas e ela? 

Poderia estar no auge da histria, talvez quisesse chamar-me por tu ou 
pelo nome e basta, ainda bem que em francs se usa o vous at quando se vai 
para a cama, talvez quisesse pular no meu pescoo. Quem sabe quanto ela 
penou tambm durante aqueles dias, e eis que me v chegar belo como sol, 
como vai Mademoiselie Sibilla, por favor deixe-me ver os livros, obrigado, 

muita gentileza. E compreende que no poder contar a verdade. Talvez seja 
melhor assim,  a deixa para ela encontrar um rapaz. E eu? 

Que no estou nada bem est escrito nos pronturios clnicos. Mas o que 
estou ruminando? Com uma bela moa no escritrio  bvio que Paola faa o 
papel de mulher ciumenta,  s um jogo entre velhos consortes. E Gianni? 
Gianni falou da bela Sibilla, talvez tenha sido ele a perder a cabea, vem 
sempre ao escritrio com a desculpa dos impostos e depois fica por ali 
fingindo-se encantado com as pginas crocantes. Foi ele quem ficou caidinho, 
no tenho nada com isso. E Gianni, numa idade que j cheira a cadver ele 
tambm, que est tentando roubar, roubou a mulher da minha vida. S rindo: 
a mulher da minha vida? 

Pensei que conseguiria conviver com tanta gente que no reconheo, mas 
esse  o obstculo mais difcil, pelo menos desde que meti na cabea essas 
fantasias senis. O que me di  que poderia lhe fazer mal. Olhe l... No,  
natutal que no se queira fazer mal  prpria filha adotiva. Filha? Outro dia 
sentia-me pedfilo e agora me descubro incestuoso? 

E por fim, Deus meu, quem foi que disse que ns fizemos amor? Talvez 
tenha sido s um beijo, s uma vez, talvez uma atrao platnica, um 
entendendo o que o outro sentia e vice-versa, mas nenhum dos dois nunca 
falou do assunto. Amantes da Tvola Redonda, dormimos durante quatro anos 
com uma espada entre ns. 

Oh, tenho tambm uma Stultifera navis, no me parece que seja 
primeira edio e depois no  um exemplar to bonito. E esse De 
proprietatibus rerum de Bartolomeu Anglico?Todo rubricado de 

 

cima a baixo, uma pena que a encadernao seja moderna, hbito antigo. 
Falemos de negocios. "Sibilla, a Stultifera navis no  primeira edio, ?" 

"Infelizmente no, senhor Bodoni, a nossa  a Olpe de mil quatrocentos e 
noventa e sete. A primeira tambm  Olpe, Basilia, mas de 1494 e em alemo, 
Das Narren Shyff. A primeira edio latina, como a nossa, surge em noventa 
e sete, mas em maro, a nossa, olhando-se o colofo,  de agosto e no meio h 
uma de abril e urna de junho. Mas no  tanto a data,  o exemplar: como o 
senhor pode ver, no  to atraente. No digo que seja um exemplar de ateli 
grfico, mas no  de se anunciar aos quatro ventos." 

"Quanta coisa voc sabe, Sibila, o que faria sem voc?" 



"Foi o senhor quem me ensinou. Para deixar Varsvia tive que me passar 
por uma grande avante, mas se no o encontrasse continuaria to estpida 
como quando cheguei." 

Admirao, devoo. Est tentando me dizer alguma coisa? Murmuro: 
"Les amoureuxfervents et les savants austres..." Previno-a. "Nada, nada, 
me ocorreu uma poesia. Sibilla,  melhor esclarecermos as coisas. Talvez com 
a continuidade eu lhe parea quase normal, mas no estou. Tudo o que me 
aconteceu antes, tudo, entende, tudo mesmo,  como se fosse uma lousa sobre 
a qual passaram uma esponja. Sou de uma imaculada negrura, se me perdoa a 
contradio. Precisa compreender-me, no desesperar e... ficar por perto." 
Disse bem? Parecia perfeito e podia ser entendido nos dois sentidos. 

"No se preocupe, Monsieur Bodoni, entendi tudo. Estou aqui e no vou 
embora. Esperarei..." 

Ser que voc  mesmo uma sonsa? Disse que vai esperar que eu fique 
bom, como  bvio que todos faro, ou que espera que eu volte a lembrar 
daquilo? E se  assim, o que vai fazer nos prximos dias para me ajudar a 
lembrar? Ou queria com toda a alma que eu lembrasse, mas no far nada 
porque no  uma sonsa,  uma mulher que ama e cala porque no quer me 
perturbar? Sofre, no deixa que percebam, pois  o ser maravilhoso que , mas 
est dizendo a si mesma que essa  finalmente a ocasio certa para colocarmos 
a cabea no lugar, voc e eu? Sacrifica-se, no far nada para 
que eu me lembre, no tentar quase tocar-me com a mo certa tarde para que 
eu saboreie a minha madeleine - voc que, com o orgulho de todos os 
amantes sabe que talvez os outros no consigam me fazer ouvir o Abre-te 
Ssamo, mas voc, s de querer poderia, bastaria roar-me a face com seus 
cabelos enquanto se inclina para entregar-me uma ficha. Ou dizer de novo, 
quase por acaso, aquela frase banal que me disse da primeira vez, sobre a qual 
floreamos longamente por quatro anos, citando-a como uma frmula mgica. 
Aquela cujo significado s voc e eu conhecamos, isolados em nosso segredo? 
Tipo: Et mon bureau? Mas isso  Rimbaud. 

Vamos tentar pelo menos esclarecer uma coisa. "Sibilla, talvez esteja me 
chamando de Monsieur Bodoni porque  como se nos encontrssemos hoje 
pela primeira vez, mas ao contrrio trabalhando juntos comeamos a nos 
tratar por voc, como acontece nesses casos. Como costumava me chamar?" 

Corou, emitiu mais uma vez aquele modulado terno soluo: "Oui, oui, 
oui, de fato, eu o chamava de Yambo. Voc logo tentou me deixar  vontade." 

Os olhos iluminados de felicidade, como se tivesse tirado um peso do 
corao. Porm tratar-se por voc no quer dizer nada, at Gianni e a 
secretria - fomos outro dia a seu escritrio, Paola e eu -tratam-se por voc. 



"E ento!", disse eu com alegria. "Vamos recomear exatamente como 
antes. Voc sabe, recomear tudo como antes pode me ajudar." 

O que ter entendido? O que quer dizer para ela recomear como antes? 

 

Em casa passei uma noite insone, e Paola me acariciava a cabea. 
Sentia-me um adltero, e no fizera, nada. Por outro lado no me preocupava 
com Paola, mas comigo. O belo de ter amado, dizia comigo, est em recordar 
que amou. Tem gente que vive de uma nica recordao. Eugnia Grandet, 
por exemplo. Mas pensar ter amado e no lembrar? Pior ainda, ter amado, 
talvez, no lembrar e sofrer a suspeita de no ter amado. Quem sabe, em 
minha vaidade no tenha levado em conta uma outra histria, eu loucamente 
apaixonado que fao uma proposta e ela me coloca em meu lugar, com 
gentileza, doura e firmeza. Depois fica porque eu sou um cavalheiro e desde 
aquele dia me comporto como se nada tivesse acontecido e ela, no fundo, 
sente-se bem no trabalho, talvez no possa se petmitir perder um bom 
emprego, talvez tenha ficado lisonjeada com minha abordagem, nem se d 
conta, mas sua vaidade feminina foi tocada, no confessa sequer a si mesma 
mas percebe ter um certo poder sobre mim. Uma allumeuse. Pior, essa sonsa 
me comeu um monte de dinheiro, me obrigou a fazer o que ela queria,  
evidente que deixei tudo em suas mos, inclusive os pagamentos e depsitos e 
talvez as retiradas no banco, cantei o quiquiriqui do professor Unrath, estou 
acabado, j no consigo escapat - talvez consiga com essa oportuna doena, h 
males que vm pata o bem. Que miservel sou, como posso emporcalhar a tal 
ponto tudo o que toco, talvez ainda seja virgem e j estou fazendo dela uma 
puta. De todo modo, s a suspeita, renegada, piora as coisas: quem no lembra 
que amou tambm no sabe se aquele a quem amava era digno de seu amor. 
Aquela Vanna encontrada duas manhs antes, aquilo era claramente um caso, 
um flerte, uma noite ou duas, depois talvez alguns dias de desiluso e 
acabou-se. Mas aqui esto em jogo quatro anos de minha vida. Yambo, estaria 
voc se apaixonando, talvez nada antes, mas agora estaria correndo direto para 
a prpria runa? S porque imagina ter sido condenado  danao um dia e 
quer reencontrar seu paraso? E dizer que h loucos que bebem ou usam 
drogas para esquecer, ah, se eu pudesse esqueceria tudo, dizem. S eu sei a 
verdade: esquecer  atroz. Existem drogas para recordar? Talvez Sibilla... 

L vou eu de novo. Se te vejo passar a tanta imperial distncia, com a 
cabeleira solta e toda a pessoa erguida, a vertigem consigo me 
arrebata. 

Na manh seguinte, peguei um txi e fui ao escritrio de Gianni. 
Perguntei-lhe abertamente o que sabia a respeito de Sibilla e eu. Pareceu cait 
das nuvens. 

"Ora, Yambo, estamos todos um pouco cados por Sibilla, eu, seus colegas, 
muitos de seus clientes. Tem gente que vai ao estdio s para v-la. Mas  uma 



brincadeira, uma coisa de colegiais. Debochamos uns dos outros e muitas 
vezes de voc: tenho a impresso de que h alguma coisa entre voc e a bela 
Sibilla, dizamos. E voc ria, s vezes fazia uma cena, dando a entender coisas 
do outro mundo, e s vezes dizia que parssemos, que poderia ser sua filha. 
Jogos. Por isso perguntei aquela noite por Sibilla, pensei que j a tivesse re-
visto, queria saber sua impresso." 

"Eu nunca lhe contei nada de mim e de Sibilla?" 

"Por qu, houve alguma coisa?" 

"No se faa de espertinho, sabe que estou desmemoriado. Estou aqui 
perguntando se alguma vez lhe contei algo." 

"Nada. E devo dizer que suas aventuras voc me contava sempre, talvez 
para me dar inveja. A Cavassi, a Vanna, a americana na feira do livro de 
Londres, a holandesinha bonita pela qual voc foi trs vezes a Amsterd, a 
Silvana..." 

"Nossa, quantas histrias tive?" 

"Muitas. Demais para mim que sempre fui monogmico. Mas de Sibilla, eu 
juro, nunca disse nada. O que andou enfiando na cabea? Voc a viu ontem, 
ela lhe sorriu e pensou que era impossvel t-la por perto e no ter nem um 
pensamentozinho. E humano,  claro que voc no ia perguntar quem  essa 
mocria... E depois, nenhum de ns conseguiu saber se Sibilla tem uma vida 
prpria. Sempre serena, pronta a ajudar todo mundo como se fosse um favor 
particular:  possvel ser sedutora justamente por no fazer muita gracinha. A 
esfinge de gelo." Gianni era sincero, provavelmente, mas isso no queria dizer 
nada. Se com Sibilla nascera a coisa mais importante de todas, a Coisa,  
evidente que no contaria nada, nem a Gianni. Tinha que permanecer como 
um delicioso compl entre mim e Sibilla. 

Ou no. A esfinge de gelo, fora do seu horrio, tem sua vida, talvez j 
esteja com algum, problema seu, ela  perfeita, no mistura trabalho com 
vida particular. Mordido de cimes de um rival desconhecido. Mas algum 
h de te deflorar, boca de nascente, algum que nem saber, um 
pescador de esponjas ter essa prola rara. 

 

"Tenho uma viva para voc, Yambo", disse-me Sibilla piscando o olho. 
Est ganhando confiana, que bom. "Uma viva como?", perguntei. 
Explicou-me que os livreiros-antiqurios da minha categoria tm algumas 
formas de conseguir livros. Tem o sujeito que aparece no estdio perguntando 
se aquele livro vale alguma coisa, e esse valor vai depender do quanto voc  
honesto, mas  claro que se tenta obter algum ganho. Tem o colecionador em 
dificuldade, que conhece o valor do que oferece e no mximo se consegue 
tirar um pouquinho no preo. Um outro modo  comprar nos leiles inter-
nacionais e nesse caso s se faz um bom negcio quando se  o nico a 
perceber o valor de um livro, mas no  que os concorrentes sejam bobos. 



Pottanto, a maigem  mnima e s se torna interessante se for possvel 
coloc-lo no mercado com um preo muito alto. Alm disso, compra-se dos 
colegas, porque algum pode ter um livro que interessa pouco a seu tipo de 
cliente e faz um pteo mais baixo pata voc que, ao contrrio, conhece o 
apreciador fantico. Finalmente, tem o mtodo do abutre. Descobrir as 
grandes famlias decadentes, com manses antigas e biblioteca vetusta, esperar 
que morra o pai, o marido, o tio, e que os herdeiros no saibam como avaliar 
aquele monte de livros que nunca sequer abriram. Diz-se viva por dizer, 
pode ser o sobrinho que quer botar a mo no mal-diro dinheiro rpido, 
mesmo perdendo, e melhor ainda se estiver metido com mulheres ou droga. 
Ento voc vai ver os livros, passa dois ou trs dias naquelas salas 
penumbrosas e decide sua esttatgia. 

Daquela vez era mesmo uma viva, Sibilla recebera uma dica de algum 
(so os meus segredinhos, dizia satisfeita e maliciosa) e parece que com as 
vivas eu sei me virar. Pedi a Sibilla que me acompanhasse, pois sozinho 
corria o risco de no reconhecer o livro. Que linda casa, senhora, oh, sim, 
obrigada, talvez um conhaque. Depois, pronto, fuar, bouquiner, 
browsing... Sibilla sussurrava para mim as regras do jogo. A norma  
encontrar duzentos ou trezentos volumes que no valem nada,  fcil 
reconhecer as vrias Pandectas e dissertaes de teologia que vo acabar nas 
bancas da feira de SantAmbrogio, ou os duodcimos setecentistas com as 
Aventuras de Telmaco e as viagens utpicas, todos com a mesma 
encadernao, que servem para os decoradores, que compram a metro. E 
muita coisa do sculo XVI em formato pequeno, Ccero e retricas a 
Herennius, de 

 

pouco valor, que acabam nas banquinhas da praa Fontanella Bor-ghese em 
Roma, compradas pelo dobro do que valem por gente que depois se gaba de 
possuir edies quinhentistas. Porm, procura daqui, procura dali, eu tambm 
percebi, l estava um Ccero, sim, mas em cursivo aldino e at uma Crnica 
de Nurembergue em perfeito estado, um Rolewinck, um Ars magna lucis 
et umbrae de Kircher, com suas esplndidas ilustraes e apenas umas poucas 
pginas gastas, o que para o papel da poca  raro, e mesmo um delicioso Ra-
belais Chez Jean Frderic Bernard, 1741, trs volumes in-quarto com vinhetas 
de Picart, esplndida encadernao em marroquim vermelho, pastas 
entalhadas em ouro, nervuras e ornatos em ouro na lombada, contraguarda em 
seda verde com renda em ouro - que o finado encapara cuidadosamente com 

papel azul para no estragar e  primeira vista eram irreconhecveis.  verdade 
que no  a Crnica de Nurembergue, murmurava Sibilla, a encadernao  
moderna, mas de conhecedor, assinada Rivire & Son. O Fossati compraria 
togo - digo depois quem , coleciona encadernaes. 

No final tnhamos descoberto dez volumes que, bem vendidos, poderiam 
render por baixo pelo menos 100 milhes, a Crnica sozinha daria, no 
mnimo, no mnimo, cinqenta. Quem sabe por que estavam l, o finado era 
tabelio e a biblioteca era um status symbol, mas devia ser sovina e s 
comprava quando no tinha que gastar muito. Os bons livros deve t-los 
adquirido por acaso quarenta anos atrs, quando s faltavam d-los como 
brinde. Sibilla me disse o que fazer nesses casos, chamei a senhora e foi como 
se eu tivesse feito aquilo a vida inteira. Disse que realmente havia muita coisa, 
mas tudo de pouco valor. Esparramei na mesa os livros mais infelizes, pginas 
amareladas, manchas de umidade, acabamentos frouxos, o marroquim das 
pastas como se tivesse sido lixado, furos que formavam quase uma renda, olhe 
este, doutor, dizia Sibilla, to acabado que no volta ao normal nem com uma 
prensa e eu citei a feira de Sant'Ambrogio. "Nem sei se consigo colocar todos 
eles, e a senhora certamente entende que se ficarem em casa as despesas de 
armazenagem iro s estrelas. Ofereo cinqenta milhes pelo lote inteiro." 

 

 

S2 

"Como pode cham-la de lote?!" Ah, no, cinqenta milhes pela 
esplndida biblioteca, seu marido levou uma vida inteira para reuni-la, seria 
uma ofensa  sua memria. Passagem para a segunda fase estratgica: "Veja 
bem, senhora, temos interesse no mximo nesses dez volumes. Quero deix-la 
satisfeita e ofereo ento trinta milhes por estes dez." A senhora calcula, 
cinqenta milhes por uma imensa biblioteca  uma ofensa  santa memtia 
do falecido, trinta por dez livros apenas  um bom negcio, para o resto h de 
encontrar um outro livreiro menos impertinente e mais magnnimo. Negcio 
fechado. 

Voltamos ao estdio felizes como duas crianas que tivessem acabado de 
aprontar uma travessura. "No  desonesto?" 

"Mas no, Yambo,  o que todos fazem." Ela tambm cita, como eu. "Na 
mo dos seus colegas ela conseguiria menos ainda. E depois voc viu os mveis 
e os quadros e a pratatia?  gente cheia de dinheiro que nem se interessa por 
livros. Trabalhamos para pessoas que realmente amam os livros." 

O que faria sem Sibilla. Dura e suave, astuta como uma raposa. E 
recomecei a fantasiar, entrando de novo na maldita espiral dos dias anteriores. 

Mas por sorte a visita  viva me deixara esgotado. Voltei logo para casa. 
Paola observou que h alguns dias eu parecia ainda mais perdido que antes, 
estava me cansando demais. Melhot it ao estdio dia sim, dia no. 

 

Eu me esforava para pensar em outra coisa: "Sibilla, minha mulher disse 
que eu estava reunindo textos sobre a nvoa. Onde esto?" 

"Eram fotocpias horrorosas, pouco a pouco transferi tudo para o 
computador. No agradea, foi muito divertido. Espere, vou buscar a ficha." 

Sabia que existiam computadores (como sabia que existem avies), mas 
naturalmente era a primeira vez que tocava um deles. Foi como a bicicleta, 
coloquei as mos e meus dedos lembraram sozinhos. 

Reunira pelo menos cinqenta pginas de citaes sobre a nvoa. Devia ser 
muito importante para mim. Aqui est Flatland de Abbott: um pas com duas 
dimenses apenas, onde vivem s figuras planas, tringulos, quadrados e 
polgonos. Como reconhecer um ao outro se no se vem do alto e percebem 
somente linhas? Graas  neblina. "Onde quer que haja uma boa dose de 
Neblina, os objetos que esto a uma distncia, digamos, de um metro, so 
sensivelmente menos ntidos que aqueles que esto a noventa e cinco 
centmetros; por conseguinte, com a experincia de uma atenta e constante 
observao da maior ou menor nitidez, conseguimos inferir com grande 
preciso a configurao do objeto observado." Felizes esses tringulos que 
vagam pela bruma e vem alguma coisa, eis um hexgono, eis um 
paralelogramo. Bidimensionais, porm mais afortunados que eu. 

Sentia que podia antecipar de cor a maior parte das citaes. 

"Como pode", perguntei depois a Paola, "se esqueci tudo aquilo que me diz 
respeito? A coletnea foi feita por mim, como um investimento pessoal." 

"No  que voc lembra", respondeu, "porque as reuniu, voc as reuniu 
porque lembrava. Fazem parte da enciclopdia, como as outras poesias que 
recitou para mim no primeiro dia aqui em casa." 

Seja como for, podia reconhec-las  primeira vista. A comear por Dante: 

 

E tal como no vale, levantando a nvoa, 
ao nosso olhar se configura, pouco a 
pouco, o que o vu ia ocultando - 
assim, seguindo pela senda obscura... 

 

D'Annunzio tem belas pginas sobre a nvoa no Noturno: "Algum que 
caminha a meu lado sem rumor, como se tivesse os ps nus... A nvoa entra na 
boca, ocupa os pulmes. Perto de Canalazzo flutua e se acumula. O 
desconhecido torna-se mais cinza, mais leve; se faz sombra... Sob a casa onde 
fica o antiqurio, desaparece de 

improviso."  isso, o antiqurio  como um buraco negro: o que cai l dentro 
no volta mais. 

Tem Dickens, o clssico incio de Bleak Home: "Nvoa por todo lado. 
Nvoa sobe o rio, que flui entre ilhotas e prados verdes; nvoa desce o rio, que 
escorre inquinado entre as filas de barcos e a imundcie que chega  margem 
de uma grande (e suja) cidade..." Encontro Emily Dickinson: "Lei us go in; 
the fog is rising." 

"No conhecia Pascoli", dizia Sibilla. "Olha que bonito..." Agora estava 
realmente perto de mim para ver a tela do computador, poderia realmente 
roar-me a face com os cabelos. Mas no o fez. Abandonado o francs, 
pronunciava o italiano com uma mole cadncia eslava: 

 

Imveis em meio  
ligeira caligem as 
rvores: longos lamentos 
de vaporeira... 

 

As coisas distantes ocultas, tu, 
nvoa implacvel e alva tu, 
fumo que ainda germinas  
alba... 

 

Deteve-se na terceira citao: "A nvoa... goteja?" Goteja. 

"Ah." Parecia excitada com a nova palavra aprendida. 

 

A nvoa goteja, sopra uma brisa 
enche de estridulas folhas o fosso; 
e leve no ar spia se atira o 
pintarroxo; sob a nvoa vibra a 
cana sonora um tremor ligeiro; 
sobre a nvoa distante plana o 
sineiro... 

Boa nvoa em Pirandello, e dizer que era siciliano: "A neblina se 
enfeitava... Ao redor de cada lampio bocejava uma aurola." Ainda melhor a 

Milo de Savinio: "A nvoa  cmoda. Transforma a cidade numa enorme 
bomboneira, e seus habitantes em outros tantos confeitos... Passam na nvoa 
mulheres e moas encapuzadas. Uma leve fumaa bafeja ao redor das narinas 
e da boca entreaberta... Encontrar-se num salo que os espelhos prolongam... 
Abraar-se cheirando ainda a nvoa, enquanto a nvoa l fora pesa sobre a 
janela, embaando-a discreta, silenciosa, protetora..." 

As nvoas milanesas de Vittorio Sereni: 

 

Os portes escancarados no vazio sobre a tarde de nvoa 

ningum que saia ou desa seno 

uma rajada de smog a voz do ambulante 

-paradoxal - o Tempo de Milo o libi 

e o benefcio da nvoa coisas ocultas 

caminham cobertas movem-se para mim 

divergem de mim passado como histria passado 

como memria: os vinte os treze os trinta e trs 

anos como cifras transviarias... 

 

Recolhi de tudo. E eis King Lear ("que seja envolta na nvoa que o sol 
levanta dos pntanos!"). E Campana? "Da brecha dos basties rubros 
corrodos, na neblina abrem-se silenciosamente as longas estradas. O vapor 
maldoso da neblina imiscui-se entre os palcios velando o cimo das torres, as 
longas estradas silenciosas desertas como depois do saque." 

Sibilla encantava-se com Flaubert: "Uma dia esbranquiado passava pela 
janela sem cortinas, entreviam-se as copas das rvores, e mais alm a pradaria 
meio afogada na nvoa que fumava ao luar." Ou com Baudelaire: "Ora um mar 
de neblina banhava os edifcios, e os agonizantes no fundo dos hospitais." 

Pronunciava palavras dos outros, mas para mim era como se brotassem de 
uma fonte. Talvez algum te deflorasse, boca de nascente... 

Ela estava ali, a nvoa no. Outros a tinham visto e dissolvido em sons. 
Talvez uma dia eu pudesse penetrar de verdade a nvoa, se Sibilla me 
conduzisse pela mo. 

 

J fiz alguns exames com Gratarolo, mas em geral ele aprovou o que Paola 
tem feito. Estimou que agora j estou quase autnomo, assim eliminam-se as 
primeiras frustraes. 

Passei muitas noites com Gianni, Paola e as meninas jogando palavras 
cruzadas, dizem que era meu jogo predileto. Encontro as palavras com 
facilidade, sobretudo as mais abstrusas como acrstico (li-gando-me a acro) 
ou zeugma. Incorporando um i e um u bailarinos na abertura de duas 

palavras verticais, partindo da primeira casa vermelha da primeira linha 
horizontal consegui a segunda, realizando enfiteuse. Vinte e um pontos 
multiplicados por nove, mais cinqenta de prmio por ter usado todas as 
minhas sete letras, duzentos e trinta e nove pontos em um s golpe. Gianni 
enfureceu-se, ainda bem que voc est desmemoriado, gritava. Fazia isso para 
me dar confiana. 

No estou apenas desmemoriado, mas talvez viva agora de memrias 
fictcias. Gratarolo mencionara a possibilidade de que, em casos como o meu, 
a pessoa inventasse retalhos de passado que nunca viveu realmente, s para 
ter a impresso de recordar. Terei pego Sibilla como pretexto? 

De todo modo, precisava sair daquilo. Ficar no estdio transformara-se 
num tormento. Disse a Paola: "Trabalhar cansa. Vejo s e sempre o mesmo 
pedao de Milo, Talvez uma viagem me fizesse bem, o estdio caminha 
sozinho e Sibilla j est preparando o novo catlogo. Poderamos ir, sei l, a 
Paris." 

"Paris ainda  muito cansativo para voc, viagem e tudo o mais. Deixe-me 
pensar." 

"Certo, Paris, no, a Moscou, a Moscou.." 

"A Moscou?" 

"E, Tchecov. Voc sabe que as citaes so meu nico farol na neblina." 

 









4. SOZINHO SIGO PELA CIDADE 

 

 

 

 
Mostraram-me inmeras fotos de famlia, que obviamente no me 
disseram nada. Alm delas, havia apenas as do tempo em que conheci Paola. 
As da infncia, se existem, devem estar em algum lugar em Solara. 

Falei no telefone com minha irm, em Sidney. Quando soube que eu 
estava mal, quis vir imediatamente, mas acabara de passar por uma operao 
bastante delicada e os mdicos proibiram-lhe uma viagem to cansativa. 

Ada tentou evocar alguma coisa, depois desistiu e ps-se a chorar. Pedi 
que, quando viesse, me trouxesse um ornitorrinco para colocar na sala de 
estar, sabe-se l por qu. Segundo o que est ao alcance de meus 
conhecimentos, deveria ter sido um canguru, mas evidentemente sei que 
cangurus em casa fazem muita sujeira. 

 

Freqentava o estdio somente algumas horas por dia. Sibilla est 
preparando o catlogo e, naturalmente, se move muito bem entre as 
bibliografias. Dou uma olhada rpida, digo que est tudo timo e que tenho 
uma consulta marcada com o mdico. Ela me olha sair com apreenso. Sabe 
que estou doente, no  normal? Ou pensa que estou querendo fugir? No 
posso simplesmente dizer "no quero usar voc como pretexto para refazer 
uma memria fictcia, meu pobre querido amor"? 

Perguntei a Paola quais eram as minhas posies polticas: "No gostaria 
de descobrir que sou, sei l, nazista." 

"Voc  aquilo que se chama de um democrtico", respondeu Paola, "mais 
por instinto do que por ideologia. Eu sempre disse que a poltica o entediava 
- e voc, para polemizar, me chamava de la pasionaria. Era como se tivesse 
se refugiado nos livros antigos por medo do mundo, ou desprezo. No, estou 
sendo injusta, no era desprezo, porque voc se inflamava com os grandes 
problemas morais. Assinava apelos pacifistas e pela no-violncia, se 
indignava com o racismo. At se inscreveu em uma liga contra a vivisseco." 

"Animal, imagino." 

"Claro. A vivisseco humana se chama guerra." 

"E sempre... fui assim, mesmo antes de encontrar voc?" 

"Na infncia e na adolescncia voc resvalava.  bem verdade que nunca 
consegui entend-lo nessas coisas. Sempre foi um misto de piedade e cinismo. 
Se havia uma condenao  morte em algum lugar, assinava contra, mandava 
dinheiro para uma comunidade antidroga, mas se lhe diziam que dez mil 
crianas foram mortas, digamos, em uma guerra tribal na Africa, dava de 
ombros, como quem dissesse que o mundo no deu certo e no h nada que se 
possa fazer. Sempre foi um homem jovial, apreciava as belas mulheres, os 

bons vinhos, a boa msica, mas me dava a impresso de que era como que 
uma crosta externa, um modo de se esconder. Quando se soltava, dizia que a 
histria  um enigma sangrento e o mundo um erro." 

"Nada poder tirar-me da mente que este mundo fruto de um deus 
tenebroso cuja sombra eu prolongo? "Quem disse isso?" "No sei mais." 

"Deve ser alguma coisa que tocou voc. Mas voc sempre se desdobrou 
quando algum precisava de alguma coisa, quando houve a enchente em 
Florena, inscreveu-se como voluntrio para tirar da lama os livros da 
Biblioteca Nacional.  isso: era piedoso com as coisas pequenas e cnico com 
as grandes." 

"Parece justo. Cada um faz o que pode. O resto  culpa de Deus, como dizia 
Gragnola." "Quem  Gragnola?" 

"Isso eu tambm no sei mais. Nota-se que antigamente eu sabia." 

O que eu sabia antigamente? 

 

Certa manh acordei-me, fui tomar um caf (descafeinado) e dei de cantar 
Roma non far la stupida stasera. Por que essa msica me veio  cabea? 
Bom sinal, disse Paola, est recomeando. Parece que toda manh, tomando 
caf, cantarolava alguma cano. Nenhuma razo para que me ocorresse 
aquela e no uma outra. As vrias indagaes (o que sonhou esta noite, do que 
lhe falaram ontem  noite, o que leu antes de dormir) nunca produziram uma 
explicao confivel. Talvez, sei l, o modo de enfiar as meias, a cor da camisa, 
uma latinha entrevista com o rabo do olho tenham despertado uma memria 
sonora. 

"S que", notou Paola, "voc sempte cantava canes dos anos cinqenta, 
no mximo regredia s dos primeiros festivais de San Remo, Vola colomba 
bianca ou Papaveri e papere. Nunca antes, nenhuma cano dos anos 
quarenta, ou trinta, ou vinte." Paola mencionou Sozinha sigo pela cidade, a 
grande cano do ps-guerra. Ela tambm, que naquela poca era uma 
menina, lembrava porque tocava sempre no rdio. Claro, tinha a impiesso de 
conhec-la, mas no reagi com interesse, era como se me cantassem Casta 
Diva e, alis, parece que nunca fui muito fantico por pera. No se compa-
rava com Eleonor Rigby, para citar uma, ou Que ser, ser, whatever 
will be, will be ou Sou uma mulher, no uma santa. Quanto s velhas, 
Paola atribua meu desinteresse ao que ela chamava de remoo da infncia. 

Ela notata tambm, no curso dos anos, que eu era um bom conhecedor de 
msica clssica e de jazz, ia de bom grado aos concertos, ouvia discos, mas 
nunca tinha vontade de ligar o rdio. No mximo ouvia como fundo musical, 
se outra pessoa ligasse. Evidentemente o rdio era como a casa de campo, 



coisa de outros tempos. Mas na manh seguinte, acordando e fazendo o caf, 
cantei: 

 

Sozinha caminho pela cidade 

entre a multido que no sabe 

que no pode ver minha dor 

em busca de ti, sonhando, que mais no tenho... 

 

Tento em vo te esquecer 

o primeiro amor no se esquece 

um s nome, s um, se leva escrito no peito 

te conheci e agora sei que s o amor, 

o nico amor, o grande amor. 

 

A melodia saa sozinha. E fiquei com os olhos cheios d'gua. "Mas por que 
justamente essa?", perguntou Paola. "Assim. Talvez porque se chamava Em 
busca de ti. De quem, no sei." 

"Atravessou a barreira dos anos quarenta", refletiu Paola, curiosa. 

"No  isso", respondi, " que senti alguma coisa por dentro. Como um 
arrepio. Como se... Sabe Flatland, voc tambm leu. Pois bem, aqueles 
tringulos e quadrados vivem em duas dimenses, no sabem o que seja 
espessura. Agora imagine que algum de ns, que vivemos em trs dimenses, 
os tocasse do alto. Teriam uma sensao nunca experimentada e seriam 
incapazes de dizer o que era. Como se algum viesse at ns da quarta 
dimenso e nos tocasse de dentro, digamos no piloro, delicadamente. O que 
algum sentiria se o tocassem no piloro? Eu diria... uma misteriosa chama." 

"O que quer dizer uma misteriosa chama?" 

"No sei, saiu assim." 

"E o mesmo que sentiu quando viu a foto de seus pais?" "Quase. Quer dizer, 
no. Mas no fundo, por que no?  quase o mesmo." 

"Esse sinal  interessante, Yambo,  bom anotar." Ela est sempre querendo 
me redimir. E eu, quem sabe, sentia a misteriosa chama pensando em Sibilla. 

 

Domingo. "V dar uma volta", disse Paola, "vai lhe fazer bem. No saia das 
ruas que conhece. No largo Cairoli tem uma banca de flores que em geral fica 
aberta mesmo nos feriados. Mande fazer um belo buqu de flores mistas, ou 
ento de rosas, essa casa parece um funeral." 

Desci at o largo Cairoli e a banca estava fechada. Perambulei um pouco 
pela rua Dante at a Cordusio, virei  direita em direo  Bolsa e vi que ali se 
encontram no domingo todos os colecionadores de Milo. Pela rua Cordusio, 
bancas de selos, ao longo de toda a rua Armorari, velhos cartes-postais, 

figurinhas e depois todo o cruzamento da Passagem Central ocupado por 
vendedores de moedas, soldadinhos, pequenas imagens sacras, relgios de 
pulso, at mesmo cartes telefnicos. O colecionismo  anal, eu devia saber, as 
pessoas esto dispostas a colecionar de tudo, at tampinha de Coca-Cola, e no 
fundo cartes telefnicos custam menos que os meus incun-bulos. Na praa 
Edison,  esquerda bancas de livros, jornais, cartazes publicitrios e em frente 
algumas que vendem quinquilharias variadas, luminrias Liberty, com toda 
certeza falsas, bandejas de flores com fundo preto, bailarinas de biscuit. 

Numa banca havia quatro vidros cilndricos, fechados, nos quais, numa 
soluo aquosa (formol?), formas de cor marfim estavam em suspenso, ora 
redondas, ora como feijes, ligadas por filamentos branqussimos. Eram 
criaturas marinhas, hootrias, pedaos de polvo, corais desbotados, mas 
poderiam ser tambm o parto mrbido da fantasia teratolgica de um artista. 
Yves Tanguy? 

O dono explicou-me que eram testculos: de co, de gato, de galo e de um 
outro animal, conjuntos de rins e coisas do gnero. "Olhe, so peas de um 
laboratrio cientfico do sculo XIX. Quarenta mil cada um. Os vidros 
sozinhos j valem o dobro,  coisa de pelo menos cento e cinqenta anos. 
Quatro por quatro dezesseis, mas eu fao todas por cento e vinte mil. Um 
grande negcio." 

Aqueles testculos me fascinavam. Pelo menos daquela vez era algo que 
no deveria conhecer por memoria semntica, como dizia Giatarolo, e que 
tambm no fazia parte de minha experincia passada. Quem j viu testculos 
de cachorro, quer dizer, sem o prprio ao redor, em estado puro? Remexi nos 
bolsos, tinha quarenta mil no total e no  numa banquinha daquelas que se 
podem pagar com cheque. 

"Levo os do cachorro." 

"Pois faz mal em deixar os outros,  uma ocasio nica." 

No se pode ter tudo. Voltei para casa com meus bagos de cachorro e 
Paola ficou plida; "Curioso, parece mesmo uma obra de arte, mas onde vamos 
pr? Na sala de estar, para que os convidados, a cada vez que oferecermos 
anacardos ou azeitonas de scoli, vomitem no tapete? No quarto? No, 
desculpe. Leve para o estdio, talvez ao lado de algum belo livro setecentista 
de cincias naturais." 

"Pensei que fosse um achado." 

"Mas voc se d conta de que  o nico homem no mundo, o nico na face 
da Terra desde Ado, que a mulher manda comprar rosas e volta para casa 
com um par de colhes de cachorro?" 

"Se no servir para mais nada, pelo menos  coisa para o Guinness. E 
depois, voc sabe, estou doente." 

"Desculpe. J era doido antes. No  por acaso que pediu um ornitorrinco  
sua irm. Uma vez quis enfiar aqui dentro de casa um fliperama dos anos 
sessenta que custava o mesmo que um Matisse e fazia um barulho infernal." 

Paola j conhecia aquela feirinha, disse, alis, que eu tambm devia 
conhecer, certa vez encontrei l a primeira edio do Gog de Papini, capas 
originais, intonso, por dez mil liras. Assim no domingo seguinte quis me 
acompanhar, nunca se sabe, disse, corro o risco de voc voltar para casa com 
testculos de dinossauro e eu ter que chamar um pedreiro para alargar as 
portas para que possam entrar. 

Selos e cartes telefnicos, no, mas me interessavam os velhos jornais. 
Coisa da nossa infncia, disse Paola. E eu: "Ento, deixa para l." Mas a certo 
ponto vi um lbum do Mickey. Peguei-o instintivamente. No devia ser 
velho, era uma reimpresso dos anos setenta, como se deduzia pelo verso da 
capa e pelo preo. Abri na metade: "No  um original, porque eles eram 
impressos em duas cores, com esfumaturas de vermelho tijolo e marrom, e 
esse  impresso em branco e azul." 

Como e que voce sabe: 
"No sei, s sei." 

"Mas a capa reproduz a capa original, veja a data e o preo, 1937, 1,50 
liras." 

 

 

O Tesouro de Clarabela, destacava a capa de vrias cores. "E erraram de 
rvore", disse eu. "Em que sentido?" 

Folheei o lbum depressa e fui com segurana para os quadros certos. Mas 
era como se no tivesse vontade de ler o que estava escrito nos bales, como 
se fossem escritos em outra lngua ou as letras estivessem embaralhadas todas 
juntas. Eu recitava de memria. 

"Veja, Mickey e Horcio foram com um velho mapa em busca de um 
tesouro sepultado pelo av ou tio-av de Clarabela, encala-dos pelo 
asqueroso senhor Squick e pelo perverso Bafo-de-Ona. Chegaram ao local, 
consultaram o mapa, tinham que partir de uma rvore grande, traar uma 
linha at uma rvore menor e fazer a triangulao. Escavam, escavam e no 
encontram nada. At que Mickey tem uma inspirao: o mapa  de 1863, 
passaram-se mais de setenta anos, impossvel que aquela arvorezinha j 
existisse, donde a rvore que agora  grande  a pequena de ento, e a grande 
caiu, mas talvez os restos ainda estejam por a. E de fato, procura, procura, e l 
estava um pedao de tronco; refazem as triangulaes, voltam a cavar e 
encontram, bem naquele ponto, o tesouro." 

 
''Mas como voc pode saber tudo isso?" "Todo 
mundo sabe, no?" 

"No, claro que nem todo mundo sabe", disse Paola excitada. "Essa no  a 
memria semntica. Essa  a memria autobiogrfica. Voc lembrou de uma 
coisa que o impressionou quando era criana! E o que evocou tudo foi a capa." 

"No, no a imagem. Talvez o nome, Clarabela." 

"Rosebud." 

 

Naturalmente compramos o lbum. Passei a noite em cima daquela 
histria, mas no desencavei mais nada. Eu sabia de cor e isso era tudo, 
nenhuma misteriosa chama. 

"Nunca sairei disso, Paola. Nunca penetrarei na caverna." 

"Mas voc lembrou num repente da histria das duas rvores." 

"Proust recordava pelo menos trs. Papel, papel, como todos os livros 
desse apartamento, mais os do estdio. Tenho uma memria de papel." 

"Desfrute do papel, visto que as madeleines no lhe dizem nada. Voc 
no  Proust, tudo bem. Zasetski tambm no era." 

"Carneade, quem era ess" 

"Eu tinha esquecido, quem me lembrou foi Gratarolo. Com a minha 
profisso, no poderia desconhecer Um mundo perdido e reencontrado, 
um caso clssico. S que eu li h muito tempo, por interesse acadmico. Hoje 
eu reli com interesse,  um livrinho delicioso que se percorre em duas horas. 
Ento Lurija, o grande neuropsic-logo russo, acompanhou o caso desse 
Zasetski, que dutante a ltima guerra mundial foi atingido por um estilhao 

sofrendo danos na regio occipcio-parietal esquerda do crebro. Ele desperta, 
como voc, mas num caos terrvel, no consegue nem perceber a posio de 
seu corpo no espao. s vezes acha que algumas partes de seu corpo foram 
trocadas, que sua cabea se tornou desmesuradamente grande, que seu tronco 
ficou desmesuradamente pequeno, que suas pernas deslocaram-se para a 
cabea." 

"No me parece ser o meu caso. As pernas na cabea? E o pnis no lugar do 
nariz?" 

"Espere. Pacincia, as pernas na cabea s lhe acontecia de vez em quando. 
O pior era a memria. Reduzida a retalhos, como se estivesse pulverizada, 
bem diferente da sua. Ele tambm no lembrava onde nascera nem o nome de 
sua me, mas tambm no sabia ler ou escrever. Lurija comea a 
acompanh-lo, Zasetski tem uma vontade de ferro, aprende de novo a ler e 
escreve, escreve, escreve. Durante vinte e cinco anos registra no s tudo 
aquilo que desenterra na caverna devastada de sua memtia, mas tambm o 
que lhe acontece dia aps dia. Era como se sua mo, com seus automatismos, 
conseguisse pr em ordem aquilo que a cabea no conseguia. Como se o que 
escrevesse fosse mais inteligente que ele. Assim reencontrou-se, no papel, 
pouco a pouco. Voc no  ele, mas o que me impressionou  que ele refez 
uma memria de papel. E que levou vinte e cinco anos. Voc j tem o papel, 
mas evidentemente no  esse que est aqui. A sua caverna est na casa de 
campo. Pensei muito nesses ltimos dias, sabe. Voc fechou  chave, 
categoricamente demais, os mapas de sua infncia e de sua adolescncia. 
Talvez exista a alguma coisa que o toca muito de perto. Agora faa-me um 
favor e v para Solara. Sozinho, primeiro porque no posso deixar o tra- 

 

balho, segundo porque precisa fazer tudo isso sozinho. Voc e seu passado 
remoto. Fique l o quanto for necessrio e veremos o que acontece. No 
mximo, vai perder uma semana, talvez duas, e vai respirar ar puro, que mal 
no faz. j telefonei para Amlia." "E quem  Amlia, a mulher de Zasetski?" 

"Sim, a vovozinha. Ainda no lhe contei tudo sobre Solara. Desde os 
tempos de seu av, que Maria e Tommaso, dito Masulu, os meeiros, esto l 
porque naquele tempo a casa tinha muita terra ao redor, sobretudo vinhas e 
bastante gado. Maria o viu crescer e o amava do fundo do corao, assim como 
Amlia, a filha, que deve ter uns dez anos mais que voc, e fez de irm mais 
velha, de bab, de tudo. Voc era o dolo dela. Quando seus tios venderam a 
terra, inclusive a casa de granja no alto, sobraram uma pequena vinha, o 

pomar, a horta, a pocilga, a coelheira e o galinheiro. No tinha mais sentido 
falar em meao e voc deixou tudo para Masulu, como se fosse dele, com o 
pacto de que a famlia cuidasse da casa. Depois, Masulu e Maria se foram, 
Amlia nunca casou - nunca foi uma grande beleza - e continuou a viver ali, 
vende ovos e galinhas na aldeia, o salsicheiro vem quando  preciso abater os 
porcos, sobrinhos ajudam com o banho de verdete nas vinhas e com a 
pequena vindima, em suma, est feliz, s se sente um pouco sozinha e, 
portanto, fica contente quando as meninas vo com as crianas. Paga-se 
apenas o que se consome, ovos, frangos ou salame, mas pelas frutas e verduras 
no tem jeito -  coisa de vocs, diz ela. Uma mulher de ouro, uma cozinheira 
que voc vai ver s. A simples idia de que voc ia para l, ela no cabia mais 
em si, senhorzinho Yambo para c e senhorzinho Yambo para l, que beleza, 
essa doena, eu curo com a salada que ele tanto gosta, vocs vo ver..." 

"Senhorzinho Yambo. Que luxo. A propsito, por que me chamam de 
Yambo?" 

"Para Amlia, voc vai ser o senhorzinho mesmo que tiver oitenta anos. E 
quanto a Yambo, quem me explicou foi a prpria Maria. Era voc mesmo 
quem dizia, eu me chamo Yambo, o do topetinho. E virou Yambo para todos." 

"Topetinho?" 

"Parece que tinha um belo topete. E no gostava de Giambattista, alis, 
posso entender. Mas deixemos de lado as questes de registro civil. V. De 
trem no vai dar, porque teria que fazer baldeao quatro vezes. Nicoletta vai 
lev-lo, ela tinha mesmo que buscar umas coisas que esqueceu no Natal, mas 
volta logo em seguida deixando-o nas mos de Amlia, que vai ench-lo de 
mimo. Ela sabe aparecer quando se precisa dela e sumir quando se quer ficar 
sozinho. H cinco anos pusemos um telefone na casa e podemos nos falar a 
qualquer momento. Experimente, por favor." 

Pedi alguns dias para pensar. Quem falou de viagem primeiro fui eu, para 
fugir das tardes no estdio. Mas queria mesmo fugir das tardes no estdio? 

Estava num labirinto. Qualquer direo que tomasse no seria a boa. E 
depois, de onde eu queria sair? Quem disse Abre-te Ssamo, quero sair? Eu 
queria entrar, como Ali Bab. Nas cavernas da memria. 

 

Mas Sibilla encontrou um modo de resolver meu problema. Certa tarde 
emitiu um soluo irresistvel, cobriu-se de um leve rubor (no sangue, que 
tem difuses de chama em tuas faces, o cosmos cria seus risos), 
atormentou-se por alguns instantes diante de um mao de fichas e disse: 
"Yambo, voc tem que ser o primeiro a saber... Vou me casar." 

"Como, vai se casar?", reagi, quase a dizer: "como se permite"? "Casar. Lembra 
quando um homem e uma mulher trocam alianas e outros jogam arroz?" 

"No, quero dizer... vai me deixar?" 

"E por qu? Ele trabalha num escritrio de arquitetura, mas ainda no 
ganha tanto assim, teremos que trabalhar os dois. E depois, como eu poderia 
deix-lo?" 

Enterrava-lhe o punhal no corao e girava duas vezes. Fim do Pro-
cesso, alis, fim do processo. "E  uma coisa que... j dura h muito tempo?" 

"No, no muito. Nos encontramos algumas semanas atrs, sabe como so 
essas coisas.  um bom rapaz, vai conhec-lo." 

Como so essas coisas. Talvez antes j houvesse outros bons rapazes, talvez 
tenha aproveitado o meu acidente para pr um ponto final numa situao 
insustentvel. Talvez tenha se atirado no primeiro que passou, um salto no 
escuro. E nesse caso eu lhe fizera mal duas vezes. Mas quem lhe fez mal, 
imbecil? Est acontecendo tudo como sempre acontece,  jovem, encontra 
algum de sua idade, apaixona-se pela primeira vez... Pela primeira vez, certo? 
Mas algum h de te deflorar, boca de nascente, e lhe ser graa e 
fortuna no ter te buscado... 

"Preciso lhe dar um belo presente." 

"Mas tem tempo. Ns decidimos ontem  noite, mas quero esperar que 
voc fique bom, assim posso tirar uma semana de frias sem remorso." 

Sem remorso. Que delicadeza. 

Como era mesmo a ltima ficha sobre a nvoa? Quando chegamos  
estao de Roma, na noite da Sexta-Feira Santa, e ela se afastou no 
carro em meio  nvoa, tive a impresso de t-la perdido para sempre, 
sem conserto. 

 

A histria acabava por si s. No importa o que tivesse acontecido antes, 
tudo apagado. Lousa estalando de negra. De agora em diante, s como uma 
filha. 

Sendo assim eu podia partir. Devia, alis. Disse a Paola que iria para 
Solara. Ficou feliz. 

"Vai ver que se sentir bem." 

"Rombo, rombinho, que prncipe s - se fosse por mim no ia 
querer - mas a bruxa da minha mulher- da minha mulher que 
tudo quer." 

"Voc  mesmo perverso. Para o campo, para o campo." 

Aquela noite, enquanto Paola fazia na cama as ltimas recomendaes 
antes da partida, acariciei-lhe o seio. Arrulhou com ternura e senti algo que se 
assemelhava ao desejo, mas misturado a doura e talvez reconhecimento. 
Fizemos amor. 

Como com a escova de dentes, meu corpo evidentemente armazenara a 
memria de como se fazia. Foi uma coisa calma, em ritmo lento. Ela teve seu 
orgasmo primeiro (sempre assim, disse-me depois), eu logo depois. No fundo, 
para mim era a primeira vez. Realmente,  bom como dizem. No estava 
surpreso: era como se j soubesse e, com o corpo, descobrisse s agora que era 
verdade. 

"Nada mau", disse abandonando-me de costas, "agora entendi por que as 
pessoas querem tanto." 

"Jesus!", comentou Paola, "tive que desvirginar meu prprio marido aos 
sessenta anos." 

"Antes tarde do que nunca." 

Mas no pude evitar, adormecendo com a mo de Paola na minha, de 
perguntar-me se com Sibilla seria a mesma coisa. Imbecil, murmurava eu 
perdendo conscincia, isso voc nunca vai saber. 

 

Parti. Nicoletta dirigia e eu a observava, de perfil. A julgar pelas minhas 
fotografias da poca do casamento, o nariz era o meu e tambm o formato da 
boca. Eta realmente minha filha, no me empurraram o fruto de uma culpa. 

(Abrindo-se levemente o decote, divisei de repente em seu colo um 
medalho de ouro com um Y finamente entalhado. Meu bom Deus, disse, 
quem te deu isso? Sempre o tive comigo, meu Senhor, e j o tinha quando 
criana fui enjeitada nas escadarias das Clarissas de Saint-Auban, disse ela. O 
medalho da duquesa tua me! exclamei eu. Tens talvez quatro pequenos 
sinais em forma de cruz sobre o ombro esquerdo? Sim, meu Senhor, mas como 
pode o senhor saber disso? Mas ento, ento tu s minha filha e eu teu pai! 
Pai, meu pai! No, no perde agora, casta inocente, os sentidos. Vamos sait da 
estrada!) 

No falvamos, mas j notara anteriormente que Nicoletta  de natureza 
lacnica, e naquele momento com certeza sentia-se constrangida, temia 
mencionar alguma coisa que eu tivesse esquecido e no queria me perturbar. 
Eu perguntava apenas as direes que tomvamos: "Solara fica na fronteira 
entre Langhe e Monferrato,  um lugar belssimo, voc vai ver, papai." Gostei 
de ouvi-la chamndome papai. 

No comeo, ao sairmos da auto-estrada, via sinais que me falavam de 
cidades conhecidas, Turim, Asti, Alessandria, Casale. Em seguida, fomos nos 
afastando por estradas secundrias onde os painis citavam nomes nunca 
ouvidos de cidadezinhas. Depois de alguns quilmetros de plancie, passada 
uma valera, entrevi de longe o perfil azulado de algumas colinas. Mas de 
repente, o perfil sumiu, tnhamos em nossa frente uma muralha de rvores, e 


o carro avanou seguindo por um corredor frondoso que me fazia pensar em 
uma floresta tropical. Que mefont maintenant tes ombrages et tes ktcsi 

Todavia, passado o corredor com a impresso de seguir sempre em terreno 
plano, j estvamos em um vale coroado por colinas dos lados e atrs. 
Evidentemente, havamos entrado no Monferrato com uma imperceptvel e 
contnua subida, as alturas tinham nos circundado sem que eu me desse conta 
e j entrvamos em um outro mundo, em uma festa de vinhedos ainda jovens. 
Eram, vistos  distncia, cocorutos de vrias alturas, alguns que mal 
despontavam entre os cumes mais baixos, outros mais escarpados, muitos pon-
tilhados de construes, igrejas ou casarios e espcies de castelos, que se 
encastoavam neles com invasiva desproporo e, em vez de complet-los com 
suavidade, davam-lhes como que um empurro para o cu. 

Depois de cerca de uma hora de viagem entre aquelas colinas, onde a cada 
volta se abria uma nova paisagem, como se passssemos de repente de uma 
regio a outra, vi a certa altura um painel que dizia Mongardello. Disse: 
"Mongardello. Depois Corseglio, Monte-vasco, Castelletto Vecchio, 
Lovezzolo, chegamos, no?" 

"Como  que voc sabe?" 

"Todo mundo sabe", disse eu. Mas evidentemente no era verdade, em que 
enciclopdia se fala de Lovezzolo? Estaria comeando a penetrar a caverna? 



 

 

5.0 TESOURO DE CLARABELA 

 

 Por que depois de adulto no ia de bom grado a Solara, realmente eu no 
entendia  medida que me aproximava dos locais da minha infncia. No era 
tanto Solara em si, pouco mais que uma grande aldeia que mal tocamos, 
deixando-a em seu vale em meio a vinhedos sobre colinas baixas, mas o que 
vinha depois, quando se comeava a subir. A certa altura, depois de vrias 
curvas, Nicoletta adentrou uma estradinha secundria e fomos adiante pelo 
menos dois quilmetros ao longo de uma faixa de terra larga o suficiente para 
deixar passar dois carros e que descaa de ambos os lados mostrando duas 
paisagens diferentes. A direita, a regio de Monferrato, feita de picos 
suavssimos enfestoados de fieiras que brandamente se multiplicam, verdes 
contra um cu lmpido de incio de vero, na hora em que (eu sabia) 
exaspera-se o demnio meridiano. Do outro lado eram j os primeiros sinais 
das Langhe, de relevos mais crus e menos modulados, como uma fila de 
cadeias, uma depois da outra, cada qual em perspectiva marcada por tintas 
diversas at desmaiai no azulecer das mais distantes. 

Descobria aquela paisagem pela primeira vez e, todavia, eu a sentia minha 
e tinha a imptesso de que, se desabalasse numa corrida louca pelos vales, 
saberia onde pr os ps e onde ir. Num certo sentido, era como ter conseguido 
dirigir, saindo do hospital, aquele automvel que nunca vira antes. Sentia-me 
em casa. Eia presa de uma indefinida alegria, de uma desmemoriada 
felicidade. 

A faixa de terra continuava em subida pelo flanco de uma colina que 
surgira de repente e, depois de uma alameda de castanheiros-da-ndia, eis a 
casa. Paramos em uma espcie de ptio salpicado de canteiros floridos e 
entrevia-se atrs da construo, um pouco mais alta, uma colina onde ficava 
aquele que devia ser o pequeno vinhedo de Amlia. Chegando era difcil 
distinguir a forma daquele casaro com grandes janelas no primeiro andar, 
que apresentava um vasto corpo central, com uma bela porta de carvalho 
encaixada num arco sob um balco bem na frente da alameda, e duas alas 
laterais menores e de entrada mais modesta. No se percebia o quanto a casa 
se estendia para trs, em direo  colina. O ptio se abria, s minhas costas, 
sobre as duas paisagens que eu acabara de admirar, e com cento e oitenta 

graus de visual, pois a alameda de chegada elevava-se pouco a pouco e a 
estrada percorrida desaparecia l embaixo sem impedir a vista. 

Foi uma rpida impresso, pois entre altos gritos de jbilo logo apareceu 
uma mulher que, pelo que me fora descrito, s podia ser Amlia, de pernas 
curtas, algo robusta, de idade incerta (como preanunciara Nicoletta, entre os 
vinte e os noventa anos), com rosto de castanha seca iluminado por uma 
alegria incontida. Em suma, cerimnia de boas-vindas, beijos e abraos, 
pequenas gafes, logo seguidas de um gritinho abafado por uma mo levada 
rapidamente  boca (lembra, senhorzinho Yambo, isso e aquilo, reconhece, 
no , e por a vai, com Nicoletta que lhe fazia caretas s minhas costas). 

Um turbilho, pouco espao para raciocinar ou perguntar, apenas o tempo 
de descer as bagagens e lev-las para a ala esquerda, que era onde Paola e as 
meninas se instalavam, e onde eu tambm iria dormir, a no ser que quisesse 
ficar no corpo central, dos avs e da minha infncia, que ficava sempre 
fechado, mas como um santurio ("sabe que eu vou de quando em quando 
para limpar o p e arejar, mas s de vez em quando, para evitar que se formem 
maus cheiros, mas sem perturbar aqueles quartos que para mim so como uma 
igreja"). No trreo, porm, os sales vazios ficavam abertos, pois ali 

 

estendiam-se as mas, os tomates e muitas outras coisas boas para 
amadurecer e se conservar  sombra. De fato, dando alguns passos naqueles 
corredores sentia-se o perfume pungente de temperos e frutas e verduras e 
sobre uma mesa comprida j estavam os primeiros figos, os primeiros 
realmente, e no pude me recusar a provar um e a confirmar que aquela 
rvore era mesmo prodigiosa - mas Amlia gritava "como aquela rvore, 
aquelas rvores so cinco, o senhor sabe, e cada uma mais bonita que a 
outta!" Desculpe, Amlia, estava distrado; imagine, com todas as coisas 
importantes que o senhor-zinho Yambo tem na cabea - obrigado, Amlia, 
quem dera eu tivesse mesmo tanta coisa na cabea, o problema  que 
sumiram, puff", numa bela manh de fim de abril, e uma figueira ou cinco 
para mim  a mesma coisa. 

"J tem uva na vinha?", perguntei, querendo me mostrat ativo de mente e 
sentimentos. 

"Mas a uva agora so cachos miudinhos que parecem um pequenino na 
barriga da me, embora este ano com o calor tudo tenha amadurecido mais 

cedo, e vamos esperar que chova. Ter tempo de v-la, a uva, porque vai 
querer ficar at setembro. Ento o senhor esteve um pouco doente e a senhora 
Paola me disse que tenho que levantar o senhor, coisas saudveis e nutritivas. 
Para hoje  noite preparei aquilo que gostava quando era rapazinho, a 
sala-dinha com um banhozinho de azeite e molho de tomate, pedacinhos de 
aipo e cebolinha cortada fininha e todas as ervas que Deus manda, e tenho o 
pozinho branco dc que gostava, aquele bom de mergulhar no molho; o 
biciulan para fazer ajtuccia. E depois um franguinho dos meus, no os do 
avirio, engordados com porcaria, ou, se preferir, coelho com alecrim. 
Coelho? Coelho, j vou logo dar uma pancada na nuca do mais bonito, pobre 
bestiulin, mas  a vida. Oh, senhor,  verdade que Nicoletta j vai embora? 
Que pecado. No importa, ficamos ns dois e pode fazer o que quiser que eu 
no mero o nariz. S vai me ver de manh quando trago o caf com leite e na 
hora da comida, o resto do tempo o senhor faz e desfaz como bem entender." 


"E ento, papai"., disse Ncoietta enquanto carregava as coisas que viera 
buscar, "Solara parece longe, mas atrs da casa tem um atalho que leva 
diretamente  cidade, cortando todas as curvas da estrada. Tem uma descida 
um pouco ngreme, mas com uma espcie de escadaria, e depois j se est na 
plancie. Quinze minutos para ir e vinte para voltar na subida, mas voc 
sempre disse que  bom para o colesterol. Na cidade encontrar jornais e 
cigarros, porm se pedir a Amlia, ela vai s oito da manh, vai de qualquer 
jeito para as coisas dela e para a missa. Mas tem que escrever num papel o 
nome do jornal, e todo dia, seno ela esquece e corre-se o risco dela rrazer o 
mesmo nmero de Gente ou de Stop por sete dias. Realmente no precisa de 
mais nada? Queria ficar, mas mame diz que vai lhe fazer bem ficar sozinho 
entre suas velhas coisas." 

 

Nicoletta partiu, Amlia mostrou meu quarto e de Paola (cheiro de 
lavanda). Arrumei minhas coisas, vesti umas roupas confortveis que recolhi 
por ali, inclusive sapatos acalcanhados que tinham pelo menos vinte anos, de 
proprietrio rural mesmo, e fiquei meia hora na janela olhando as colinas da 
vertente langhiana. 

 

Na mesa da cozinha estava um jornal do perodo natalino (tnhamos estado 
l pela ltima vez para as festas) e comecei a ler enquanto servia um copo de 
moscatel, colocado num balde de gua gelada do poo. Desde o fim de 
novembro as Naes Unidas haviam autorizado o uso da fora para liberar o 
Kuwait dos iraquianos, acabavam de partir para a Arbia Saudita as primeiras 

tropas americanas, falava-se de uma ltima tentativa americana de negociar 
em Genebra com os ministros de Saddam para convenc-lo a se retirar. O jor-
nal me ajudava a reconstruir alguns acontecimentos e eu o lia como se 
trouxesse as ltimas notcias. 

De repente percebi que de manh, na tenso da partida, no fora ao 
banheiro. Fui ento para o banheiro, tima ocasio para acabar de let o jornal, 
e pela janela avistei a vinha. Colheu-me um pensamento, melhor, uma 
vontade antiga: fazer as necessidades entre as fileiras de rvores. Coloquei o 
jornal no bolso e abri, no sei se por acaso ou por virtude de um radar interno, 
um portozinho na parte de trs da casa. Do lado da ala de servio havia 
cercados de madeira e, pelos pios e grunhidos que se ouviam, deviam ser o 
galinheiro com as coelheiras e as pocilgas. No ftindo do horto ficava a trilha 
para subir  vinha. 

Amlia tinha razo, as folhas das vinhas ainda estavam pequenas e os gros 
pareciam contas. Mas eu me sentia numa vinha, com terra sob as solas gastas e 
tufos de mato entre uma fileira e outra. Procurei instintivamente os 
pessegueiros com os olhos, mas no os vi. Esrranho, lera em algum tomance 
que entte as fileiras de videitas -mas  preciso caminhar descalo com o 
calcanhar um pouco caloso, desde pequeno - h pssegos amarelos que s 
crescem em vinhas, que se partem com a presso do polegar e o caroo sai 
quase sozinho, limpo como depois de um tratamento qumico, exceto por 
algum verme branco e gordo na polpa, grudado por um fiozinho. Depois  
comer quase sem sentir o veludo da casca, que faz correr um arrepio da lngua 
at a virilha. Por um segundo, senti o arrepio na virilha. 

Acocorei-me, no grande silncio meridiano, rompido apenas por algumas 
vozes de pssaros e pelo chiado das cigarras, e defequei. 

Sitty season. He read on, seated me calm above his own rising 
smell. Os seres humanos apreciam o perfume dos prprios excrementos, mas 
no o cheito alheio. No fundo fazem parte de nosso corpo. 

Experimentava uma satisfao antiga. O movimento calmo do esfncter 
entre todo aquele verde evocava confusas experincias precedentes. Ou  um 
instinto da espcie. Tenho to pouco de individual e tanto de especfico 
(tenho uma memria de humanidade, no de pessoa) que talvez estivesse 
simplesmente gozando de um prazer j experimentado pelo homem de 
Neandertal. Ele devia tet menos memria do que eu, no sabia sequer quem 
era Napoleo. 

Quando acabei, colheu-me o pensamento de que deveria me limpar com 
folhas, devia ser um automatismo. Mas tinha comigo o jornal e arranquei a 

pgina dos programas de televiso (de todo modo eram de seis meses antes e, 
de qualquer jeito, em Solara no tem televiso). 

Levantei-me e olhei minhas fezes. Uma bela arquitetura em caracol ainda 
fumegante. Borromini. Devia estar com o intestino em forma, pois todo 
mundo sabe que s devemos nos preocupar se as fezes esto moles demais ou 
mesmo lquidas. 

Pela primeira vez via o meu coc (na cidade voc se senta na privada e 
depois puxa logo a descatga sem olhar). Agora eu j o chamava de coc, creio 
que  assim que as pessoas chamam. O coc  a coisa mais pessoal e reservada 
que temos. O resto todos podem conhecer, a expresso do rosto, o olhar, os 
gestos. Mesmo o corpo nu, na praia, no mdico, quando se faz amor. At os 
pensamentos, porque em geral so expressos, ou adivinhados pelos outros 
atravs da maneira como voc olha ou se mostra embaraado. Claro, h 
tambm os pensamentos secretos (Sibilla, por exemplo, mas seja como for eu 
me tra, em parte, com Gianni e quem sabe ela no intuiu alguma coisa, quem 
sabe no est se casando por isso mesmo), mas em geral at os pensamentos se 
manifestam. 

O coc, ao contrrio, no. Salvo um brevssimo perodo de sua vida, 
quando a mame troca as suas fraldas, ele  s seu. E como o meu coc 
daquele momento no devia ser to diferente daquele que produzi no 
decorrer de minha vida pregressa, eis que naquele momento eu me 
reconectava com o eu mesmo dos tempos esquecidos e vivia a primeira 
experincia capaz de reunir com as inmeras ourras precedentes, mesmo 
aquelas dos tempos de menino, quando fazia minhas necessidades nas vinhas. 

Talvez se olhasse bem em torno encontrasse ainda os restos dos cocs 
feitos ento e, triangulando da forma correta, o tesouro de Clarabela. 

Mas parava por aqui. O coc ainda no era a minha infuso de tlia - e bem 
que eu gostaria de ver: como pretendia levar adiante a minha recherche com 
o esfncter? Para reencontrar o tempo perdido, se precisa  da asma, no da 
diarria. A asma  pneumtica,  sopro 

(mesmo dificultoso) do esprito:  para os ricos que podem se permitir quartos 
atapetados de cortia. Os pobres, nos campos, no seguem com a alma, seguem 
com o corpo. 

E no entanto, no me sentia deserdado mas contente, quero dizer, estava 
realmente feliz, de modo nunca experimentado depois do despertar. Os 
caminhos do Senhor so infinitos, disse a mim mesmo, passam at mesmo pelo 
buraco do traseiro. 

 

O dia terminou assim. Vagabundeei um pouco pelos quartos da ala 
esquerda, vi aquele que devia ser o quarto dos netos (um grande aposento com 
trs camas, bonecas e velocpedes ainda abandonados pelos cantos), no quarto 



de dormir estavam os ltimos livros deixados por mim na 
mesinha-de-cabeceira, nada de particularmente significativo. No me 
arrisquei a entrar na ala antiga. Calma, pteciso ganhar intimidade com o lugar. 

Comi na cozinha de Amlia, entre velhos tabuleiros, mesas e cadeiras 
ainda dos pais dela e o cheiro das cabeas de alho penduradas nas traves. O 
coelho estava excelente, mas a salada valia toda a viagem. Deliciava-me 
mergulhando o po naquele molhinho rosado maculado de reas oleosas, mas 
era o prazer da descoberta, no da recordao. De minhas papilas eu no podia 
espetar nenhuma ajuda, eu j sabia. Bebi bastante: o vinho daquelas bandas 
vale todos os vinhos franceses juntos. 

Fui apresentado aos animais da casa: um velho cachorro despelado, Pippo, 
timo para a guarda, conforme garantia Amlia, embora inspirasse 
pouqussima confiana, velho, cego de um olho e abobalhado como parecia, e 
trs gatos. Dois eram intratveis e tinhosos, o terceiro era uma espcie de 
angora preto, de plo basto e macio, que sabia pedir comida com gtaa, 
arranhando minhas calas e acenando com um ronronar sedutor. Gosto de 
todos os animais, acho (no me inscrevera em uma liga contra a vivisseco?), 
mas na simpatia instintiva ningum manda. Preferi o terceiro gato e foram 
para ele os melhores bocados. Perguntei a Amlia como se chamavam os gatos 
e ela respondeu que os gatos no se chamam, pois no so 

 

cristos como os ces. Perguntei se podia chamar o gato preto de Matu e ela 
respondeu que sim, se no me era bastante fazer psss, psss, psss, mas estava 
com ar de quem achava que a gente da cidade, at o senhorzinho Yambo, 
tinha grilos na cabea. 

Os grilos (os de verdade) faziam um grande alarido l fora e fui para o 
ptio ouvi-los. Olhei o cu esperando descobrir figuras conhecidas. 
Constelaes, s constelaes de adas astronmico. Reconheci a Ursa Maior, 
mas como uma daquelas coisas de que tanto ouvira falar. Viera at l para 
aprender que as enciclopdias tm razo. Rerum in interiorem horninem e 
encontrars o Larousse. 

Disse a mim mesmo: Yambo, voc tem uma memria de papel. No de 
neurnios, de pginas. Talvez um dia inventem uma dana-o eletrnica que 
permita ao computador viajar atravs de todas as pginas escritas do incio do 
mundo at hoje, e passar de uma para outra com um toque de dedos, sem que 

ningum possa entender mais onde se encontra e quem , e ento todos sero 
como voc. 

A espera de ter tantos companheiros de desventura, fui dormir. 

Mal acabara de deitar quando ouvi que algum me chamava. 
Convidava-me da janela com um "psssht, psssht" insistente e ciciante. Quem 
poderia me chamar de fora, pendurado nas persianas? Escancarei-as de uma s 
vez e vi fugir na noite uma sombra esbranquiada. Conforme explicou Amlia 
na manh seguinte, era um mocho: quando as casas esto desabitadas aqueles 
bichos gostam de fazer morada no sei se no forro ou nas calhas, mas assim 
que percebem que tem gente por l mudam de refgio. Pena. Porque aquele 
mocho em fuga na noite me fez sentir de novo aquela  qual, com Paola, dera 
o nome de misteriosa chama. Aquele mocho, ou um da congregao, 
evidentemente me pertencia, j me acordara em outras noites e em outras 
fugira na escurido, fantasma desajeitado, ciulan-dario. Ciulandarii Aquela 
palavra eu tambm no podia ter lido nas enciclopdias. Portanto, vinha de 
dentro, ou de antes. 

Dormi sonos agitados e a certa altura despertei com uma forte dor no 
peito. De incio pensei em infarto - sabe-se que  assim que comea -, depois 
levantei e sem pensar fui buscar a bolsa de medi- 

g i 

camentos que Paola me deu e tomei um Maalox. Maalox, donde, gastrite. 
Tem-se um ataque de gastrite quando se come algo que no se deveria comer. 
Na verdade, eu apenas comi demais: Paola disse que devia me controlar, 
enquanto estava por perto, ficava em cima como um co de guarda, agora 
precisava aprender a fazer isso sozinho. Amlia no ajudaria, segundo a 
tradio camponesa comer muito faz sempre bem, s se fica mal quando no 
li o que comer. Quanta coisa eu ainda tinha que aprender. 



6.0 NOVSSIMO MELZI 

 

 Desci at a cidade. Um pouco difcil subir de volta, mas foi um belo 
passeio, e tonificante. Ainda bem que trouxe comigo alguns maos de Gitanes, 
porque l s tinha Marlboro Light. Gente do campo. 

Contei a Amlia a histria do mocho. No riu quando eu disse que pensei 
que fosse um fantasma. Ficou sria: "Os mochos no, so bichos bons que no 
fazem mal a ningum. Mas l embaixo - e apontava a vertente langhiana - l 
embaixo ainda existem metsche. O que so maschl Quase tenho medo s 
de falar, mas voc devia saber, porque o meu pobre pai sempre lhe contava 
essas histrias. Mas pode ficar tranqilo que aqui elas no vm, preferem 
assustar os camponeses ignorantes, no os senhores que talvez conheam a 
palavra justa para faz-las fugir com os cabelos em p. As masche so bruxas, 
mulheres ms que s andam de noite. E se tiver neblina ou tempestade, 
melhor ainda, sentem-se em seu ambiente." 

No quis dizer mais nada, mas como falou em neblina, perguntei se l 
tinha muita. 

"Muita? Jesus, Maria, por demais. s vezes no d para ver nem o comeo 
da alameda aqui da porta de casa, mas o que estou dizendo, daqui no vejo 
nem a frente da casa e quando tinha algum l de noite, mal e mal se entrevia 
a luz que vinha de uma janela, como se fosse uma vela. E mesmo quando no 
chega at aqui, rem que ver a cena l pelos lados das colinas. Pode ser que no 
se veja nada at certo ponto, mas de repente alguma coisa desponta, um 
burrico, uma igrejinha, e depois branco e mais branco atrs, Como se tivessem 
derramado um balde de leite l embaixo. Se ainda estiver aqui em setembro 
pode ser que j d para ver, porque nessas bandas, neblina, a no ser entre 
junho e agosto, tem sempre. L embaixo na cidade tem o Salvatore, um 
napolitano, um napulu que veio trabalhar aqui vinte anos atrs, sabe, na terra 
deles  a maior misria, e ainda no se acostumou, diz que l neles faz tempo 
bom at a Epifania. S vendo as vezes em que j se perdeu pelos campos, que 
quase, quase caa na torrente e foram busc-lo  noite com lanternas. , deve 
ser gente boa, no digo que no, mas no so como ns." Eu recitava em 
silncio: 

 

E olhei o vale: desaparecido todo! 
submerso! Um grande mar plano, 
cinza, sem ondas, sem praias, unido. E 
tinha apenas, c e l, o estranho 
vozeio de gritos curtos e selvagens: 
pssaros naquele mundo vo 
dispersos. E alto, no cu, esqueletos 
de choupos, como suspensos, e sonhos 
de destroos e de silenciosas 
ermitagens. 

 

Mas no momento os destroos e ermitagens, se existiam, estavam ali, em 
pleno sol e nem por isso menos invisveis, pois a nvoa, eu a trazia dentro de 
mim. Ou quem sabe deveria procur-los  sombra? O momento era chegado. 
Eu rinha que entrar na ala central. 

Disse a Amalia que queria ir sozinho, ela sacudiu a cabea e entregou as 
chaves. Parece que so muitos cmodos e Amalia mantm todos fechados 
porque nunca se sabe, sempre pode aparecer algum mal-intencionado. 
Deu-me, portanto, um molho de chaves grandes e pequenas, algumas 
enferrujadas, dizendo que conhecia todas de cor, mas se eu realmente queria 
ir por conta prpria, teria que me virar e experimentar todas elas a cada vez. 
Como quem dissesse: "Tome, j que faz birra como quando era pequeno." 

Amlia deve ter passado por l de manh cedo. No dia anterior, as 
persianas estavam fechadas e agora estavam entreabertas, o suficiente para 
deixar entrar um pouco de luz nos corredores e nos quartos e para ver onde 
colocava os ps. Embora Amlia viesse arejar de vez em quando, tinha um 
cheiro de fechado. No era ruim, era como se transpirasse dos mveis antigos, 
das traves do teto, dos panos btancos estendidos sobre as poltronas (Lenin no 
deveria estar sentado ali?). 

Deixemos de lado a aventura, as vrias tentativas com as muitas chaves, 
que eu me sentia como o carcereiro-chefe de Alcatraz. A escada de acesso 
dava numa sala, uma espcie de antecmara bem mobiliada, com poltronas  
Lenin, justamente, e algumas horrveis paisagens a leo, de estilo oitocentista, 
bem emolduradas na parede. Anda no conhecia o gosto de meu av, mas 
Paola o descrevera como um colecionador curioso: no poderia gostar 
daqueles borres. Da s podiam ser coisas de famlia, talvez exerccios 
pictricos de algum bisav ou bisav. Ademais, na penumbra daquele 

ambiente, no eram notados, eram como manchas nas paredes, e talvez fosse 
justo que l estivessem. 

A sala dava, de um lado, para o nico balco da fachada e, do outro, para 
dois corredores que deslizavam ao longo dos fundos da casa, amplos e 
sombrios, as paredes quase completamente cobertas de velhas estampas 
coloridas. No corredor da direita havia peas de Imagerie d'Epinal, 
representando acontecimentos histricos, Bombardement d'Alexandrie, 
Sige et bombardement de Paris par les Prussiens, Les grandes 
journes de la Rvolution Franaise, Prise de Pkin par les Allis, as 
outras eram espanholas, uma srie de pequenos seres monstruosos, Los 
Orrelis, uma Colcion de monos filarmnicos, um Mundo al revs e 
duas daquelas escadas alegricas com as vrias idades da vida, uma para os 
homens e outra para as mulheres, o bero e as crianas com andadeiras no 
primeiro degrau e assim por diante at a idade adulta no topo, com 
personagens belos e radiosos sobre um pdio olmpico; depois, a lenta descida 
de figuras cada vez mais velhas, que se reduziam, no ltimo degrau, como 
queria a Esfinge, a 
seres com trs pernas, dois trmulos palitos arqueados e uma ben gala, ao 
lado da imagem da morte que espera. 



 

A primeira porta dava para uma vasta cozinha  moda antiga, com uma 
grande estufa e uma imensa lareira de onde pendia ainda uma caldeira de 
cobre. Tudo mobilirio de outros tempos, talvez j herdados pelo tio-av de 
meu av. Agora era antiquariato. Atravs dos vidros transparentes da 
cristaleira, eu via pratos com flores, bules, taas de caf com leite. Busquei 
instintivamente um porta-jornais e, portanto, sabia que devia estar por ali. E 
estava, pendurado num canto perto da janela, de madeira com pirogravuras de 
grandes papoulas chamejantes sobre um fundo amarelo. Se durante a guerra 
faltava carvo e lenha, a cozinha devia ser o nico lugar aquecido e sabe-se l 
quantas noites passei naquele aposento... 

Depois vinha o banheiro, ele tambm em estilo antigo, com uma banheira 
enorme de metal e torneiras tecurvas que pareciam fontes. O lavabo tambm 
parecia uma pia de gua benta. Tentei abrir a torneira e, depois de uma 
seqncia de soluos, jorrou uma coisa amarela que s comeou a clarear 
depois de dois minutos. Vaso e descarga me fizeram pensar nas Termas Reais 
do final do sculo XIX. 

Alm do banheiro, a ltima porta levava a um quarto com uns poucos 
mveis de madeira esverdeada decorada com borboletas, e uma caminha de 
criana, onde, contra o travesseiro, sentava-se uma boneca Lenci, afetada 
como s uma boneca de pano em estilo novecentisra pode ser. Era certamente 
o quarto de minha irm, como testemunhavam tambm alguns vestidinhos 
num armrio, mas parecia ter sido esvaziado de qualquer outro mvel e 
fechado para sempre. Cheirava apenas a umidade. 

Depois do quarto de Ada, o corredor acabava em um armrio no fundo: 
abri, senti um cheiro forte de cnfora e l estavam, bem ordenados, lenis 
bordados, cobertores e um gibo. 

Retornei pelo corredor at a antecmara e emboquei pela parte esquerda. 
Aqui, nas paredes, havia gravuras alems, muito bem-feitas, Zur Geschichte 
der Kostme, esplndidas mulheres de Bornus e belas javanesas, mandarins 
chineses, eslavos de Sebenico com cachimbos to longos quanto os bigodes, 
pescadores napolitanos e malfeitores romanos com bacamartes, espanhis de 
Segvia e Alicante, mas tambm vestes histricas, imperadores bizantinos, pa-
pas e cavaleiros feudais, templrios, damas do sculo XIV, mercadores judeus, 

mosqueteiros do rei, ulanos, granadeiros napolenicos. O gravurista alemo 
representou cada um com as vestes das grandes ocasies, de modo que, assim, 
no apenas os poderosos se exibiam, sobrecarregados de enfeites, armados de 
pistolas de coronhas ara-bescadas, armaduras de desfile, dalmticas suntuosas, 
como tambm o africano mais miservel e o popular mais deserdado 
mostravam-se 
com lenos multicoloridos na cintura, mantos, chapeles emplumados, 
turbantes variegados. 

Talvez, antes dos muitos livros de aventuras, eu tenha explorado a 
policromtica pluralidade das raas e povos da terra naquelas gravuras, com 
molduras quase lineares, muitas j desbotadas por anos e anos de luz do sol, 
que a meus olhos se transformavam em epifanias do extico. "Raas e povos da 
terra", repeti em voz alta, e pensei numa vulva peluda. Por qu? 

 

A primeira porta era da sala de jantar, que no fundo comunicava-se 
tambm com a sala de estar. Dois aparadores falso sculo XV, com portinholas 
de vidros multicoloridos, em crculo e losango, algumas cadeiras Savonarola 
dignas de La Cena delle BefFe e um lampadrio em ferro batido sobre a longa 
mesa. Disse comigo mesmo "capo e massa real", mas no sabia por qu. Mais 
tarde perguntei a Amlia por que na mesa da sala de jantar deveria ter capo e 
massa real, e o que era massa real. Explicou que, no Natal, a cada ano que o 
Senhor mandava a esse mundo, o almoo de Natal tinha que ter capo com 
mostarda doce e picante, e antes dele, massa real, que eram bolinhas amarelas 
para mergulhar no caldo do capo e que depois se desfaziam na boca. 

"Como era boa a massa real,  um crime que no se faa mais, talvez 
porque tenham despachado o rei, pobre criatura ele tambm, bem que eu 
gostaria de dizer duas palavrinhas ao Ducel" 

"Amlia, no tem mais Duce e isso at quem perdeu a memria sabe..." 

"Eu no entendo nada de poltica, mas sei que ele foi mandado embora 
uma vez, mas depois voltou. Oua o que eu digo, ele est por a em algum 
lugar e um dia desses, quem pode saber... De qualquer forma, o senhor seu 
av, que Deus o tenha em sua glria, fazia questo do capo e da massa real, 
seno no era Natal." 

 

Capo e massa real. Ocorreram-me por causa da forma da mesa, do 
lampadrio que devia iluminar aqueles pratos no fim de dezembro? No 
lembrei o gosto da massa real, s o nome. Como naquele jogo que se chamava 
Alvo: mesa liga-se com cadeira ou refeio ou sopa. A mim, trazia-me  
lembrana a massa real, sempre por associao de palavras. 

Abri a porta de um outro vo. Era um quarto de casal e tive um momento 
de hesitao antes de entrar, como se fosse um lugar proibido. As silhuetas dos 
mveis pareciam imensas na penumbra e a cama, ainda com dossel, parecia 
um altar. Seria o quarto de dormir de meu av, onde no se devia colocar os 
ps? Teria morrido ali, consumido pela dor? E eu, estive l para dar-lhe um 
ltimo adeus? 

O quarto seguinte tambm era de dormir, mas com um mobilirio de 
poca indefinvel, um pseudobarroco, sem ngulos e todo curvas, e curvas 
eram as umbreiras laterais do grande guarda-roupa espelhado e da cmoda. 
Fiquei com um n na garganta, como quando vi, no hospital, a foto de meus 
pais em seu casamento. A misteriosa chama. Quando tentei descrever o 
fenmeno para o doutor Gratatolo, ele perguntou se era como uma 
extra-sfstole. Pode ser, respondi, mas acompanhada de uma quentura que sobe 
pela garganta - ento no, disse Gratarolo, as extra-sstoles no so assim. 

 

 

 que eu acabava de ver um livro, pequeno, encadernado em marrom, 
sobre o mrmore da mesinha-de-cabeceira da direita, e fui direto abri-lo, 
dizendo comigo mesmo "riva lafilotea". Como se dissesse, em dialeto, que 
alguma coisa est chegando, arriva... o qu? 

Tive a sensao de que aquele mistrio vinha me acompanhando h anos, com 
a pergunta em dialeto (mas eu falava dialeto?) La riva? Sa c  cl riva O 
que ser que chega? Uma filotea, um trlebus, um bonde que segue de noite, 
um telefrico misterioso? 

Abri o livro com a sensao de quem est cometendo um sacrilgio, e era 
La Filotea, uma antologia de preces, meditaes pias, com a lista das feriados 
e calendrio dos santos, do sacerdote milans Giuseppe Riva, de 1888. O livro 
estava quase desconjuntado e as folhas desfaziam-se sob os dedos s de tocar. 
Reacondicionei-o piedosamente (seja como for,  meu ofcio tratar com 
cuidado os livros antigos), mas vi que na lombada estampava-se em uma 
cunha vermelha, em letras de ouro j desbotadas, "Riva La Filotea . Devia 
ser o livro de oraes dc algum, que eu nunca ousara abrir mas que, com 
aqueles dizeres ambguos, sem distino entre autor e ttulo, anunciava para 
mim a chegada iminente de alguma inquietante diligncia ligada por uma 
antena a um fio eltrico. 

Em seguida, virei-me e vi que nas laterais curvas da cmoda abriam-se 
duas portinholas: com o corao batendo, apressei-me a abrir a da direita, 
olhando ao redor como se temesse ser visto. Dentro havia trs prateleiras, 
tambm com a superfcie curva, mas vazias. Sentia-me perturbado como se 
estivesse cometendo um furto. Talvez se tratasse de um antigo furto: 
costumava remexer naquelas prateleiras porque talvez contivessem alguma 
coisa que eu no deveria tocar, ou ver, e o fazia escondido. Agora eu podia ter 
certeza, por uma deduo quase policial: aquele era o quarto de meus pais, a 
Filotea era o livro de oraes de minha me, naqueles escaninhos da cmoda 
eu ia pr as mos em algo ntimo, sei l, velhas correspondncias, ou um 
porta-moedas, ou envelopes de fotografias que no podiam ir para o lbum de 
famlia... 

Mas se aquele era o quarto de meus pais e como Paola disse que nasci aqui, 
na casa de campo, era tambm o quarto onde vim ao mundo. Que algum no 
lembre o quarto onde veio ao mundo  natural, mas aquele que lhe mostraram 
por anos a fio dizendo que nasceu ali, naquela cama, onde certas noites quis 
dormir entre mame e papai, onde sabe-se l quantas vezes, j desmamado, 
quis sentir o perfume do seio que o aleitou, aquele quarto deveria ter deixado 
pelo menos um trao em meus malditos lobos. No, tambm naquele caso meu 
corpo conservara apenas a memria de alguns gestos muitas vezes repetidos, e 
s. Como quem diz que, se quisesse, poderia repetir por instinto o movimento 
de suco da boca que aferra o mamilo, mas depois tudo estaria acabado, sem 
saber dizer de quem era o seio e qual o sabor do leite. 

Vale a pena ter nascido, se depois voc no lembra? E, tecnicamente 
falando, teria eu nascido? Eram os outros que o diziam, como sempre. Pelo 
que sabia, nasci em fins de abril, aos sessenta anos, num quarto de hospital. 

O senhor Pipino, nascido velho e morto menino. Que histria era aquela? 
Donde, o senhor Pipino nasce em uma couve aos sessenta anos, com uma bela 
batba btanca, d incio a uma srie de aventuras, rejuvenescendo cada dia um 
pouco at tornar-se criana, depois lactente, e apaga-se ao lanar o seu 
primeiro (ou ltimo) vagido. Devo ter lido essa histria em um livro da minha 
infncia. No, impossvel, teria esquecido junto com o resto, talvez a tenha 
visto citada, talvez h quarenta anos, em uma histria da literatura infantil -eu 
no sabia tudo da infncia de Vittorio Alfieri e nada da minha? 

Em todo caso, tinha que me lanar  reconquista de meu registro civil ali,  
sombra daqueles corredores, para poder pelo menos morrer em cueiros vendo 
enfim o rosto de minha me. Oh, Deus! E se me inspirasse vendo o rosto de 
uma parteira gorda, com bigodes de diretora escolar? Garcia 1'Orca. 

 

No fundo daquele corredor, depois de um escabelo sob a ltima janela, 
havia duas portas, uma no fundo e uma  esquerda. Abri a da esquerda e entrei 
num amplo gabinete, aquoso e severo. Uma mesa de mogno, dominada pot 
uma luminria verde, daquelas de biblioteca nacional, era iluminada por duas 
janelas de vidros coloridos que davam para a parte de tts da ala esquerda, 
talvez a mais silenciosa e reservada da casa, e que ofereciam uma paisagem 
soberba. 

Entre as duas janelas, o retrato de uni velho senhor, com bigodes brancos, 
posando como quem ainda se oferece a um Nadar campons. Impossvel que a 
foto j existisse quando meu av estava vivo, uma pessoa normal no mantm 
o prprio retrato diante dos olhos. Meus pais no poderiam t-la colocado, 
visto que meu av morreu depois deles e justamente por causa da dor de seu 
falecimento. Talvez os tios, ao liquidarem a casa da cidade e os campos em 
torno de Solara, tivessem reorganizado aquele quarto como um cenotfio. De 
fato, nada revelava que tivesse sido um local de trabalho, um local habitado. A sobriedade era morruria. 

Nas paredes uma outra srie de Images dTpinal, com inmeros 
soldadinhos em uniformes azuis e vermelhos, Infanterie, Cuirassiers, Dragons, 
Zouaves. 

Chamou-me ateno a biblioteca, ela tambm de mogno: deslizava ao 
longo de trs paredes, mas estava praticamente vazia. Em cada prateleira 
enfileiravam-se dois ou trs livros, para decorao, justamente como fazem os 
maus arquitetos, que arranjam para o cliente um pedigree de falsa cultura, 
deixando espao para vasos La-lique, fetiches africanos, pratos de prata, 
garrafas de cristal. Mas ali no se viam nem mesmo essas peas de 
quinquilharia cara: apenas velhos atlas, uma srie de revistas francesas em 
papel patinado, o Novssimo Melzi de 1905, dicionrios de francs, ingls, 
alemo e espanhol. Impossvel que meu av, livreiro e colecionista, vivesse 
diante de uma biblioteca vazia. Mas, de fato, eis que numa prateleira, em uma 
moldura prateada, via-se uma foto, tirada evidentemente de um canto do 
aposento, quando o sol entrava pelas janelas e iluminava a escrivaninha: meu 
av estava sentado com um ar levemente surpreso, em mangas de camisa (mas 
de colete), quase submerso entre dois montes de livros que obstruam a mesa. 
Atrs dele, as prateleiras cheias de livros, e entre os livros pilhas de jornais 
amontoados em desordem. No canto, no cho, entreviam-se outras pilhas, 
talvez revistas, e caixas cheias de outro tipo de papelada que parecia 
amontoada ali s para no ser jogada fora. Pronto, assim devia ser o quarto de 
meu av quando era vivo, o armazm de um salvador de todo tipo de material 
tipogrfico, que outros jogariam no lixo, a estiva de um navio fantasma que 

transportava documentos esquecidos de um mar para outro, um lugar onde 
algum poderia se perder se comeasse a remexer cada pilha ou calhamao. 
Onde foram parar todas aquelas maravilhas? Evidentemente, vndalos 
respeitosos deram sumio em tudo aquilo que poderia causar desordem, tudo 
fora. Tudo vendido a algum miservel depenador de velhinhos? Quem sabe, 
foi depois de toda aquela faxina que resolvi no ver mais aqueles quartos, que 
decidi esquecer Solara? No entanto, naquele quarto, ano aps ano, devo ter 
passado horas e horas com meu av, descobrindo com ele sabe-se l que 
portentos. Tambm aquele ltimo pilar do meu passado me fora subtrado? 

Sa do escritrio e entrei no quarto do fundo do coiredor, bem menor e 
menos austero: mveis mais claros, feitos talvez por um marceneiro local,  
antiga, suficientes para um rapazola. Uma cama num canto, muitas estantes 
praticamente vazias, salvo uma fila de belas encadernaes vermelhas. Em 
uma mesinha de estudante, bem ordenada com uma pasta preta no centro e 
outra luminria verde, havia um exemplar gasto do Campanini Carboni, o 
dicionrio de latim. Em uma parede, presa por dois preguinhos, uma imagem 
que provocou outra misteriosssima chama. Era a capa de uma partitura 
musical, ou o reclame de um disco, Varrei volare, mas eu sabia que remetia a 
um filme. Reconhecia George Formby, seu sorriso eqino, sabia que cantava 
acompanhando-se ao uquelele, e podia rev-lo entrando com uma moto j 
fora de controle num palheiro, saindo do outro lado no meio de um alarido de 
galinhas, enquanto na mo do coronel caa um ovo, um belo ovinho pra ti - e 
depois via Formby desabar em parafuso com um avio de outros tempos, no 
qual se enfiara por engano, e cair de novo de cabea - ah, quanta risada, de 
morrer de rir, "j vi tts vezes, j vi trs vezes", estava quase gritando. "O 
cinema mais engraado que j vi", repetia comigo mesmo, e dizia cinema, 
com acento no e, como evidentemente ainda se dizia naquela poca, pelo 
menos no interior. 


Era com certeza, o meu quarto, dormitrio e pequeno escritrio, mas, 
exceto aquele pouco, o resto estava vazio, como se fosse o quarto do grande 

poeta na casa natal, um donativo na entrada e uma encenao que fizesse 
sentir o perfume de uma inevitvel imortalidade. Aqui foi composto Canto 
de agosto, Ode aos Termpilas, Elegia ao barqueiro moribundo... E ele, 
o Grande? Ele no existe mais, consumido pela tsica na idade de vinte e trs 
anos, bem naquela cama, e veja o piano, ainda aberto como foi deixado por Ele 
no ltimo dia passado nessa terra, est vendo? Sobre o l central ainda se v a 
mancha de sangue que lhe caiu dos lbios plidos enquanto tocava o Preldio 
da gota d'gua. Esse quarto s faz recordar a sua breve passagem terrena, 
vergado sobre seus suadssimos papis. Mas c os papis? Esto guardados na 
Biblioteca do Colgio Romano e s se pode v-los com autorizao do Av. E 
o Av? Morto. 

Furibundo, voltei ao corredor e debrucei-me na janela do ptio chamando 
Amlia. Mas ser possvel, perguntei, que nesses quartos no existam mais 
nem livros nem outra coisa, que no meu quarto no se vejam nem 
brinquedos? 

"Mas senhorzinho Yambo, s ficou nesse quarto at os dezesseis, dezessete 
anos. E queria que os brinquedos ainda estivessem guardados? E por que lhe 
vieram  cabea agora, cinqenta anos depois?" 

"Deixe estar. Mas, e o escritrio de meu av? Devia estar cheio de coisas. 
Onde foram parar?" 

"L em cima no sto, tudo no sto. Lembra dele? Parece um cemitrio, a 
mim me d tristeza, s subo para espalhar os pratinhos com leite. Por qu? 
Ora, porque assim os trs gatos da casa ficam com vontade de subir, e uma 
vez l, divertem-se caando os ratos. Foi uma idia do senhor seu av: tem 
muito papel no sto,  preciso manter os ratos bem longe, porque no campo, 
o senhor sabe, por mais que se faa...  medida que o senhor ia crescendo, as 
coisas de antes iam parar no sto, como as bonecas de sua irm. E depois, 
quando seus tios meteram a mo aqui dentro, bem, no  que eu queira 
criticar, mas poderiam pelo menos deixar as coisas onde es- 
tavam. Nada, foi como fazer obras para as festas. Tudo despachado para o sto. 
 claro que o andar onde o senhor est agora se transformou num cemitrio e 
quando voltou com a senhora Paola, ningum quis mexer e por isso 
resolveram ir para a outra ala, mais acanhada, porm mais fcil de manter 
arrumada, e a senhora Paola deixou-a como um lugar de cristo..." 

Se espervamos encontrar na ala principal a caverna de Ali Bab com todas 
as suas nforas cheias de moedas de ouro, diamantes grandes como nozes e 
tapetes voadores prontos para decolar, estvamos redondamente enganados, 
Paola e eu. As salas do tesouro estavam vazias. Seria necessrio subir ao sto 
para trazer de volta tudo o que descobrisse, devolvendo-as ento a seu estado 
original? Sim, mas precisaria lembrar como era o estado original e, ao 
contrrio, cu estava fazendo toda aquela ciranda justamente para lembrar. 

Voltei ao escritrio de meu av e vi, em cima de uma mesinha de canto, 
um toca-discos. No um velho gramofone, mas um tocadiscos com caixa 
incorporada. Pelo desenho devia ser dos anos cinqenta, s para setenta e oito 
rotaes. Ento meu av gostava de ouvir discos? Ser que os colecionava, 
como todas as outras coisas? E onde estavam? No sto, eles tambm? 

Comecei a folhear as revistas francesas. Eram revistas de luxo, de margens 
desenhadas e ilustraes em cores de estilo pr-rafaelita, plidas damas em 
colquio com cavaleiros do Santo Graal. E contos e artigos, eles tambm 
emoldurados por volutas liriais, e pginas de moda, j em estilo art dco, com 
senhoras filiformes, cabelos curtos e roupas de chijfon ou seda bordada, de 
cintura baixa, colos nus e amplos decotes nas costas, lbios sangrentos como 
uma ferida, longas piteiras das quais saam preguiosas volutas de fumaa 
azulada, chapeuzinhos com vu. Esses artistas menores sabiam desenhar o 
cheiro de p-de-arroz. 

As revistas alternavam um retorno nostlgico a um Liberty que mal 
terminara com a explorao daquilo que estava na moda, e talvez a aluso a 
belezas apenas desusadas conferisse uma ptina de 

nobreza s propostas da futura Eva. Mas foi numa Eva de pouco tempo atrs, 
evidentemente fora de moda, que me detive com o corao aos pulos. No era 
a misteriosa chama, era taquicardia das boas, soluos de nostalgias do presente. 

Era um perfil feminino com longos cabelos dourados, um odor velado de 
anjo decado. Recitei mentalmente: 

 

E longussimos lrios de sacro palor 
Morriam-te nas mos qual crios evanescentes. 
Emanavas dos dedos perfumes languescentes 
No hlito esmorecido de suprema dor. De tuas 
claras vestes pouco a pouco partia O amor, e a 
agonia. 

 

Por Deus, devo ter visto aquele rosto, quando menino, rapazola, 
adolescente, talvez ainda no limiar da fase adulta, e ficou-me impresso no 
corao. Era o perfil de Sibilla. Donde, conhecia Sibilla de um tempo 
imemorial, um ms atrs, no estdio, eu s a reconhecera. Mas o 
reconhecimento, ao invs de gratificar-me, levar-me a ternuras renovadas, 
agora me encrespava a alma. Porque naquele momento eu me dava conta de 
que ver Sibilla simplesmente trouxera  vida um camafeu da minha infncia. 
Talvez j tivesse feito isso da primeira vez que a vi: pcnsci-a imediatamente 
como objeto de amor, assim como era objeto de amor aquela imagem. Em 
seguida, quando a reenconttei depois do despertar, atribu a ns dois uma 
histria que era apenas uma fantasia de quando ainda usava calas curtas. 
Entre mim e Sibilla nada havia alm daquele perfil? 

E se nada alm daquele rosto houvesse entre mim e todas as mulheres que 
conheci? Se no tivesse feito mais que seguir o rosto visto no escritrio de meu 
av? De repente, a busca a que me dedicava naqueles quartos assumia um 
outro valor. No era apenas a tentativa de recordar o que acontecera antes de 
deixar Solara, mas tambm de compreender por que fiz o que fiz depois de 
Solara. Mas seria mesmo isso? No vamos exagerar, dizia-me, na verdade voc 
viu uma imagem que evocou uma mulher encontrada ontem. Talvez 

 

essa figura lembre Sibilla s porque  esbelta e loura, outra pessoa poderia 
pensar, sei l, em Greta Garbo ou na moa da porta ao lado.  voc que ainda 
est afogueado e, como o sujeito da piada (contada por Gianni quando lhe 
disse dos testes no hospital), v sempre aquilo em todas as manchas de tinta 
que o mdico mostra. 

Mas, em suma, veio aqui para reencontrar seu av e s pensa em Sibilla? 

 

Chega de revistas, posso v-las depois. Logo fui atrado pelo Novssimo 
Melzi de 1905, 4.260 gravuras, 78 tabelas de nomenclatura figurada, 1.050 
retratos, 12 cromolitogravuras, Antonio Vallardi, Milo. Mal o abri e,  vista 
daquelas pginas amareladas de caracteres em corpo 8 e pequenas figuras no 
incio dos verbetes mais importantes, fui logo procurando aquele que sabia 
que precisava encontrar. As torturas, as torturas. E, de fato, l estava ela, a pgina com os vrios tipos de suplcio, a fervura, a crucifixo, o aguilho, com 
a vtima iada e depois largada com os glteos sobre uma almofada de pontas 
de ferro afiladas, o fogo, com a tostadura das plantas dos ps, a grelha, o 
entetramento, a pira, a fogueira, a roda, o esfolamento, o espeto, a serra, 
pardia atroz de um espetculo de prestidigitao, com o condenado em uma 
caixa e dois carnfices com uma grande lmina dentada, salvo que aqui, no 
final, o sujeito era realmente serrado em dois pedaos, o esquartejamento, 
quase como  precedente, exceto que nesse caso uma lmina acionada a 
manivela deveria, presume-se, dividir o infeliz na longitudinal, e depois o 
arrastamento, com o culpado ligado ao rabo de um cavalo, o torniquete nos 
ps e, o mais impressionante de todos, o empala-mento - e na poca no devia 
saber nada das florestas de empalados ardentes,  luz dos quais o voivoda 
Drcula fazia sua ceia, e assim por diante, trinta tipos de tortura, uma mais 
cruel que a outra. 

As torturas... Fechando os olhos, logo depois de chegar quela pgina, 
poderia citar uma por uma, e o suave horror, a calma exaltao que 
experimentava eram os meus daquele momento, no os de um outro que eu j 
no conhecia. 

Quanto devo ter me demorado nessa pgina. Mas quanto tambm nas 
outras, algumas coloridas (e chegava a elas sem nem precisar da ordem 
alfabtica, como se seguisse a memria de meus dedos): os cogumelos, 
carnosos, e mais belos dentre todos os venenosos, a tinhosa dourada de chapu 
vermelho pontilhado de branco, o agrico sanguneo de um amarelo pestfero, 
o bolero malfico, a rossola como um lbio carnoso aberto numa careta; e 
depois os fsseis, com o megatrio, o mastodonte e o moa; os instrumentos 
antigos (o ramsinga, o olifante, a trombeta, o alade, a rabeca, a harpa elica e 
a harpa de Salomo); as bandeiras de todo o mundo (com pases que se 
chamam China e Cochinchina, Malabar, Congo, Tabor, Marates, Nova 
Granada, Saara, Samoa, Sandwich, Valquia, Moldvia); os veculos com o 
nibus, o faeton, o fiacre, o landau, o cup, o cabriole, a sege, a diligncia, o 
carro etrusco, a biga, a torre elefantina, a carroa, a berlinda, o palanquim, a 
liteira, o tren, a polia, a carreta; os veleiros (e eu que acreditava ter absorvido 
de sabe-se l qual histria de aventuras de mar termos como bergantim, 
me-zena, contramezena, belvedere, gvea, mastro, mastro de vante, periquito, 
joanete, traquete, buja e bujarrona, pau de surriola, a pique, gurups, gvea, 
murada, vela a barlavento timoneiro do diabo, casco de mil bombardeiras, 
com mil troves, solta o papa-figo, todos a bombordo, irmos da Costa!); e 
mais, as armas antigas, a maa dasatada, o flagelo, a espada de justiceiro, a 
cimitarra, o punhal de trs lminas, a adaga, a alabarda, o arcabuz, a roda, a 
bombarda, o arete, a catapulta; e a gramtica da herldica, campo, faixa, 
mastro, banda, barra, partido, quebrado, trinchado, aquartelado, agremiado... 
Aquela foi a primeira enciclopdia da minha vida e devo t-la folheado 
longamente. As margens das pginas estavam gastas, muitos verbetes 
sublinhados, aqui e ali viam-se rpidas anotaes laterais numa caligrafia 
infantil, na maioria transcries de termos difceis. Aquele volume fora usado 
at o osso, lido e relido e amassado, e muitas folhas estavam se soltando. 

Formou-se aqui o meu primeiro saber? Espero que no, escarneci depois 
de ler alguns verbetes, e justamente os mais sublinhados: 

Plato. Ins. fils, grego, o maior dos fils, da antigidade. Foi 
discp. de Scrates, cuja doutrina desposa nos Dilogos. Reuniu uma 
bela coleo de objetos ant. 429-347 a. C. 

Baudelaire. Poeta paris., extravagante e artificial na arte. 

 

Evidentemente  possvel liberar-se tambm da m educao. Depois disso 
cresci em idade e sabedoria e, na universidade, li Plato quase todo. Ningum 
jamais confirmou que tivesse reunido uma coleo de objetos antigos. Mas e se 
fosse verdade? E se essa fosse para ele a coisa mais importante, sendo o resto 
um ganha-po para permitir-se tal luxo? Na verdade aquelas torturas 
existiram e no acredito que os livros de histria que circulam nas escolas as 
ensinem, o que  ruim, precisamos saber de que somos feitos, ns, estirpe de 
Caim. Cresci ento pensando que o homem fosse irremediavelmente mau e a 
vida um conto cheio de som e fria? Por isso Paola dizia que eu dava de 
ombros quando morria um milho de crianas na Africa? Teria sido o 
Novssimo Melzi a me fazer desconfiado da natureza humana? Continuava a 
folhe-lo: 

 
Schumann (Rob.) Cl. comps, alemo. Escreveu o Paraso e a Peri, 
muitas Sinfonias, Cantatas, etc. 1810-1856 - (Clara). Distinta pianista, 
viva do preced. 1819-1896. 

 

Por que viva? Em 1905, ambos estavam mortos h tempos, por acaso se 
diz que Calprnia era a viva de Jlio Csar? No, era a mulher, mesmo que 
tenha sobrevivido a ele. Por que somente Clara  viva? Mas, santo Deus, o 
Novssimo Melzi tambm era sensvel a maledicncias e foi depois da morte 
do marido, talvez antes mesmo, que Clara teve uma relao com Brahms. 
Leiam-se as datas (o Melzi, como o orculo de Delfos, no diz e no esconde, 
apenas insinua), Robert morre quando ela tinha apenas trinta e sete anos, 
destinada a viver outros quarenta. O que deveria fazer nessa idade uma bela e 
distinta pianista? Clara pertence  histria como viva, e o Melzi registrava 
isso. Como a histria de Clara chegou ao meu conhe- 

 

cimento? Talvez o Melzi tenha desencadeado em mim uma curiosidade a 
respeito daquela "viva". Quantas palavras sei porque as aprendi ali? Por que 
ainda sei, com adamantina certeza, e em meio  minha tempestade cerebral, 
que a capital de Madagascar  Antananarivo? L encontrei termos com o sabor 
de frmula mgica, vita, beija-mo, benjoim, baba-ovo, cerasta, crivador, 
dogmtica, galiosso, bernardo-eremita, inescurecvel, sujeirada, morcela, 
pasto, aposte-moso, donzelona, aldrabar, espelho, versuto, drasto, Albrogos, 
Ritchu, Kafiristo, Dongola, Assurbanpal, Filoptor. 

 

Folheei os atlas: alguns eram velhssimos, antes mesmo da guerra de 
1914-18, e na Africa, com uma cor cinza-azulada, ainda se viam as colnias 
alems. Devo ter freqentado muitos atlas a vida inteira - no acabara de 
vender um Ortelius? Mas ali alguns nomes exticos assumiam um ar familiar, 
como se devesse partir daqueles mapas para recuperar outros mapas. O que 
uma a minha infncia  DeutschOstafrika, s Nederlandsch-Indie e sobretudo 
a Zanzibar? De todo modo era indubitvel que cm Solara uma palavra evocava 
outra. Conseguiria subir por essa cadeia at a palavra final? E qual? "Eu"? 

 

Voltei a meu quarto. Tive a impresso de saber uma coisa sem nenhuma 
hesitao. No Campanini Carboni no tem a palavra merda. Como se diz em 
latim? O que exclamava Nero quando ao pendurar um quadro esmagava o 
* Em italiano, em sua prpria casa, confundido com di s, de si. {Ar. da 77) 





dedo com o martelo? Qualis artifex perei Para um menino esses eram 
problemas srios, e a cultura oficial no dava respostas. Ento recorria-se aos 
dicionrios no-esco-lsticos, acho eu. El estava, o Melzi registrava merda, 
merdeiro, merdcola, merdocco, "emplastro para arrancar plos, usado 
especialmente pelos judeus" - devo ter me perguntado quantos plos teriam os 
judeus. Tive como que um lampejo e ouvi uma voz: "O dicionrio da minha 
casa diz que uma pitaa  um mulher que faz o seu comrcio da s.*" Algum, 
um colega de escola, desencavou em outro dicionrio aquilo que no havia 
nem no Melzi, tinha nos ouvidos o verbete proibido em forma semidialecal (a 
palavra devia ser ptnnd) e aquele "fazer comrcio da s" deve ter me 
intrigado por muito tempo. O que poderia haver de to proibido em 
comerciar, como dizer, sem intermedirio ou contador, em casa? E claro, a 
puta do prudente dicionrio fazia comrcio de si, mas meu informante 
traduzira mentalmente da nica maneira que resgatava para ele o sentido de 
uma aluso maligna, daquelas que se ouvia em casa: "Espertinha, aquela l, faz 
todo o seu comrcio em casa..." 

Revi alguma coisa, o lugar, o menino? No, era como se reemer-gissem 
frases, seqncias de palavras escritas numa histria lida tempos atras. FLitus 
voeis. 

Os livros encadernados no podiam ser meus. Certamente peguei-os com 
meu av ou talvez meus tios os tenham transferido do escritrio para meu 
quarto por razes cenogrficas. A maior parte eram cartonns da Collection 
Hetzel, a obra completa de Verne, encadernao vermelha com frisos 
dourados, capas multicoloridas com enfeites em ouro... Talvez tenha 
aprendido o meu francs naqueles livros, e mais uma vez fui direto s imagens 
mais memorveis, o capito Nemo que v o polvo gigante pela grande 
escotilha do Nautilus, a aetonave de Robur, o Conquistador, cheia de antenas 
tecnolgicas, a bola que desaba sobre a Ilha Misteriosa {Vamos subir de 
novo? - No, ao contrrio, vamos descer! - Pior ainda, senhor Ciro, 
vamos desabar!), o enorme projtil apontado para a lua, as grutas do centro 
da terra, Keraban, o obstinado e Miguel Strogoff... Quem sabe quanto me 
inquietaram essas figuras que emergiam sempre de um fundo escuro, 
delineadas com finos traos negros alternados a feridas esbranquiadas, um 
universo desprovido de zonas cromticas campidas de modo homogneo, uma 
viso toda feita de arranhes, esfriamentos, reflexos embaados por ausncia 
de trao, um mundo visto por um animal com uma tetina bem particular, 
talvez vejam assim os bois e os ces, ou as lagartixas. Um mundo espiado  
noite atrs de uma veneziana de tiras finssimas. Eu entrava no mundo 
claro-escuro da fico atravs dessas incises: levantava os olhos do livro, saa, 
o sol a pino me feria, e de volta paia baixo, como um subqueo que mergulha 

em profundidades onde no se distinguem mais as cores. Teriam feito filmes 
coloridos a partir de Verne? O que seria Verne sem aqueles talhos, aquelas 
abrases que s geram luz l onde o instrumento do gravador escavou ou 
deixou em relevo a superfcie? 

Meu av mandou encadernar outros volumes do mesmo perodo, mas 
salvando as velhas capas ilustradas, O menino de Paris, O conde de 
Montecristo, Os Trs Mosqueteiros e outras obras-primas do romantismo 
popular. 

 

L estava, em duas edies, a italiana Sonzogno e a francesa, O capito 
Satans ou Les ravageurs de la mer de Jacoliiot. Mesmas gravuras, sabe-se 
l em que verso eu li. Sabia que a certa altura deviam acontecer duas cenas 
terrveis, primeiro o cruel Nadod que, com um nico golpe de acha, fende a 
cabea do bom Harald e mata seu filho Olaus, depois no final o justiceiro 
Guttor que agarra a cabea dc Nadod e pe-sc a apert-la gradualmente com as 
mos poderosas, at que crebro do miservel espirra at o teto. Nessa 
ilustrao os olhos da vtima e do algoz quase saltam das rbitas. 

 A maior parte dos acontecimentos tem iugar em mares gelados cobertos de 
nvoa boreal. So cus de madreprola, que as incises tornam nevoentos em 
contraste com a brancura dos gelos. Uma cortina de vapores cinzentos, uma 
nuana leitosa mais evidente que nunca... Uma poeira branca bem fina, 
semelhante a cinzas, desceu sobre a canoa... Das profundezas do oceano 
ergue-se um fulgor luminoso, uma luz irreal... Um aguaceiro de cinzas 
brancas, com fendas momentneas entre as quais adivinha-se um caos de 
formas incertas... E uma figura humana infinitamente maior em suas di-
menses que qualquer outro habitante da terra, envolta num sudrio, o rosto 
de um candor imaculado de neve... No, o que estou dizendo, essas so 
memrias de outra histria. Parabns, Yambo, voc tem uma bela memria de 
curto prazo. No foram essas as primeiras imagens, ou as primeiras palavras 
que recordou no momento em que despertava no hospital? Deve sei Poe. Mas 
se essas pginas de Poe imprimiram-se to a fundo em sua memria coletiva, 
no ser porque, quando criana, voc viu, em particular, os mares plidos do 
capito Satans? 

Fiquei lendo (relendo?) o livro at a noite, percebi que comecei de p e 
depois me acocorei com as costas contra a parede, o livro nos joelhos, 
immore do tempo, at que Amlia veio me despeitar daquele transe, 
gritando: "Mas vai fazer mal aos olhos, era o que a sua pobre me sempre dizia! 
Meu nosso senhor, em vez de passear l fora, que hoje a tarde foi uma beleza 
que nem se fala. E no apareceu nem para almoar ao meio-dia. Vamos, 
vamos, que j  hora de jantar!" 

Acabava de repetir portanto um rito antigo. Estava exausto. Comi como 
um menino que precisa fortalecer o sangue e crescer, depois fui tomado por 
um sono enorme. Fim geral, dizia Paola, sempre leio antes de dormir, mas 
naquela noite nada de livros, como se fosse uma ordem de minha me. 

Adormeci logo e sonhei terra e mares do Sul feitos de tiras de creme 
distribudas por longos filamentos sobre um prato de gelia de amora. 

















7. OITO DIAS NUM STO 

 

 

 O que fiz nos ltimos oito dias? Li, a maior parte do tempo no sto, mas a 
lembrana de um dia confunde-se com a de outro. Sei apenas que li de modo 
desordenado e furioso. 

No li tudo de fio a pavio. Certos livros, certos fascculos percorri como se 
sobrevoasse uma paisagem, e ao passar por eles j sabia que sabia o que estava 
escrito. Como se uma nica palavra evocasse outras mil, ou florescesse num 
resumo encorpado, como aquelas flores japonesas que desabrocham na gua. 
Como se alguma coisa fosse sozinha se depositar em minha memria para 
fazer companhia a dipo e Hans Castorp. Outras vezes o curto-circuito era 
ativado por um desenho, trs mil palavras para uma imagem. Em outras lia 
lentamente, saboreando uma frase, um trecho, um captulo, descobrindo 
talvez as mesmas emoes provocadas pela primeira e esquecida leitura. 

Intil falar da gama de misteriosssimas chamas, leves taquicardias, rubores 
sbitos que moitas daquelas leituras suscitavam por um breve instante - para 
depois dissolver-se assim como vieram, deixando lugar a novas ondas de calor. 

Ao longo de oito dias, acordava cedo para usufruir da luz, subia e l ficava 
at o poente. Ao meio-dia Amlia, que da primeira vez se assustou ao no me 
encontrar, trazia um prato de po e salame, ou 

 

queijo, duas mas e uma garrafa de vinho ("Senhor, Senhor, vai que essa 
criatura me adoece de novo e depois o que vou dizer  senhora Paola, faa 
pelo menos por mim: pare, seno vai ficar cego!"). Depois ia embora chorando 
e eu bebia quase toda a garrafa, continuando a fuar papis em estado de 
embriaguez, e fica evidente porque no consigo mais juntar o antes com o 
depois. As vezes, descia com os braos cheios de livros e ia me enfiar em 
qualquer lugar, para no me tornar prisioneiro da gua-furtada. 

Antes de subir telefonei para casa, para dar notcias. Paola queria saber das 
minhas reaes e fui cuidadoso: "Estou me acostumando com os lugares, o 
tempo  esplndido, fao passeios ao ar livre, Amlia  um amor." Perguntou 
se j visitara o farmacutico da cidadezinha para medir a presso. Devia 
faz-lo a cada dois ou trs dias. Com tudo aquilo que passei, no podia brincar. 
E sobretudo os comprimidos, pela manh e  noite. 

Com algum remorso, mas com um slido libi profissional, telefonei logo 
depois para o estdio. Sibilla ainda estava ocupada com o catlogo. Eu poderia 
ver as provas dentro de duas ou trs semanas. Com muitos e paternais 
encorajamentos, desliguei. 

Perguntei-me se ainda sentia alguma coisa por Sibilla.  estranho, mas os 
primeiros dias em Solara projetaram tudo em uma perspectiva diversa. Sibilla 
se transformava agora em uma lembrana distante da infncia, enquanto 
aquilo que, pouco a pouco, eu desencavava das neblinas do passado se 
transformava no meu presente. 

 

Amlia explicou que se sobe ao sto pela ala esquerda. Imaginava uma 
escada em caracol, de madeira, mas, em vez disso, eram degraus de pedra, 
cmodos e praticveis. Do contrrio, pensei depois, como teriam feito para 
transportar para cima tudo o que jogaram l? 

Pelo que lembrava, eu nunca estivera num sto antes. Nem num poro, a 
bem dizer, mas existem idias difusas sobre pores, subterrneos, escuros, 
midos, frescos em todo caso, de se ir com uma vela. Ou uma tocha. O 
romance gtico  rico de subterrneos onde, lgubre, gira Ambrsio, o 
Monge. Subterrneos naturais como as cavernas de Tom Sawyer. O mistrio 
da escurido. Todas as casas tm um poro, nem todas tm um sto, 
sobretudo na cidade, onde tm um tico. Mas realmente no h literatuta 
sobre stos? E o que  ento Oitos dias num sto? O ttulo me vem  
lembrana, mas s ele. 

Mesmo no os percorrendo todos de uma vez, percebe-se que os stos da 
casa de Solara cobrem as trs alas: entra-se por um espao que vai da fachada 
aos fundos do edifcio, mas depois abrem-se passagens mais esrreitas e surgem 
anteparos, tabiques colocados para dividir os setores, traados definidos por 
estantes de metal ou velhos bas, vielas de um labirinto sem fim. 
Aventurei-me por um corredor  esquerda, virei ainda uma ou duas vezes, e 
vi-me diante da porta de entrada. 

Sensaes imediatas. Antes de mais nada, o calor, como  natural num 
desvo, depois a luz: provm em parte de uma srie de trapeiras que podem 
ser vistas quando se olha a fachada, mas na maioria obstrudas do interior por 
uma montoeira de coisas empilhadas sobre elas, tanto que muitas vezes o sol 
mal consegue se infiltrar, formando lminas amarelas nas quais agitam-se 
infinitos corpsculos revelando que, tambm na penumbra circunstante, 
dana uma multido de mnadas, smens, tomos primordiais empenhados 
em escaramuas brownianas, corpos primigenios fervilhantes no vcuo - 
quem falava deles, Lucrcio? s vezes essas fendas vo relampear nos vidros 
de alguma cristaleira desmontada, ou de uma penteadeira que, de outro 
ngulo visual, parece uma superfcie opaca qualquer apoiada na parede. E, 
aqui e ali, clarabias embaadas por decnios de detritos incrustados no 
exterior, mas ainda capazes de formar uma rea mais clara sobre o pavimento. 

Enfim, a cor dominante. A cor do sto, dada pelas traves, pelas arcas 
amontoadas c e l, pelas caixas de papelo, pelos restos de caixotaria 
desmontada,  uma cor de marcenaria, feita de vrias nuanas de marrom, do 
amarelado da madeira no envernizada s douras do bordo e s tonalidades 
mais sombrias de cmodas com o verniz j gasto, passando pelo marfim dos 
papis que transbordam das caixas. 

Se um poro anuncia os infernos, um sto promete um paraso meio 
passado, onde corpos mortos se entregam em uma poeirenta claridade, um 
elsio vegetal que, na ausncia de verde, d a sensao de um bosque tropical 
ressecado, um canavial artificial onde se mergulha numa suavssima sauna. 

Pensava que os pores simbolizassem a acolhena do tero materno, com 
suas umidades amniticas, mas eis que aquele tero areo fazia as vezes com 
seu calor quase medicamentoso. E naquele ddalo luminoso, onde bastava 
retirar um par de telhas para se encontrar a cu aberto, flutuava um cheiro 
cmplice de fechado, um odor de silncio e quietude. 



Por outro lado, depois de um certo tempo, eu j nem sentia o calor, 
tomado como estava pelo frenesi de descobrir tudo. Porque meu tesouro de 
Clarabela certamente estava ali, s que precisava escavar longamente e no 
sabia por onde comear. 

Tive que romper muitas teias de aranha: os gatos se octipavam dos ratos, 
como disse Amlia, mas Amlia no pensou nas aranhas. Se no invadiram 
tudo, foi por seleo natural, uma gerao morre, suas teias se desmancham e 
assim por diante de estao em estao. 

Comecei a remexer algumas prateleiras, arriscando-me a derrubar a 
caixaria que ali se amontoava. Evidentemente, meu av tambm colecionava 
caixas, sobretudo de metal e multicoloridas. Caixas de lata desenhada, os 
biscoitos Wamar com cupidos em balanos, a caixinha dos comprimidos 
Arnaldi ou a de bordas douradas e motivos vegetais da brilhantina Coldinava, 
a bomboneira das penas para caneta Perry, o cofre suntuoso e luzidio dos lpis 
Presbtero, todos ainda alinhados e intonsos como uma douta cartucheira, e 
finalmente a lata do chocolate em p Talmone, com os Dois Velhos - ela que 
oferece ternamente a bebida digestiva a um ancesttal sorridente, ancien 
regime, ainda vestido de culottes. Identifiquei espontaneamente nos dois 
velhotes os meus avs, que provavelmente mal conheci. 

Depois caiu-me entre as mos uma outra caixa, estilo fim-de-sculo XIX, 
do Efervescente Brioschi. Deliciados, alguns cavalheiros bebericam clices 
d'gua de mesa servidos por uma graciosa garonete. As primeiras a se 
lembrar foram minhas mos. Pega-se o primeiro envelopinho, com um p 
branco e fino, despeja-se lentamente no gargalo da garrafa cheia de gua da 
bica e agita-se um pouco o recipiente para que o p se dissolva bem e no 
fique grudado no gargalo; pega-se em seguida o segundo envelopinho, com 
um p granulado de pequenssimos cristais, e despeja-se tambm, dessa vez 
rapidamente, pois tudo comea a ferver e  preciso fechar com presteza a 
tampa de mola, esperando que o milagre qumico se cumpra naquele caldo 
primordial, entre borbulhas e tentativas do lquido de extravasar a guarnio 
de borracha. Por fim a tempestade se acalma e a gua frisante est pronta para 
ser bebida, gua de mesa, vinho das crianas, mineral feita em casa. Disse 
comigo mesmo: gua vichi. 

Mas depois das minhas mos uma outra coisa se ativou, quase como 
naquele dia, diante do Tesouro de Clarabela. Procurava uma outra caixa, 
certamente de poca posterior, que tantas vezes abri antes de nos sentarmos  
mesa. O desenho seria um pouco diferente: sempre os mesmos cavalheiros, 
sempre experimentando a gua maravilhosa em longas taas de champanhe, 
mas em sua mesa via-se nitidamente uma caixa igualzinha  que se tinha nas 
mos; e naquela caixa esravam desenhados os mesmos cavalheiros que bebiam 
diante de uma mesa onde aparecia uma outra caixa de gua de mesa, ela 
tambm com dois cavalheiros que... E assim para sempre, sabia que bastaria 
uma lente ou um microscpio para ver mais caixas desenhadas nas caixas, en 
abme, como caixinhas chinesas, como a matrios-ka. O infinito, percebido 
pelos olhos de um menino antes de ouvir falar do paradoxo de Zeno. A 
corrida para atingir uma meta inatingvel, nunca jamais a tartaruga ou Aquiles 
chegariam  ltima caixa, aos ltimos cavalheiros e  ltima criada. 
Aprende-se ainda criana a metafsica do infinito e o clculo infinitesimal, s 



no se sabe ainda o que se est intuindo, e poderia ser a imagem de um 
Regresso Sem Fim, ou, ao contrrio, a horrvel promessa do Eterno Retorno e 
do volver de idades que se mordem as caudas, pois alcanada a ltima caixa, se 
uma ltima houvesse, talvez no fundo daquele vrtice se descobrisse a si 
mesmo com a caixa do incio nas mos. Por que resolvi ser livreiro-antiqurio 
seno para remontar a um ponto fixo, o dia em que Gutenberg imprimiu a 
primeira Bblia na Mogncia? Pelo menos voc sabe que antes no havia nada, 
ou melhor, havia uma outra coisa, e sabe que pode parar, seno no seria mais 
um livreiro e sim um decifrador de manuscritos. Escolhe um ofcio que o 
compromete apenas com cinco sculos e meio porque quando criana 
fantasiava sobre o infinito das caixas da gua vichi. 

Todo o material acumulado no sto no caberia no escritorio de meu av 
nem em qualquer outro lugar da casa, donde, mesmo quando o escritrio 
estava cheio de calhamaos, muita coisa j estava l em cima. Foi l, portanto, 
que fiz muitas das minhas exploraes infantis, l em cima estava a minha 
Pompeia, de onde desenterrava restos remotos que remontavam a antes de 
meu nascimento. Como estava fazendo agora, l eu farejava o passado. E, 
portanto, ainda estava celebrando uma Repetio. 

Ao lado da caixa de lata havia duas outras de papelo, cheias de maos e 
caixas de cigarros. At aquilo ele juntava, meu av, e certamente no lhe 
custara pouco esforo surrupi-los de viajantes, sabe-se onde e de onde, 
porque naquele tempo o colecionismo de coisas mnimas no estava 
organizado como hoje. Eram marcas nunca ouvidas, Mjin Cigarettes, 
Makedonia, Turkish Atika, Tiedemanns Birds Eye, Calypso, Cirene, Kef 
Orientalske Cigaretter, Aladdin, Armiro Jakobstad, Golden West Virginia, El 
Kalif Alexandria, Stam-bul, Sasja Mild Russian Blend, embalagens suntuosas, 
com imagens de paxs e quedivas e odaliscas orientais, como nos Cigarillos 
Excelsior De La Abundancia, ou marinheiros ingleses arrumadssimos em 
branco e azul, com a barba cuidada de um rei George talvez quinto, e em 
seguida algumas caixas que eu tinha a impresso de reconhecer, como se as 
tivesse visto nas mos de senhoras, o branco-marfim dos Eva, os Serraglio e, 
por fim, os maos de papel achatados e amassados dos cigarros populares, 
como Africa ou Milit, que ningum pensou em conservar e devemos 
agradecer a sei l quem por se dignar a recolher um da lixeira para futura 
memria. 

Demorei-me pelo menos dez minutos sobte o restolho achatado e 
retalhado de V 10 Sigarette Macednia, Lire 3, murmurando: "Duilio, o 
Macednia est te deixando os dedos amarelos..." De meu pai ainda no 
soubera nada, mas agora estava seguro de que fumava aqueles Macednia, 
talvez justamente aqueles daquele mao, e que minha me reclamava dos 
dedos amarelos de nicotina, "amarelos como uma pastilha de quinino". 
Adivinhar a imagem paterna atravs de uma plida tonalidade de tanino no 
era muito, mas o suficiente para justificar a viagem a Solara. 

Reconheci tambm as maravilhas da caixa ao lado, atrado por uma acidez 
de perfume barato. Ainda encontrveis, mas carssimos, eu os vira umas 
poucas semanas antes nas bancas de Cordusio: eram os pequenos calendrios 



de barbearia, to insuportavelmente perfumados que ainda conservam algum 
cheiro cinqenta e tantos anos depois, uma sinfonia de cocotes, de damas em 
crinolina mas sem cinta, de belezas em balanos, de amantes perdidos, de 
danarinas exticas, de rainhas do Egito... Os Penteados Femininos atravs dos 
Sculos, as Damas Talism, O Firmamento Italiano com Maria Denis e 
Vittorio De Sica, Sua Majestade a Mulher, Salom, Almanaque Perfumado 
Estilo Imprio com Madame Sans Gene, Tout Paris, o Grand Savon 
Quinquine, sabonete universal para toalete, anti-sptico, preciosssimo nos 
climas quentes, contra escorbuto, febres malricas, eczema seco (sic) - com 
o monograma de Napoleo, s Deus sabe por qu, mas na primeira imagem 
aparece o Imperador recebendo de um turco a notcia da grande inveno e 
dando sua aprovao. E tambm um calendariozinho com o Vate D'Annunzio 
- os barbeiros no tinham pudor. 

Farejava com alguma reserva, como um intruso no reino proibido. Os 
pequenos calendrios de barbearia poderiam excitar morbosamente a fantasia 
de um menino, talvez me fossem proibidos. Talvez no sto pudesse 
compreender alguma coisa sobre a formao da minha conscincia sexual. 

 

O sol batia a pique sobre as clarabias e eu no era recompensado. Vira 
muitas coisas, mas no um objeto que tivesse sido verdadeira e somente meu. 

Andei ao acaso e fui atrado por um caixote fechado. Abri e estava cheio de 
brinquedos. 

Nas semanas precedentes, observara os brinquedos de meus netos, todos de 
plstico colorido, a maioria eletrnicos. De uma lancha nova que lhe dei de 
presente, Sandro logo me dissera que no jogasse fora a caixa, pois a bateria 
devia estar l dentro. Meus brinquedos de antigamente eram de madeira e 
lata. Sabres, pequenos fuzis que atiravam tampas de cortia, um capacetezinho 
colonial do tempo da conquista da Etipia, uma armada inteira de soldadinhos 
de chumbo, e outros maiores de material frgil, uns j sem cabea, outros sem 
brao, outros ainda s com o espeto de ferro em torno do qual segurava-se 
aquela espcie de argila pintada. Devo ter vivido dias e dias com aqueles fuzis 
e heris mutilados, presa de furores guerreiros. Na poca, um menino tinha 
que, forosamente, ser educado no culto  guerra. 

Embaixo ficavam as bonecas de minha irm, que talvez tivessem sido de 
minha me, que recebera por sua vez de minha av (deve ter havido um 
tempo em que se herdavam os brinquedos): carnao de porcelana, boquinha 
de rosa e faces afogueadas, vestidinho de organza, olhos que ainda se moviam 
languidamente. Uma, quando a sacudi, ainda repetiu mame. 

Revirando entre um fuzil e outro, reencontrei uns soldadinhos curiosos, 
chatos, de madeira entalhada, quepe vermelho, jaqueta azul e calas longas, 
vermelhas com uma tira amarela, montados sobre rodinhas. Os traos no 
eram marciais, mas grotescos, com narizes de batata. Pensei que um deles era 
o capito La Patata do regimento dos Soldadinhos de Bengodi. Tinha certeza 
de que se chamavam assim. 

Por fim retirei uma r de lata que, apertando-Ihe a barriga, ainda emitia 
um cra-cra apenas perceptvel. Se no quer os caramelos de leite do dr. 
Osimo, pensei, certamente vai querer ver a r. O que rinha a ver o dr. Osimo 
com a r? A quem pretendia mostr-la? Breu total. Precisava refletit melhor. 

Olhando e tocando a r, veio-me espontaneamente dizer que Angelo Urso 
tinha que morrer. Quem era Angelo Urso? Que relao tinha com a r de lata? 
Sentia alguma coisa vibrar, estava certo de que tanto a r quanto Angelo Urso 
me ligavam a algum, mas na aridez de minha memria puramente verbal no 
tinha outros pontos de apoio. Mas murmurei dois versos: "Vai comear o 
desfile, / capito La Patata." Depois mais nada: estava de novo no presente, no 
silncio avel do sto. 

 

No segundo dia Mat veio me fazer uma visita. Enquanto eu comia, pulou 
nos meus joelhos e ganhou umas cascas de queijo. Depois da garrafa de vinho, 
agora j de lei, fui andando ao acaso at ver dois grandes armrios oscilantes 
plantados diante de uma trapeira por meio de uns calos rudimentares de 
madeira inseridos para mant-los mais ou menos na vertical. Tive uma certa 

dificuldade para abrir o primeiro, sempre a ponto de desabar em cima de mim, 
e assim que consegui, uma chuva de livros caiu a meus ps. No conseguia 
deter aquela runa, parecia que aqueles mochos, morcegos, corujas 
aprisionados h sculos, aqueles gnios da garrafa, s esperavam que um 
imprudente lhes desse uma vingativa liberdade. 

Entre aqueles que se acumulavam sobre meus ps e aqueles que tentava 
retirar a tempo de evitar a queda, era toda uma biblioteca que eu descobria - 
que digo, provavelmente o estoque da velha loja de meu av que os tios 
liquidaram na cidade. 

Nunca conseguiria ver aquilo tudo, mas j fulgurava em agnies que se 
iluminavam e se apagavam num instante. Eram livros em lnguas diversas e de 
pocas diversas, alguns ttulos no me suscitavam nenhuma chama, pois 
pertenciam ao repertrio do j conhecido, como muitas velhas edies de 
romances russos, salvo que, apenas folheando as pginas, fui surpreendido por 
um italiano esquisito, devido - como diziam os frontispcios - a senhoras com 
duplo sobrenome que, evidentemente, traduziam os russos do francs, pois 
todos os personagens tinham nomes com desinncias em ine, como por 
exemplo, Myskine e Rogozyne. 




Muitos daqueles volumes, s de tocar as folhas, esfarinhavam-se em 
minhas mos, como se o papel, depois de decnios de escurido sepulcral, no 
conseguisse suportar a luz do sol. De fato, no suportava o toque dos dedos e 

por anos a fio prostrara-se  espera de dividir-se em retalhos midos, 
esfarinhando-se em lminas finas nas margens e nos cantos. 

Fui atrado pelo Martin Eden de Jack London e maquinalmente procurei 
a ltima frase, como se meus dedos soubessem que estaria l, Martin Eden, no 
cmulo da glria, mata-se deslizando para o mar da escotilha de um 
transatlntico, sente a gua que lhe penetra lentamente nos pulmes, 
compreende alguma coisa num ltimo lampejo de lucidez, talvez o sentido da 
vida, mas "mal o soube, deixou de sab-lo". 

Deve-se realmente almejar a ltima revelao se, uma vez percebida, 
mergulha-se na escurido? Essa redescoberta lanou como que uma sombra 
sobre o que estava fazendo. Talvez devesse parar, visto que a sorte j me dera o 
esquecimento. Mas agora que j comeara, no podia deixar de continuar. 

Passei o dia a folhear c e l, intuindo s vezes que grandes obras-primas 
que pensava ter absorvido na minha memria coletiva e adulta foram 
abordadas pela primeira vez nas adaptaes para crianas da "Scala d'Oro". 
Soavam familiares as lricas de O Cestinho, poesias para a infncia de 
Angiolo Silvio Novaro: O que diz a garoinha de maro que bate 
argentina nas telhas velhas do teto e nos secos cavacos do horto? Ou, 
Primavera vem danando, vem danando a tua porta, vais dizer o que 
ela porta? Guirlandas de borboletas, campainhas de bom-dia. Saberia 
ento o que eram bons-dias e cavacos? Mas imediatamente depois caram 
diante dos meus olhos as capas da srie do Fantomas, que me falavam do 
Enforcado de Londres, da Vespa vermelha e da Gravata de cnhamo, 
com suas histrias obscuras de perseguies pelos esgotos de Paris, de donzelas 
emergindo de tumbas, de corpos esquartejados, cabeas decepadas, e a figura 
do prncipe do crime de fraque, sempre pronto a ressuscitar e dominar com 
sua risada zombeteira uma Paris noturna e subterrnea. 

E junto com Fantomas, l estava a srie de Rocambole, outro senhor do 
crime, onde, na abertura da primeira pgina de As misrias de Londres, 
lia-se a seguinte descrio: 

No ngulo sudoeste de Wellclose-square h uma estradinha de 
cerca de trs metros de largura; a meio caminho ergue-se um teatro, 
cujos melhores lugares so vendidos a doze soldos, e se entra na 
platia por um penny. O ator principal  um negro. L se fuma e se 
bebe durante o espetculo. As prostitutas que sobem aos camarotes 
esto descalas; a platia  composta de ladres. 

 

No consegui resistir ao fascnio do mal e dediquei a Fantomas e 
Rocambole o resto da jornada, entre leituras errticas e fulgurantes, 
misturadas s histrias de mais um criminoso, este porm um cavalheiro, 
Arsne Lupin, e de outro ainda mais fidalgo, o elegantssimo Baro, 
aristocrtico ladro de jias de mltipos disfarces, com uma imagem 
exageradamente anglo-saxnica - de um desenhista italiano e anglofilo, creio 
eu. 

 

 Vibrava diante de uma bela edio de Pinquio, ilustrada por Mussino em 
1911, com as pginas desbeiadas e manchadas de caf com leite. Todos sabem 
o que conta Pinquio, de Pinquio me ficou 
uma imagem jovialmente fantstica e sei l quantas vezes contei a histria 
a meus netos para entret-los. Mesmo assim, senti um estremecimento 
diante de ilustraes aterrorizantes, trabalhadas em duas cores nicas, 
amarelo e preto ou verde e preto, que em suas volutas liberty me 
assaltavam com a barba fluvial do Come-fogo, com os inquietantes chapus 
azuis da fada, com as vises noturnas dos Assassinos e com o esgar do 
Pescador Verde. Teria me encolhido sob as cobertas, nas noites de 
temporal, depois de ter visto aquele Pinquio? Algumas semanas antes, 
quando perguntava a Paola se todos aqueles filmes de violncia e de 
mortos-vivos na televiso no faziam mal s crianas, ela disse que um 
psiclogo lhe contou que em toda a sua carreira nunca encontrara uma 
criana neurotizada por um filme, exceto uma vez, e essa criana, 
irremedivel e profundamente ferida, fora arruinada por Branca de Neve 
de Walt Disney. 

Por outro lado, descobri que at o meu nome provinha de vises assim 
terrveis. L estavam As aventuras de Topetinho de um tal Yambo, e de 
Yambo eram tambm outros livros de aventuras, ainda com desenhos art 
nouveau e cenografias obscuras, castelos que se delineavam sobre um 
pico, negros na noite escura, bosques fantasmagricos com lobos de olhos 
chamejantes, vises submarinas de um Verne caseiro e pstumo, e 
Topetinho, menino mido e gracioso de afoito topete de fbula: "Um 
topete imenso lhe dava um ar curioso e o fazia parecido com um 
espanador. E ele gostava, sabem, do seu topete!" Ali nascera o Yambo que 
sou e que desejei ser. A bem da verdade, melhor do que me identificar com 
Pinquio. 

 

Assim foi a minha infncia? Ou pior? Porque, remexendo ainda, trouxe 
 luz {envolvidos no papel azul dos pacotes de acar e fechados com 
elstico) vrios anos do Jornal Ilustrado das Viagens e das Aventuras 
de Terra e Mar. Eram fascculos semanais e a coletnea de meu av tinha 
nmeros dos primeiros decnios do sculo, alm de algumas cpias 
francesas do Journal des Voyages. 

Muitas capas representavam prussianos ferozes que fuzilavam zuavos 
valorosos, mas na maioria eram aventuras de desapiedada crueldade nos 
pases mais distantes, coolies chineses empalados, virgens seminuas 
ajoelhadas diante de um sombrio conselho dos dez, filas de cabeas 
decapitadas enfiadas em mastros agudos diante dos contrafortes de alguma 
mesquita, massacres de crianas cometidos por batedores tuaregues 
armados de cimitarras, corpos de escravos dilacerados por tigres imensos - 
parecia que a tbua das torturas do Novssimo Melzi servira de inspirao 
a desenhistas perversos, presas de um inatural frenesi de emulao: era um 
resumo do Mal sob todas as suas formas. 

Diante de tamanha abundncia, ancilosado pelas minhas estadas no 
sto, levei os fascculos para o salo das mas no trreo, pois naqueles 
dias o calor tornara-se insuportvel, e tive a impresso de que as mas 

alinhadas na grande mesa estivessem todas mofadas. Mas entendi depois 
que o cheiro de mofo vinha justamente daquelas pginas. Como podiam ter 
cheiro de umidade depois de cinqenta anos na atmosfera seca do sto? 
Talvez nos meses frios e chuvosos o sto no fosse assim to seco, 
absorvendo umidade dos telhados, ou quem sabe aqueles fascculos 
tivessem ficado por dezenas de anos, antes de chegaram l, em algum poro 
com gua escorrendo pelas paredes, onde meu av os desencavara (ele 
tambm devia cortejar vivas) to midos que no perdetam o cheiro nem 
sob o calor que os transformara cm pergaminho. S que, enquanto lia 
histrias atrozes de vinganas cruis, o mofo no me lembrava sentimentos 
de crueldade, mas sim os Reis Magos e o Menino Jesus. Por qu, quando  
que tive contato com os Reis Magos, e o que tinham os Reis Magos a ver 
com os massacres no mar dos Sargaos? 

 

No momento, todavia, meu problema era outro. Tendo lido todas 
aquelas histtias, tendo certamente visto todas aquelas capas, como podia 
aceitar que a primavera vem cantando? Seria uma capacidade inata de 
separar o universo dos bons sentimentos familiares daquelas aventuras que 
falavam de um mundo cruel criado sob o modelo do Grand Guignol, um 
universo de dilaceramentos, esfola-duras, fogueiras e enforcamentos? 
 

O primeiro armrio estava completamente vazio, embora eu no tivesse 
podido ver tudo. No terceiro dia tentei o segundo, menos abarrotado. L os 
livros estavam alinhados com muita ordem, no como se tivessem sido jogados 
raivosamente pelos tios, dedicados a acomodar coisas das quais pretendiam se 
desfazer, mas por meu av, tempos antes. Ou por mim. Eram livros mais 
adequados  infncia e talvez pertencessem  minha bibioteca particular. 

Retirei toda a coleo da Biblioteca dos meus Meninos, de Salani, cujas 
capas reconhecia e cujos ttulos recitava antes mesmo de retirar o volume, 
com a mesma segurana com que distinguia nos catlogos dos colegas ou na 
biblioteca da ltima viva os livros mais conhecidos, a Cosmographia de 
Mnster ou o De sensu rerum et magia de Campanella: 0 Moo que veio 
do mar, A herana do cigano, As aventuras de Flor-de-sol, A tribo dos 
coelhos selvagens, Os fantasmas maliciosos, Os prisioneiros de 
Casabella, A carreta pintada, A torre do norte, O bracelete indiano, O 
segredo do homem de ferro, O circo Barletta... 

Livros demais, se ficasse no sto eu ficaria torto como o corcunda de 
Notre-Dame. Peguei uma braada deles e desci. Podia ir para o escritrio, 
sentar no jardim mas, ao contrrio, obscuramente, eu queria outra coisa. 

 

Passando pelos fundos da casa, andei para a direita, l onde no primeiro 
dia ouvira grunhirem os porcos e cacarejarem as galinhas. L, nos fundos da 
ala de Amlia, havia um ptio como os de antigamente, onde as galinhas 
ciscavam, e mais adiante viam-se as coelheiras e os estbulos. 

No trreo havia um grande salo cheio de utenslios agrcolas, ancinhos, 
podes, enxadas, baldes para a cal, velhas tinas. 

No fundo do ptio, uma vereda levava a um pomar, realmente rico e 
fresqussimo, e a primeira tentao foi subir numa rvore e ler sentado a 
cavalo num galho. Talvez tenha feito isso quando menino, mas aos sessenta 
anos a prudncia nunca  demais e depois meus ps j estavam me levando 
para outra parte. Emboquei por uma escadinha de pedra por entre o verde e 
desci para um espao circular, 

circundado de muretas recobertas de hera. Bem na frente da entrada, contra o 
muro, havia uma fonte, com uma gua clata que cantava descendo. Soprava 
um vento leve, o silncio era completo, acocrame em uma salincia de pedra, 
entre a fonte e o muro, dispondo-me para a leitura. Algo me levara at l, 
onde talvez eu costumasse ir, justamente com aqueles livros. Aceitei a escolha 
dos espritos que me animavam e mergulhei nos meus livrinhos. 
Frequentemente, lembrava a histria inteira a partir de uma nica ilustrao. 

Percebi que alguns deles, pelo desenho bem anos quaienta e pelo nome do 
autor, eram italianos, como O telefrico misterioso ou Saettino, puro 
sangue milans, e muitos inspiravam-se em sentimentos patriticos e 
nacionalistas. Mas a maior parte era traduzida do francs, escritos por uns 
certos B. Bernage, M. Goudareau, E. De Cys, J. Rosmer, Valor, P. Besbre, C. 


Pronnet, A. Bruyre, M. Cata-lany - uma lista de ilustres desconhecidos cujo 
nome de batismo talvez fosse desconhecido at do editor italiano. Meu av 
tambm tinha alguns originais, publicados na Bibliothque de Suzette. As 
edies italianas saam com um ou mais decnios de atraso, e as ilustraes 
remetiam, no mnimo, aos anos vinte. Como leitor-criana devo ter respirado 
um clima amavelmente sazonado e tanto melhor: tudo se projetava em um 
mundo de ontem, imaginado por senhores que tinham todo o ar de serem 
senhoras e que escreviam para jovenzinhos de boa famlia. 

 

No fim parecia que aqueles livros contassem todos a mesma histria: em 
geral, trs ou quatro rapazolas de nobre linhagem (com os pais, sabe-se l por 
qu, sempre em viagem alhures) chegam para ficar com um tio num antigo 
castelo ou num estranho domnio agrcola e topam com apaixonantes e 
misteriosas aventuras por criptas e torrees, descobrindo cm seguida um 
tesouro, as manobras de um intendente infiel e o documento que restitui a 
uma famlia decada as propriedades usurpadas por um primo desleal. Gaio 
final, celebrao da coragem dos rapazes, observaes bonachonas dos tios ou 
dos avs sobre os perigos da temeridade, mesmo que generosa. 

Que as histrias tinham ambientao francesa, era fcil de perceber pelas 
blusas e tamancos dos camponeses, mas os tradutores haviam realizado 
milagres de equilbrio para verter os nomes para o italiano e dar a entender 
que a histria se desenrolava em alguma regio local, a despeito da paisagem e 
da arquitetura, ora da Bretanha, ora da regio de Auvergne. 

Havia duas edies daquele que era evidentemente o mesmo livro (de M. 
Bourcet), mas, na edio de 1932, ele se intitulava O herdeiro de Ferlac (e 
os nomes dos personagens eram franceses) e na edio de 1941 j se 
transformara em O herdeiro de Ferralba, com os protagonistas caseiros. Era 
claro que nesse meio tempo alguma disposio superior ou uma censura 
espontnea impuseram a italiani-zao das histrias. 

Mas eis que finalmente se explica a expresso que me passou pela cabea 
quando entrava no sto: fazia parte dessa srie o ttulo Oito dias num sto 
(e tambm o original, Huit jours dans un grenier), deliciosa histria de 
meninos que hospedam por uma semana, no sto de sua casa, uma menina 
fugida de casa, Nicoletta - no sabia se o amor pelo sto me viera daquela 
leitura ou se encontrara o livro justamente passeando pelo sto. E por que 
dei o nome de Nicoletta  minha filha? 

No sto, Nicoletta ficava com o gato Mat, uma espcie de angora 
negrssimo e majestoso, e a est de onde viera a idia de ter um Mat s para 
mim. Os desenhos representavam meninas pequeninas e bem-vestidas, as 
vezes com rendas, cabelos louros e lineamentos delicados, e assim tambm as 
mes, cabelos curtos e bem-cuidados, cintura baixa, saia at os joelhos com 
trplice volan, seio aristocrtico pouqussimo pronunciado. 

 

Nos dois dias junto  fonte, quando a luz desmaiava e eu mal podia 
distinguir as figuras, pensava que nas pginas da Biblioteca dos meus Meninos 
eu educara meu gosto pelo fantstico, mas vivendo num pas em que, mesmo 
que o autor se chamasse Catalany, os protagonistas tinham que se chamar 
Liliana ou Maurizio. 

Seria isso a educao nacionalista? Ser que eu compreendia que aqueles 
meninos, que me eram apresentados como pequenos e corajosos compatriotas 
de meu tempo, viveram em um ambiente estrangeiro decnios antes do meu 
nascimento? 

 

De volta ao sto no final daquelas frias junto  fonte, descobri um pacote 
amarrado com barbante contendo cerca de trinta fascculos (sessenta centavos 
cada um) com as aventuras de Buffalo Bill. No estavam organizados na 
ordem de publicao e a viso da primeira capa provocou-me uma descarga de 
chamas misteriosas. O medalho de brilhantes: Buffalo Bill, com os punhos 
amarrados para trs, est para lanar-se com olhar sombrio contra um 
fora-da-lei de camisa avermelhada, que o ameaa com uma pistola. 

Mas  medida que lia este nmero 11 da srie, ocorriam-me outros ttulos, 
0 pequeno mensageiro, As grandes aventuras da floresta, Bob, o 
selvagem, Don Ramiro, o escravagista, A estncia maldita... 
Espantou-me que a capa estampasse Buffalo Bill - 0 heri da pradaria, 

enquanto o cabealho no interior dizia Buffalo Bill - O heri italiano da 
pradaria. A situao - ao menos para um livreiro-antiqurio - era clara: 
bastava ver o primeiro nmero de uma nova srie, de 1942, onde uma vistosa 
nota em negrito dizia que William Cody chamava-se na verdade Domnico Tombini, natural da Emlia-Romana (como 
o Duce, embora a nota passasse pdicamente por cima dessa prodigiosa 
coincidncia). Em 1942, j tnhamos entrado em guerra - creio eu - contra os 
Estados Unidos e isso explicava tudo. O editor (Nerbini, de Florena) 
imprimira as capas numa poca em que William Cody podia tranqilamente 
ser americano, depois ficou decidido que os heris tinham que ser sempre e 
unicamente italianos. Nada havia a fazer seno manter, por razes 
econmicas, a velha capa em cores, recompondo apenas a primeira pgina. 

Curioso, disse comigo mesmo, adormecendo com a ltima aventura de 
Buffalo Bill: eu era alimentado com material aventuroso francs e americano, 
mas naturalizado. Se essa era a educao nacionalista que os meninos 
recebiam durante a ditadura, tratava-se de educao bastante amena. 

 

No, no era amena. O primeiro livro que peguei no dia seguinte foi 
Rapazes da Itlia no mundo, de Pina Ballario, com ilustraes modernas, 
nervosas, em um jogo de fundos pretos e vermelhos. 

Alguns dias antes, em meu quartinho, quando vi os livros de Verne e 
Dumas tive a sensao de t-los lido encolhido em um balco. No dei 
importncia ao fato, fora apenas um lampejo, uma simples impresso de dj 
vu. Agora, porm, lembrava que no centro da ala de meu av realmente se 
abre um balco e pelo visto foi ali que consumi aquelas aventuras. 

Para experimentar o balco, decidi ler Rapazes da Itlia no mundo l, e 
assim fiz, tentando at sentar-me com as pernas penduradas para baixo, 
enfiadas nos interstcios da grade. Mas minhas pernas, atualmente, j no 
passavam por aquelas passagens. Fiquei horas assando ao sol, at que o astro 
dobrou a fachada, tornando a rea mais temperada. Mas assim podia sentir o 
sol andaluz, ou o que entendia por isso, embora a histria se passasse em 
Barcelona. Um grupo de jovens italianos emigrados para a Espanha com a 
famlia era surpreendido pela rebelio anti-republicana do generalssimo 
Franco, s que na minha histria os ursurpadores eram os milicianos 
vermelhos, embriagados e sanguinrios. Os jovens italianos retomam seu 
orgulho fascista, percorrem impvidos de camisa negra uma Barcelona tomada por rebelies nas ruas, salvam o galhardete da Casa dos Fasces, 
fechada pelos republicanos, e o corajoso protagonista consegue converter at o 
padre, socialista e beberro, ao verbo do Duce. Uma leitura que poderia me 
fazer arder de orgulho lictrio. Eu me identificava com esses rapazes da Itlia, 
com os pequenos parisienses do tal Bernage ou com um senhor que ao fim e 
ao cabo ainda se chamava Cody e no Tombini? Quem habitava meus sonhos 
de criana? Os rapazes da Itlia ou a menininha do sto? 

 

Um retorno ao sto deu-me ainda duas outras emoes. Antes de mais 
nada, A ilha do tesouro. Reconhecer o ttulo era bvio, trata-se de um 
clssico, mas esquecera a histria, sinal de que se tornara parte de minha vida. 
Levei duas horas para percorr-lo num s flego, mas a cada captulo 
lembrava do que viria em seguida. Estava de volta ao pomar, onde entrevira, 
ao fundo, moitas de avel selvagem e l, sentado no cho, alternava a leitura 
com um punhado de avels. Com uma pedra, quebrava trs ou quatro de cada 
vez, soprava os fragmentos de casca e enfiava o butim na boca. No tinha 
o barril de mas em que Jim se enfiara para espiar os concilibulos de Long 
John Silver, mas na verdade devo ter lido aquele livro assim, beliscando frutas secas como se faz nos navios. 

A histria era a minha. Com base num tnue manuscrito, l vamos ns em 
busca do tesouro do capito Flint. J no final, fui pegar uma garrafa de grapa 
que vi na cristaleira de Amlia, alternando aquela histria de piratas com 
longos goles. Quinze homens no caixo do morto, io-ho-ho, e uma garrafa de 
rum. 

 

Depois da Ilha descobri a Histria de Pipino nascido velho e morto 
menino, de Giulio Granelli. Tal como viera  minha memria alguns dias 
atrs, s que o livro contava de um cachimbo ainda quente, abandonado numa 
mesa ao lado da estatueta em argila de um velhinho, que resolvia dar calor 
quela coisa morta para dar-lhe  vida e nascia um pequeno velhinho. Puer 
senex, um lugar-comum antiqussimo. No final, Pipino morre infante no 
bero e ascende aos cus por obra de fadas. Era melhor como eu lembrava, 
Pipino nascia velho numa couve e morria lactente em outra. De qualquer 
modo, a viagem de Pipino at a infncia era a minha. Talvez, voltando ao 
momento do nascimento, eu tambm me dissolvesse no nada (ou no Todo) 
como ele. 

 

Paola ligou  noite, preocupada porque eu no dava mais sinais de vida. 
Trabalho, trabalho, disse eu, no se preocupe com a presso, tudo normal. 

 

Mas no dia seguinte l estava eu de novo remexendo no armrio, 
encontrando todos os romances de Salgari, com capas floreadas, onde entre 
volutas delicadas apareciam, sombrio e desapiedado, o Corsrio Negro, de 
cabeleira corvina e bela boca vermelha finamente desenhada sobre o rosto 
melanclico, o Sandokan de Dois Tigres, com sua cabea feroz de prncipe 
malaio enxertada em um corpo felino, a voluptuosa Surama e os prafios dos 
Piratas de Malsia. Meu av recolhera tambm algumas tradues 
espanholas, francesas e alems. 

Era difcil dizer se estava descobrindo alguma coisa ou simplesmente 
ativando minha memria cartcea, pois de Salgari sempre se fala at hoje, e 
crticos sofisticados dedicam-lhe grandes artigos prolixos e gotejantes de 
nostalgia. At meus netinhos cantavam "Sandokan, Sandokan" nas semanas 
anteriores, parece que viram na televiso. Eu poderia escrever um verbete 
para uma pequena enciclopdia sobre Salgari mesmo que no tivesse vindo a 
Solara. 

Naturalmente devo ter devorado aqueles livros em criana, mas se havia 
memria individual a ser reativada, confundia-se com a memria geral. Os 
livros que talvez tenham marcado mais profundamente a minha infncia eram 
os que remetiam sem sobressaltos a meu saber adulto e impessoal. 

Sempre guiado pelo instinto li grande parte de Salgari nas vinhas (mas 
depois levei alguns volumes para o quarto, com os quais transcorri as noites 
seguintes). Entre as parreiras tambm fazia muito calor, mas as labaredas 
solares conciliavam-me com desertos, pradarias e selvas em chamas, mares 
tropicais em cujas costas navegavam pescadores de trepang, e entre vinhas e 
rvores que despontavam nas bordas da colina, alando os olhos de vez em 
quando para enxugar o suor, entrevi baobs, pombos colossais como os que 
circundavam a cabana de Giro-Batol, mangues, palmeiras de polpa farinhosa 
com sabor de amndoa, o baniano sagrado da floresta negra, quase ouvia o 
som do mmsinga e esperava ver despontar entre as filas de parreiras um belo 
babirrussa para assar no espeto entre dois galhos forquilhados espetados no 
cho. Gostaria que Amlia preparasse para o jantar um blaciang, to 
apreciado pelos malaios, mistura de camares e peixe triturados, deixados 
apodrecer ao sol e depois salgados, com um cheiro que at Salgari dizia 
imundo. 

Que delcia. Talvez por isso, como disse Paola, gostasse tanto da cozinha 
chinesa, especialmente barbatanas de fizo, ninhos de andorinha (colhidos em 
meio ao guano) e abalone, que mais gostoso  quanto mais souber a podre. 

Mas,  parte o blaciang, o que acontecia no mundo quando um rapaz da 
Itlia no mundo lia Salgari, onde muitas vezes os heris eram de cor e os 
brancos malvados? Eram odiosos no somente os ingleses, mas tambm os 
espanhis (quanto devo ter execrado o marqus de Montelimar). Porm, se os 
trs corsrios, Negro, Vermelho e Verde eram italianos, e ainda por cima 
condes de Ventimiglia, outros heris chamavam-se Carmaux, van Stiller ou 
Yanez de Gomera. Os portugueses deviam parecer bons porque eram um 
pouco fascistas, mas no eram fascistas tambm os espanhis? Talvez meu 
corao pulsasse pelo valoroso Sambigliong, que disparava canhonadas de 
pregaria, sem que me perguntasse de que ilha da Sonda viesse. Kammamuri e 
Suyodhana podiam ser um bom e o outro mau embora ambos fossem indianos. 
Salgari deve ter confundido bastante os meus primeiros contactos com a 
antropologia cultural. 

 

Em seguida retirei do fundo do mvel revistas e volumes em ingls. 
Muitos nmeros do Strand Magazine, com todas as aventuras de Sherlock 
Holmes. Na poca eu certamente no falava ingls (Paola me disse que 
aprendi j adulto), mas por sorte havia muitas tradues. No entanto, a 
maioria das edies italianas no era ilustrada, portanto, eu talvez lesse em 
italiano para depois buscar as figuras correspondentes no Strand. 

 

 Carreguei o Holmes completo para o escritrio de meu av. Seria mais 
adequado reviver em um ambiente civilizado aquele universo da lareira de 
Baker Street, onde distintos senhores sentavam-se empenhados em distintas 
conversaes. To diferente dos subterrneos midos e das macabras cloacas 
em que deslizavam os personagens dos feuilletons franceses. As poucas vezes 
em que Sherlock Holmes aparecia com uma pistola apontada contra um 
criminoso, era sempre com a perna e o brao direito esticados, em pose quase 
estaturia, sem perder o aplomb, como convm a um gentleman. 

Chamou-me a ateno o retorno quase obssessivo de imagens de Sherlock 
Holmes sentado, com Watson ou outros, num compartimento ferrovirio, em 
um brougham, em frente ao fogo, em uma poltrona coberta de tecido branco, 
em uma cadeira de balano  luz talvez esverdeada de uma luminria, diante 
de um ba recm-aberto ou de p enquanto l uma carta ou decifra uma 
mensagem cifrada. Aqueles figuras me diziam de te fabula narratur. 
Sherlock Holmes era eu, naquele mesmo momento, empenhado em retraar e 
recompor eventos remotos dos quais nada sabia anteriormente, em casa, 
fechado, talvez at (verificando todas aquelas pginas) em um sto. Ele 
tambm, como eu, imvel e isolado do mundo, a decifrar puros signos. Ele 
conseguia ento fazer reemergir o que fora removido. Conseguiria eu tambm? 
Pelo menos tinha um modelo. 

E como ele tinha que lutar com e na nvoa. Bastava abrir ao acaso Um 
estudo em vermelho ou O signo dos quatro: 

 

Era uma tarde de setembro e ainda no eram sete horas, mas o dia 
foi ttrico e uma nvoa densa e mida cara sobre a grande cidade. 
Nuvens cor de lama amoleciam tristemente sobre ruas lamacentas. Ao 
longo do Strand os faris nada mais eram que manchas brumosas de 
luz difusa que lanavam um dbil resplendor circular sobre o 
calamento lodoso. A reverberao amarela das vitrinas flutuava no ar 
cheio de vapores, espargindo uma claridade limoenta e mvel ao longo 
da grande avenida apinhada. Havia, a meu ver, algo de misterioso e 
fantas-mtico naquela procisso sem fim de rostos que se insinuavam 
atravs das estreitas lminas de luz - rostos tristes e alegres, 
frenticos e felizes. 

Era uma manh opaca e nevoenta. Um vu acinzentado pendia dos 
tetos das casas e surgia como o reflexo do cinza lodoso das ruas. Meu 
amigo estava de timo humor e andava tagarelando sobre os violinos 
de Cremona e as diferenas entre um Stradivari e um Amati. Quanto a 
mim, ia silencioso, pois aquele tempo montono e o melanclico caso 
em que estvamos empenhados deprimiam-me a alma. 

 

Por contraste,  noite, na cama, abri Os tigres de Mompracem de 
Salgari: 

 

Na noite de 20 de dezembro de 1849 um violentssimo furaco 
assanhava-se sobre Mompracem, ilha selvagem, de fama sinistra, covil 
de formidveis piratas, situada nos mares da Malsia a poucas centenas 
de milhas das costas ocidentais de Bornu. Pelo cu, empurrado por 
um vento irresistvel, negras massas de vapor corriam como cavalos 
desenfreados misturndose em continuidade e, de quando em quando, 
deixavam cair sobre as sombrias fortalezas da ilha furiosos 
aguaceiros... Quem velaria naquela hora e com semelhante temporal, 
na ilha dos sanguinrios piratas?... Um aposento daquela habitao 
est iluminado, as paredes cobertas de pesados tecidos vermelhos, de 
veludos e brocados de grande valor, mas aqui e ali amarrotados, 
rasgados, manchados, e o pavimento desaparece sob uma alta camada 
de tapetes da Prsia, fid-gurantes de ouro... No meio est uma mesa de 
bano entalhada de madreprola, c adornada com frisos de prata, 
carregada de garrafas e copos do mais puro cristal; nos cantos 
erguem-se grandes estantes, em. grande-parte arruinadas, abarrotadas 
de vasos transbordantes de braceletes de ouro, brincos, anis, 
medalhes, preciosas decoraes sacras contorcidas ou achatadas, 
prolas provenientes sem dvida das famosas pesqueiras do Ceilo, 
esmeraldas, rubis e diamantes que cintilam corno incontveis sis sob 
os reflexos de uma lamparina dourada pendurada no teto... Naquele 
quarto to estranhamente decorado est sentado um homem em uma 
poltrona manca: de estatura alta, esbelto, de musculatura potente, de 
lineamentos enrgicos, msculos, orgulhosas e de uma beleza 
estranha. 

Quem era o meu heri? Holmes, que lia uma carta diante da lareita, 
educadamente atnito por efeito da sua soluo a sete por cento, ou Sandokan, 
que se lacerava furiosamente o peito pronunciando o nome da adorada 
Marianna? 

 

Reuni depois outras edies em brochura, impressas em papel de m 
qualidade, que eu provavelmente acabei de estragar, amarrotan-do-as em 
mltiplas releituras, escrevendo meu nome nas margens de muitas pginas. 
Alguns livros estavam completamente desencader-nados, as pginas juntas por 
milagre, outros foram remendados provavelmente por mim mesmo colando 
uma lombada nova com papel de embrulho e cola de marceneiro. 

No suportava mais ler nem os ttulos, e havia oito dias que estava naquele 
sto. Eu sabia, tinha que reler tudo de fio a pavio, mas quanto tempo levaria? 
Calculando que aprendera a soletrar no final de meu quinto ano de vida e que 
vivera entre aqueles achados pelo menos at os anos do liceu, seriam 
necessrios pelo menos dez. anos, o que  bem diferente de oito dias. Sem 
contar que muitos outros livros, sobretudo os ilustrados, me foram contados 
por meus pais e meu av quando ainda era analfabeto. 

 Se queria refazer-me entre aqueles papis, a mim mesmo por inteiro, 
acabaria por me transformar em Funes el Memorioso, reviveria momento por 
momento todos os anos da infncia, cada sussurrar de folhas ouvido  noite, 
cada perfume de caf-com-leite sentido de manha.  demais. E se restassem 
apenas e sempre e ainda palavras, a confundir ainda mais os meus neurnios 
doentes sem acionar a troca desconhecida que daria livre curso a minhas 
lembranas mais verdadeiras e escondidas? Que fazer? Lenin na poltrona 
branca da sala de estar. Talvez eu tenha errado tudo, e errou tudo Paola tam-
bm: sem voltar a Solara permaneceria somente perdido, voltando, podia sair 
de l louco. 

 

Recoloquei devolta todos os livros nos dois armrios, depois decidi 
abandonar o sto. Mas no trajeto descobri uma srie de caixas que traziam 
uma etiqueta, escrita em bela caligrafia quase gtica: "Fascismo", "Anos 40", 
"Guerra",.. Com certeza eram caixas organizadas ainda por meu av. Outras 
caixas pareciam mais recentes, os tios devem ter usado sem critrio 
embalagens vazias encontradas l em cima, Azienda Vincola Fratelli Bersano, 
Borsalino, Cordial Cam pari, Telefunken (tinha rdio em Solara?) 

No conseguia abri-las. Precisava sair dali e fazer um passeio l em cima 
nas colinas, voltaria depois. Estava exausto. Talvez tivesse febre. 

Aproximava-se a hora do poente e Amlia j chamava aos gritos 
anunciando wnafinanziera* de lamber os beios. As primeiras vagas sombras, 
que invadiam os ngulos mais escondidos do sto, pto-metiam-me a cilada de 
algum Fantomas esperando que eu desabasse para cair em cima de mim, 
amarrar-me com uma corda e suspender-me sobre o abismo de um poo sem 
fundo. Mais que outra coisa qualquer para mostrar a mim mesmo que j no 
era o menino que gostaria de voltar a ser, demorei-me impavidamente dando 
uma olhada na rea menos iluminada. At que fui assaltado de novo por um 
cheiro de mofo antigo. 

Puxei para perto de uma clarabia, por onde chegavam ainda as ltimas 
luzes do entardecer tardio, uma grande caixa cuidadosamente tampada com 
papel de embrulho. Descartada a empoeirada cobertura, caram-me nas mos 
duas camadas de musgo, musgo de verdade, embora seco - tanta penicilina que 
dava para mandar de volta pra casa em uma semana toda a colnia da 
Montanha mgica, e adeus belas conversaes entre Naphta e Settembrini. 
Eram como torres herbosos, colhidos com o terrio subjacente que os 
mantinha unidos, e se os colocasse um ao lado do outro poderia fazer um 
gramado vasto como a mesa de meu av. No sei por que milagre, talvez uma 
rea de umidade que se criara sob a proteo de papel, graas a tantos invernos 
e dias em que o teto do sto era batido por chuva, neve e granizo, o musgo 
conservara alguma coisa de sua acridez pungente. 

" Preparado a base de molho madeira, trufas, cogumelos e midos. (N. da T.) 

Sob o musgo, embalados com palha, a ser retirada pouco a pouco para no 
quebrar o que envolviam: uma cabana de madeira ou papelo, rebocada com 
gesso colorido, com o teto de palha prensada, de palha e madeira um moinho, 
com a roda que ainda girava no vazio, e muitas casinhas e castelos de papelo 
pintado, que deviam servir de fundo para a cabana em perspectiva, a uma certa 
altura. E por fim, entre aparas de palha, l estavam as esttuas, os pastores com 
o cordeirinho nos ombros, o amolador, o moleiro com dois burricos, as 
camponesas com cestos de frutas na cabea, dois pfaros, um rabe com dois 
camelos, e os Reis Magos - ei-los - tambm eles mais cheirosos de mofo do que 
de incenso e mirra, o boi, Jos, Maria, o bero, o Menino, dois anjos de braos 
escancarados, engessados numa glria que j durava pelo menos um sculo, o 
cometa dourado, uma tela enrolada que no interior era azul pontilhado de 
estrelas, uma pequena bacia de metal forrada de cimento de modo a formar o 
leito de um riachinho, com dois furos de sada e de entrada para a gua, e, o 
que me fez atrasar o jantar mais meia hora para pensar a respeito, uma 
estranha mquina feita de um cilindro de vidro do qual partiam longos tubos 
de borracha. 

Um prespio completo. No sabia se meu av e meus pais eram crentes 
(talvez minha me, pois tinha a Filoteu na mesinha-de-cabe-ceira), mas 
certamente na poca do Natal algum reexumava aquela caixa e, numa das 
salas do andar de baixo, fazia-se o prespio. Comoo de prespio: pensei que 
era isso que estava sentindo, mas temia que fosse reao a um outro 
lugar-comum. E no entanto aquelas estatuazinhas recordavam no um outto 
nome, mas uma imagem, no vista no sto, mas que devia estar em algum 
lugar, vvida como chegava a mim naquele instante. 

sul tappeto delia neve, misterioso paitorelto 

O que significava para mim o prespio? Entre Jesus e Fantomas, entre 
Rocambole e o Cestinho, entre o mofo dos Reis Magos e aquele dos 
empalados do Gro-vizir, com quem eu estava? 

 

Compteendi que aqueles dias no sto foram mal empregados: reli pginas 
que folheara aos seis ou doze anos, outras aos quinze, comovendo-me a cada 
vez com histrias diferentes. No  assim que se reconstri uma memria. A 
memria amalgama, corrige, ttansfor-ma,  verdade, mas raramente confunde 
as distncias cronolgicas, uma pessoa deve saber muito bem se uma situao 
qualquet lhe aconteceu sete ou dez anos antes, eu tambm distinguia o dia do 
despertar no hospital do dia da partida para Solara, e sabia muito bem que 
entre um e outro houve uma maturao, um mudar de opinies, um confronto 
de experincias. Mas, ao contrrio, naquelas trs semanas eu absorvera tudo 
como se, menino, tivesse engolido tudo de uma s vez e num s flego - e, 
claro, tinha a impresso de estar entorpecido por causa uma beberagem 
inebriante. 

Tinha, portanto, que renunciar quela grande bouffe de velhos papis, 
recolocar as coisas em ordem e bebericar segundo o fluir do tempo. Quem 
poderia me apontar o que tinha lido aos oito e no aos treze anos? Pensei um 
pouco e entendi: eta impossvel que entre todas aquelas caixas no estivessem 
os meus livros e cadernos escolares. Aqueles eram os documentos a descobrir, 
bastava seguir a sua lio, deixando-me guiar pela mo. 

 

No jantar interroguei Amlia sobre o prespio. F>a importante, e como, 
para o seu av. No, no era de igreja, mas o prespio era como a massa real, 
sem ele no havia Natal, e se no existissem os netinhos, ele o teria montado 
para si mesmo. Comeava a trabalhar no incio de dezembro, olhando bem no 
sto, certamente encontrar toda a armao em que se aplicava a tela do cu, 
com muitas lampadinhas por dentro da boca de cena para fazer brilharem as 
estrelas. "Que lindo o prespio do senhor seu av, todo ano me dava vontade 
de chorar. E a gua escorria de verdade no rio, tanto que uma vez transbordou 
e molhou todo o musgo, que ficou fresquinho, fresquinho naquele ano, e o 
musgo desabrochou em tantas florezi-nhas azuis que foi o verdadeiro milagre 
do Menino, at o padte veio ver e no acreditava em seus prprios olhos." 
"Mas como fazia para a gua escorrer?" 

Amlia ficou vermelha e borbotou alguma coisa, depois se decidiu: "Na 
caixa do prespio, em que depois da Epifania eu ajudava a guardar tudo, deve 
haver ainda uma coisa, como um garrafo de vidro sem gargalo. Viu? Pois 
bem, talvez nem se use mais aquilo, era uma mquina, com a sua licena, para 
fazer o clister. Sabe o que  clistet? Ainda bem, assim no preciso explicar que tenho vergonha. Ento, ao senhor seu av lhe veio a boa idia de botar 
embaixo do prespio a mquina do clister e, girando-se os tubos do modo 
certo, a gua saa e depois voltava para baixo. Um espetculo, eu lhe digo, bem melhor que cinema." 













8. QUANDO O RDIO 

 

 

 Depois de oito dias no sto, decidi descer at a cidadezinha e tirar a 
presso no farmacutico. Alta, dezesseis. Gratarolo despachou-me do hospital 
com o compromisso de mant-la em treze, e treze estava quando parti para 
Solara. O farmacutico dizia que, tendo sido tirada logo depois de descer a 
colina at a cidade,  claro que estava alta. Se tivesse tirado de manh assim 
que levantasse, estaria mais baixa. Histrias. Eu sabia o motivo: vivera dias e dias como um possesso. 

Telefonei para Gratarolo, perguntou-me se fizera alguma coisa que no 
devia e tive que admitir que catregava caixas, bebia pelo menos uma garrafa 
por refeio, fumava vinte Gitanes por dia, alm de infligir-me muitas doces 
taquicardias. Repreendeu-me: estava em convalescena, se a presso subisse s 
estrelas o acidente poderia se repetir e talvez eu no conseguisse escapar de 
fininho como da primeira vez. Prometi que iria me cuidar, ele aumentou a 
dose dos comprimidos e acrescentou outros para eliminar sal atravs da urina. 

Pedi que Amlia salgasse menos a comida, e ela disse que durante a guerra 
para conseguir um quilo de sal tinha que dar saltos mortais e ainda dois ou trs 
coelhos em troca, logo o sal  uma graa de Deus que, quando falta, as coisas j no tm gosto de nada. Eu disse que o mdico me proibira e ela rebareu que os doutores 
estudam tanto e depois ficam mais burros que os outtos e que no se deve dar ouvidos a eles - bastava olhar para ela, que nunca tinha visto um 
mdico em sua vida e que aos setenta completos se desancava todo o santo dia 
em mil trabalhos, e no tinha nem citica como os outros. Pacincia, 
eliminaria o seu sal com minhas urinas. 

Antes precisava interromper as visitas ao sto, fazer um pouco de 
movimento, distrair-me. Telefonei a Gianni: queria saber se tudo aquilo que 
lera naqueles dias dizia alguma coisa a ele tambm. Parece que tivemos 



experincias diferentes - ele no tinha um av colecionador de material fora 
de moda - mas foram muitas as leituras comuns, mesmo porque 
emprestvamos livros um ao outro. Sobre Salgari desafiamo-nos por meia hora 
em trivial games, como num programa televisivo. Como se chamava o grego, 
alma danada do raj de Assam? Teotokris. Qual era o sobrenome da bela 
Honorata, que o Corsrio Negro no podia amar porque era filha de seu 
inimigo? Van Guld. E com quem se casa Darma, a filha de Tremal-Naik? Sir 
Moreland, filho de Suyodhana. 

Tentei tambm com Topetinho, mas no dizia nada a Gianni. Lia mais 
histrias em quadrinhos, e se refez metralhando-me com uma rajada de 
ttulos. Eu tambm devo ter fido quadrinhos, e alguns nomes que Gianni 
citava soavam familiares, o Bando Areo, Raio contra Flattavion, Mickey e 
Mancha Negra, sobretudo Cino e Flanco, heris de Tim Tyler's Luck... Mas 
no encontrara nem sombra deles no sto. Talvez meu av, que amava 
Fantomas e Rocambole, considerasse os quadrinhos uma porcaria que estraga 
as crianas. E Rocambole, no? 

Teria crescido sem quadrinhos? Era intil impor-me longas interrupes e 
repousos forados. Estava se reativando em mim o frenesi da busca. 

 

Paola me salvou. Naquela mesma manh, por volta de meio-dia, chegou de 
surpresa, com Carla, Nicolerta e as trs crianas. No se convenceu muito com 
meus poucos telefonemas. Um passeio no campo s para um abrao, disse, 
voltaremos antes do jantar. Mas eia me sondava, me examinava. 

"Voc engordou", disse. Ainda bem que no estava plido, com todo o sol 
que peguei no balco e na vinha, mas devo ter ficado um pouco mais pesado. 
Disse que eram os jantarezinhos de Amlia, e Paola prometeu cham-la de 
volta  ordem. No lhe disse que ficava h dias enrodilhado em algum canto, 
sem me mover por horas e horas. 

Um belo passeio,  do que precisamos - disse ela - e l fomos ns com toda 
a famlia para o Conventinho, que conventinho no era mas apenas uma 
capela que se perfilava a poucos quilmetros em uma elevao. A subida era 
contnua e, portanto, quase imperceptvel, salvo umas poucas dezenas de 
metros no final, e enquanto tomava flego, incitava os meninos a recolher um 
buquezinho de rosas e violetas. Fazendo-se de rabugenta, Paola me convidava 
a sentir os perfumes e parar de citar os Poetas - mesmo porque o Poeta men-
tia, como todos os de sua espcie, as primeiras tosas s florescem depois que as 
violetas j saram de frias e de todo modo rosas e violetas no podem ser 
amarradas no mesmo buqu,  ver para crer. 

Para mostrar que no lembrava apenas de trechos de enciclopdia, 
desencavei algumas das histrias aprendidas naqueles dias, e os meninos 
caracolavam a meu redor de olhos esbugalhados, pois eles nunca tinham 
ouvido aquelas histrias antes. 

Para Sandra, o maiorzinho, contei A ilha do tesouro. Disse como, 
partindo da hospedaria "Ao Almirante Benbow", embarquei na His-paniola, 
com Lord Trelawney, o dr. Livesey e o capito Smollett, mas parece que os 
dois que lhe eram mais simpticos eram Long John Silver, por conta da perna 
de pau, e aquele infeliz do Ben Gun. Ele arregalava os olhos excitado, entrevia 
piratas  espreita entre os arbustos e dizia mais, mais, e no entanto acabou-se, 
pois uma vez conquistado o tesouro do capito Flint a histria chegava ao fim. 
Em compensao cantamos longamente Quinze homens no caixo do 
morto... Io-ho-ho, e uma garrafa de rum... 

 

Para Giangio e Luca dei o meu melhor evocando as trapalhadas de 
Giannino Stoppani do Jornalzinho de Cian Burrasca. Quando enfiei o 
basto no fundo do vaso da arruda de tia Bertina e pesquei o dente do senhor 
Venanzio, eles no pararam mais de rir daquilo que podiam entender aos tts 
anos, e talvez minhas histrias tenham agradado mais a Carla e Nicoletta, para 
quem, triste sinal dos tempos, ningum nunca contara nada de Gian Burrasca. 

 

 

Mas para elas achei mais fascinante contar como, nas vestes de Rocambole, 
para eliminar meu mestre na arte do crime, Sir William, hoje cego, mas ainda 
testemunha embaraosa de meu passado, eu o derrubava e enfiava em sua nuca 
uma longa haste afiada, fazendo desaparecer depois a pequena mancha de 
sangue que se formara entre seus cabelos, de modo que todos pensassem em 
um ataque apopltico. 

Paola gritava que no devia contar tais histrias s crianas, e que por sorte 
hoje em dia j no se enconttam desses alfinetes pela casa, do conttrio ainda 
acabavam experimentando com o gato. Mas estava intrigada antes por eu ter 
contado todas aquelas histrias como se tivessem acontecido comigo. 

"Se faz isso para divertir os meninos", dizia-me, " uma coisa, do contrrio 
est se identificando demais com aquilo que l e isso  pegar emprestada a 
memria de outra pessoa. Tem clareza da distncia entre voc e essas 
histrias?" 

"Mas veja isso", dizia eu> "desmemoriado sim, mas doido no,  para as 
crianas." 

"Espero", disse. "Mas voc veio at Solara para se encontrar a si mesmo, 
porque se sentia oprimido por uma enciclopdia feita de Homero, Manzoni ou 
Flaubert, e entrou na enciclopedia da para-literatura. Ainda no  um ganho." 

",  sim", respondi, "antes de tudo porque Stevenson no  pa-raliteratura, 
depois porque no  culpa minha se o tal sujeito que quero encontrar devorava 
paraliteratura e finalmente foi voc mesma, com a histria do tesouro de 
Clarabela, quem me mandou para c. 

" verdade, desculpe. Se sente que lhe serve de alguma coisa, v adiante. 
Mas com cautela, no se deixe intoxicar por tudo o que l," Para mudar de 
assunto perguntou sobre a presso. Menti: disse que acabara de tirar e que 
estava em treze. Ficou feliz, pobre querida. 

Na volta do passeio, Amalia preparara uma bela merenda e gua fresca com 
limo para todos. Depois eles se foram. 

Comportei-me bem naquela noite e fui dormir com as galinhas. 

 

Na manh seguinte voltei a percorrer os quartos da ala antiga que, 
pensando bem, visitara muito apressadamente. Entrei de novo no quarto de 
meu av, que mal olhara, presa de um temor reverente. L tambm estavam a 
cmoda e o grande guarda-roupa espelhado, como em todos os quartos de 
dormir de antigamente. 

Abri e tive a grande surpresa. No fundo, quase escondidos pelas roupas 
penduradas, que conservavam um odor de naftalina defunta, havia dois 
objetos. Um gramofone e um rdio. Ambos estavam cobertos pelas folhas de 
uma revista, que recolhi: era Radiocorriere, uma publicao dedicada  
programao de rdio, um numero dos anos quarenta. 

No gramofone ainda estava um velho setenta e oito rotaes, coberto por 
uma camada de sujeira. Levei meia hora para limp-lo, cuspindo no leno. O 
ttulo dizia Amapola. Coloquei o gramofone na cmoda, girei a manivela e da 
corneta saram uns sons confusos. Mal se reconhecia a melodia. O velho 
aparelho estava em estado de demncia senil, nada a fazer.  bem verdade que 
j devia ser coisa de museu quando eu era menino. Se queria ouvir msica 
daquele tempo, tinha que usar o toca-discos do escritrio. Mas e os discos, 
onde estavam? Precisava perguntar a Amlia. 

 

O rdio, embora protegido, em cinqenta anos acumulara,  claro, um 
bocado de p, tanto que dava para escrever em cima com o dedo. Era um belo 
Telefunken cor de mogno (eis o porqu da embalagem encontrada no sto), 
com o alto-falante forrado por um tecido de fios grossos (que talvez servisse 
para que a voz soasse melhor). 

Ao lado do alto-falante, o dial com as estaes, escuto e ilegvel, e embaixo 
trs botes. Era evidentemente um rdio de vlvula, e agitando-o ouvia-se 
alguma coisa chacoalhar l dentro. Ainda tinha o fio com a tomada. 

Levei-o para o escritrio, depositei com cuidado na mesa e liguei na 
tomada. Quase milagre, sinal de que naqueles tempos se construam coisas 
slidas: a luzinha que iluminava o dial, embora fraca, ainda funcionava. O 
resto no, evidentemente as vlvulas estavam arruinadas. Pensei que em algum 
lugar, talvez em Milo, poderia descobrir um daqueles apaixonados que sabem 
reativar esses receptores, dispondo de um estoque de peas antigas, como os 
mecnicos que consertam automveis de poca usam as peas boas dos carros 
enviados para o ferro-velho. Depois pensei no que diria um daqueles velhos 
eletricistas cheio de bom senso popular: "No quero roub-lo. Olhe que, se 
fizer isso funcionar, o senhor no vai ouvir o que ouvia antigamente, mas o que 
transmitem agora, e portanto custa menos comprar um rdio novo." Diabo de 
homem. Eu estava jogando uma partida perdida j de incio. Um rdio no  
um livro antigo, que se abre e se encontra exatamente o que foi pensado, dito e 
impresso h cinqenta anos. Aquele rdio me permitiria ouvir, ainda mais 
rascante, essa horripilante msica rock ou como quer que a chamem hoje.  
como querer sentir de novo o toque frisante da gua vichi bebendo San 
Pellegrino recm-comprada no supermercado. Aquela caixa quebrada me 
prometia sons perdidos para sempre. Conseguir ressuscit-los como as palavras 
congeladas de Pantagruel... Mas se minha memria cerebral poderia um dia 
retornar, aquela feita de ondas hertzianas era irrecupervel. Solara no podia 
me ajudar com som algum, exceto o rumor ensurdecedor de seus silncios. 

L estava, no entanto, o quadrante luminoso com os nomes das estaes, 
amarelas as ondas mdias, vermelhas as curtas, verdes as longas, nomes sobre 
os quais eu devia conjecturar longamente, movendo o ponteiro e tentando 
ouvir sons inusitados de cidades mgicas como Stuttgart, Hilversum, Riga, 
Tallin. Nomes nunca dantes ouvidos, que talvez associasse a Macednia, 
Turkish Atika, Virgnia, Al Kalif e Istambul. Sonhei mais debruado sobre um 
atlas ou sobre aquela lista de estaes com seus sussurros? Mas havia nomes 
domsticos como Milo e Bolzano. Comecei a cantarolar: 

 

Quando a rdio transmite de Turim, diz essa 
noite te espero em Valentim, mas de 
repente se muda de programa quer dizer: 
ateno, mame me chama. Rdio Bolonha, 
meu corao te sonha, Rdio Milo, te ouo 
com paixo, Rdio San Remo, esta noite nos 
veremos... 

 

Os nomes das cidades eram mais uma vez palavras que recordavam outras 
palavras. 

O aparelho devia ser, a olho, dos anos trinta. Na poca, um rdio devia 
custar caro e com certeza entrou para a famlia s num determinado momento, 
como smbolo de status. 

Queria conseguir saber o que se fazia com um rdio nos anos trinta e 
quarenta. Liguei de novo para Gianni, 

No comeo disse que eu tinha que pag-lo por empreitada, visto que o 
usava como mergulhador para ttazer  superfcie nforas submersas. Mas 
depois acrescentou com voz comovida: "E, o rdio... Chegou aqui s em 1938. 
Custavam caro, meu pai era um empregado, mas no como o seu, trabalhava 
numa pequena empresa e ganhava pouco. Vocs saam de frias no vero, ns 
ficvamos na cidade e amos tomar a fresca  noite nos jardins pblicos, e 
sorvete uma vez por semana. Meu pai era um homem taciturno. Naquele dia 
quando voltou para casa, sentou-se  mesa, comeu em silncio e depois, no 
final, apareceu com um embrulho de doces. Como, se no  domingo? 
perguntou minha me. E ele: assim, me deu vontade. Comemos os doces e 
depois, coando a cabea, ele disse: Mara, parece que nesses meses as coisas 
foram bem e hoje meu patro me deu mil liras de presente. Minha me quase 
teve uma coisa, levou a mo  boca e gritou: oh, Francesco, ento vamos 
comprar um rdio! Assim. Naqueles anos circulava Se pudesse ter mil liras 
por ms. A letra era a histria de um pequeno empregado que sonhava com 
um salrio de mil liras para comprar todo tipo de coisa para a mulherzinha 
jovem e bonita. Donde, mil liras eram um bom salrio, talvez mais que o do 
meu pai, mas de qualquer forma, foi como um dcimo-terceiro que ningum 
esperava. Assim o rdio entrou l em casa. Deixe-me pensar, era um Phonola. 
Uma vez por semana tinha o concerto operstico Martini e Rossi e num outro 
dia a comdia. Tallin e Riga, ah se ainda estivessem no meu rdio de agora, que 
s tem nmeros... Depois, com a guerra, a nica pea que tinha aquecimento 
era a cozinha, o rdio foi para l e de noite, com o volume baixinho, baixinho, 
do contrrio podamos acabar na priso, escutvamos a Rdio Londres. 
Fechados em casa com os vidros cobertos de papel azul, aquele de pacote de 
acar, por causa do blecaute. E as canes! Quando voltar, se quiser, eu posso 
cantar todas elas, at os hinos fascistas. Sabe que no sou saudosista, mas s 
vezes me bate uma vontade de cantar hinos fascistas, para me sentir de novo 
como naquelas noites ao lado do rdio... Como era mesmo a publicidade? 
Rdio, a voz que encanra.'' 

Pedi-lhe que parasse.  verdade que eu mesmo perguntara, mas agora ele 
estava poluindo a minha tabula rasa com as suas memrias. Precisava reviver 
aquelas noites sozinho. Devem ter sido diversas: ele tinha um Phonola e eu um 
Telefunken e talvez ele sintonizasse em Riga e eu em Tallin. Mas era mesmo 
possvel pegar Tallin e depois ouvir falar em estoniano? 

 

Desci para comer e, dane-se o Gratarolo, bebi, mas s para esquecer. Logo 
eu, esquecer. Mas tinha que apagar as excitaes da ltima semana e fazer vir a 
vontade de dormir  sombra vespertina, estendido na cama com Os tigres de 
Mompracem, que na poca talvez me mantivesse desperto at a madrugada, 
mas que nas duas ltimas noites revelara-se beneficamente soporfero. 

Porm, entre uma garfada para mim e um bocado para Mat, tive uma 
idia simples mas luminosssima: o rdio transmite o que se pe no ar agora, 
mas num gramofone pode-se ouvir o que havia num disco de ento. So as 
palavras congeladas de Pantagruel. Para ter a impresso de ouvir o rdio de 
cinqenta anos atrs eu precisava dos discos. 

"Os discos?", resmungou Amlia. "Mas pense antes em comer, no em 
discos que toda essa coisa boa vai ficar atravessada e vira txico e depois s o 
mdico! Os discos, os discos, os discos... Mas santa poenta, eu no estou no 
sto! Quando os senhores seus tios jogaram tudo fora, eu ajudei e... espere, 
espere... disse a mim mesma que aqueles discos que estavam no escritrio, se 
eu tivesse que carregar l pra cima, iam acabar escapando da minha mo e 
quebrando escada abaixo. E ento eu enfiei... enfiei... desculpe, sabe, no  que 
no tenha mais memria, embora na minha idade fosse justo, mas j se 
passaram cinqenta anos completinhos e no  que fiquei aqui cinqenta anos 
pensando sempre nesses discos. Ah, sim, que cabea! Devo ter enfiado todos 
eles na arca que fica na frente do escritrio do senhor seu av!" 

Pulei a fruta da sobremesa e subi para identificar a arca. No tinha feito 
muito caso durante a minha primeira visita: abri e l estavam os discos, um em 
cima do outro, todos bons velhos setenta e oito rotaes com a capa de 
proteo. Amlia colocara l dentro assim como vinham, e tinha de tudo. 
Levei meia hora para transport-los para a mesa do escritrio e comecei a 
coloc-los em alguma ordem na estante. Meu av deve ter sido um amante da 
boa msica, tinha Mozart e Beethoven, rias de peras (at um Caruso) e 
muito Chopin, mas tambm partituras de canes da poca. 

Consultei o velho Radiocorriere: Gianni tinha razo, havia um programa 
semanal de msica lrica, as comdias, algum raro concerto sinfnico, os 
jornais radiofnicos e, de resto, msica ligeira, ou meldica, como se dizia 
ento. 

 

 

Precisava ouvir as canes, aquele deve ter sido o ambiente sonoro em que 
cresci - talvez meu av ficasse no escritrio ouvindo Wagner, e o resto da 
famlia ouvisse canonetas no rdio. 

Logo descobri Se pudesse ter mil liras por ms, de Innocenzi e Soprani. 
Meu av anotara em muitas capas uma data, no sei se era do lanamento da 
cano ou da aquisio do disco, mas podia calcular aproximadamente o ano 
em que a cano j, ou ainda, seria executada no rdio. Nesse caso, o ano era 
1938, Gianni lembrara bem, a cano surgiu quando na casa dele estavam 
comprando o Phonola. 

Tentei ativar o toca-discos. Ainda funcionava: o alto-falante no era um 
prodgio, mas talvez fosse justo que tudo crocitasse como antigamente. Assim, 
com o dial iluminado como se o aparelho estivesse vivo, eu ouvia uma 
transmisso do vero de 1938: 

 

Se pudesse ter mil liras todo ms, 
sem exagero com certeza ia 
encontrar toda a felicidade! 

Um modesto emprego, no tenho altivez, 
s quero trabalhar para um dia achar 
toda a tranqilidade! 

Uma casinha na periferia, 
uma mulherzinha, 
jovem e graciosa, tal como s. 

Se pudesse ter mil liras todo ms, 
compraria de tudo e entre tanta coisa 
as mais belas seriam para ti' 

 

Perguntara-me nos dias anteriores como seria dividido o eu de um menino 
exposto a mensagens de glria nacional enquanto, por outro lado, imaginava as 
nvoas de Londres, onde encontrava Fantomas que lutava contra Sandokan em 
meio a uma chuva dc maas pontiagudas que afundava os peitos e destroava 
braos e pernas dos compatriotas educadamente perplexos de Sherlock Holmes 
-e agora ficava sabendo que, na mesma poca, o rdio propunha como ideal de 
vida um contador sem grandes pretenses, almejando apenas a tranqilidade 
de uma periferia. Mas isso talvez fosse uma exceo. 

Precisava reorganizar todos os discos, e por data, quando houvesse uma. 
Queria percorrer, ano aps ano, a formao de minha conscincia atravs dos 
sons que ouvia. 

No curso da arrumao, como um forado, entre uma srie de amor amor, 
traga-me tantas rosas, no tu j no s minha menina, menina enamorada, h 
uma igrejinha de amor oculta no corao das flores, volta, pequetita minha, 
toca s para mim oh violino cigano, tu divina msica, uma hora apenas te 
queria, florinha do prado e tintintirintin, entre execues das orquestras de 
Cinico Angelini, Pippo Barzizza, Amberto Semprini e Gorni Kramer, em 
discos que se chamavam Fonit, Carisch, A Voz do Dono, com o cozinho que 
ouvia com o focinho levantado os sons que saiam da corneta de um 
gramofone, topei com discos de hinos fascistas, que meu av reunira com um 
barbante, como se os quisesse proteger, ou segregar. Meu av era fascista ou 
antifascista, ou nenhum dos dois? 

Varei a noite ouvindo coisas que no me soavam estranhas, embora de 
algumas canes viessem apenas as letras, e de outras s a melodia. No podia 
desconhecer um clssico como Juventude, acho que era o hino oficial de toda 
festividade, mas tambm no podia ignorar que, provavelmente num curto 
intervalo de tempo, meu rdio me apresentava tambm 0pingim 
enamorado, cantado, como recitava a capa do disco, pelo Trio Lescano. 

Tinha a imptessao de conhecer aquelas vozes femininas h muito tempo. 
Conseguiam cantar em trio com intervalos de tera e de sexta, criando um 
efeito de aparente cacofonia que resultava agradabilssimo ao ouvido. E 
enquanto os rapazes da Itlia no mundo me ensinavam que o mximo 
privilgio era ser italiano, as irms Lescano me contavam das tulipas da 
Holanda. 

Decidi alternar hinos e canes (provavelmente era assim que me 
chegavam attavs do rdio). Passei das tulipas ao hino dos Balilia* e mal 
coloquei o disco, segui o canto como se recitasse de memria. O hino exaltava 
aquele jovem corajoso (fascista antecipado, visto que, como sabem as 
enciclopdias, Giovan Battista Perasso vivera no sculo XVIII) que lanara 
uma pedra contra os austracos desencadeando a revolta de Gnova. 


Enquanto na trincheira soa a hora 
de batalha chega primeiro a 
chama negra que terrvel se 
espalha. Com a bomba na mo, e 
a f no corao avana, vai bem 
longe cheio de glria e valor. 

Juventude, Juventude primavera 
de beleza 

da vida na aspereza teu canto 
ressoa e vai. 

De Orsini tenho a bomba com o 
punhal do tetror, quando o obus 
ribomba no me treme o corao, 
minha esplndida bandeira 
defendo com honra  uma chama 
toda negra que incendeia o corao. 

Redonda no cu de maio 

como um queijo de Holanda sobe a 
luz em viagem 

e seu raio nos manda... Falam de 
amor 

as tuli, tuli, tuli, tulipas murmuram 
em coro 

as tuli, tuli, tuli, tulipas... Ouve o 
canto delicioso 

no encanto suspiroso Falam de 
amor 

as tuli, tuli, tuli, tulipas. Delicioso 
corao 

as tuli, tuli, tuli, tulipas, c dc mim 
te ralaro as maravilhosas tuli, tuli, 
tuli, tuli, 

tuli, tulipas! 

Juventude, Juventude, 
primavera de beleza 

da vida ria aspereza teu 
canto ressoa e vai 

Por Benito Mussolini 
Eia Eia Alal. 


* 1 Iipocorstico de Battista, de Giovan Battista Perasso. Durante o fascismo, meninos entre 8 e 14 anos organizados em grupos paramilitares. (N. da T.") 



Zune a pedra, o nome estrila, do 
menino de Portoria e o intrpido 
Baiilla se agiganta na Histria. 
Era bronze o morteiro que na 
lama mergulhou mas o moo foi 
um aceiro e sua Me libertou. 

Fero o olhar, fonte a passada 
claro o grito do valor. Aos 
inimigos, a pedrada aos amigos 
todo o amor. 

Somos nuvem de semente, somos 
chama de coragem: por ns canta 
a nascente, por ns brilha e ri maio. 
Mas se um dia a batalha 

dos heris for realidade ns 
seremos a metralha da Santa 
Liberdade. 
Quando tudo cala e l no cu 
a lua brilhar, com o mais doce 
e caro miau, chamo Maramao.
Vejo tantos 
gatos nos telhados 
a perambular, mas at eles sem 
ti so tristes como eu. 

Maramao por que morreste? Po 
e vinho no faltavam, as saladas 
abundavam e uma casa tinhas tu. 
As gatinhas apaixonadas ainda 
ronronam por ti mas a portas 
esto fechadas e dentro no 
respondes tu. 

Maramao... Maramao... fazem os 
bichanos em coro: Maramao... 
Maramao... rnao, mao, mao, mao, 
mao... 

 

 Ao fascismo no deviam desagradar os gestos terroristas, e na minha verso 
de Juventude ouvi tambm De Orsini tenho a bomba - com o punhal 
do terror, e se me lembto bem, Orsini tentou assassinar Napoleo III. 

Mas, enquanto eu ouvia a noite caiu, e do horto ou da colina ou do jardim 
provinha uma cheiro forte de lavanda e de outras ervas que no conheo 
(tomilho? manjerico? acho que nunca fui bom em botnica - e depois eu 
continuo sendo aquele que, enviado a comprar rosas, voltou para casa com 
tesrculos de cachorro - talvez fossem tulipas de Holanda). Recendiam 
tambm as outras flores que Amlia me ensinara a reconhecer, dlias ou 
znias? 

E apareceu Mat, esfregando-se em minhas pernas e ronronando. Vi um 
disco com um gato na capa e coloquei-o no lugar do hino dos Balilla, 
abandonando-me quela trenodia felina, Maramao, por que morreste? 

Mas ser que os Balilla cantavam Maramao? Talvez devesse voltar aos 
hinos do regime. Mat certamente no se importaria se eu mudasse de cano. 
Sentei-me comodamente, coloquei-o nos joelhos coando-lhe a orelha direita, 
acendi um cigarro e fiz uma Jidl immersion no universo de um Balilla. 

Depois de uma hora de audio minha mente era um empasto de frases 
hericas, de incitaes ao assalto e  morte, de juras de obedincia ao Duce, 
at o sacrifcio supremo. Fogo de Vesta que fora do templo irrompe com asas e 
chamas a mocidade uma mscula juventude vai combater com romana 
vontade no nos importamos um dia sequer com a gal no nos importa a 
triste sorte para preparar essa gente forte que no se importa de morrer agora 
o mundo sabe que a camisa negra se usa para combater e morrer pelo Duce e 
pelo Imprio eia eia alal salve o rei Imperador nova lei o Duce deu ao Mundo 
e a Roma o novo Imprio eu te sado e sigo para Abissnia cara Virgnia mas 
voltarei te mandarei da frica a linda flor que nasce sob o cu do Equador 
Nice Savia Crsega fatal Malta baluarte de romanidade Tunsia nossa costas 
montes e mares soa a liberdade. 

E eu, preferia Nice italiana ou mil liras por ms, cujo valor conhecia? Um 
menino que brinca com fuzis e soldadinhos quer libertar a Crsega fatal e no 
maramaorJejar entre tulipas e pinguins enamorados. Todavia, Balilla  parte, 
eu ouvia O pingim enamorado enquanto lia O capito Satana, e 
imaginava pingins nos mares gelados do Norte? E seguindo A volta ao 
mundo em 80 dias, via Phileas Phogg viajando entre campos de tulipas? E 
como eu harmonizava Rocambole com seu alfinete e a pedra de Giovan 
Battista Perasso? Tulipa era de 1940, quando a guerra comeou: naquela 
poca eu certamente cantava Juventude tambm, mas quem me garantia que 
eu no teria lido o capito Satana, e Rocambole, em 1945, com a guerra 
acabada, quando dos cantos fascistas j se perdera qualquer vestgio? 

Precisava realmente recuperar meus livros escolares a qualquer custo. L 
teria finalmente sob os olhos as minhas verdadeiras primeiras leituras, e as 
canes com data me diriam com que sons eu as acompanhava, e talvez se 
esclarecesse a relao entre no ligamos para a triste sorte e os massacres 
com os quais o Jornal Ilustrado das Viagens e das Aventuras me tentava. 

Intil impor-me alguns dias de trgua. Na manh seguinte precisava voltar 
ao sto. Se meu av era metdico, os livtos de escola no deviam estar longe 
das caixas dos livros infantis. Se os tios no tivessem colocado tudo em 
desordem. 

 

No momento, estava cansado de chamamentos  glria. Cheguei  janela. 
Enquanto o perfil das colinas delineava-se contra o cu, a noite sem lua estava 
pontilhada de estrelas. Por que me viera  mente aquela expresso 
desgastada pelo uso? Vinha de uma cano, com certeza. Estava olhando o cu 
da forma como o ouvira cantado outrora. 

Comecei a remexer entre os discos e escolhi todos aqueles que, no ttulo, 
faziam pensar na noite e nalgum espao sideral. O tocadiscos de meu av j era 
daqueles que permitiam empilhar vrios discos uns sobre os outros de modo 
que, acabado um, casse o outro no prato. Exatamente como se o rdio cantasse 
sozinho, sem que eu tivesse que girar a manivela. Dei a partida e me deixei 
embalar, debruado no parapeito, diante do cu estrelado sobre mim, ao som 
de tanta boa msica ruim que alguma coisa dentro de mim tinha que 
despertar. 

Esta noite em que brilham mil estrelas... Uma noite, com as estrelas e 
voc... Fale-me, fale-me sob as estrelas, diga-me as coisas mais lindas no doce 
encanto do amor... L sob o cu das Antilhas, onde as estrelas so centelhas, 
descem em mil os eflvios do amor... Sob um cu de estrelas quero te olhar, 
sob um cu de estrelas te quero beijar... Com voc, sem voc, cantamos s 
estrelas e  lua, quem sabe no chega para mim a boa fortuna... Lua 
marinheira, o amor  belo se no se sabe, Veneza a lua e tu, contigo sozinhos 
na noite, contigo cantarolando uma cano... Cu d'Hungria, suspif de nos-
talgia, com infinito amor penso em ti... Vou flanando para onde o cu  
sempre azul, ouo os pssaros que esvoaam sobre as rvores e l de cima 
gorjeiam... 

Devo ter colocado o ltimo disco por engano, no tinha nada a ver com o 
cu, era uma voz sensual, como de um saxofone no cio, que cantava: 

 

L em Capocabana - l em Capocabana a mulher  rainha a mu-
lher  soberana... 

 

Perturbou-me o rumor de um motor distante, talvez um carro que passava 
no vale, senti um sinal de taquicardia e disse comigo: " Pipetto!" Como se 
algum se apresentasse pontualmente no momento esperado, e mesmo assim 
sua vinda me inquietasse. Quem era Pipetto?  Pipetto, dizia, mas eram 
apenas, mais uma vez, meus lbios a recordar. Somente flatus voeis. Quem 
era Pipetto eu no sabia. Ou melhor, alguma coisa em mim sabia, s que essa 
coisa se enfurnava, sonsa, na regio ferida de meu crebro. 

timo tema para a Biblioteca dos meus Meninos, O segredo de Pipetto. 
Seria talvez a adaptao italiana de, sei l, O segredo de Lan-tena. 

Eu me angustiava com o segredo de Pipetto e talvez no houvesse segredo 
algum, exceto aqueles que um rdio sussurrou para algum noite adentto. 








9. MAS PIPPO NO SABE 

 



 Houve outros dias (cinco, sete, dez?) cujas recordaes se fundem, e talvez 
seja bom, pois aquilo que me sobrou era, como dizer, a quintessncia de uma 
montagem. Liguei testemunhos disparatados, cortando, colando, ora por 
seqncia natural de idias e emoes, ora por contraste. O que restou no  
mais o que vi e senti durante aqueles dias, e nem o que poderia ter visto ou 
sentido em criana: era o figmentum, a hiptese elaborada sessenta anos de-
pois sobre o que eu poderia ter pensado aos dez. Pouco que permitisse dizer 
"sei que aconteceu assim", muito para reexumar, em folhas de papiro, daquilo 
que presumivelmente podia ter experimentado ento. 

Voltei ao sto, e j estava comeando a ficar com medo de que no tivesse 
sobrado nada das coisas da escola, quando meus olhos caram sobre uma 
grande caixa, fechada com fita adesiva, na qual estava escrito "Primrio e 
Ginsio Yambo". Tinha at uma outra com "Primrio e Ginsio Ada", mas eu 
no precisava reativar a memria de minha irm. J tinha trabalho demais 
com a minha. 

Queria evitar outra semana de presso alta. Chamei Amlia e pedi ajuda 
para transportar a caixa para o escritrio de meu av. Depois pensei que devo 
ter feito o primrio e o ginsio entre trinta e sete e quarenta e cinco e resolvi 
levar tambm as caixas em que estava escrito "Guerra", "Anos 40" e 
"Fascismo". 

No escritorio, esvaziei tudo e organizei em prateleiras diversas. Livros do 
primrio, manuais de histria ou de geografia do mdio e tambm muitos 
cadernos com meu nome, ano e classe. Havia muitos jornais. Parece que meu 
av, da guerra da Etipia em diante, conservara os nmeros importantes, 
aquele com o histrico discurso do Duce pela conquista do Imprio, outro 
com a declarao de guerra de 10 de junho de 1940, e assim por diante, at o 
lanamento da bomba atmica em Hiroshima e o fim da guerra. Depois 
vinham cartes-postais, cartazes, opsculos, algumas revistas. 

Resolvi seguir adiante com o mtodo de um historiador, controlando os 
testemunhos por confronto recproco. Vale dizer que, se lia os livros e 
cadernos da quarta srie do primrio, 1940-41, folheava os jornais dos mesmos 
anos e, na medida do possvel, punha no toca-discos as canes dos mesmos 
anos. 

 

Disse a mim mesmo que, se os livros eram do governo, do governo deviam 
ser tambm os jornais, e todos sabem, por exemplo, que o Pravda dos tempos 
de Stalin no dava aos bons soviticos as notcias certas. Mas tive que mudar 
de idia. Embora obtusamente propagandsticos, os jornais italianos, mesmo 
em tempo de guerra, permitiam que se entendesse o que estava acontecendo. 
A distncia no tempo meu av estava me dando uma grande lio, civil e his-
toriogrfica tambm:  preciso aprender a ler nas entrelinhas. E nas 
entrelinhas ele lia, sublinhando no tanto os ttulos em letras garrafais, mas 
antes os artigos menores, as notas e tpicos, as notcias que poderiam escapar 
de uma primeira leitura. Um Corriere delia Sera de 6-7 de janeiro de 1941 
dizia no ttulo: "Na frente de Bardia a batalha  contnua e muito acirrada." 
Em meia coluna, o boletim de guerra (um por dia e listando burocraticamente 
at o nmero dos avies inimigos abatidos) dizia com destaque que "outras 
bases caram depois de uma forte resistncia de nossas tropas, que inflingiram 
ao adversrio perdas notveis". Outras bases? Pelo contexto entendia-se que 
Bardia, na frica Setentrional, cara em mos inglesas. 

Ainda assim, meu av assinalou na margem, com tinta vermelha, como em 
muitos outros nmeros, "RL, perdida B., 40.000 pris." RL queria dizer, 
evidentemente, Rdio Londres e meu av confrontava as notcias da Rdio 
Londres com as oficiais. No somente perdera-se Bardia, mas 40.000 soldados 
nossos foram feitos prisioneiros pelo inimigo. Como se v, o Corriere no 
mentia, no mximo supunha como evidentes as partes sobre as quais era 
reticente. O mesmo Corriere, em 6 de fevereiro, intitulava: "Contta-ataques 
das nossas tropas na frente norte da frica Oriental." Qual eta a frente norte 
da frica Oriental? Enquanto em muitos nmeros do ano anterior, quando se 
dava notcia das primeiras penetraes na Somlia Britnica e no Qunia, 
apareciam mapas precisos para mostrar onde estvamos avanando 
vitoriosamente, naquela notcia sobre a frente norte no havia mapa, e s 
verificando num atlas se entendia que os ingleses tinham penetrado na 
Erittia. 

O Corriere de 7 de junho de 1944 anunciou vitoriosamente em nove 
colunas: "A artilharia da defesa germnica bate as unidades aliadas nas costas 
da Normandia." O que faziam alemes e aliados nas costas da Normandia?  
que 6 de junho foi o famoso Dia D, incio da invaso, e o jornal, que no 
poderia ter falado disso no dia anterior, dava a coisa por subentendida, mas 
precisava que o marechal von Rundstedt no se deixara surpreender e a praia 
estava cheia de cadveres inimigos. Ningum poderia dizer que no era 
verdade. 

Eu podia proceder com mtodo e reconhecer a sucesso dos fatos reais 
graas  imprensa fascista lida como se deve, e como provavelmente todos 
faziam. Acendi o dial do rdio, liguei o toca-discos e revivi. Naturalmente era como reviver a vida de um outro. 

 

Primeiro caderno de escola. Naqueles tempos ensinava-se antes de mais 
nada a traar linhas e s se passava para as letras do alfabeto quando se era 
capaz de encher uma pgina com linhas bem alinhadas, todas retas. Educao 
da mo e do pulso: a caligrafia valia alguma coisa quando a mquina de 
escrever s existia nos escritrios. Passei para o Livro da primeira srie, "compilado pela senhorita Maria 
Zanetti, ilustraes de Enrico Pinochi", Libreria dello Stato, Ano XVI. 

Eia! Eia! 

Be... be... bcije-me, menina, na bo... 
boquinha pequenina; d-me tan tan tantos 
beijos sem parar. Tarataratarataratatat. 

Bi... bi... bibel, bonequinha, 

Be... be..., bela e manhosinha. 

Que ten ten tentao para mim c voc! 

Tereteretereteretetc. 

BR, A: BA; BE, E: BE. Soletra 
comigo, meu bem. BE, O; 
BO; BR, U: BU. So to 
deliciosas essas slabas de 
amor. 

 

Nas pginas dos primeiros ditongos, depois de io, ia, aia, vinham Eia!Eia! 
e um feixe lictrio. O alfabeto era ensinado ao som de "Eia, Eia, Alal!", que eu 
saiba, um grito dannunziano. Para o B havia palavras como Benito, e uma 
pgina dedicada a Balilla. No exato momento em que meu rdio tocava uma 
outra silabao, be, be, beije-me menina. Como terei aprendido o B, visto 
que o meu Giangio ainda confunde B com o V e diz berme ao invs de 
verme? 

Balilla e os Filhos da Loba. Uma pgina com um menino de uniforme, 
camisa negra e uma espcie de bandoleira branca cruzada no peito com um M 
no centro. "Mario  um homem", dizia o texto. 

 

Filho da Loba.  24 de maio. Guglielmo veste o belo uniforme de 
Filho da Loba. "Papai, eu tambm sou um soldadinho do Duce, no ? 
Serei um Balilla, usarei o galhardete, terei um mosquete, vou me 
transformar num Vanguardista. Eu tambm quero fazer os exerccios, 
como os soldados de verdade, quero ser o mais corajoso de todos, 
quero merecer muitas medalhas..." 

 

Logo depois uma pgina que parecia com as images d'Epinal, mas no eram 
zuavos ou couraados franceses, mas os uniformes das vrias formaes juvenis 
fascistas. 

 

 

 

CAMICIE NERE. 

 

 Para ensinar o som gl o livro dava como exemplo gagliardetto, battaglia, 
mitraglia.* A uma criana de seis anos. Aquelas para quem a primavera vem 
cantando. Porm na metade do silabrio ensinava-se alguma coisa sobre o 
Anjo da Guarda: 

 

Caminha um menino pela longa senda, s, 
to s, e no sabe onde anda... 

ueno o menino e grande a campanha: 
mas um Anjo o v, e o acompanha. 

 

Aonde me conduziria o Anjo? L onde canta a metralha? Que eu saiba, 
firmara-se h tempos, entre Igreja e Fascismo, uma Conciliao, e portanto, 
agora tinham que nos educar para que nos tornssemos Balilla, mas sem 
esquecer dos Anjos. 

Ser que eu tambm desfilava de uniforme pelas ruas da cidade? O rdio 
agora cantava um hino marcial que evocava a imagem de um desfile de jovens 
Camisas Negras, mas logo em seguida o panorama mudava e pelas ruas passava 
* Em portugus, respectivamente: lb c galhardete, batalha, metralha. {N. da 77) 


o tal de Pippo, pouco dotado pela me natureza e por seu alfaiate pessoal, j 
que usava a camisa sobre o colete. Pensando no cachorro de Amlia, vi aquele 
passante com o rosto desanimado, plpebras cadas sobre dois olhos aquosos, o 
sorriso estpido e desdentado, duas pernas desarticuladas e os ps chatos. Mas 
se tinha pernas e ps devia ser um outro Pippo;* tinha a impresso de que tinha 
algo a ver com o tesouro de Clarabela, mas no conseguia v-lo. E que relao 
havia entre esse Pippo e Pippetto? 

O Pippo da cano usava a camisa sobre o colete. Mas as vozes do rdio no 
pronunciavam "camisa", mas "camisa"... {sobre o capote veste o jaleco - e 
sobre o colete a camisa...) Devia ser para fazer a letra se enquadrar com a 
msica. Tinha a sensao de ter feito a mesma coisa, mas em outro contexto. 
Cantei de novo Juventude, que ouvira na noite anterior, mas dizendo Por 
Benito e Mussolini, Eia, Eia, Alal. No cantvamos Por Benito 
Mussolini, mas Por Benito e Mussolini. Aquele e era evidentemente 
eufnico, servia para dar maior energia ao Mussolini. Por Benito e Mussolini, 
sobre o colete a camisa. 
* Pippo  tambm o nome italiano de Goofy, o Pateta, companheiro de aventuras de Mickey e Donald. (N. da T.) 



Fogo de Vesta 

que fora do tempo irrompes, com 
asas e chamas a juventude vai. Tochas 
ardentes 

no ar e nas tumbas somos as 
esperanas 

da nova era. 

Duce, Duce, 

quem no saber morrer? O 
juramento quem renegar? Despe a 
espada! 

Quando quiseres galhardetes ao 
vento 

todos iremos a ti. Armas e bandeiras 

dos antigos heris, pela Itlia, oh 
Duce, 

faz balanar ao sol. 

E vai, a vida vai, consigo nos leva 

e nos promete o porvir. 

Uma mscula juventude 

com romana vontade combater 

Vir, esse dia vir, em que a grande 
Me 

dos heris nos chamar pelo Duce, 
oh Ptria, 

pelo Rei,  ns! te daremos a glria 

c imprio no alm-mar! 

Mas Pippo, Pippo no sabe 

que quando passa ri toda a cidade 

e as costureirinhas, 

das vitrinas, 

lhe fazem mil carinhas. 

Mas ele com grande seriedade 

sada a todos, se inclina e se vai, 

se acha belo 

como um Apolo 

e salrita como um gato. 

Sobre o capote veste o jaleco 

e sobre o colete a camisa. 

Sobre o sapato veste a meia 

lhe falta um boto 

com um barbante segura o calo. 

Mas Pippo, Pippo no sabe 

e srio, srio se vai pela cidade, 

se acha belo 

como um Apolo 

e saltita tomo um galo. 




Mas quem passava pelas ruas da cidade, os Balilla ou Pippo? E ns, de 
quem ramos? Perceberia o regime na histria de Pippo uma sutil aluso? 
Talvez fosse a sabedoria popular que nos consolava com lengalengas quase 
infantis daquela retrica do herosmo que tnhamos que suportar a todo 
instante? 


Quase pensando em outra coisa, cheguei a uma pgina sobre a nvoa. 

Uma imagem: Alberto e seu pai, duas sombras que se recortam contra 
outras sombras, todas negras, perfiladas juntas contra um cu cinzento, no 
qual emergem, de um cinza um pouco mais escuro, as silhuetas da casa 
citadina. O texto me dizia que na nvoa as pessoas parecem sombras. Era 
assim a nvoa? 

Aquele cinza do cu no deveria envolver, como leite ou gua com anis, 
tambm as sombras humanas? Segundo o que dizia a coletnea das minhas 
citaes, na nvoa as sombras no se recortam contra, mas nascem de, 
confundem-se com - a nvoa faz ver sombras mesmo onde no h nada e nada 
l onde em seguida sombras vo emergir... O livro da primeira srie do 
primrio mentia, portanto, tambm sobre a nvoa? De fato, terminava com 
uma invocao ao belo sol para que viesse esgarar a nvoa. Dizia que a nvoa 
era fatal, mas indesejvel. Mas como me ensinavam que a nvoa era m, se 
dela depois me ficou uma obscura nostalgia? 

Obscura, escuro, blecaute. Palavras que chamam palavras. Durante a 
guerra, dissera-me Gianni, a cidade mergulhava na escurido para no ser 
identificada pelos bombardeios inimigos, e nem um riozinho de luz devia 
transparecer das janelas das casas. Se era assim, deviam bendizer a nvoa que 
estendia sobre ns o seu manto protetor. A nvoa era boa. 

 certo que o livro da primeira srie, que trazia a data de 1937, no poderia 
falar do blecaute. Falava apenas de nvoa tediosa, como aquela que subia aos 
hirtos montes. Folheei os livros das sries seguintes, mas no havia aluses  
guerra nem no da quinta, que era de 1941 - e a guerra comeara um ano 
atrs. Ainda era uma edio dos anos precedentes, e falava somente de heris 
da guerra da Espanha e da conquista da Etipia. No era bonito que os livros 
escolares falassem dos incmodos da guerra e eles nos subtraam ao presente 
para celebrar as glrias passadas. 

No livro da quarta srie, 1940-41, e estvamos no outono do primeiro ano 
de guerra, s havia histrias das aes gloriosas da Primeira Guerra Mundial, 
com imagens que mostravam nossos soldados no Castro, nus e musculosos 
como gladiadores romanos. 


Mas outras pginas ofereciam, para conciliar o Balilla com o Anjo, contos 
sobre a noite de Natal cheios de doura e bondade. Como s perderamos a 
frica Oriental no final de 4l, quando aquele livro j circulava nas escolas, 
neles ainda campeavam as nossas orgulhosas tropas coloniais e o que eu via 
era um Dubat somali, em seu belo uniforme caracterstico das milcias 
paramilitares, adequado aos costumes daqueles indgenas que estvamos 
civilizando: torso nu exceto por uma faixa branca que se amarrava  
cartucheira. Poesia de comentrio, A guia legionria ala o vo I sobre o 
mundo: s Deus poder det-la. Mas a Somlia j cara em mos inglesas 
desde fevereiro, talvez enquanto eu lia aquela pgina. Eu sabia, no momento 
em que lia? 

De qualquer modo, no mesmo silabario lia-se tambm o Cestinho 
reciclado: Adeus estrpito de trovo!IAdeus furia de procela! I Em fuga 
as nuvens vo I e limpo o cu se revela.,, I Consolado o mundo 
amaina. ! Sobre cada aflita cousa / como um blsamo repousa I a paz 
amiga e serena. 

E a guerra em curso? No livro da quinta srie havia, ao contrrio, uma 
meditao sobre as diferenas raciais, com um capitulozinho sobre os judeus e 
a ateno que se devia dar a esta estirpe infida, que "astutamente 
infiltrando-se entre os arianos... inoculara nos povos nrdicos um novo 
esprito feito de mercantilismo e de sede de lucro". Nas caixas descobri 
tambm alguns nmeros de A Defesa da Raa, uma revista nascida em 1938, 
e no sei se meu av jamais permitiu que me casse nas mos (mas como se 
sabe, antes ou depois comecei a remexer em tudo). Havia fotos de aborgines 
comparadas s de um macaco, outras que mostravam o resultado monstruoso 
do cruzamento entre uma chinesa e um europeu (mas eram fenmenos de 
degenerao que, parece, aconteciam somente na Frana). Falava-se bem da 
raa japonesa e destacavam-se os estigmas indeclinveis da raa inglesa, 



mulheres com papada, cavalheiros rubicundos com nariz de bbado e uma 
vinheta mostrava uma mulher com o elmo britnico, impudicamente coberta 
apenas com umas folhas do Times arranjados em tutu: a mulher olhava-se no 
espelho e Times ao contrrio virava Semit. Quantos aos judeus propriamente 
ditos, no havia o que escolher: era uma reunio de narizes aduncos e barbas 
incultas, de bocas porcinas e sensuais com os dentes salientes, de crnios 
braquicfalos, zigomas marcados e olhos tristes de Judas hie-rosolimitano, 
com ventres incontinentes de fizo de fraque, com a corrente do relgio de 
ouro sobre o colete, as mos rapaces tesas sobre as riquezas dos povos 
proletrios. 

Meu av, acho eu, inseriu entte aquelas pginas um carto de propaganda 
no qual um semita repugnante, tendo como fundo a Esttua da Liberdade, 
estendia as mos aduncas para quem olhava. Seja como for, sobrava para 
todos, pois um outro carto-postal mostrava um negro bbado com chapu de 
caubi que alisava com manoplas 
como garras o umbigo da Vnus de Miio. O desenhista esquecera que 
declarramos guerra tambm  Grcia e, portanto, o que deveria nos importar 
se aquele bruto bolinava uma helnica mutilada, cujo marido andava por a de 
saiote e com um pompom no sapato? 

Em contraposio, a revista mostrava os perfis puros e viris da raa itlica, 
e se Dante e alguns conottieri no tinham um nariz propriamente pequeno 
e reto, falava-se naqueles casos de "raa aquilina". Se depois disso eu ainda no 
estivesse totalmente convencido da pureza ariana de meus compatriotas, em 
meu livro de leitura havia uma impressionante poesia sobre o Duce 
{Quadrado  o mento e mais quadrado o peito. I O passo de coluna 
que caminha. / A voz que morde como gua em jato) e a comparao 
entre os traos msculos de Jlio Csar e os de Mussolini (que Csar, ademais, 
fosse para a cama com seus legionrios eu s ficaria sabendo depois, pelas 
enciclopdias). 

 

Os italianos eram todos belos. Belo Mussolini que aparecia na capa de um 
nmero de Tempo, revista ilustrada, a cavalo com a espada desembainhada 
(era uma foto, verdadeira, e no uma inveno alegrica - andaria ele por a 
com a espada na mo?), celebrando a entrada em guerra; bela a camisa negra 
que ora proclamava Odiai o inimigo, ora Venceremos!, belas as espadas 
romanas apontadas para o perfil da Gr-Bretanha, bela a mo rural que 
abaixava o polegar para urna Londres em chamas, belo o orgulhoso legionrio 
que se recortava contra as ruinas da Amba Alagi destruda garantindo: Ns 
voltaremos] 

Otimismo. O rdio continuava a cantar que era alto assim, era gordo 
assim, e se chamava Bomblo, tentou danar, deu de balanar, e levou um 
tombo-, e rolou pra c, e quicou pra l, igual uma bola-, por sorte fatal caiu num canal mas ficou na tona-. 

Mas eram belas sobretudo, nas vrias revistas e cartazes publicados, as 
moas de pura raa italiana, de seio generoso e curvas macias, esplndidas 
mquinas de fazer filhos, opostas s ossudas e ano-rxicas misses inglesas e  
mulher-crise de plutocrtica memria. Belas as senhoritas que apareciam 
empenhadas no concurso Cinqenta liras por um sorriso, belas as senhoras 
procazes, com o traseiro bem marcado na saia-galeote, que atravessavam com 
passo falcado um cartaz publicitrio, enquanto o rdio me garantia que sero 
belos os olhos celestiais, sero belos os olhos negros, mas  das pernas, das 
pernas  que eu gosto mais. 


 

Com o rostinho meio empoado e o mais 
belo sorriso descuidado segues pelo 
caminho mais freqentado com tua caixa 
de novidades. Oh, bela pequenina que 
passa cada marina borboleteando faceira 
entre a gente cantarolando 

 sempre alegremente. Oh, bela 
pequenina, s ro menininha que ficas 
vermelhinha se algum de repente 
joga uma lbia de melao, f/, 
olhinhos de mormao, cumprimenta e 
segue em frente. 

las onde vais bela da bicicleta to 
depressa pedalando com fervor mas 
pernas esbeltas, torneadas, lindas em 
mim j semearam 

no corao esse ardor. Mas onde 
vais cos cabelos ao vento o corao 
contente e o sorriso 

encantador... Se quiseres, e quando 
quiseres, checaremos ao limite do amor. 

Quando vemos uma moa 

a passear o que fazemos? A 
seguimos e com olhar astuto 
procuramos 

adivinhar tudo que tem da 
cabea ao pc Belos sero os olhos 
negros e belos sero os azuis mas as 
pernas mas as pernas  o que me 
agrada mais. Belos sero os olhos 
azuis e o narizinho arrebitado mas 
as pernas mas as pernas  o que me 
agrada mais 

:ora quando nasce o sol  
Abruzzo todo ouro... as opulentas 
camponesas descem pelos vales em 
flor. Oh, camponesa bela, tu s a 
Soberana, nos teus olhos mora o sol 
e das violetas mora a cor de 
todos os vales em flor!... Se 
cantas tua voz e uma 
harmonia de paz, que se 
difunde e diz: "se queres viver feliz 
deves viver entre ns!..." 

 

Belssimas eram as moas das canes, quer as belezas 
italianas e muito rurais, "as opulentas camponesas", quer as belezas 
urbanas como a "bela pequena" milanesa que, com o rostinho meio empoado, 
girava pelo caminho mais freqentado, ou as belezas de bicicleta, smbolo de 
uma feminilidade ousada e inovadora, de pernas esbeltas, torneadas, lindas. 

 

Feios, obviamente, os inimigos e alguns exemplares do Balilla, 
hebdomadrio para os jovens da Juventude Italiana do Licttio, traziam 
desenhos de De Seta com histrias que zombavam do inimigo, sempre 
animalescamente caricaturados: Por medo da guerra l Rei Jorginho da 
Inglaterra Ipede ajuda e proteo I ao ministro Churchilo, e depois intervm 
os dois outros malignos, Rusevelticho e o terrvel Stalinin, o orco rubro do 
Kremlin. 

Os ingleses eram maus porque usavam o Lei, a terceira pessoa do singtdar, 
enquanto os bravos italianos deveramos usar apenas, mesmo nas relaes 
interpessoais, o italianssimo Vs (Vuo). Pelo pouco que se sabe das lnguas 
estrangeiras, so os ingleses e franceses que usam o Vs iyou, vous), o Lei  
muito italiano, no mximo um resduo espanholesco, mas como ramos unha e 
carne com os espanhis franquistas... Por outro lado, o Sie alemo  um Lei, 
nunca um Vs, De qualquer forma, talvez por escasso conhecimento do 
estrangeiro, assim ficou decidido nos altos escales, e meu av conservou 
recortes muito explcitos e bastante restritivos sobre o assunto. Teve at a ar-
gcia de conservar o ltimo nmero de uma revista feminina, Lei, que 
anunciava que, a partir do nmero seguinte, passaria a se chamar Annabella. 
Era evidente que o ttulo da revista no representava um apelativo dirigido  
leitora ideal ("perdoe-me Lei, senhora"), mas uma referncia ao pblico 
feminino (falamos de Ela, Ella, Lei, no de lui, ele). Mas tanto fizeram que o 
Lei, mesmo com outra funo gramatical, transformou-se em tabu. 
Perguntava-me se o episdio teria feito rir tambm as leitoras de ento, porm 
o fato aconteceu e todos o digeriram. 

E havia tambm as belezas coloniais, pois os tipos negrides eram 
semelhantes a macacos e os abissnios eram corrodos por doenas mltiplas, 
exceo feita  bela abissnia. E o rdio cantava Carinha negra, bela abissnia, 
confia e espera que a hora se aproxima, quando estaremos perto de ti, ns te 
daremos outra lei e outro R. 

O que se deveria fazer com a bela abissnia era o que diziam as vinhetas de 
De Seta, aquele do Churchilo, em que se viam legionrios italianos que 
compravam jovens negras seminuas num mercado de escravos, expedindo-as 
depois para a ptria como um pacote postal para os amigos. 



 

Vorfei ipsdirt ad un mia "mico queshe rieerdo d"H'AFRICA ORIENTALE... 

 

 

Mas as belezas femininas da Etipia eram fantasiadas desde o incio da 
campanha em um canto triste, nostlgico e devidamente caravaneiro: Seguem 
- as caravanas do rio Tigre para uma estrela que doravante - brilhar e mais 
resplender de amor. 

 

E eu, nesse vrtice de otimismo, o que pensava? Os meus cadernos dos 
primeiros cinco anos me diziam. Bastava olhar as capas, que j convidavam a 
pensamentos de ousadia e vitria. Salvo alguns, de um papel branco e robusto 
(deviam ser os mais caros), que traziam no centro o retrato de algum dos 
Grandes desse mundo (devo ter caraminholado era torno do rosto enigmtico 
e sorridente e do nome de um senhor chamado Shakespeare, pronunciando-o 
certamente como se escreve, visto que recalcara as letras com a caneta, como 
quem as quisesse interrogar ou memorizar), o resto eram imagens do Duce a 
cavalo, de hericos combatentes em camisa negra que lanavam bombas  mo 
contra o inimigo, de torpedeiras levssimas que afundavam enormes 
encouraados inimigos, de mensageiros de sublime esprito de sacrifcio que, 
as mos trituradas por uma granada, continuavam a correr sob o crepitar da 
metralhadora levando a mensagem entre os dentes. 

Nosso professor (por que professor e no professora? No sei, veio-me 
assim, "senhor professor") ditou os trechos fundamentais do histrico discurso 
do Duce no dia da declarao de guerra, 10 de junho de 1940, inserindo, 
segundo as noticiais dos jornais, as reaes da multido ocenica que o ouvia 
na praa Venezia: 

 

Combatentes de terra, do mar e do ar! Camisas negras da revoluo e das 
legies! Homens e mulheres da Itlia, do Imprio e do reino da Albnia! 

Escutai! Uma hora marcada pelo destino bate no cu de nossa ptria. A hora 
das decises irrevogveis. A declarao de guerra j foi entregue (aclamaes, 
gritos altssimos de "Guerra! Guerra!") aos embaixadores da Gr-Bretanha e da 
Frana. Samos em campo contra as democracias plutocrticas e reacionrias 
do Ocidente que, em todos os tempos, dificultaram a marcha e muitas vezes 
puseram em risco a prpria existncia do povo italiano... 

Segundo as leis da moral fascista, quando se tem um amigo marcha-se 
com ele at o fim (gritos de Duce! Duce! Duce!). Foi o que fizemos e faremos 
com a Alemanha, com seu povo, com suas maravilhosas Foras Armadas. 
Nesta viglia de um evento de alcance secular, volvemos nosso pensamento  
Majestade do rei Imperador (a multido prorrompe em grandes aclamaes 
endereadas  Casa Savia) que, como sempre, interpretou a alma da ptria. E 
saudamos de viva voz o Fhrer, o chefe da grande Alemanha aliada (o povo 
aclama longamente, dirigindo-se a Hitler). A Itlia, proletria e fascista, est 
pela terceira vez de p, forte, orgulhosa e compacta como nunca (a multido 
grita numa s voz: "Sim"). A palavra de ordem  uma s, categrica e exigente 
para todos. Ej revoa acendendo os coraes dos Alpes ao Oceano ndico: 
vencer!E venceremos!'(o povo prorrompe em altssimas aclamaes). 

 

Deve ter sido naqueles meses que o rdio ps no ar Vencer, fazendo eco s 
palavras do Chefe: 

 

Temperada por mil paixes a voz da Itlia 
ecoou! "Centrias, coortes, legies, de p que a 
hora soou"! Avante juventude! Cada amarra, 
cada obstculo superaremos! Rompamos a 
escravido que nos sufoca prisioneiros em nosso 
mar! Vencer! Vencer! Vencer! E venceremos no 
cu, na terra, no mar!  a palavra de ordem de 
uma vontade suprema Vencer! Vencer! Vencer! 
a qualquer custo! nada nos deter! Nossos 
coraes exultam na nsia de obedecer! Nossos 
lbios juram: ou vencer ou morrer! 

 

Como terei vivido o incio da guerra? Como uma bela aventura, iniciada ao 
lado do camarada germnico. Chamava-se Richard e, em 1941, o rdio me 
dizia: Bem-vindo, camarada Richard... Como eu via, naqueles anos de glria, o 
camarada Richard (que a mtrica nos obrigava evidentemente a pronunciar  
francesa, Richard, e no  alem, Richard) era o que mostrava um 
carto-postal no qual ele aparecia ao lado do camarada italiano, ambos de 
perfil, ambos msculos e decididos, com o olhar fixo no limiar da vitria. 

Mas o meu rdio, depois de Camarada Richard, j transmitia (eu estava 
convencido de que ouvia uma transmisso direta) uma outra cano. Era em 
alemo, uma nnia triste, quase uma marcha fnebre que me parecia ritmada 
com imperceptveis estremecimentos de minhas vsceras, cantada por uma voz 
feminina profunda e rouca, desesperada e pecadora: Vor der Kaserne, vor dem 
groen Tor / stand eine Laterne und steht sie noch davor... 

 

 

Meu av tinha o disco, mas naquela poca eu no poderia ter seguido a 
cano em alemo. 

De fato, ouvi logo em seguida o disco em italiano, mas a traduo era mais 
uma parfrase ou uma adaptao. 

Todas as noites sob o lampio 
junto da caserna estava a te 
esperar. Mesmo esta noite 
esperarei e todo o mundo 
esquecerei, por ti Lili Marlene, 
por ti Lili Marlene. 

 

Quando na lama 

devo caminhar 

sob a mochila 

me sinto vacilar. 

O que ser ento de mim? 

Mas eu sorrio e penso em ti, 

em ti Lili Marlene, 

em ti Lili Marlene. 

 

L onde a letra italiana no dizia, as palavras alems faziam surgir aquele 
lampio em meio  nvoa, Wenn sich die spten Nebel drehn, enquanto a 
nvoa fumega. Mas naquela poca, em todo caso, no poderia compreender 
que, sob o lampio (provavelmente o meu problema era como podiam acender 
o lampio durante o blecaute e basta), aquela voz triste na nvoa era a 
daquelapitana, a mulher que fazia o prprio comrcio de si. Por isso, anos 
depois, anotei, de Corazzini: Trbido e triste na solitria / via, diante da porta 
do prostbulo I enfraquece o bom incenso do turbulo, I quem sabe  a nvoa 
que faz opaco o ar. 

Lili Marlene apareceu no muito depois do excitado Camarada Richard. 
Ou ramos mais otimistas que os alemes, ou alguma coisa sucedera nesse 
meio tempo, o pobre camarada entristecera e, cansado de caminhar na lama, 
sonhava somente em estar de novo sob aquele lampio. Mas estava me dando 
conta de que a prpria seqncia das canes de propaganda poderia me dizer 
qual foi o caminho que levou do sonho da vitria quele do seio acolhedor de 
uma puta to desesperada quanto seus clientes. 

Depois dos primeiros entusiasmos, nos habituramos no somente ao 
blecaute e, imagino, aos bombardeios, mas tambm  fome. Se no fosse assim, 
recomendaramos ao pequeno Balilla, em 1941, que cultivasse em seu prprio 
alpendre uma hortazinha de guerra, no mnimo para garantir meia dzia de 
legumes, mesmo no menor espao? E por que Balilla no recebe mais notcias 
do pai na frente? 

 

Caro Papai te escrevo e minha mo 

quase treme, tu compreendes. 

H tantos dias ests distante 

e onde vives j no dizes. 

As lgrimas que banham minha face 

so lgrimas de orgulho, acredita. 

Vejo que um belo sorriso abres, 

o teu Balilla estreitas nos braos. 

Eu tambm luto, tambm fao minha guerra, 

com f, com honra e disciplina 

quero que germine a minha terra 

e cuido da horta toda matina... 

A pequena horta de guerra! 

E peo a Deus 

que vele por ti, papai dos sonhos meus. 

 

Cenouras pela vitria. Por outro lado, vi num caderno uma outra pgina 
em que o professor nos fazia anotar que nossos inimigos ingleses eram o povo 
das cinco refeies. Devo ter pensado que eu tambm fazia cinco refeies, 
caf-com-leire po e gelia, lanche s dez na escola, almoo, merenda e jantat, 
mas talvez nem todas as crianas tivessem a sorte que eu tinha, e um povo que 
come cinco vezes por dia tinha que suscitar ressentimento em quem era 
obrigado a cultivar tomates no alpendre. 

Derrete-se a neve, 

a bruma, a neblina, os torpes 
ingleses que pernoitam na cantina 
sugando garrafas chupando pastilhas 
perguntam aos ratos quando o tempo 
vai mudar. Abril no chega 

com o vo de pombas lana dos 
cus 

chuva de bombas, lana torpedos 
em golpes seguros  o Abril da Tttlia 

que glria nos trar... Malvada 
Inglaterra 

perders a guerra a nossa vitria 

sobre tua cabea, fera est. 

Voltaremos! Agora vem o bom, agora 
vem o bom, ilhazinha de pescador ao 
norte voltars. Agora vem o bom, 
agora vem o bom, Inglaterra, 
Inglaterra o teu fim marcado est. 

Pregada sobre o palmeiral vela 
imvel a lua, a cavalo na duna est o 
antigo minarete. Repiques, carros, 
bandeiras, estouros, sangue, diga l o 
que sucede, cameleiro? Ra saga de 
Djarabub! 

Coronel no quero po d-me 
chumbo para o mosquete pois a terra 
dessa trincheira por hoje me bastar. 
Coronel no quero gua d-me o 
togo destruidor pois o sangue do meu 
peito minha sede aplacar. Coronel 
no quero troca aqui ningum vai 
recuar no cederemos nem um metro 
se a morte no nos levar. 

Coronel no quero encmios eu 
morri por minha Terra. Mas o Um da 
Inglaterra comea em Djarabub! 

Mas ento, por que os ingleses eram to magros? Por que num dos 
cartes-postais selecionados por meu av, sobre a escrita Caluda! aparecia um 
ingls maligno que tentava espionar notcias militares que o incauto camarada 
italiano deixava escapar, talvez no bar? Mas como era possvel, se todo o povo 
como um s homem apresentara-se s armas? Havia italianos que faziam papel 
de espies? Os subversivos no foram derrotados pelo Duce, como explicavam 
os textos do livro de leitura, com a Marcha sobre Roma? 

Vrias pginas dos cadernos falavam da vitria agora iminente. Mas 
enquanto eu ia lendo, caiu no prato do toca-discos uma cano muito bonita. 
Contava da ltima resistncia de uma de nossas posies no deserto, Djarabub, 
e a histria daqueles sitiados, finalmente vencidos pela fome e pela falta de 
munio, atingia dimenses picas. Uns dias atrs vi na televiso, em Milo, 
um filme colorido sobre a resistncia de Davy Crockett e Jim Bowie no forte 
de lamo, Nada  mais exaltante que o topos do forte assediado. Imagino que 
cantei aquela elegia triste com a emoo de um menino que acompanha, hoje 
em dia, um western. 

Cantava que o fim da Inglaterra comearia em Djarabub, mas a cano 
devia me lembrar Maramaopor que morreste, pois era a celebrao de uma 
derrrota - e quem o dizia eram os jornais de meu av: o osis de Djarabub 
caiu em Cirenaica, depois de uma forte resistncia, justamente em maro de 
41. Eletrizar um povo com uma derrota me parecia um recurso bastante 
extremo. 

E essa outra cano, do mesmo ano, que prometia a vitria? Agora vem o 
bom! Prometia-se o bom para abril, quando j teramos perdido Adis Abeba. 
De todo modo, "agora vem o bom" se diz quando o tempo est ruim e se 
acredita que agora vai melhorar. Por que deveria (em abril) vir o bom? Sinal 
de que o inverno, durante o qual a cano fora cantada pela primeira vez, 
prometia um revs da fortuna. 

Toda a propaganda herica que nos alimentava aludia a uma frustrao. O 
que queria dizer o refro "Voltaremos!", seno que se previa, se confiava, se 
esperava voltar l onde a derrota j era fato? 

E de quando era o hino dos batalhes M? 

 

Batalhes do Duce, Batalhes da 
morte, criados para a vida, na 
primavera abre-se a partida, os 
continentes so chama eflor! Para 
vencer nos bastam os lees de 
Mussolini armados de valor. 

 

Batalhes da morte, 

Batalhes da vida, 

recomea a partida, 

sem dio no h amor. 

"M" vermelho igual sorte, 

lao negro  esquadrista 

a morte ns a temos sob a vista 

com duas bombas e na boca uma flor. 

 

Segundo as datas de meu av, devia ser de 1943 e ainda falava de uma 
outra primavera, de dois anos depois (em setembro firmamos o armistcio).  
parte a imagem, que deve ter me fascinado, da morte afrontada com duas 
bombas e uma flor na boca, por que a partida devia reabrir a primavera, por 
que devia recomear? Esteve ento parada? E mesmo assim nos faziam cantar, 
em esprito de imarcescvel confiana na vitria final. 

O nico hino otimista que o rdio props foi a Cano dos submarinistas: 
"Andar pelo vasto mar sonando na cara de Dona Morte e do Destino..." Mas 
aquelas palavras me remetiam a outras e fui em busca da cano Mocinhas 
no olhem os marinheiros. 

 

Essa com certeza no me faziam cantar na escola. Evidentemente era 
transmitida pelo rdio. O rdio transmitia tanto o hino dos submarinistas, 
quanto o apelo s senhoritas, embora em horrios diferentes. Dois mundos. 

Resvalam em ondas negras 

na densa escurido das 
torreras feras 

os olhares arcnros esto. 
Calados e invisveis partem os 
submergireis! Coraes e motores 
de assaltadores contra a 
Imensido! 

Andar 

pelo vasto mar 

rindo na cara de Dona Morte 

e do Destino! Golpear e 
sepultar 

todo inimigo que se encontrai 

no caminho! Assim vive o 
marinheiro no fundo corao do 
mar sobranceiro! O inimigo c a 
adversidade pouco imporum, ele sabe que 
vencer. 

Sabe-se l por que hoje em dia 

as mooilas So doidinhas pelos 
marinheiros... No sabtro que c preciso 
desconfiar, entre o fazer e o falar tem no 
meio o mar... 

Mocinhas, no olhem os marinheiros 
porque, porque 

podero aprontar cerros salseiros porque, 
porque... 

Conjugam o verbo amar Enquanto lhes 
ensinam a nadar Depois as deixam se 
afogar. 

Mocinhas, no olhem os marinheiros 
porque, porque... 

 

 

 

Ouvindo tambm as outras canes, parecia que a vida escorria em dois 
binrios, de um lado os boletins de guerra, do outro, a contnua lio de 
otimismo e alegtia difundida  farta por nossas orquestras. Comeava a Guerra 
da Espanha, e os italianos morriam de um lado e do outro, enquanto o Chefe 
nos mandava mensagens ardentes nos preparando para um conflito ainda 
maior e mais sangrento? Luciana Dolliver cantava (que dulcssima chama) no 
esqueas minhas palavras, menina no sabes o que  o amor, a orquestra 
Barzizza tocava garota enamorada, esta noite te sonhei, sobre o peito 
adormecida, e tu sorrias enquanro todos repetiam florin, florindo, o amor  
lindo perto de ti. O regime celebrava a beleza camponesa e as mes 
profilticas impondo um imposto ao celibato? O rdio avisava que o cime 
no est mais na moda,  uma loucura que no se usa mais. 

Explodia a guerra, tnhamos que vedar as janelas e ficar grudados no rdio? 
Alberto Rabagliati sussurrava abaixa teu rdio por favor se queres ouvir 
palpitar meu corao. Comeava mal a campanha em que deveramos 
"quebrar a espinha da Grcia" e nossas tropas comeavam a morrer na lama? 
Nada de medo, no se faz amor quando chove. 

Pippo realmente no sabia? Quantas almas tinha o regimento? Acirrava-se 
sob o sol africano a batalha de El Alamein e o rdio tocava quero viver assim 
com o sol na cara e feliz eu canto, beatamente. Entrvamos em guerra contra 
os Estados Unidos, nossos jornais celebiavam o bombardeio japons de Pearl 
fiarbor e as ondas sonoras diziam que sob o cu do Hava, se uma noite l 
passares, e o paraso sonhares (mas talvez o pblico do rdio no soubesse que 
Pearl Harbor ficava no Hava e que o Hava era territrio americano), Paulus 
rendia-se em Stalingrado entre montanhas de cadveres de ambas as partes, e 
ns ouvamos tenho uma pedrinha no sapato, ai, que me faz tanto mal. 

Comeava o desembarque aliado na Siclia e o rdio (com a voz de Alida 
Valli!) nos lembrava que o amor no, o amor no pode desaparecer junto com 
o ouro dos cabelos. Acontecia a primeira incurso area conrra Roma e Jone 
Caciagli gorjeava noite e dia ss, to ss, 
com as mos nas tuas mos at a aurora de amanh. 




No esquecer minhas palavras 
menina no sabes o que  o amor 
 uma coisa linda como o sol Mais que o 
sol d calor. Encta nas veias suavemente 
Depois chega ao peito lentamente. 
Nascem os primeiros machucados Com 
os primeiros sonhos dourados 

 

Mas o amor no 

o meu amor no pode 

perder-se ao vento com as rosas 

 to forte que no ceder, 

no fenecer. 

Eu o protegerei, 

eu o defenderei 

de todas as insdias venenosas 

que querem arrancar-me o amor 

pobre amor. 

 

Menina apaixonada Esta noite te sonhei 
Sobre o peito aconchegada E sorrias, tu. 
Menina apaixonada Tua boca cu beijei 
Com o beijo te despertei No rc 
esqueas, tu. 

Floriu, florindo O amor  lindo perto de 
ti! Me faz sonhar e me faz tremer Nem 
sei por qu. Margarida em flor o que  
a vida Se no tem amor que o corao 
faz palpitar? Flor de verbena, se 
alguma pena o amor nos traz faz como 
vento sopra um momento depois passa 
e vai! Mas quando ests comigo sou 
feliz porque... Florin, florindo, O amor 
 lindo i de ti. 

O cime j saiu de moda E uma 
loucura que no se usa mais: Tendo o 
corao contente estilo sculo vinte a 
juventude gozars. Se ests triste, 
bebe um Whisky and Soda e no 
amor no pensars: vive o mundo 
alegremente sempre sorridente e 
mais leliz sers. 

 


Os aliados desembarcavam em Anzio e no rdio causava furor Besame, 
besame mucho, acontecia o massacre das Fossas Ardeatinas e o rdio nos 
alegrava com Crapapelada e Onde est Zaz, Milo era martirizada pelos 
bombardeios e Radio Milano transmitia A cadu-quice do Biffi Scala... 

 

E eu, eu, como vivia essa Itlia esquizofrnica? Acreditava na vitria, 
amava o Duce, queria morrer por ele? Acreditava nas frases histricas do 
Chefe que o professor ditava:  o arado que traa o sulco, mas  a espada que o defende; seguiremos firmes, se avano, sigam-me, se retrocedo, matem-me? 

 

Encontrei uma redao feita em sala de aula, num caderno da quinta srie 
primria, 1942, Ano XX da Era Fascista: 

 

TEMA - "Jovens, deveis ser por toda a vida a guarda de nova herica 
civilizao que a Itlia est criando" {Mussolini}. 

DESENVOLVIMENTO - Eis que avana na estrada poeirenta uma coluna 
de garotos. 

So os Balilla que, orgulhosos e galhardos sob o tpido sol da nascente 
primavera, marcham disciplinados e obedientes aos comandos secos que vm 
de seus oficiais; so os rapazes que aos vinte anos deixaro a pena para 
empunhar o mosquete e defender a Itlia das insdias inimigas. Esses Balilla 
que vemos desfilando pelas ruas aos sbados e estudando debruados nas 
carteiras escolares nos outros dias, iro se transformar na idade certa nos fiis e incorruptveis guardies da Itlia e de sua civilizao. 

Quem poderia imaginar, vendo desfilar as legies da "Marcha da 
Juventude", que aqueles jovens imberbes, muitos deles ainda Vanguardistas, 
j regaram com seu sangue as areias ardentes da Marmrica? Quem 
imaginaria, vendo esses rapazes alegres e sempre prontos para brincar, que 
em poucos anos podero at morrer no campo de batalha com o nome da 
Itlia nos bbios? 

Meu persistente pensamento sempre foi este: quando for alto serei um 
soldado. E agora que pelo rdio sei dos infinitos atos de coragem, de 
herosmo e de abnegao realizados por nossos valorosos soldados, esse desejo 
enraizou-se mais ainda em meu corao e nenhuma fora humana ser capaz 
de erradic-lo. 

Sim! Serei soldado, combaterei e se a Itlia quiser, morrerei por sua nova, 
herica, santa civilizao, que trar bem-estar ao mundo e que Deus quis que 
se realizasse na Itlia. 

Sim! Os alegres e brincalhes Balilla se transformariam quando grandes 
em lees se um inimigo ousasse profanar nossa santa civilizao. Lutariam 
como feras irrefreveis, cairiam e tornariam a se levantar para lutar ainda, e 
venceriam fazendo triunfar ainda uma vez a Itlia, a imortal Itlia. 

E com a lembrana animadora das glrias passadas e a esperana nas 
glrias futuras, que sero construdas pelos Balilla, meninos de hoje, soldados de amanh, a Itlia continua o seu glorioso caminho para a alada vitria. 

 

Eu realmente acreditava ou repetia frases feitas? O que diziam os meus pais 
quando trazia tais textos, com timas notas, para casa? Talvez acreditassem 
tambm, pois absorveram frases semelhantes j antes do fascismo. Como todo 
mundo sabe, no nasceram e cresceram em um clima nacionalista, no qual se 
exaltava o primeiro conflito mundial como um batismo purificador, no 
diziam os futuristas que a guerra era a nica higiene do mundo? E entre os 
livros do sto caiu-me nas mos um velho exemplar de Cuore, de De Amicis, 
onde, entre os hetosmos do pequeno patriota paduano e os atos generosos de 
Garrone, li uma pgina em que o pai de Enrico assim escreve ao filho 
elogiando o Rgio Exrcito: 

 

Todos esses jovens cheios de fora e de esperanas podem ser chamados 
de um dia para o outro a defender o nosso Pas, e podem, em poucas horas, 
ser dilacerados pelas balas e pelas metralhadoras. Cada vez que ouvires gritar 
numa festa: viva o Exrcito, viva a Itlia, imagina, alm dos regimentos que 
passam, um campo coberto de cadveres e alagado de sangue e ento o viva 
ao exrcito sair do mais profundo de teu corao e a imagem da Itlia vai te 
parecer mais severa e maior. 

 

Portanto no era s eu, tambm os mais velhos foram educados para 
conceber o amor  prpria terra como tributo de sangue e para no se 
horrorizarem mas se excitarem diante de um campo alagado de sangue. Por 
outro lado, cem anos antes j no cantava o suavssimo Poeta Oh, venturosas, 
caras e benditas i as antigas eras que a morte pela Ptria corriam as gentes a 
fartai 

Compreendi por que os massacres do Jornal Ilustrado das Viagens e das 
Aventuras no deviam soar to exticos para mim, pois no culto do horror 
ramos criados. E no se tratava de um culto apenas italiano, pois no prprio 
Jornal Ilustrado eu li sobre outras exaltaes guerreiras e redentoras atravs do 
banho de sangue, pronunciadas por hericos poilus franceses, que faziam da 
vergonha de Sedan o seu mito de dio e de vingana, como ns fatiamos de 
Djarabub. Nada excita mais ao holocausto que o rancor de uma derrota. Assim 
ramos ensinados a viver, pais e filhos, contando uns aos outros como era belo 
morrer. 

Mas quanto eu queria realmente morrer e o que sabia da morte? 
Justamente no livro de leitura da quinta srie havia um conto, Loma Valente. 
As pginas eram as mais gastas de todo o volume, o ttulo estava marcado com 
uma cruz a lpis, muitos trechos sublinhados. Era um episdio herico da 
Guerra da Espanha: um batalho de Flechas Negras est assentado diante de 
um morro, uma loma em espanhol, duro e spero, que oferece pouca rea de 
ataque. Mas um peloto  comandado por um atleta moreno de vinte e quatro 
anos, Valente, que em sua ptria estudava letras e escrevia poesias, mas que 
vencera tambm os Lictoriais de pugilato e se alistara como voluntrio na 
Espanha, onde havia "combate tambm para os pugilistas e os poetas". Valente 
comanda o ataque consciente do perigo, o conto descreve as vrias fases dessa 
herica empresa, os vermelhos ("malditos, onde esto? por que no 
aparecem?") disparam com todas as suas armas, torrencialmente "como se 
jogassem gua num incndio que se espalha e se aproxima". Valente d uns 
poucos passos para conquistar o cume e um tiro seco e repentino na testa lhe 
enche os ouvidos de um terrvel estrondo: 

 

Depois, escurido. Valente tem o rosto sobre a relva. A escurido  menos 
fechada:  vermelha. O olho do heri mais prximo da terra v dois ou trs 
fios de relva grossos como troncos. 

 

Aproxima-se um soldado, sussurra para Valente que o morro foi 
conquistado. Por Valente agora falava o autor: "O que significa morrer?  a 
palavra, em geral, que faz medo. Mas quem morre, e sabe disso, no sente nem 
calor nem frio nem dor." Sabe apenas que cumpriu com seu dever e que a loma 
que conquistou portar seu nome. 

Pelo tremor que acompanhou minha releitura adulta compreendi que 
aquelas poucas pginas contaram-me pela primeira vez a verdadeira morte. 
Aquela imagem de fios de relva grossos como troncos parecia morar em minha 
mente desde tempos imemoriais, pois lendo eu quase os via. Tinha, alis, a 
impresso de ter repetido vrias vezes, criana, como um rito sagrado, uma 
descida ao horto onde me estirava sobre o ventre, com o rosto quase esmagado 
contra a relva cheirosa, para ver de verdade aqueles troncos. Aquela leitura foi 
a queda no caminho de Damasco que me marcou talvez para sempre. Eram os 
mesmos meses em que eu escrevera a redao que tanto me tinha perturbado. 
Possvel tanta duplicidade? Ou quem sabe eu li a histria depois da redao e a partir daquele momento tudo mudou? 

 

Cheguei ao fim de meus anos de primrio, que se concluam com a morte 
de Valente. Os livros do ginsio eram menos interessantes, falando dos sete 
reis de Roma ou dos polinmios e, fascista ou no, voc tem que dizer mais ou 
menos as mesmas coisas. Mas havia alguns cadernos de "Crnicas" do ginasial. 
Houve algumas reformas nos programas e no se exigiam mais redaes com 
tema fixo, ramos evidentemente estimulados a contar episdios de nossas vi-
das. E mudara tambm a professora, que lia cada crnica e, com um lpis 
vermelho, escrevia no uma nota, mas um comentrio crtico sobre o estilo ou 
a criatividade. Por certas desinncias das observaes ("fui surpreendida pela 
vivacidade com que...") percebia-se que lidvamos com uma mulher. 

Certamente uma mulher inteligente (talvez a adorssemos, pois lendo aquelas 
mensagens em vermelho sentia que ela devia ser jovem e linda e, s Deus sabe 
por qu, amante de lrios-do-vale), que tentava nos estimular a ser sinceros e 
originais. 

Uma das crnicas mais elogiadas era essa, com data de dezembro de 1942. 
Tinha ento onze anos, mas a redao foi escrita apenas nove meses depois da 
anterior. 

 

CRNICA - 0 copo inquebrvel. 

 Minha me comprou um copo inquebrvel. Mas de vidro mesmo, vidro de 
verdade, e isso me deixava fascinado porque, quando tal fato teve lugar, o 
autor dessas linhas tinha apenas poucos anos e suas faculdades mentais ainda 
no estavam suficientemente desenvolvidas para que pudesse imaginar que 
um copo, um copo em tudo semelhante aos que caem e fazendo trinnl 
(proporcionando uma boa dose de pescoes), pudesse ser inquebrvel. 

Inquebrvel! Parecia uma paktvra mgica. Experimentei uma, duas, trs 
vezes e o copo caa, quicava com um estrondo dos diabos e parava intacto. 

Certa tarde vieram uns conhecidos e oferecemos chocolatinhos (note-se 
que ento tais guloseimas existiam, e em profuso). Com a boca cheia (no 
lembro se de "Gianduia" ou "Strelio" ou "Caffarel-Prochet"), vou at a 
cozinha e volto com o famoso copo na mo. 

"Senhoras e senhores", exclamo com voz de proprietrio de circo cha-
mando os passantes para o espetculo, "apresento-lhes um copo mgico, 
especial, inquebrvel. Vou jog-lo no cho e vocs vero que no quebra", e 
acrescento com ar grave e solene, "PERMANECER INTACTO." jogo e... nem 
preciso dizer, o copo voa em mil pedaos. Sinto o rubor subir, olho alucinado 
aqueles cacos que, tocados pela luz do lampadrio, brilham como prolas... e 
rompo em prantos. 

 

Fim da minha histria. Tentava agora analis-la como se fosse um texto 
clssico. Falava de uma sociedade pr-tecnolgica, na qual um copo 
inquebrvel era uma raridade e um nico  adquirido como prova. Quebr-lo 
no era apenas uma humilhao, mas tambm um vulnus nas finanas 
familiares. Histria, portanto, de uma derrota completa e acabada. 

Meu conto, de 1942, evocava o perodo anterior  guerra como uma poca 
feliz, em que os chocolatinhos ainda eram acessveis, e ainda por cima de 
marca estrangeira, e recebiam-se convidados num salo ou sala de jantar  luz 
de um lampadrio. O apelo que fazia  assemblia no imitava os histricos 
apelos do balco do Palcio Venezia, mas tinha o tom grotesco do pregoeiro 
que talvez tivesse ouvido no mercado. Evocava uma aposta, uma tentativa de 
vitria, uma imarcescvel segurana para depois, num belo anticlmax, reverter 
a situao e teconhecer a derrota. 

Uma das primeiras histrias realmente minhas, no a repetio de clichs 
escolares e nem a reevocao de algum belo romance de aventuras. A comdia 
de uma promissria no honrada. Naqueles cacos que, colhidos pelo 
lampadrio, luziam (falsamente) como prolas, eu celebrava, aos onze anos, o 
meu vanitas vanitatum, e professava um pessimismo csmico. 

Transformara-me no narrador de uma falncia, da qual representava o 
frgil correlato objetivo. Tornara-me existencialmente, embora ironicamente, 
amargo, radicalmente ctico, impermevel a qualquer iluso. 

Como se podia mudar assim no arco de nove meses? Um crescimento 
natural,  certo, crescendo fica-se esperto, mas era mais que isso: o desengano 
de promessas de glria no cumpridas (talvez eu tambm lesse, ainda na 
cidade, os jornais sublinhados por meu av), o encontro com a morte de 
Valente, o ato herico que se resolvia na viso daqueles terrveis troncos de 
cor verde ptrido, ltimo anteparo a me separar dos infernos e do 
cumprimento do destino natural de todo mortal. 

Em nove meses tornara-me lcido, de uma lucidez sarcstica e ausente. 

E todo o resto, as canes, os discursos do Duce, as meninas apaixonadas e 
a morte encarada com duas bombas e uma flor na boca? A julgar pelos 
cabealhos dos cadernos do ginsio, fiz a primeira srie, na qual escrevi aquela 
crnica, ainda na cidade, as duas seguintes j em Solara. Sinal de que a famlia 
decidira retirar-se definitivamente para o campo, pois tambm para ns 
chegavam os primeiros bombardeios. Tornara-me cidado de Solara na onda 
da lembrana daquele copo quebrado, e as outras crnicas, da segunda e da 
terceira sries, eram apenas recordaes dos bons tempos passados, quando ao 
ouvir uma sirene sabia-se que era a fbrica e comentava-se apenas " meio-dia, 
papai deve estar chegando", contos de como seria bom poder voltar a uma 
cidade pacificada, fantasias sobre Natais dantan. Abandonara as divisas de 
Balilla e transformara-me num pequeno decadente j consagrado  busca do 
tempo perdido. 

E como vivi aqueles anos entre 43 e o fim da guerra, aqueles mais 
sombrios, com a luta da Resistncia e os alemes no mais como camaradas? 
Nada nos cadernos, como se falar no hrrido presente fosse tabu, e os 
professores nos encorajassem a no faz-lo. 

Faltava-me um elo, talvez muitos. A certa altura eu mudara, mas no sabia 
por qu. 



10. A TORRE DO ALQUIMISTA 

 


Sentia-me ainda mais confuso do que estava quando cheguei. Pelo menos 
antes eu no lembrava de nada, zero absoluto. Agora continuava sem lembrar, 
mas aprendera demais. Quem fui eu? Simultaneamente o Yambo da escola e 
da educao pblica, que evolua por arquiteturas lictrias, cartes de 
propaganda, cartazes murais, canes; aquele de Salgari e Verne, do capito 
Satans, das ferocidades do Jornal Ilustrado das Viagens e das Aventuras, dos 
delitos de Rocambole, do Paris Mysterieux de Fantomas, das nvoas de 
Sherlock Holmes e ainda aquele do Topetinho e do copo inquebrvel? 

Telefonei perplexo para Paola, disse da minha perturbao e ela riu. 

"Yambo, para mim so somente memrias confusas, conservei a imagem 
de algumas noites num abrigo antiareo, acordavam-me de repente e amos 
para baixo, eu tinha uns quatro anos. Mas desculpe, deixe-me fazer um pouco 
de psicologia: uma criana pode viver em mundos diferentes, como fazem as 
nossas, que aprendem a ligar a televiso, assistem ao telejornal, mas em 
seguida querem ouvir histrias e folheiam livros ilustrados com monstros 
verdes de olhos bons e lobos que falam. Sandro fala sempre dos dinossauros, 
que viu em algum desenho animado, mas no espera encontr-los na esquina 
de casa. Eu conto a histria de Cinderela mas depois ele levanta da cama e, 
sem que os pais percebam, espia a televiso da porta e v os marines que 
matam dez amarelos com uma s rajada de mettalhadora. As crianas so 
muito mais equilibradas que ns, distinguem muito bem entre fbula e 
realidade, tm um p aqui e outro l, mas no se confundem nunca, exceto 
algumas crianas doentes que vem o Super-Homem voando, amarram uma 
toalha nos ombros e se jogam da janela. Mas so casos clnicos e a culpa c 
quase sempre dos pais. Voc no era um caso clnico, e lidava muito bem com 
Sandokan e os livros de escola." 

"Sim, mas qual era para mim o mundo imaginrio? O de Sandokan ou o do 
Duce que acariciava os Filhos da Loba? Contei daquela redao, no? Mas aos 
dez anos eu queria realmente lutar como uma fera desembestada e morrer 
pela Itlia imottal? Quero dizer, aos dez anos, quando certamente existia 
censura, mas os bombardeios tambm j estavam sobre as nossas cabeas. E 
em 1942 nossos soldados morriam como moscas na Rssia." 

"Mas Yambo, quando Carla e Nicoletta eram pequenas, e h pouco com os 
netos, voc dizia que as crianas so interesseiras. Isso voc devia lembrar 
porque aconteceu outia vez h algumas semanas: Gianni veio  nossa casa 
quando os meninos ainda estavam e Sandro lhe disse: 'Fico to contente 
quando vem aqui, tio Gianni.' 'Viu como ele gosta de mim?', comentou ele. E 
voc: 'Gianni, crianas so puxa-sacos. Ele sabe que voc sempre tem 
chicletes. E isso  tudo.' As crianas so puxa-sacos. E voc tambm era. S 
queria ganhar uma boa nota e escrevia o que agradava ao professor. Traduzido 
por Tot, que voc sempre considerou um mestre de vida: puxa-saco se nasce, 
e eu, modesramente, nasci." 

"Voc simplifica demais. Uma coisa  puxar o saco do tio Gianni, outra  
fazer o mesmo com a Itlia imortal. E depois, como  que um ano depois eu j 
era um mestre de ceticismo, escrevendo, com aquela histria do copo, 
alegorias de um mundo sem propsito -porque era isso que eu queria dizer, 
posso senti-lo." 

 

"Simplesmente porque mudou de professor. Um novo professor pode 
liberar o esprito crtico que um outro no permitia que se desenvolvesse. E 
depois, naquela idade, nove meses de diferena  um sculo." 

 

Alguma coisa deve ter acontecido naqueles nove meses. Percebi isso ao 
retornar ao escritrio de meu av. Remexendo ao acaso, enquanto tomava um 
caf, tirei da pilha de revistas um hebdomadrio humorstico do final dos anos 
trinta, o Bertoldo. O nmero era de 1937, mas devo ter lido com atraso, 
porque antes no seria capaz de apreciar aqueles desenhos filiformes e aquele 
humor tresloucado. Mas agora estava lendo um dilogo (publicavam um por 
semana na coluna de abertura,  esquerda) que talvez tivesse me 
impressionado justamente no decorrer daqueles nove meses de profunda 
transformao: 

Passou Bertoldo por todos aqueles senhores e logo foi sentar-se junto do 
Gro-duque Trombone que, benevolente por natureza e amante das pilhrias, 
com tal propsito comeou amavelmente a interrog-lo. 

GRO-DUQUF. - Bom-dia, Bertoldo, como era a cruzada? 

BERTOLDO - Nobre. 

GRO-DUQUE - EU pera? 

BERTOLDO - Elevada. 

GRO-DUQUE - E o impulso? 

BERTOLDO - Generoso. 

GRO-DUQUE -E O mpeto de solidariedade humana? 

BERTOLDO - Comovente. 

GRO-DUQUE - E o exemplo? 

BERTOLDO - Luminoso. 

GRO-DUQUE - E a iniciativa? 

BERTOLDO - Corajosa. 

GRO-DUQUE - E a oferta? 

BERTOLDO - Espontnea. 

GRO-DUQUE - E o gesto? 

BERTOLDO - Excepcional. 

Riu o Gro-duque e, reunindo a seu redor todos os Senhores da Corte, 
ordenou o Tumulto dos Ciompi (1378), depois do qual retornaram todos os 
cortesos a seus lugares e assim o Gro-duque e o aldeo retomaram a 
conversao, 

GRO-DUQUE - Como  o trabalhador? 

BERTOLDO - Rude. 

GRO-DUQUE - Ea vinha? 

BERTOLDO - Simples, mas s. 

GRO-DUQUE - Ea regio? 

BERTOLDO - Frtil e ensolarada. 

GRO-DUQUE - Ea populao? 

BERTOLDO - Hospitaleira. 

GRO-DUQUE - E o panorama? 

BERTOLDO - Magnfico. 

GRO-DUQUE - E OS arredores? 

BERTOLDO - Encantadores. 

GRO-DUQUE - Ea manso? 

BERTOLDO - Senhoril. 

Riu o Gro-duque e, reunindo a seu redor todos os cortesos, ordenou a 
Tomada da Bastilha (1789) e a Derrota de Montaperti (1266), depois das 
quais, retornaram todos os cortesos a seus lugares e assim o Gro-duque e o 
aldeo retomaram a conversao... 

 

O dilogo zombava ao mesmo tempo da lngua dos poetas, dos jornais e da 
retrica oficial. Se eu era mesmo um menino esperto, depois daqueles dilogos 
no poderia mais escrever redaes como a de maro de 1942. Estava pronto 
para o copo inquebrvel. 

 

Eram apenas hipteses. Sabe-se l quanta coisa me aconteceu entre a 
redao herica e a crnica desiludida. Decidi suspender de novo as pesquisas 
e leituras. Desci at a cidadezinha: j no havia mais Gitanes e tive que me 
adaptar aos Marlboro Light - melhor assim, fumaria menos j que no gosto 
deles. Voltei ao farmacutico para tirar a presso. Talvez a conversa com Paola 
tenha me acalmado, mas o fato  que estava com 14. Melhorava. 

Na volta me deu vontade de comer uma ma e entrei na sala de baixo da 
ala central. Perambulando entre frutas e hortalias, vi que vrios sales do 
trreo foram transformados em armazm e que num quarto no fundo havia 
um amontoado de espreguiadeiras. Levei uma delas para o jardim. Sentei de 
frente para a paisagem, folheei os jornais, percebi que estava muito pouco 
interessado no presente, virei a cadeira e fiquei olhando a fachada da casa e a 
colina atrs dela. Disse comigo mesmo, o que estou procurando, o que quero, 
no bastaria ficar aqui e olhar a colina que  to bonita, como dizia aquele 
romance, como era mesmo o nome? Erguer trs pavilhes, oh, Senhor, um 
para ti, um para Moiss e um para Elias, e vegetar sem passado, sem futuro. 
Talvez seja assim o paraso. 

 

Mas o poder diablico do papel levou a melhor. Depois de um pouco, 
comecei a fantasiar sobre a casa, imaginando-me como um heri da Biblioteca 
dos meus Meninos diante do castelo de Ferlac ou de Ferralba, em busca da 
cripta ou do celeiro onde jazia o pergaminho esquecido. Aperta-se o centro de 
uma rosa esculpida num emblema, a parede se abre e aparece uma escada em 
caracol... 

Via as trapeiras no teto, depois o primeiro andar com as janelas da ala de 
meu av, agora todas escancaradas para iluminar minhas peregrinaes. Sem 
me dar conta eu as estava contando. No centro fica o balco da sala de estar.  
esquerda trs janelas, da sala de jantar, do quarto de meus avs e do quarto de 
meus pais.  direita a da cozinha, a do banheiro e a do quarto de Ada. 
Simtrico.  esquerda no se vem as janelas do escritrio de meu av e do 
meu quartinho, pois abrem-se no fundo do corredor, l onde a fachada j faz 
ngulo com a nossa ala e as janelas do para as laterais. 

Tomou-me uma sensao de mal-estar. Como se meu senso de simetria 
ficasse perturbado, O corredor da esquerda acaba sobre o meu quarto e o 
escritrio de meu av, mas o da direita pra logo depois do quarto de Ada. 
Donde, o corredor da direita  mais curto que o da esquerda. 

Amlia estava passando e pedi que descrevesse as janelas da sua ala. "Fcil", 
disse ela, "no trreo tem onde comemos, o senhor sabe, 

 

aquela janelinha  do banheiro, que o senhor seu av mandou fazer 
especialmente para ns porque no queria que fssemos nas moitas como os 
outros camponeses, santa alma. O resto, que so na verdade aquelas duas 
outras janelas l,  um armazm com as ferramentas de trabalho e d at para 
entrar por trs. No andar de cima tem a janela do meu quarto, e ali as outras 
duas so o quarto de meus pobres pais e a sala de jantar deles, que deixei tal 
como eram e no abro nunca em sinal de respeito." 

"Ento a ltima janela  a sala de jantar, que acaba no ngulo entre a sua 
ala e a de meu av", disse eu. "Por certo que sim", con-fitmou Amlia, "o resto 
so os cmodos da ala dos patres." 

Tudo parecia to natural que no perguntei mais nada. Mas fui dar uma 
volta atrs da ala direita, na rea do quintal e do galinheiro. Logo se v a janela 
posterior da cozinha de Amlia e depois o porto desengonado pelo qual 
passei uns dias atrs, e se entra no depsito que tambm visitei. S que dessa 
vez percebi que o depsito  longo demais, ou seja, continua alm do ngulo 
feito pela ala direita com o corpo central: em outras palavras, o depsito 
prossegue sob a parte final da ala de meu av, para dar, por fim, na vinha, e 
isso pode ser visto de uma janelinha que deixa entrever as primeiras elevaes 
da colina. 

Nada de extraordinrio, disse comigo mesmo, mas o que tem a mais no 
primeiro andar, em cima desse pedao, j que os quartos de Amlia param na 
esquina entre as duas alas? Em outras palavras, o que tem l em cima 
correspondendo ao espao ocupado  esquerda pelo escritrio de meu av e 
pelo meu quartinho? 

Sa para o quintal e olhei para cima. Viam-se trs janelas, como so trs do 
outro lado (duas do escritrio e uma do meu quarto), mas todas as trs tinham 
os batentes fechados. Em cima, as habituais trapeiras do sto, que como eu j 
sabia continuavam sem interrupo ao longo de toda a casa. 

Chamei Amlia, que estava lidando no jardim, e perguntei o que havia 
atrs daquelas trs janelas. Nada, respondeu com o ar mais natural do mundo. 
Como nada? Se tem janela tem que ter alguma coisa, e no  o quarto de Ada, 
cuja janela d para o ptio. Amlia tentou cortar a conversa: "Eram coisas do 
senhor seu av. No sei de nada." 

"Amlia, no me faa fazer papel de burro. Como se chega l em amar 

"No se chega, no tem mais nada. As masche devem ter carregado." 

"Eu j disse para no me fazer de bobo. Deve se subir at l pelo seu andar 
trreo ou por alguma outra maldita parte!" 

"No blasfeme, eu lhe suplico, que de maldito s o diabo. O que quet que 
eu diga, o senhor seu av me fez jurar que no diria nada daquilo e eu no 
perjuro um juramento seno o diabo me carrega mesmo." 

"Mas quando  que jurou, e o qu?" 

"Jurei naquela tarde que depois, de noite, chegaram as Brigadas Negras e o 
senhor seu av disse, para mim e para minha me, jurem que no sabem de 
nada e no viram nada, alis, no vou deixar que vejam nada do que eu e 
Masulu, que era meu pobre pai, fazemos porque se as Brigadas Negras 
aparecem depois e lhes torram os ps, vocs no vo resistir e vo acabar 
dizendo alguma coisa, e assim  melhor que no saibam de nada, aquilo l  
gente tuim que sabe fazer falar uma pessoa at depois de lhe cortarem a 
lngua." 

"Amlia, se ainda havia Brigadas Negras foi h quase quarenta anos atrs, 
meu av e Masulu j morreram, esto mortos tambm os Brigadas Negras, o 
juramento j no vale mais nada!" 

"O senhot seu av e meu pobre pai esto bem mortos mesmo porque so 
sempre os melhores que vo embora primeiro, mas aqueles outros eu no sei 
no porque  uma raa infeliz que no morre nunca." 

"Amlia, no existem mais Brigadas Negras, a guerra acabou e desde 
aquele dia ningum mais queima os ps dos outros." 

"Se o senhor diz, para mim  um evangelho, mas o Pautasso que estava nas 
Brigadas Negras e eu lembro bem dele, tinham uns vinte anos naquele tempo, 
ainda est vivo, est em Corseglio e uma vez por ms vem a Solara para umas 
questes l dele, pois montou em Corseglio uma fbrica de tijolo e fez 
dinheiro, mas aqui na cidade tem gente que no esqueceu o que ele fez e 
muda de lado quando ele passa. Talvez no queime mais os ps de ningum, 
mas resta que um juramento  um juramento e nem o padre pode me dar 
absolvio." 

"Quer dizer que nem para mim, que ainda estou doente, e minha mulher 
confiava que com voc logo ficaria melhor, voc no diz nada, olhe que eu 
posso piorar." 

"Que o Senhor me faa cair seca aqui mesmo se quero lhe fazer mal, 
senhorzinho Yambo, mas um juramento  um juramento, no?" 

"Amlia, de quem sou neto, eu?" 

"Do senhor seu av, como a prpria palavra diz." 

"E de meu av sou o herdeiro universal, dono de tudo que se v por aqui, 
certo? E se voc no me diz como se entra l em cima,  como se roubasse o 
que  meu." 

"Que o Senhor me d uma lambada nesse exato momento se quero roubar 
alguma coisa de seu, onde j se viu uma coisa dessas, eu, que me matei por essa 
casa a minha vida inteira, para que fique como um bis, uma verdadeira jia!" 

"Alm disso, como eu sou o herdeiro de meu av, tudo o que digo agora  
como se fosse ele e eu a desobrigo solenemente desse juramento. Est bem 
assim?" 

Tinha posto trs argumentos muito convincentes na mesa: minha sade, 
meus direitos de propriedade e a descendncia direta, com todos os privilgios 
da primogenitura, Amlia no conseguiu resistir e cedeu. O senhorzinho 
Yambo valer mais que o padre e que as Brigadas Negras, pois no? 

 

Amlia conduziu-me ao primeiro andar da ala central, at o fundo do 
corredor da direita, l onde ele acaba, depois do quarto de Ada, no armrio 
com cheiro de cnfora. Pediu que a ajudasse a deslocar o mvel pelo menos 
um pouco e mostrou que atrs dele havia uma porta murada. Por ali 
entrava-se antigamente para a Capela, pois na casa, quando ainda vivia aquele 
tio-av que deixara tudo para meu av, funcionava uma capela, no muito 
grande, mas o suficiente para se ouvir a missa aos domingos com a famlia; o 
padre vinha da aldeia. Depois, quando meu av o sucedeu, o qual, embora 
gostasse do prespio, no era de igreja, a capela ficou abandonada. Tiraram os 
bancos de l para coloc-los c e l pelos sales da parte de baixo e eu, visto 
que ningum a usava, pedi a meu av que me deixasse arrastar para l algumas 
estantes do sto para colocar minhas coisas - e ia sempre me esconder ali, 
sabe Deus fazendo o qu. Tanto que depois, quando o padre de Solara ficou 
sabendo da coisa, pediu para levar pelo menos as pedras consagradas do altar, 
para evitar sacrilgios, e meu av deixou que levasse tambm uma esttua da 
Madona, as ampolas, a patena e o tabernculo. 

Certa tarde adiantada, j era o tempo em que ao redor de Solara giravam os 
partigiani e a cidadezinha era controlada em turnos por eles e pelas Brigadas 
Negras e naqueles meses de inverno era a vez das Brigadas Negras, estando os 
partigiani entocados l embaixo nas Langhe, algum veio dizer a meu av que 
precisava esconder quatro rapazes que estavam sendo caados pelos fascistas. 
Pelo que entendi, talvez no fossem partigiani, mas debandados que passavam 
por ali justamente para se juntar  resistncia l tia montanha. 

Ns no estvamos com nossos pais, tnhamos ido visitar o irmo de minha 
me, refugiado em Montarsolo. Estavam s o meu av, Masufu, Maria e 
Amlia e meu av fez as duas mulheres jurarem que jamais falariam do que 
estava acontecendo, melhor, mandou-as direto para a cama. S que Amlia fez 

de conta que ia se deitar e ficou espiando de algum lugar. Os rapazes 
chegaram por volta das oito, meu av e Masulu mandaram que fossem para a 
Capela, trouxeram alguma coisa de comer e depois foram buscar tijolos e uns 
baldes com cimento e sozinhos, embora no fossem do ofcio, muraram a 
porta e puseram na frente alguns mveis que estavam em outro lugar. Mal 
tinham acabado, chegaram as Brigadas Negras. 

"Precisava ver que caras. Por sorte o comandante era uma pessoa distinta, 
at usava luvas, e com seu av comportou-se com toda a educao,  claro que 
j tinham lhe dito que era proprietrio de terras, e cachorro no morde 
cachorro. Fuaram de c e de l, chegaram a subir at o sto, mas era 
evidente que tinham pressa e faziam a coisa mais para dizer que tinham feito, 
mesmo porque ainda tinham muitas casas a visitar onde pensavam que seria 
mais provvel que ns, camponeses, tivssemos escondido alguns dos nossos. 
No descobriram nada, o tal que usava luvas desculpou-se pelo incmodo, 
disse viva o Duce, seu av e meu pai, que no eram bobos, deram viva ao 
Duce tambm, e amm." 

Por quanto tempo os quatro clandestinos ficaram l em cima? Amlia no 
sabia, se fizera de muda e surda, s sabia que durante alguns dias Maria e ela 
tiveram que preparar cestas com po, salame e vinho e depois, um certo dia, 
basta. Quando ns voltamos, meu av disse simplesmente que o pavimento da 
capela estava cedendo, que mandara colocar reforos provisrios e que os 
pedreiros fecharam a entrada para evitar que as crianas fssemos remexer por 
l e nos machucssemos. 

Est certo, disse eu a Amlia, o mistrio est explicado. Mas se entraram, 
os clandestinos tinham que poder sair e Masulu e seu av tinham que entregar 
o que comer durante aqueles dias. Logo, uma vez murada a porta, deve ter 
ficado alguma outra, secreta. 

"Juro que nunca me perguntei se eles entravam e por qual buraco. Tudo 
que o senhor seu av fazia para mim estava bem-feito. Fechou? Fechou e para 
mim a capela no existia mais e, alis, continua a no existir e se o senhor no 
me fizesse falar era como se estivesse completamente esquecida. E depois, por 
que o senhor falou em secreta?" 

"No, a passagem, o acesso por onde podiam entrar e sair." 

"Ah, talvez passassem a comida pela janela, eles puxavam a cesta com uma 
corda, e saram por l tambm, uma noite qualquer. No?" 

"No, Amlia, seno uma janela teria ficado aberta e d para ver que esto 
todas fechadas por dentro." 

"Eu sempre disse que o senhor era o mais inteligente de todos. Isso nem 
me passou pela cabea, veja s. E ento por onde ser que meu pai e o senhor 
seu av passavam?" 



"Pois , that is the questiona O 
que? 

 

Com um atraso de quarenta e cinco anos,  certo, mas Amlia acabava de 
apontar o X do problema, E eu teria que resolv-lo sozinho. Girei ao redor da 
casa inteira para descobrir uma portinhola, um buraco, uma grade, percorri de 
novo salas e corredores da ala central, trreo e primeiro andar, revistei como 
um btigadista negro o trreo e o primeiro andar da ala de Amlia. Nada. 

No precisava ser um Sherlock Holmes para chegar  nica resposta 
possvel: entrava-se na capela tambm pelo sto. A capela levava ao sto por 
uma escadinha s dela, cuja sada no sto estava encoberta.  prova de 
brigadista, mas no de Yambo. Imagine se, na volta de viagem, quando meu 
av nos disse que a capela no existia mais, eu ia me conformar, ainda mais 
tendo deixado por l coisas que eram importantes para mim. Explorador de 
desvos como eu era, devia conhecer bem a passagem e continuei 
freqentando a capela, com mais gosto, alis, que antes, porque tinha se 
transformado no meu esconderijo: uma vez l, ningum me encontrava mais. 

S restava subir de novo ao sto para explorar a ala direita. Um temporal 
caa bem naquela hora e portanto no fazia muito calor. Podia fazer sem tanto 
esforo um trabalho que no era pouco, porque se tratava de tirar do lugar 
tudo que estava l amontoado e na ala de servio no havia objetos de coleo, 
mas porcaria, velhas portas, traves salvas de alguma reforma, rolos de velhos 
arames farpados, penteadeiras quebradas, montes de cobertas velhas mal 
embrulhadas com barbante e lona, masseiras e bancos imprestveis, 
carunchados h sculos e amontoados uns em cima dos outros. Quando deslo-
cava as coisas, pedaos de madeira caam em cima de mim, arranhei-me com 
pregos enferrujados e nada de passagem secreta. 

Depois matutei que no devia procurar uma porta, nenhuma porta deveria 
se abrir nas paredes porque davam para o exterior de todos os quatro lados, 
lados longos e lados curtos. Ento, se porta no havia, haveria um alapo. 
Burrice no ter pensado nisso antes, era o que acontecia at na Biblioteca dos 
meus Meninos. No eram as paredes que eu devia inspecionar, mas o cho. 

Fcil de falar, o cho era pior que as paredes, tive que escalar ou pisotear 
um pouco de tudo, mais madeira em desordem, reposteiros de algum leito ou 
cama de armar j destrudos, feixes de hastes de ferro de construo, a 
velhssima canga de algum boi, at uma sela de cavalo. E no meio de tudo isso, 
grumos de moscas mortas, ainda do ano anterior, que fugiram para l no 
primeiro frio e depois no conseguiram resistir. Para no falar das teias de 
aranha que corriam de uma parede  outra, como tendas outrora suntuosas de 
uma casa mal-assombrada. 

As trapeiras iluminavam-se com relmpagos muito prximos e o ambiente 
foi se fazendo escuro - embora afinal no tivesse chovido e o temporal tenha 
se descarregado em outro lugar. A torre do alquimista, o mistrio do castelo, 
as prisioneiras de Casabella, o mistrio de Morande, a Torre do Norte, o 
segredo do homem de ferro, o velho moinho, o mistrio de Acquaforte... Santa 
paz, eu estava no meio de uma verdadeira tempestade, um raio podia derrubar 
o teto sobre minha cabea, e eu vivia tudo isso como um livreiro-anti-qurio. 
O Solar do Antiqurio, eu poderia escrever outra histria assinando Bernage 
ou Catalany. 

Por sorte, a certa altura tropecei: debaixo de uma camada informe de 
quinquilharia havia um degrau. Abri uma clareira, ralando as mos, e l estava 
o Prmio para o menino corajoso: o alapo. Por ali passaram meu av, 
Masulu e os fugitivos, e por ali sabe-se l quantas vezes passei eu tambm, 
revivendo aventuras j sonhadas em cima de tantas folhas de papel. Que 
infncia maravilhosa! 

O alapo no era grande e dava para puxar com facilidade, embora tenha 
levantado uma nuvem de fina poeira, pois nos interstcios estavam 
acumulados quase cinqenta anos de p. O que deveria haver debaixo de um 
alapo? Uma escada, elementar meu caro Watson, e nem to inacessvel, 
sequer para minhas pernas j emperradas por duas horas de dobra e estica - 
certamente naquela poca fazia tudo de uma vez s, mas, mesmo caminhando 
para os sessenta 

 

anos, l estava eu me comportando como se ainda fosse um menino capaz de 
roer as unhas dos ps (juro que nunca pensei nisso, mas me parece normal 
que, na cama e no escuro, tentasse comet meu prprio dedo, nem que fosse 
como desafio). 

Em resumo, desci. Era uma escurido quase completa, mas estriada por 
algum fio de luz que passava pelos batentes que hoje em dia mal fechavam. Na 
escurido o espao parecia imenso. Fui logo abrir as janelas: a capela, como 
era de se prever,  grande como o escritrio de meu av e meu quarto juntos. 
L estavam os restos de um altar de madeira dourada, dilapidados, e contra o 
altar ainda estavam apoiados quatro colches: as camas dos fugitivos, com cer-
teza, mas deles no havia nenhum outro vestgio, sinal de que a capela fora 
freqentada depois disso, pelo menos por mim. 

Ao longo da parede oposta s janelas vi estantes de madeira no 
envernizada cheias de papel impresso, jornais ou revistas em pilhas de altuta 
desigual, como se se tratasse de colees diversas. No meio, uma mesa grande 
e comprida com duas cadeiras. Ao lado daquela que deveria ser a porta de 
entrada (marcada pela alvenaria selvagem construda em uma hora por meu 
av e Masulu, com a argamassa que desbordava entre os tijolos - conseguiram 
nivelar a parte do corredor com a colher de pedreiro, mas no a de dentro), 
havia um interruptor de luz. Liguei sem muita esperana e, de fato, no acen-
deu nada, embora do teto pendessem a distncia regular algumas lmpadas 
com suas cpulas brancas. Talvez em cinqenta anos os ratos tivessem rodo 
os fios, se  que conseguiram chegar at l pelo alapo - mas os ratos, como 
se sabe... Pode ser que meu av e Masulu tivessem estragado tudo ao murar a 
porta. 

quela hora, a luz do dia bastava. Sentia-me como Lord Car-navon que, 
depois de milnios, pe os ps na tumba deTutankamon e o nico problema 
era no ser mordido por algum escaravelho misterioso que tivesse ficado ali  
espreita por milnios. L dentro tudo estava como eu provavelmente deixara 
da lrima vez. No deveria, alis, abrir muito as janelas, s aquele pouco para 
enxergar, para no perturbar aquela atmosfera adormecida. 

Ainda no ousara olhar o que havia nas estantes. Fosse o que fosse, era 
coisa minha e s minha, seno teria ficado no escritrio de meu av e meus 
tios teriam jogado no sto. A esta altura dos fatos, para que procurar 
lembrar? A memria  uma soluo menos pior para os humanos, para quem o 
tempo escorre, e o que passou, passado est. Gozava do privilgio de um incio 
ab ovo. Estava refazendo as coisas que fazia ento, como Pipino, saa da 
velhice para chegar  minha primeira juventude. Daquele momento em 
diante teria que lembrar apenas o que me aconteceria depois, de todo modo 
seria igual ao que me aconteceu ento. 

Na capela o tempo parara, melhor dizendo, rodara para trs, assim como se 
coloca para o dia anterior os ponteiros de um relgio, e no importa que 
marquem as quatro como hoje, basta saber (e eu sabia) que aquelas eram as 
quatro de ontem, ou de cem anos atrs. Assim deveria se sentir Lord 
Carnavon. 

Se a Brigada Negra me descobrisse aqui agora, pensaria que estou no vero 
de mil novecentos e noventa e um, mas eu (somente eu) saberia que estava no 
vero de mil novecentos e quarenta e quatro. E at mesmo aquele oficial com 
luvas teria que descobrir a cabea, pois estaria entrando no Templo do 
Tempo. 







11. L EM CAPOCABAMA 


 

Passei muitos dias na capela e quando chegava a noite descia catregando 
uma braada de coisas para examinar no escritrio de meu av, sob a 
luminria verde, o rdio ligado (eu agora acreditava nisso) para fundir o que 
ouvia com o que lia. 

As estantes da capela continham, no encadernados, mas dispostos em 
pilhas ordenadas, as revistinhas e lbuns de quadrinhos da minha infncia. 
No era coisa de meu av, as datas comeavam em 1936 e terminavam em 
1945. 

Talvez, como imaginei ao falar do assunto com Gianni, meu av fosse um 
homem de outros tempos, preferindo que eu lesse Salga-ri ou Dumas. E eu, 
para reafirmar meus direitos  fantasia, mantinha aquelas coisas fora de seu 
alcance. Mas se algumas publicaes remontavam a 1936, quando eu ainda 
no estava na escola, isso significava que, se no era mesmo o meu av, outra 
pessoa comprava as revistinhas para mim. Talvez tenha se estabelecido uma 
tenso entre meu av e meus pais, "por que o deixam ler essas porcarias?" - e 
eles transigiam, pois tambm leram algumas daquelas coisas quando crianas. 

De fato, na primeira pilha estavam alguns anos do Corriere dei Piccoli e os 
nmeros de 1936 tinham os dizeres "Ano XXVHI" - no da Era Fascista, mas 
da fundao. Logo, o Corriere dei Piccoli existia desde os primeiros anos do 
sculo, e alegrara a infncia de meu pai e minha me - talvez sentissem mais 
prazer em cont-lo para mim do que eu sentia ouvindo-os. 

Em todo caso, folhear o Corrierino (chamei-o assim automaticamente) era 
como reviver aquelas tenses percebidas nos dias anteriores. Com absoluta 
indiferena, o Corrierino falava de glrias fascistas e de universos fantsticos 
povoados de petsonagens fabulosos e grotescos. Oferecia novelas ou 
quadrinhos srios de absoluta ortodoxia lictria e pginas de quadrinhos que 
eram, ao que se saiba, de origem americana. nica concesso  tradio, foram 
eliminados os bales ou aceitos apenas como decorao: todas as histrias do 
Corrierino tinham apenas longas legendas nos contos srios e qua-drinhas 
para as histrias cmicas. 

  Aqui comea a aventura do senhor Buonaventura, e certamente alguma 
coisa me dizem as peripcias daquele senhor de inverossmeis calas brancas 
quase trapezides que toda vez, como prmio por sua interveno 
absolutamente casual, recebia um milho (no tempo das mil liras por ms) e 
na histria seguinte aparecia indigente de novo,  espera de um novo golpe de 
sorte. Talvez dilapidasse, como o senhor Pampurio que arquicontente - a cada 
captulo - quer mudar de apartamento. Estas pareciam ser, pelo estilo ou pela 
assinatura do desenhista, histrias italianas, como as de Formichino e 
Cicalone, de Sor Calgero Sorbara que para partir se prepara, de Martin 
Muma, mais levinho que uma pluma, que voava transportado pelo vento, do 
professor Lambichi que inventara a portentosa arquitinta que espalmada 
dava vida s imagens, com a casa sempre invadida pelos mais incmodos 
personagens do passado, ora um furioso Orlando Paladino, ora um rei das 
cartas do baralho, irritado e vingativo por ter sido retirado de seu reino no 
Pas das Maravilhas. 

 
Mas eram certamente americanas as paisagens nas quais se movia o Gato 
Flix, os moleques coloniais de Os sobrinhos do Capito, Happy Hooigan, 
Pafncio e Marocas (onde, no interior do Chrysler Building, os personagens 
dos quadrinhos saam das molduras). 


 

Era incrvel que o Corrierino me oferecesse at as aventuras do soldado 
Marmittone (vestido exatamente como os meus soldadinhos de Bengodi!) que, 
pot azat gentico ou pela estupidez de generais engaloados de bigodes estilo 
Risorgimento, acabava toda vez na priso. 

Pouqussimo marcial e lictrio era Marmittone. E no entanto podia 
conviver com outras histrias que contavam, em tom no grotesco mas pico, 
de jovens heris italianos que lutavam para civilizar a Etipia (em O ltimo 

rs, os abissnios resistentes  invaso eram chamados de "parasitas") ou, como 
em O heri de Villahermosa, uniam-se s tropas franquistas contra os 
desalmados republicanos, todos de camisa vermelha. Naturalmente, esta 
ultima histria no contava que, se italianos combatiam ao lado dos 
falangistas, outros italianos lutavam do outro lado, nas Brigadas 
Internacionais. 

 

Ao lado da coleo do Corrierino, havia a do Vittorioso, tim heb-
domadrio, com seus grandes lbuns coloridos, publicadas a partir de 1940. 
Portanto, por volta dos oito anos, eu tinha pretenses  literatura adulta, em 
quadrinhos. 

A tambm era a esquizofrenia total, e passava-se de deliciosas histrias em 
Zoolndia, com personagens como Giraffone, o peixe 



 

 

Apolino e o macaquinho Joj, ou das aventuras heri-cmicas de Pippo, 
Pertica e Palia, ou de Alonzo Alonzo, dito Alonzo, preso por furto de girafa, a 
celebraes das glrias do passado de nosso pas e a histrias inspiradas 
diretamente na guerra em curso. 

As que mais me tocaram foram as histrias de Romano, o legionrio, pela 
preciso quase tcnica das mquinas blicas, avies, tanques, torpedeiros c 
submarinos. 

J alertado pela revisitao do conflito nos jornais de meu av, aprendera a 
controlar as datas. Por exemplo, o conto Com destino a 

A.O.I. iniciava em 12 de fevereiro de 1941. Em janeiro, os ingleses atacaram a 
Eritria e em 14 de fevereiro ocupariam Mogadscio, na Somlia, mas, em 
suma, parecia que a Etipia ainda estava solidamente em nossas mos e que era 
justo deslocar o heri (que combatia ento na Lbia) para a frente africana 
orienral. Ele era enviado em misso confidencial pelo duque de Aosta, ento 
comandante das foras na Africa Oriental, para levar uma mensagem secreta, e 
partia para a frica Setentrional atravessando o Sudo anglo-egpcio. 
Estranho, visto que o rdio j existia, ainda mais que, no final, fica-se sabendo 
que a mensagem no era nada secreta, pois dizia "Resistir e vencer", como se o 
duque de Aosta estivesse se divertindo. Em todo caso, Romano partia com seus 
amigos e vivia vrias aventuras com tribos selvagens, tanques ingleses, duelos 
areos e tudo aquilo que permitisse que o desenhista desenferrujasse metais 
oxidados. 

Nos nmeros de maro, quando os ingleses j tinham penetrado 
amplamente na Etipia, o nico que parecia no saber de nada era Romano, 
que em seu caminho divertia-se na caa ao antlope. Em 5 de abril Adis Abeba 
era evacuada, os italianos recompunham-se em Galla Sidamo e em Amara e o 
duque de Aosta se entrincheirava em Amba Alagi. Mas Romano continuava, 
direto como um raio, concedendo-se at mesmo a captura de um elefante. 
Provavelmente, ele e seus leitores pensavam que ainda devia ir a Adis Abeba, 
onde, no entanto, j estava de volta o Negus derrubado cinco anos antes.  
bem verdade tambm que, no nmero de 26 de abril, um tiro de fuzil 
arrebentou o rdio de Romano, mas isso era sinal de que antes ele tinha um e 
no d para entender, portanto, como no estava a par de todos esses 
acontecimentos. 

Em meados de maio, os sete mil soldados de Amba Alagi, desprovidos de 
vveres e munio, rendiam-se, e com isso o duque de Aosta foi feito 
prisioneiro. Os leitores de Vittorioso podiam no saber disso, mas pelo menos 
o pobre duque de Aosta deveria ter se dado conta. Contudo, muito ao 
contrrio, Romano o alcana em Adis Abeba no dia 7 de junho, 
encontrando-o fresco como uma rosa e 




radiante de otimismo. De fato, o duque l a mensagem e afirma: "Certo, 
resistiremos at a vitria final." 

 claro que os quadrinhos foram desenhados meses antes, porm, mesmo 
diante da sucesso dos acontecimentos, a redao do Vittorioso no teve a 
coragem de interromper os captulos. Seguiram em frente acreditando que os 
jovens continuariam ignorando as vrias e funestas notcias - e talvez fosse 
assim mesmo. 

A terceira coleo era de Mickey, um hebdomadrio que, ao lado das 
histrias de Walt Disney, publicava tambm as peripcias de corajosos Balilla, 
como O grumete do submarino. Mas foi justamente em alguns exemplares de 
Mickey que pude discernir os acontecimentos de 1941, quando, em dezembro, 
Itlia e Alemanha declararam guerra aos Estados Unidos - fui controlar nos 
jornais de meu av e era isso mesmo. Eu achava que, a certa altura, os 
americanos tivessem se cansado das travessuras de Hitler e tivessem entrado 
em guerra, mas no, foram Hitlet e Mussolini que declararam guerra a eles, 
pensando talvez que pudessem p-los fora de combate em poucos meses, com 
a ajuda dos japoneses. Como era evidentemente difcil mandar um punhado de 
SS ou de Camisas Negras para ocupar Nova York, comearam alguns anos 
antes com a guerra aos quadrinhos e desapareceram com os bales, 
substitudos por legendas sob os desenhos. Depois, como vi em outras 
revistinhas, havia tempos tinham sumido no nada os personagens americanos, 
substitudos por imitaes italianas e por fim, creio que foi a ultima e dolorosa 
barreira a ser superada, Mickey foi assassinado. De uma semana para a outra, 
sem nenhum aviso, a mesma aventura de Mickey continuava como se nada 
tivesse acontecido, mas o protagonista agora era um tal Toffolino, humano, 
no mais animal, sempre com quatro dedos na mo como os animais 
antropomrficos de Disney, e seus amigos continuavam a se chamar Mimma, 
em vez de Minnie, e Pippo. Como recebi ento aquele desmoronamento de 
todo um mundo? Talvez com a maior tranqilidade, dado que de um mo-
mento para outro os americanos tornaram-se malvados. Mas estaria 
consciente, ento, de que Mickey era americano? Devo ter vivido uma ducha 
escocesa de golpes de cena e, enquanto me excitava com os golpes de cena das 
histrias que lia, aceitava como bvios os golpes de cena da Histria que vivia. 

Depois de Mickey vinham alguns anos de Avventuroso, e a tudo mudava. 
O primeiro nmero era de 14 de outubro de 1934. 

Eu no podia t-lo comprado, tinha na poca menos de trs anos, e no 
diria que minha me e meu pai compraram para mim, pois suas histrias no 
eram nada infantis, eram quadrinhos americanos concebidos para um pblico 
adulto, embora no totalmente desenvolvido. Portanto, eram nmeros que 
rastreei mais tarde, trocando por outras revistinhas. Mas certamente 



comprados por mim, alguns anos depois, eram alguns lbuns em formato 
grande, com capas coloridssimas nas quais se viam vrias cenas das histrias 
do interior, como um "a seguir" cinematogrfico. 

Tanto o hebdomadrio quanto os lbuns devem ter me aberto os olhos 
para um novo mundo. A comear pela primeira aventura, 
 na primeira pgina do primeiro nmero de Avventuroso, intitulada A 
destruio do mundo. O heri era Flash Gordon que, graas a uma confuso 
armada por um certo doutor Zarkov, acabava no planeta Mongo, dominado 
por um ditador cruel e impiedoso, Ming, de nome e traos diabolicamente 
asiticos. Mongo: arranha-cus de cristal que se erguiam sobre plataformas 
espaciais, cidades submarinas, reinos que se estendiam ao longo das rvores de 
uma imensa floresta e personagens que iam dos Homens Leo aos Homens 
Falco e aos Homens Magos da rainha Uraza, rodos vestidos com sincrtica 
desenvoltura, ora com vestes que evocavam uma Idade Mdia 
cinematogrfica, como vrios Robin Hood, ora com lorigas e elmos mais 
brbaros, mas tambm (na corte) com uniformes de couraceiros ou ulanos ou 
drages de opereta de incio de sculo. E todos, bons e maus, eiam 
incongruentemente dotados tanto de armas brancas ou flechas quanto de 
prodigiosos fuzis de raio fulminante, assim como suas parafernlias podiam ir 
do carro armado ao foguete interplanetrio de ponta aguada e cores gritantes 
de carrinho bate-bate de parque de diverses. 

Gordon era bonito e louro como um heri ariano, mas a natuteza da sua 
misso deve ter me fascinado. At ento, que heris eu conhecia? Dos livros 
escolares s revistinhas italianas, eram portentos que se batiam pelo Duce e 
sob seu comando anelavam a morte; nos romances oitocentistas de meu av, 
se  que os lia na poca, eram fora-da-lei que lutavam contra a sociedade, 
quase sempre por interesse pessoal ou vocao para a maldade - salvo talvez 
o conde de Montecristo, que de qualquer modo queria se vingar dos males 
sofridos por ele e no pela comunidade. No fundo, mesmo os trs 
mosqueteiros, que estavam do lado dos bons e no ciam desprovidos de um 
senso de justia particular, faziam o que faziam por esprito de corpo, os 
homens do Rei contra os do Cardeal, por algum benefcio ou por uma patente 
de capito. 

Gordon no, batia-se pela liberdade contra um dspota, talvez na poca eu 
pensasse que Ming eta como o terrvel Stalin, o ogro vermelho do Kremlin, 
mas no podia deixar de reconhecer em seus traos tambm aqueles do 
Ditador da casa, dotado de indiscutvel poder de vida e morte sobre seus fiis. 
Logo, creio que tive em Flash Gordon a primeira imagem de um heri -  
verdade que s podia diz-lo agora, relendo, no na poca - de uma guerra 
de libertao combatida em um Alhures Absoluto, fazendo explodirem 
asteroides fortificados em galxias distantes. 

 

Folheando os outros lbuns, num crescendo de misteriosas chamas que me 
faziam devorar um fascculo depois do outro, descobria heris dos quais meus 
livros nunca me falaram. Cio e Franco, com as camisas azul-claro da 
Patrulha do Marfim, em uma sinfonia de cores plidas, exploravam a selva 
para conter as tribos indceis,  bem verdade, mas tambm, em grande parte, 
para deter os mercadores de marfim e de escravos que exploravam as 
populaes coloniais (quantos brancos maus contra homens bons de pele 
negra!), entre caadas apaixonantes tanto aos ttaficantes quanto aos rino-
cerontes, cujas carabinas no faziam bang-bang ou at pum-pum como nos 
nossos quadrinhos, mas crack-crack, e aquele crack ficaria de alguma forma 

impresso naqueles lobos frontais que eu tentava desenredar, pois ainda ouvia 
aqueles sons como uma promessa extica, o indicador que me apontava um 
mundo diferente. Ainda uma vez, mais que as imagens eram os rumores, ou 
melhor ainda, sua transcrio alfabtica que tinham o poder de evocar a 
presena de um indcio que ainda me escapava. 

Arf arf bang crack blam buzz cai spot ciaf clamp splash crackle crunch 
gosh grunt honk honk cai meow mumble pant plop pwutt roaaar dring 
rumble blomp sbam buizz scranquete slam pufr slurp smack sob gulp spranck 
blomp squit swoom bum thump plack clang tomp smash trac uaaaagh vrooom 
giddap yuk spliff augh zing slap zoom zzzzzz sniff... 

Rumores. Eu os via todos, folheando revistinha aps revistinha. 
Educara-me desde pequeno ao flatus voeis. Entre os vrios rumores, 
"sguiss" me veio  cabea e minha testa ficou perolada de suor. Olhei minhas 
mos, e tremiam. Por qu? Onde eu li aquele som? Ou, quem sabe, seria o 
nico que no li, mas ouvi? 

 
Senti-me quase em casa ao encontrar os lbuns do Fantasma, fora-da-lei 
do bem, envolto de modo quase homoertico em seu collant vermelho, o 
rosto mal coberto por uma mascarazinha que deixava entrever o branco ferino 
dos olhos, mas no a pupila, fazendo-o ainda mais misterioso. Deve ter 
realmente enlouquecido de amor a bela Diana Palmer, que chegou algumas 
vezes a beij-lo, percebendo com um frmito a musculatura de heri sob o 
tecido da malha que ele nunca abandonava (s vezes, ferido por um tiro de 
arma de fogo, era tratado por seus aclitos selvagens com uma bandagem de 
cirurgio, sempre sobre aquela sua malha, certamente  prova d'gua, visro 
que continuava aderente mesmo quando ree-mergia depois de uma longa 
imerso nos mares escaldantes do sul). 

Mas aqueles raros beijos eram momentos encantados, pois Diana logo lhe 
seria roubada, ora por um equvoco, ora por um pretendente rival, ora por 
seus outros compromissos de bela viajante internacional, e ele no podia 
segui-la ou faz-la sua esposa, acorrentado como estava a um juramento 
ancestral, condenado  prpria misso: proteger as populaes da selva de 
Bengali dos malfeitos de piratas nativos e aventureiros brancos. 

 

De modo que, depois ou ao mesmo tempo que vinhetas e canes que 
ensinavam como submeter os brbaros e ferozes abissnios, encontrei um 
heri que vivia fraternalmente com os pigmeus bandar e com eles combatia os 
colonialistas malvados - e Guram, o bruxo bandar, era muito mais culto e 
sbio do que as duvidosas figuras de pele plida que ele ajudava a derrotar, 
no um Dubat fiel, mas parceiro e scio com direitos plenos naquela mfia 
benevolamente justiceira. 

Depois vinham outros heris que no pareciam particularmente 
revolucionrios (se  que, nos dias anteriores, podia imaginar dessa forma o 
meu crescimento poltico), como Mandrake o Mgico, que, ao contrrio, 
parecia usar seu servo negro Lotar, apesar de trat-lo como amigo, como 
guarda-costas e escravo fiel. Mas Mandrake, que derrotava os maus com 
golpes de mgica e com um gesto transformava a pistola do adversrio em 
banana, era um heri burgus, sem uniformes negros ou vermelhos, mas 



sempre impecvel de fraque e cartola. E heri burgus era tambm o Agente 
Secreto X9, que no perseguia os inimigos de um regime, mas bandidos e 
bares ladres, sempre em socorro dos contribuintes, de trench coat, palet e 
gravata, com pequenas e garbosas pistolas de bolso, que s vezes apareciam 
gentilissimas entre as mos de senhoras louras vestidas de seda com o decote 
adornado de plumas e cuidadosamente maquiadas. 

 

Um outro mundo, que deve ter arruinado a lngua que a escola 
esforava-se para que eu usasse com correo, pois as tradues anglicizantes 
eram de um italiano aproximativo (dizia um personagem de Mandrake: "Este 
 o reino de Said... Se no me engano, ele pode ser nos espiando!" - e a capa da 
primeira ou de uma das primeiras revistas de Mandrake nomeava o heri 
epnimo como "Mandrache"). Mas o que importa?  claro que nessas revistas 
ruins de gramtica eu encontrava heris diferentes daqueles que a cultura 
oficial propunha e talvez naquelas vinhetas de cores vulgares (mas to 
hipnticas!) tenha me iniciado numa viso diversa do Bem e do Mal. 

 

lbuns de Ouro com as primeiras peripcias de Mickey, que se de-
senvolviam em um contexto urbano que no podia ser o meu (e no sei 
se naquela poca eu entendia o que eram a cidadezinha e a grande 
metrpole americanas). Mickey e o bando dos soldadores (ah, o inefvel 
senhor Tubi!), Mickey e o gorila Espectro, Mickey na casa dos 
fantasmas, Mickey e o Tesouro de Clarabela (l estava ele, finalmente, 
igual ao exemplar de Milo, mas nas cores ocre e marrom), Mickey 
agente da policia secreta - no porque ele fosse policial ou sicrio, mas 
porque aceitava por dever cvico envolver-se em uma histria de 
espionagem internacional e vivia aventuras terrveis na Legio Es-
trangeira, perseguido pelo desleal Escovinha e pelo prfido 
Bafo-dc-Ona - O Mickey, hip, hip, hurra, no deserto morrer... 


Mais lido que todos os outros, a julgar pelo estado periclitante do 
meu exemplar, o Mickey jornalista', era impensvel que o regime 
deixasse passar uma histria sobre a liberdade de imprensa, mas 
percebe-se que, para os censores de Estado, histrias de animais no 
poderiam ser realistas e perigosas. Onde foi que ouvi " a imprensa, 
beleza, e no h nada que voc possa fazer"? Mas deve ter sido depois. 
Em todo caso, Mickey ergue com escassos recursos o seu Eco do Mundo 
- o primeiro nmero sai com horrveis erros de impresso - e continua 
impvido a publicar ali the news tbats fit to print, mesmo que 
gngsteres sem escrpulos e polticos corruptos tentem det-lo por 
todos os meios. Quem, at ento, ousara me falar de uma imprensa 
livre, capaz de subtrair-se a qualquer censura? 

 

Alguns mistrios da minha esquizofrenia infantil comeavam a se 
esclarecer. Lia os livros escolares e os quadrinhos, e provavelmente era nos 
quadrinhos que construa, com muito esforo, uma conscincia civil. Por isso, 
com certeza, conservei esses cacos de minha histria desmoronada mesmo 
depois da guerra, quando algumas pginas dos jornais de l chegaram s 
minhas mos (talvez trazidas pelas tropas americanas), com as tirinhas 
coloridas de domingo apresentando novos heris, como Li'1 Abner ou Dick 
Tracy. Creio que nossos editores de antes da guerra no ousavam public-los 
porque o trao era ultrajosamente modernista e evocava aquela que os nazistas 
chamavam de arte degenerada. 

J crescido em idade e sabedoria, teria me aproximado de Picasso sob a 
influncia de Dick Tracy? 

Com certeza no estimulado pelos quadrinhos da poca,  exceo de 
Gordon. As reprodues, talvez extradas diretamente de publicaes 
americanas, e sem pagar direitos, eram mal impressas, muitas vezes com 
traos confusos e cores duvidosas. Para no falar de outras pginas, depois da 
proibio das importaes de terras inimigas, nas quais o Fantasma apatecia de 
malha verde, mal imitado por um desenhista nosso, e com outras 
caractersticas civis. Para no falar dos heris autrquicos, provavelmente 
inventados para fazer frente ao panteo de Avventuroso, estouvadamente 
desenhados, mas ao fim e ao cabo simpticos, como o gigante Dick Fulmine, 
de maxilar voluntarioso e mussoliniano, que ao som de punhos destrua 
malfeitores de origem certamente no-ariana, como o negro Zambo, o 
sul-americano Barreira e, mais tarde, um Mandrake mefistofeli-zado, maligno 
e criminoso, Flattavion, cujo nome evocava raas malditas embora imprecisas, 
e que substitua a cartola do mgico americano por um chapelo e uma capa 
de ps-lida rural. "Adiante lindos pombinhos, mostrem-se", gritava Dick 
Fulmine a seus inimigos, todos com chapu e palet amarfanhados, e d-lhe 
punhos vingadores. "Mas esse cara  um demnio", diziam os marranos, at 
que da escurido surgia o quarto arquiinimigo de Fulmine, Mscara Branca, 
que o atingia na nuca com uma marreta ou um saco de areia, e Fulmine 
desmoronava dizendo "Acc...!" Mas por pouco tempo, pois embora 
acorrentado em um calabouo com a gua subindo ameaadoramente, com 
um esforo dos msculos libertava-se do estorvo e logo depois j capturava e 
entregava ao comissrio (um homenzinho de cabea redonda e bigodinho 
mais de bancrio que hitlerista) o bando inteiro devidamente embrulhado. 

A gua que sobe no calabouo devia ser um topos dos quadrinhos de todo 
pas. Sentia como uma brasa no peito e peguei o lbum Juventus O cinco de 
espadas - ltimo episdio do Alferes da Morte. Um homem vestido como 
cavalario, um capuz vermelho em forma de tubo que lhe cobria toda a cabea 
e se alargava em 
uma grande capa escarlate, as pernas abertas, os braos para o alto, 
acorrentado pelos pulsos e tornozelos  parede de uma cripta na qual algum 
abrira um veio d'agua subterrneo destinado a submergi-lo pouco a pouco. 

 

Mas em apndice a esses mesmos lbuns havia outras histrias em 
captulos, de estilo mais intrigante. Uma intitulava-se Nos mares da China e 
os protagonistas eram Gianni Martini e seu irmo Mino. Deve ter parecido 
estranho para mim que dois jovens heris italianos vivessem aventuras em 
uma rea onde no havia colnias, entre piraras orientais, patifes de nomes 
exticos e mulheres belssimas de nomes ainda mais exticos, como Drusila e 
Burma. Mas com certeza percebi a singular qualidade do desenho. Nas poucas 
tirinhas americanas obtidas talvez com os soldados em 45, vi depois que a 
histria se chamava Terry and the Pirates. As pginas italianas eram de 1939 
e, portanto, impusera-se desde ento a italianizao das histrias esttangeiras. 
Na minha pequena coletnea de material estrangeiro, notei ademais que 
naqueles anos os franceses traduziam Flash Gordon como Guy l'Eclair. 



 

No conseguia mais me afastar daquelas capas e daquelas estampas. Era 
como estar numa festa e ter a impresso de reconhecer todo mundo, 
experimentando uma sensao de dj-vu a cada rosto que se encontra, mas 
sem poder dizer quando se conheceu cada um e quem  - e com a tentao de 
exclamar a todo instante, como vai, meu velho, estendendo a mo, mas logo 
recolhendo com medo de estar cometendo uma gafe. 

Constrangedor revisitar um mundo onde se chega pela primeira vez: como 
se sentir veterano na casa dos outros. 

 

No li em seqncia, nem segundo as datas nem segundo as sries e 
personagens. Saltitava, voltava, passava dos heris do Cor-rierino aos de Walt 
Disney, punha-me a comparar uma narrativa patritica com as histrias de 
Mandrake em luta contra o Cobra. E foi justamente voltando ao Corrierino,  
histria do ltimo rs, com o herico Mario contra Rs Ait, que deparei com 
uma estampa que fez meu corao parar e senti algo de muito semelhante a 
uma ereo - ou melhor, algo de mais liminar, como deve acontecer a quem 
sofre de impotentia coeundi. Mario foge de Rs Ait levando consigo 
Gemmy, uma mulher branca, esposa ou concubina do Rs, que j 
compreendeu que o futuro da Abissnia est nas mos salvadoras e 
civilizatrias dos Camisas Negras, Ait, furioso com a traio da mulher m 
(que, ao contrrio, finalmente tornara-se boa e virtuosa), d ordens de 
queimar a casa em que os dois fugitivos se escondem. Mario e Gemmy 
conseguem escapar para o telhado e de l Mario divisa uma eufrbia gigante. 
"Gemmy", diz ele, "abrace-me e feche os olhos!" 

No  concebvel que Mario tivesse intenes maliciosas, sobretudo num 
momento daqueles. Mas Gemmy, como toda herona de quadrinhos, estava vestida 
com uma tnica, uma espcie de peplo que lhe descobria os ombros, os braos e 
parte do colo. Conforme documentam os quatro quadros dedicados  fuga e ao 
perigoso salto, como todos sabem, os peplos, especialmente os de seda, deslizam 
primeiro at o tornozelo, depois at a panturrilha e, se uma mulher se agarra ao 
pescoo de um Vanguardista e tem medo, o aperto transforma-se num abrao 
espasmdico, com seu rosto, certamente perfumado, contra a nuca suada dele. 
Assim, no quarto quadro Mario agarra-se a um ramo da eufrbia, preocupado 
apenas em no cair nas mos do inimigo, mas Gemmy, sentindo-se segura, 
abandona-se e, como se a saia tivesse uma fenda, a perna esquerda estende-se nua 
at o joelho, descobrindo a bela panturrilha enobrecida e afunilada por um salto 
agulha, enquanto da outra v-se apenas o tornozelo - mas como a perna se ergue 
com faceirice em ngulo reto com a coxa bem torneada, a roupa (talvez por efeito 
do vento escaldante das montanhas) adere umidamente a seu corpo, tornando 
evidentes a curva calipgia e os torneamentos da perna inteira. Impensvel que o 
desenhista no estivesse consciente do efeito ertico que estava criando e 
certamente remetia-se a alguns modelos cinematogrficos ou mesmo s mulheres de 
Gordon, sempre envoltas em roupas elegantssimas adornadas de pedras preciosas. 

No sabia dizer se aquela era a imagem mais perturbadora que j vira, mas 
certamente (se o Corrierino era de 20 de dezembro de 1936) foi a primeira. Nem era 
possvel descobrir se aos quatro anos eu j experimentava alguma reao fsica, um 
rubor, um suspiro de adorao, mas, com certeza, para mim aquela imagem foi a 
primeira revelao do eterno feminino, a ponto de eu me perguntar se depois dela consegui curvar-me sobre o seio de minha me com a inocncia de anres. 


Uma perna que surge de uma longa e suave veste quase transparente e pe 
em relevo as curvas do corpo. Se aquela foi uma imagem primordial, teria 
deixado uma marca? 

Comecei a repassar pginas e pginas j examinadas, procurando com os 
olhos os mnimos indcios em cada margem, plidas marcas de dedos suados, 
amassados, dobraduras nos cantos superiores da folha, leves abrases da 
superfcie como se tivesse passado o dedo por ali muitas vezes. 

 

E encontrei uma srie de pernas nuas que transpareciam nas fendas de 
muitas roupas feminis: abertos em fendas os trajes das mulheres de Mongo, 
seja Dale Arden, seja Aurora, filha de Ming, seja as odaliscas que alegravam os 
festins imperiais; fendidos os luxuosos ngligs das senhoras com quem o 
Agente Secreto X9 topava, fendidas as tnicas das trbidas donzelas do Bando 
Areo, desbaratado em seguida pelo Fantasma, fendido adivinhava-se o negro 
vestido de gala da sedutora Dragon Lady de Terry e os piratas... Certamente 
sonhei com aquelas mulheres lascivas, j que as que apareciam nas revistas 
italianas mostravam pernas desprovidas de mistrio, sob uma saia que chegava 
ao joelho e sobre pesados saltos de cortia. Mas as pernas, mas as pernas... 
Quais despertaram em mim os primeiros impulsos, as das belas pequenas e das 
belezas caseiras de bicicleta ou as das mulheres de outros planetas e de 
remotas me-galpoles? Era bvio que devem ter me seduzido antes as belezas 
inatingveis que aquelas das mocinhas ou das senhoras maduras da porta ao 
lado. Mas quem poderia garantir? 

Se alimentei fantasias sobre a vizinha de porta ou sobre as jovens que 
brincavam nos jardins embaixo de casa,  um segredo meu, sobre o qual a 
indstria editorial no teve, nem deu, notcia. 

 

No fim da pilha de quadrinhos havia uma srie de nmeros esparsos de 
uma revista feminina, Novelia, com certeza lida por rniruia me. Longas 
histrias de amor, algumas refinadas ilustraes, com mulheres esbeltas e 
cavalheiros de perfil britnico, e fotos de atrizes 

 

e atores. Tudo era marrom trabalhado em mil nuanas, assim como eram 
marrons os caracteres dos textos. As capas formavam uma galeria de belezas 
da poca eternizadas em primeirssimo plano e, diante de uma delas, meu 
corao encolheu-se como que tocado por uma lngua de fogo. No pude 
resistir ao impulso de inclinar-me sobre aquele rosto e pousar meus lbios 
sobre os seus. No experimentei nenhuma sensao fsica, mas era o que 
certamente fazia, furtivo, em 1939, aos sete anos, j dominado,  certo, por 
algumas inquietudes. Aquele rosto parecia com Sibilla? Com Paola? Com 
Vanna, a dama com arminho, com as outtas, cujos nomes Gianni sussurrou 
zombeteiro, a Cavassi, a livreira americana na Feira do Livro em Londres, 
Silvana ou a holandesinha bonita pela qual fui especialmente a Amsterd? 

Talvez no. Devo ter formado, atravs das muitas imagens que me 
arrebataram, uma figura ideal e, se pudesse ter na minha frente 

 

todos os rostos das mulheres que amei, poderia extrair deles um perfil 
arquetpico, uma Idia nunca alcanada, mas perseguida a vida inteira. O que 
havia de semelhante entre o rosto de Vanna e o de Sibilla? Talvez mais do que 
se poderia pensar  primeira vista, talvez o jeito malicioso de um sorriso, o 
modo de deixarem transparecer os dentes enquanto sortiam, o gesto com que 
arrumavam os cabelos. At o modo como moviam as mos bastaria... 

A mulher que eu acabava de beijar em efgie era de matria diversa. Se a 
tivesse encontrado agora no me dignaria a dirigir-lhe um s olhar. Tratava-se 
de uma fotografia, e fotos sempre parecem datadas, no tm a leveza platnica 
de um desenho, que permite adivinhar. Nela no beijei a imagem de um 
objeto de amor, mas a prepotncia do sexo, a evidncia de lbios marcados por 
uma maquiagem vistosa. No era um beijo fremente e ansioso, era o modo 
selvagem de reconhecer a presena da carne. Aquele episdio deve ter sido 
esquecido rapidamente, como algo de turvo e proibido, enquanto a Gemmy 
abissnia surgia como uma figura perturbadora, mas gentil, uma graciosa 
princesa distante, para olhar e no tocat. 

Mas ento por que conservei aquelas revistas maternas? Provavelmente, j 
entrado na adolescncia, talvez j no liceu, ao voltar a Solara minha 
preocupao fosse recuperar aquilo que ento me parecia ser um passado 
remoto, e dediquei as auroras da juventude a refazer os passos perdidos da 
infncia. J estava condenado  recuperao da memria, s que naquela 
poca era um jogo com todas as minhas madeleines  disposio, e agora, ao 
contrrio, um desafio desesperado. 

 

Na capela eu compreendi, portanto, algo sobre minha descoberta e da 
liberdade e da escravido da carne. Bem, foi tambm uma maneira de fugir da 
servido dos desfiles em uniforme e ao imprio assexuado dos Anjos da 
Guarda. 

Mas seria mdo?  exceo do prespio do sto, por exemplo, ainda no 
havia nada que me falasse de meus sentimentos religiosos 
e me parecia impossvel que um menino, mesmo educado numa famlia laica, 
no nutrisse algum. E no descobri nada que me reconduzisse aos 
acontecimentos de 1943 em diante. Quem sabe no foi extamente entre 1943 
e 1945, quando a capela j estava murada, que decidi esconder ali os 
testemunhos mais ntimos de uma infncia que j se dissipava, desfocada na 
ternura da lembrana: estava vestindo a toga viril, entrando na idade adulta 
no meio do turbilho dos anos mais negros, e decidi guardar numa cripta um 
passado ao qual resolvi dedicar minhas nostalgias de adulto. 

 

 

Entre os muitos nmeros de Cino e Franco caiu em minhas mos uma 
coisa que fez com que me sentisse no limiar de uma revelao finalmente 
decisiva. A revista, de capa multicolorida, intitulava-se A misteriosa chama da 
rainha Loana. L estava a explicao para as misteriosas chamas que me 
agitavam desde o despertar, e a viagem a Solara finalmente ganhava um 
sentido. 

Abri a revista e topei com a histria mais boba que uma mente humana 
podia conceber. Era uma narrativa desarticulada que fazia gua por todos os 
lados, os episdios eram repetitivos, as pessoas ardiam em amores repentinos, 
sem razo, Cino e Franco ora se mostravam fascinados com a rainha Loana, ora a viam como um ser malfico. 

No centro da Africa com dois amigos, Cino e Franco chegam a um reino 
misterioso onde uma rainha igualmente misteriosa guarda uma 
misteriosssima chama que garante vida longa e mesmo a imortalidade, visto 
que Loana reina sobre uma tribo selvagem, sempre lindssima, h dois mil 
anos. 

Loana entrava em cena a certa altura e no era nem atraente nem 
perturbadora: lembrava antes certas pardias de variedades de priscas eras, 
vistas recentemente na televiso. Pelo resto da histria, at que se jogasse por 
mal de amor num abismo sem fundo, Loana andava de c para l naquela 
entediante narrativa sem fascnio nem psicologia. Tudo o que queria era casar 
com um amigo de Cino e Franco que se parecia (duas gotas d'gua) com um 
prncipe que, dois mil anos antes, ela amara, mas que mandara matar e em 
seguida embalsamar porque recusava seus favores. No se entendia por que 
Loana precisava de um ssia moderno (que, alm do mais, tambm no a 
queria, pois se apaixonara  primeira vista por sua irm), j que podia reviver 
o amante mumificado com sua misteriosa chama. 

Entre outras coisas, como eu j vira em outras histrias em quadrinhos, 
tanto as mulheres quanto os homens satnicos (como Ming com Dale Arden) 
nunca queriam possuir, violentar, aprisionar em seu harm, unir-se 
carnalmente com o objeto de seu desejo. Queriam sempre casar. Hipocrisia 
protestante dos originais americanos ou excesso de verecndia imposto aos 
tradutores italianos por um governo catlico empenhado em uma batalha 
demogrfica? 

Voltando a Loana, seguiam-se vrias catstrofes finais, a misteriosa chama 
apagava-se para sempre e adeus imortalidade para os nossos protagonistas, de 
nada valia tanto empenho pata chegar at l, mesmo porque no final parecia 
que no ligavam a mnima para a chama. E dizer que comearam toda aquela 
tempestade para encontr-la: talvez as pginas disponveis tivessem chegado 
ao fim, a histria precisava terminar de algum modo e os autores j no ati-
nassem como e por que teriam comeado. 

Em resumo, uma histria bobssima. Mas evidentemente deu-se comigo o 
mesmo que j acontecera com o senhor Pipino. Voc l quando criana uma 
histria qualquer, depois a faz crescer na memria, transforma, sublima e 
acaba elegendo como mito uma histria desprovida de qualquer substncia. 
De fato, o que fecundara minha memria adormecida no era, evidentemente, 
a histria em si, mas o ttulo. Uma expresso como a misteriosa chama 
enfeitiara-me, para no falar no doce nome de Loana, embora na verdade 
no passasse de uma lambisgia mimada fantasiada de devadssi. Vivi todos os 

anos de minha infncia - e talvez at depois - cultivando no uma imagem, 
mas um som. Esquecida a Loana "histrica", continuei a seguir a aura oral de 
outras chamas misteriosas. E anos depois, com a memria revirada, reativei o 
nome de uma chama para definir o brilho de delcias esquecidas. 

A nvoa estava sempre e ainda dentro de mim, perfurada de tanto em 
tanto pelo eco de um ttulo. 

 

Remexendo daqui e dali, desencavei um lbum encadernado em tecido, de 
formato oblongo. Bastava abri-lo para ver que se tratava de uma coleo de 
selos. Certamente minha, pois trazia na primeira pgina o meu nome e a data 
em que provavelmente comecei a colecionar, 1943. O lbum era de feitura 
quase profissional, com folhas mveis, e organizado por pases, em ordem 
alfabtica. Os selos colavam-se com uma lingeta mas alguns, dos correios 
italianos daqueles anos, com os quais talvez tivesse comeado a minha estao 
filatlica encontrando-os em envelopes ou cartes-postais, eram espessos, com 
o verso spero, engrumado com alguma coisa. Via-se que, no incio, 
costumava grud-los em um caderno qualquer, usando goma arbica. Depois 
evidentemente aprendi como se faz e tentei salvar aquele esboo de coleo 
mergulhando as folhas do caderno em gua: os selos desgrudaram, mas 
conservaram as marcas indelveis de minha ignorncia. 

Um volume do Catlogo Yvert e Tellier, de 1935, era testemunha de que 
eu realmente aprendera como se fazia.  provvel que fizesse parte da 
pacotilha de meu av. bvio que, para um colecionador srio de 1943, o 
catlogo j era obsoleto, mas evidentemente tornou-se precioso para mim, que 
atravs dele tomava conhecimento, no dos preos atualizados ou das ltimas 
emisses, mas do mtodo, do modo de catalogar. 

Onde eu conseguia selos naqueles anos? Era meu av quem me dava ou j 
se podia adquiri-los no comrcio, em envelopes com peas sortidas, como 
acontece at hoje nas bancas entre a rua Armo-rari e o Cordusio, em Milo?  
provvel que investisse todo o meu minguado capital em alguma papelaria da 
cidade que vendia justamente para colecionadores ainda verdes e, portanto, 
aquelas peas que para mim pareciam fabulosas eram moeda corrente. Talvez 
naqueles anos de guerra, bloqueadas todas as ttansaes internacionais - e a 
certa altura at mesmo as domsticas -, circulasse no mercado, a baixo preo, 
algum material de valor, vendido por um aposentado que precisasse comprar 
manteiga, um frango, um par de sapatos. 

 

Aquele lbum deve ter sido para mim, mais que um objeto venal, um 
receptculo de imagens onricas. Um ardente fervor assaltava-me a cada 
figura. Bem diferente dos velhos atlas. Naquele lbum imaginava os mares 
azuis emoldurados de prpura da Deutsch-Ostafrika; entre um intricado de 
linhas de tapete rabe via, em fundo verde-noite, as casas de Bagd; sobre um 
campo azul emoldurado de rosa admirava o perfil de Jorge V, senhor das 
Bermudas; em tons de tijolo cozido fascinava-me o rosto do barbudo pax ou 
sulto ou raj de Bijawar State, talvez um dos prncipes indianos de Salgari, de 
ecos salgarianos certamente enriquecia-se o pequeno retngulo verde-er-vilha 
da Labuan Colony, talvez lesse sobre a guerra iniciada por Danzica enquanto 
manejava o selo tirante a vinho com a estampilha Danzig, lia five rupies no 
selo do estado do Indore, imaginava esttanhas pirogas indgenas que se 
desenhavam sobre o fundo cor de aleli de uma pea das Ilhas Salomo 
Britnicas. Fazia fantasias sobre uma paisagem da Guatemala, sobre o 
rinoceronte da Libria, sobre outra embarcao selvagem que dominava o 
grande selo (menor o estado, maior o selo, eu ia aprendendo) de Papua, e me perguntava onde ficariam o Saatgebiet ou a Suazilndia, 

Viajava pelo vasto mundo - naqueles anos em que estvamos como que 
contidos por barreiras intransponveis, espremidos entre dois exrcitos em 
luta - s atravs de selos. At mesmo os contatos ferrovirios estavam 
interrompidos, talvez s se pudesse ir de Solara  cidade de bicicleta, e eu 
transvoava do Vaticano a Porto Rico, da China a Andorra. 

A ltima taquicardia assaltou-me diante de dois selos das ilhas Fiji. No 
eram mais bonitos ou mais feios que os outros. Um deles representava um 
selvagem, o outro trazia o mapa das ilhas Fiji (como ser que eu 
pronunciava?). Talvez tenham me custado longas e rduas trocas e amava-os 
acima de todos os outros, talvez tocado pela preciso do mapa geogrfico que 
me falava de ilhas do tesouro, talvez tivesse aprendido com aqueles retngulos 
os nomes nunca ouvidos daqueles territrios. Mas parece que Paola disse que 
eu tinha uma idia fixa: queria um dia ou outro ir s Fiji, consultava os 
folhetos das agncias de viagem, mas adiava sempre, pois se tratava de chegar 
ao outro lado do globo e ir at l por menos de um ms no fazia sentido. 

Continuava fixado nos dois selos e veio-me espontaneamente de cantar a 
cano escutada alguns dias antes, L em Capocabana. E com a cano 
retornou o nome de Pipetto. O que ligava os selos  cano e esta ao nome, s 
ao nome, de Pipetto? 

 

O segredo de Solara era que, a cada passo, eu chegava ao limiar de uma 
revelao e parava  beira de um precipcio com a garganta invisvel sob a 
nvoa. Como o Vallone, disse a mim mesmo. O que era o Vallone? 



























12. AGORA VEM O BOM 

 

 
 

Perguntei a Amlia se sabia alguma coisa sobre o Vallone. "Claro que sei", 
respondeu, "o Vallone... Espero realmente que no tenha inventado de ir at 
l, porque j era perigoso quando era pequeno, mas agora que, falando com 
sua licena, no  mais um rapazola vai acabar se matando. Olhe que eu 
telefono para a senhora Paola, hein?" 

Tranqilizei-a. S queria saber o que era. 

"O Vallone?  s olhar pela janela de seu quarto c vai ver l longe o topo 
de um monte onde se v San Martino, que  uma cidadezinha, mas que 
cidadezinha, uma aldeia de cem pessoas para dizer muito, tudo gente ruim se 
quer saber, com um campanrio maior que a aldeia, que criam tanta histria 
porque tm l o corpo do Beato Antonino, que parece uma carranca, com a 
cara preta como a drgia, estrume se me desculpa a palavra, e embaixo do 
hbito despontam os dedos que parecem galhos, e meu pobre pai dizia que faz 
cem anos tiraram de dentro da terra um corpo qualquer que j cheirava mal e 
colocaram debaixo de um vidro para arrancar uns trocados dos peregrinos, 
mas mesmo assim ningum aparece por l, sei bem o que as pessoas podem 
fazer com o Beato Antonino que, alis, no  nem santo das nossas bandas, 
foram ach-lo no calendrio botando o dedo onde casse." 

"Mas e o Vallone?" 

"O Vallone  porque para chegar a San Martino tem que passar por uma 
estrada toda em subida que at hoje os carros penam para subir. No  uma 
estrada como as nossas, crists, que vo rodeando a colina e, volta aps volta, 
chegam ao topo. Quem dera. No, sobe toda reta, ou quase, e por isso  to 
difcil. E sabe por que  assim? Porque o lado onde passa a estrada  onde o 
monte San Martino tem umas rvores e algumas vinhas, e tiveram que fazer 
reforos para poder cultiv-las sem despencar at o vale com o traseiro no 
cho. Mas nos outros lados o monte desce como um abismo, que  s sara e 
moitas e pedras que a pessoa no sabe onde enfiar os ps, e isso  o Vallone, 
que alguns at morreram por se arriscar por l sem saber o bicho feio que . E 
ainda vai no vero, porque quando chega a neblina  melhor pegar uma corda 
e se enforcar de uma vez numa trave do sto que andar pelo Vallone, pelo 
menos se morre logo. E mesmo que algum tenha coragem de ir, chega l em 
cima e tem as mascheT 

Era a terceira vez que Amlia me falava das masche, mas a cada pergunta 
era como se tentasse se esquivar e eu no entendia se era por um sacro temor 
ou porque, ao fim e ao cabo, nem ela sabia muito bem o que era. Deviam ser 
bruxas, velhinhas solitrias na aparncia, mas que quando descia a noite se 
reuniam nas vinhas e em lugares malditos como o Vallone para fazer feitios 
com gatos pretos, cabras ou serpentes. Ruins feito veneno, divertiam-se en-
feitiando quem as olhava atravessado e arruinando-lhes a colheita. 

"Certa vez, uma delas se transformou em gato, entrou numa casa daqui e 
carregou uma criana. Ento um vizinho, que temia pelo seu filhinho, passou 
vrias noites ao lado do bero com um machado, e quando o gato entrou 
cortou fora a sua pata de um s golpe. Ento lhe veio um pensamento ruim e 
foi at uma velha que esrava perto dali e viu que da manga do vestido no saa 
nada e perguntou como era possvel, e a velha s dando umas desculpas, que 
tinha se machucado com a foice arrancando ervas daninhas, mas ele disse 
deixa eu ver aqui e ela no tinha mo. O gato era ela, e assim foi pega pelo 
pessoal da aldeia e queimada." "Mas  verdade?" 

"Verdade ou no, era o que minha av contava, embora algumas vezes 
meu av tenha voltado para casa gritando as mascbe, as masche porque 
voltando da taberna com o guarda-chuva nas costas, de vez em quando sentia 
que algum o pegava pelo cabo e ele no podia seguir, mas minha av disse: 
cale a boca, malfadado  o que voc , bbado como um gamb, vai de um 
lado a outro do caminho enfiando voc mesmo o cabo nos ramos das rvores, 
que masche que nada, e toma pancada. No sei se todas essas histrias so 
verdadeiras, mas certa vez teve um padre em San Martino que tinha l suas 
prticas, porque era maom como todos os outros padres, e ele se entendia 
bem com as masche, de forma que se voc desse uma esmola para a igreja ele 
fazia um esconjuro e voc ficava tranqilo por um ano. Um ano, hein, depois 
outra esmola." 

Mas o problema do Vallone, explicou Amlia, era que eu, l pelos doze, 
treze anos, subia at l com um bando de delinqentes como eu, que faziam 
guerra com os outros de San Martino e queriam surpreend-los subindo por 
aqueles lados. Coisa que, se ela me visse, me trazia de volta para casa nas 
costas, mas eu era escorregadio como uma serpente e ningum nunca sabia 
onde estava enfiado. 

 

Deve ser por isso que pensando num limiar e num abismo me veio  
lembrana o Vallone. Naquele caso tambm era apenas uma palavra. No meio 
da manh j no pensava mais no Vallone. Telefonaram da cidade avisando da 
chegada de um pacote registrado para mim. Desci para peg-lo. Vinha do 
estdio e eram as provas do catlogo. Aproveitei para passar no farmacutico: 
a presso subira de novo para dezessete. Foram as emoes da capela. Decidi 
passar o dia tranqilamente e as provas eram uma boa ocasio. Mas foram 
justamente as provas que quase fizeram minha presso chegar a dezoito, e 
talvez tenham at conseguido. 

O cu estava coberto e ficava-se bem no jardim. Recostado e  vontade, 
comecei a revisar. Os verbetes ainda no estavam diagramados, mas os textos 
eram impecveis. Estvamos nos apresentando para a rentre de outono com 
uma boa oferta de livros de qualidade. Admirvel Sibilla. 

Estava passando sobre uma edio aparentemente boa de obras de 
Shakespeare, quando parei num ttulo: Mr. William Shakespeares 
Comedies, Histories & Tragedies. Published according to the True 
Original Copies. Quase tive um enfarte. Sob o retrato do Bardo, o editot e a 
data: "London, Printed by Isaac Iaggard and Ed. Blount. 1623". Verifiquei a 
colao, as medidas (realmente, 34,2 por 22,6 centmetros, eram margens 
muito generosas): raios, com mil troves, sakka-roa, mas aquele era o 
in-flio de 1623 que nunca foi encontrado! 

Todo antiqurio, e acho que todo colecionador, sonha de vez em quando 
com a velhota de noventa anos.  uma velhinha com um p na cova, no tem 
um tosto nem para comprar remdio e vem lhe dizer que quer vender uns 
livros de seu bisav que esto no poro. Voc vai ver, mais por escrpulo, l 
encontra uma dezena de volumes de pouco valor e, de repente, topa com um 
in-flio mal encadernado, com a capa em pergaminho gastssimo, coifas desa-
parecidas, junturas periclitantes, cantos comidos por ratos, muitas manchas de 
umidade. Chamam ateno as duas colunas em gtico, voc conta as linhas, 
so quarenta e duas, corre para ver o colofo...  a Bblia de 42 linhas de 
Gutenberg, o primeiro livro que se imprimiu no mundo. O ltimo exemplar 
que ainda circulou pelo mercado (os outros agora esto guardados e vigiados 
em clebres bibliotecas) bateu no sei quantos bilhes recentemente num 
leilo e foi comprado por banqueiros japoneses, creio eu, que logo trataram de 
trancafi-lo num cofre. Um novo exemplar, ainda circulando livremente, no 
teria preo. Pode-se pedir o que bem se entender, um exorbitantilho de 
bilhes. 

Voc olha para a velhinha, percebe que com dez milhes de liras ela j 
ficaria contente, mas a conscincia lhe di: voc oferece cem, duzentos 
milhes, com os quais poder se regalar durante os poucos anos que lhe 
restam de vida. Depois, naturalmente, j em casa e com as mos tremendo, 
no saber mais o que fazer, Para vender o livro deve mobilizar os grandes 
leiloeiros que comeriam sabe-se l que fatia do butim e a outra metade iria 
para os impostos; quer guard-lo para si, mas no poderia mostr-lo a 
ningum porque, se o boato corresse, acorreriam ladres do mundo inteiro  
sua porta, e que gosto haveria em ter aquela coisa maravilhosa e no poder 
matar de inveja os outros colecionadores. Se pensa em fazer um seguro, 
desmaia. O que fazer? D-lo em gesto para a Prefeitura: que o coloquem, sei 
l, numa sala do Castelo Sforzesco, numa vitrina blindada com quatro gorilas 
armados vigiando noite e dia. Mas assim voc s poderia olhar o seu livro no 
meio de uma multido de desocupados que quer ver de perto a coisa mais rara 
do mundo. E voc, faz o qu, d uma cotovelada no vizinho e diz que o livro  
seu? Vale a pena? 

 ento que se pensa no em Gutenberg mas no in-flio de Shakespeare. 
Sero alguns bilhes a menos, mas s  conhecido pelos colecionadores, seria 
mais fcil tanto guard-lo quanto vend-lo. O in-flio de Shakespeare: sonho 
nmero dois de todo biblifdo. 

Quanto Sibilla estava pedindo por cie? Fiquei pasmo: um milho, como 
um livrinho qualquer. Ser possvel que no percebera o que tinha entre as 
mos? E quando foi que apareceu no estdio, e por que no me disse nada? 
Despedida, est despedida, murmurava com raiva. 

Telefonei perguntando se ela se dava conta do que era o item 85 do 
catlogo. Parecia cair das nuvens, era uma coisa de 1600, nem muito bonita de 
se vet, ela, alis, estava toda contente por ter conseguido vend-la logo depois 
de me mandar a prova, com apenas vinte mil liras de desconto e agora 
precisava retir-la do catlogo, pois no era nem uma daquelas coisas que se 
deixa assim mesmo e se pe embaixo "vendido", s para mostrar que dispe de 
peas de nvel. Estava para com-la viva quando ela comeou a rir e disse que 
eu no devia deixar a presso subir. 

Era uma brincadeira. Inseriu aquele verbete para ver se eu estava lendo as 
provas com ateno e se minha memria culta ainda funcionava. Ria como 
uma menina, orgulhosa de sua astcia - que entre outras coisas repetia 
algumas pilhrias clebres em uso entre ns, fanticos: existem catlogos que 
entraram eles prprios em an-tiquariato justamente por oferecerem um livro 
impossvel, ou inexistente, enganando at mesmo os especialistas. 

Isso  coisa de moleque, disse eu ainda, mas j estava relaxando. "Voc vai 
me pagar. Mas o resto dos verbetes est perfeito, no h necessidade de 
mandar-lhe de volta, no tenho correes a fazer. Pode prosseguir, e 
obrigado." 

Relaxei: as pessoas no pensam, mas para um homem como eu e no estado 
em que me encontro, at uma brincadeira inocente pode significar o golpe 
fatal. 

 

Foi o tempo de terminar o telefonema com Sibilla, e o cu tornou-se 
lvido: estava chegando um outro temporal, dessa vez de verdade. Com uma 
luz daquelas eu estava liberado da obrigao ou da tentao de ir at a capela. 
Todavia, podia passar uma hora no sto, ainda iluminado pelas trapeiras, s 
para continuar a remexer. 

Fui premiado com outra caixa, sem inscries, confeccionada pelos tios, 
cheia de revistas ilustradas. Levei tudo para baixo e pus-me a folhear sem 
empenho, como se faz na sala de espera de um dentista. 

Olhava as figuras de algumas revistas de cinema, com muitas fotos de 
atores. Havia naturalmente filmes italianos, aqui tambm em plena e pacfica 
esquizofrenia, de um lado filmes de propaganda como O assdio do Alcazar 
e Luciano Serra, piloto; do outro, pelculas com cavalheiros de smoking, 
mulheres viciosssimas em liseuses cndidas e uma decorao de luxo, com 
telefones brancos ao lado de leitos voluptuosos - numa poca em que, 
imagino, os telefones ainda eram todos pretos e grudados na parede. 

Mas havia tambm fotos de filmes estrangeiros e senti algumas 
vagussimas chamas ao ver o rosto sensual de Zarah Leander ou de Christine 
Sonderbaum em Cidade de ouro. 

Por fim, muitos filmes americanos, com Fred Astaire e Ginger Rogers que 
danavam como liblulas, e o John Wayne de No tempo das diligncias. 
Nesse meio tempo, reativara aquele que agora chamava de meu rdio, 
ignorando hipocritamente o gramofone que o fazia cantar, e identifiquei 
entre os discos alguns ttulos que me sugeriam alguma coisa. Meu Deus, Fred 
Astaire danava e beijava Ginger Rogers, mas naqueles mesmos anos Pippo 
Barzizza e sua orquestra tocavam melodias que eu conhecia, pois fazem parte 
da educao musical de todos. Aquilo era jazz, mesmo que italianizado: o 
disco intitulado Serenit era uma adaptao de Mood ndigo, aquele outro 
que se contrabandeava como Con stile era In the mood, e Tristezze di 
San Luigi (qual, IX ou Gonzaga?) era Saint Louis Blues. Todos sem letra, 
menos a de So Lus, bem sem graa, para no denunciar a origem de uma 
msica to pouco ariana. 

Em suma, entre jazz, John Wayne e os quadrinhos da capela, minha 
infncia transcorrera aprendendo que devia maldizer os ingleses e 
defender-me dos negres americanos que queriam emporcalhar a Vnus de 
Milo e, ao mesmo tempo, bebendo as mensagens que me chegavam da outra 
margem do oceano. 

 

Do fundo da caixa retirei tambm um pacote de cartas e cartes-postais 
endereados a meu av. Tive um momento de hesitao, pois me parecia 
sacrilgio penetrar naqueles segredos pessoais. Depois disse a mim mesmo que 
meu av era o destinatrio, no o autor daqueles escritos, e a seus autores eu 
no devia respeito algum. 

Folheei aquelas missivas sem esperana de encontrar algo de importante, 
mas no, ao contrrio: ao responder a meu av, aquelas pessoas, 
provavelmente amigos em que confiava, aludiam a coisas que ele escrevera e a 
partir da desenhava-se um retrato mais preciso. Comecei a entender o que 
pensava, que tipo de amigos freqentava ou cultivava a uma distncia 
prudente. 

Mas foi somente depois de ver a garrafinha que fiquei em condies de 
reconstruir a fisionomia "poltica" de meu av. Mas foi preciso algum tempo, 
porque as histrias de Amlia tinham que ser peneiradas, mas havia cartas que 
deixavam transparecer claramente as idias de meu av e das quais emergiam 
algumas menes a seu passado. E finalmente um correspondente, a quem ele 
contara em 43 o episdio final do leo, cumprimentava pela bela empresa. 

Pois vamos a isso. Apoiei-me contra as janelas, com a escrivaninha na 
frente e no fundo as estantes. S ento notei que em cima da estante, bem na 
minha frente, havia uma garrafinha, com dez centmetros de altura, um 
vidrinho de remdio ou de um perfume antigo, de vidro escuro. 

Curioso, subi numa cadeira para peg-la. A tampa de rosca estava 
hermeticamente fechada e ainda mostrava as marcas vermelhas de um antigo 
lacre de cera. Ao olhar e sacudir, parecia que no havia mais nada dentro. 
Abri com uma certa dificuldade e entrevi como que umas pequenas manchas 
de material escuro no interior. O pouco de cheiro que ainda se libertava do 
interior era decididamente desagradvel, como de alguma coisa podre 
ressecada h decnios. 

Chamei Amlia. Sabia alguma coisa? Amlia levantou os olhos e os braos 
para o cu e ps-se a rir. "Ah, o leo de rcino ainda estava a!" 

"leo de rcino? Era um purgante, creio eu..." 

"Como no! E muitas vezes servia tambm para vocs, crianas, mas uma 
colherinha pequena, s para fazer funcionar o corpo se ri-nham alguma coisa 
presa na barriga. E logo depois duas colherinhas de acar para tirar o gosto. 
Mas ao senhor seu av deu mais que isso, no apenas essa garrafinha a, mas 
pelo menos trs vezes mais!" 

Partimos do fato de que Amlia, que sempre ouvira Masulu contar essa 
histria, comeava dizendo que meu av vendia jornais. No, livros, dizia eu. 
E ela insistia (pelo menos era isso que eu entendia) que antes ele vendia 
jornais. Depois me dei conta do equvoco. Naquelas bandas o jornaleiro ainda 
 chamado de giurnalista. Ela dizia giurnalista e eu traduzia jornaleiro. Mas 
ao contrrio, Amlia repetia o que ouvira contar e meu av era realmente 
jornalista, daqueles que trabalham nos jornais. 

Como se percebia tambm na correspondncia, ele trabalhou at 1922, e o 
jornal era um dirio ou uma revista socialista. Naqueles tempos, na iminncia 



da Matcha sobre Roma, os brigadistas andavam por a com um basto para 
desancar o lombo dos subversivos. Mas aqueles que realmente queriam punir, 
eles obrigavam a engolir uma dose considervel de leo de rcino para 
purg-los de suas idias tortas. E aconteceu que os brigadistas invadiram a 
sede do jornal onde meu av trabalhava: calculando que ele deve ter nascido 
por volta de 1880, em 22 tinha no mnimo uns quarenta, enquanto os 
justiceiros eram rapages muito mais jovens. Quebraram tudo, inclusive a 
mquina da pequena tipografia, jogaram os mveis pela janela e, antes de 
evacuar o local e fechar as portas com duas hastes pregadas, pegaram os dois 
redatores presentes, espancaram-nos o quanto puderam e depois aplicaram o 
leo de rcino. 

"No sei se percebe, senhorzinho Yambo, um pobrezinho que  obrigado a 
beber aquilo, se consegue voltar para casa com as prprias pernas, no me faa 
dizer onde  que passa os dias seguintes, deve ter sido uma humilhao que 
no d nem para explicar, no se deve tratar desse modo uma criatura." 

Adivinhava-se, pelos conselhos mandados por um amigo milans, que a 
partir daquele momento (visto que os fascistas levaram a melhor uns meses 
depois), meu av decidiu deixar os jornais e a vida ativa e montar a sua lojinha 
de livros velhos, sobrevivendo em silncio por vinte anos, falando ou 
escrevendo de poltica apenas com os amigos de confiana. 

Mas no esqueceu daquele que lhe enfiara pessoalmente o leo na boca, 
enquanto seus companheiros seguravam seu nariz fechado. 

"Era um tal de Merlo, o senhor seu av sempre soube disso, e durante 
vinte anos no o perdeu de vista." 

De fato, algumas cartas informavam meu av sobre a vida de Merlo. Fizera 
sua pequena carreira de centuro da Milcia, ocupava-se das provises, e 
alguma coisinha acabou caindo no seu bolso, porque comprou at uma casa de 
campo, 

"Desculpe, Amlia, j entendi a histria do leo, mas o que havia nessa 
garrafinha?" 

"No ouso dizer, senhorzinho Yambo, era uma coisa horrvel..." 

"Se tenho que entender essa histria, voc tem que me dizer, Amlia, faa 
um esforo." 

E ento, s porque era eu, Amlia tentou explicar. Meu av voltara para 
casa com a carne destroada pelo leo, mas o esprito ainda indmito. Nas 
duas primeiras descargas no pde pensar no que fazia e botou para fora a 
prpria alma. Na terceira ou quarta descarga, decidiu defecar num vaso. E no 
vaso descarregou leo misturado com aquela coisa que sai quando algum  
obrigado a tomar purgante, conforme se explicava Amlia. Meu av esvaziou 



um vidro de gua de rosas de sua mulher, lavou bem e substituiu o perfume 
pelo leo misturado com aquela coisa l. Tampou e fechou tudo com um lacre, 
de modo que aquele licor no evaporasse e mantivesse intacto o seu bouquet, 
como acontece com os vinhos. 

A garrafinha ficou guardada na sua casa da cidade mas, uma vez 
transferidos para Solara, levou-a para o escritrio. E Masulu pensava como ele 
e sabia da histria, pois cada vez que entrava no escritrio (Amlia espiava e 
escutava) olhava para a garrafinha, para meu av e depois fazia um gesto: 
esticava a mo com a palma para baixo e fazia girar o pulso de forma que a 
palma ficasse para cima, dizendo em tom ameaador: "Sas gira..." O que 
queria dizer que se isso gira, se um dia as coisas mudarem. E meu av, 
sobretudo nos ltimos tempos, respondia: "Ah se gira, ah se gira, caro Masulu, 
os outros j desembarcaram na Siclia..." 

CORRIERE PELLA 
SERA 

Le dimissinni di 
Mussnini 
Badoglio Capo 
del Governo 

UN PROCLAMA DEL SOVRANO 

II Be assume il comando delle Force Remate -Badoglio agli 
Uaiani' "Si serrino fe file iniorno a Sua Maes vvente immagine 
detta Patvia" 


VIVA l'ITALIA 
jSoldatadsJ 
Sabotina e 
delPiave 

La 
pare la 
di 
Vittoria 
Emanuele 



Enfim chegou o 25 de julho. O Grande Conselho colocara Mussolini 
conrra a parede na noire anterior, o rei o despedira, dois carabineiros 
fizeram-no entrar numa ambulncia e levaram-no sabe-se l para onde. O 
fascismo chegara ao fim. Podia relembrar aqueles momentos pescando na 
coletnea de jornais. Ttulos garrafais, queda de um regime. 

 

A coisa mais interessante era ver os jornais dos dias seguintes. Davam 
notcias festivas de multides que derrubavam as esttuas do Duce dos 
pedestais e destruam a picaretadas os feixes lictrios das fachadas dos palcios 
pblicos e de hierarcas do regime que despiram o uniforme e sumiram de 
circulao. Cotidianos que at 24 de julho garantiam a esplndida firmeza do 
povo italiano unido em torno a seu Duce, no dia 30 regozijavam-se com a 
dissoluo da Cmara Fascista e das Corporaes e com a libertao dos presos 
polticos.  verdade que, de um dia para o outro, o diretor mudara, mas o 
resto da redao devia ser composto pelas mesmas pessoas de antes: 
adaptavam-se, ou muitos deles, que tiveram que morder a lngua por anos a 
fio, agora tiravam belas satisfaes. 

Mas era chegada tambm a hora de meu av. "Girou", disse ele 
lapidarmente a Masulu, e ele entendeu que precisava se pr mos  obra. 
Chamou dois rapages que o ajudavam no campo, Stivulu e Gigio, todos os 
dois bem slidos, com o rosto vermelho de sol e de Barbera e msculos 
daquele jeito, sobretudo o Gigio que, quando um carro se enfiava num fosso, 
era chamado para tir-lo de l com as mos nuas, e mandou que palmilhassem 
as cidadezinhas vizinhas, enquanto meu av descia at o telefone pblico de 
Solara para tomar informaes com seus amigos da cidade. 

 

Finalmente, em 30 de julho, o Merlo foi identificado. Sua casa ou casa de 
campo ficava em Bassinasco, no muito longe de Solara, e para l ele se 
retirara na surdina, sem se fazer notar. Nunca foi importante e esperava que o 
esquecessem. 

"Vamos no dia 2 de agosto", disse meu av, "porque foi justamente no dia 2 
de agosto de vinte e um anos atrs que aquele desgraado me tez beber o leo, 
e vamos depois do jantar, primeiro porque  menos quente, segundo porque 
ento o Merlo ter acabado de comer como um abade e ser o momento certo 
de ajud-lo a digerir." 

Tomaram a charrete e, ao pr-do-sol, partiram para Bassinasco. 

Ao chegar na casa de Merlo, bateram, ele veio atender com o guardanapo 
quadriculado ainda no pescoo, quem  e quem no , naturalmente a cara de 
meu av no lhe dizia nada, empurraram-no para dentro, Stivulu e Gigio 
obrigaram-no a sentar segurando seus braos para trs e Masulu tapou seu 
nariz com o polegar e o indicador, que sozinhos j eram suficientes para 
destampar um garrafo. 

Meu av, com calma, lembrou a histria de vinte e um anos atrs 
enquanto Merlo fazia que no com a cabea, como quem dissesse que se 
tratava de um engano, que ele nunca se interessara por poltica. Meu av, 
acabada a explicao, recordou que antes de enfiarem-lhe o leo goela abaixo 
o encorajaram com algumas pauladas a gritar, com o nariz tapado, alal. Ele 
era uma pessoa pacfica e no queria usar o basto, portanto se o Merlo 
quisesse gentilmente colaborar, seria melhor que ele dissesse logo aquele 
alal, evitando assim cenas desagradveis. E o Merlo, com nfase nasal, gritou 
alal, que alis era uma das poucas coisas que aprendera a fazer. 

Depois disso, meu av enfiou-lhe a garrafinha na boca fazendo-o engolir 
todo o leo, com aquele tanto de matria fecal que l estava em soluo, tudo 
bem envelhecido na devida temperatura, safra de mil novecentos e vinte e 
dois, denominao de origem controlada. 

Saram quando o Merlo estava ajoelhado com a cara contra os tijolos do 
pavimento, tentando vomitar, mas o nariz ficara tapado o tempo suficiente 
para que a poo descesse at o fundo do estmago. 

Amlia nunca vira o senhor meu av to radiante quanto naquela noite, 
quando voltou. Parece que o Merlo ficou com tanto medo que, depois de 8 de 
setembro, quando o rei pediu o armistcio e fugiu para Brindisi, o Duce foi 
libertado pelos alemes e os fascistas voltaram, ele no aderiu  Repblica 
Social e ficou em casa cultivando sua horta - j deve estar morto ele tambm, 
pobre homem, dizia Amlia. E segundo ela, mesmo que quisesse se vingar e 
contar aos fascistas, estava to apavorado naquela noite que no lembraria a 
cara de quem entrou em sua casa, e sabe-se l a quantas outras pessoas ele deu 
leo. "E eu acho que alguns desses outros tambm ficaram de olho nele esses 
anos todos e ele teve que botar pra dentro mais de uma daquelas garrafinhas, 
estou dizendo, pode acreditar, coisa de fazer qualquer um perder a vontade de 
fazer poltica." 

Eis ento o meu av, e isso explicava os jornais sublinhados e as audies 
da Rdio Londres. Estava esperando que girasse. 

Na data de 27 de julho, encontrei o nmero de um jornal que celebrava o 
fim do regime numa mensagem nica de jbilo do Partido da Democracia 
Crist, do Partido da Ao, do Partido Comunista, do Partido Socialista 
Italiano de Unidade Proletria e do Partido Liberal. Se eu a vi, e devo t-la 
visto, devo ter entendido de imediato que, se aqueles partidos se faziam vivos 
de um dia para o outro, era sinal de que j existiam antes e na clandestinidade 
em algum lugar. Talvez tenha sido assim que comecei a compreender o que 
era a democracia. 

Meu av guardava tambm alguns jornais da Repblica de Sal e num 
deles, // Popolo di Alessandria (que surpresa! Ezra Pound era um dos 
colaboradores!), havia charges ferozes contra o rei, que os fascistas odiavam 
no apenas porque mandara prender Mussolini, mas tambm porque pedira o 
armistcio, fugindo para o Sul e unindo-se aos odiados anglo-americanos. Mas 
as charges voltavam-se tambm contra seu filho Umberto, que o seguira. 
Representavam os dois perenemente em fuga, levantando nuvenzinhas de 
poeira, o rei pequeno, quase um ano, o prncipe alto como um varapau, um 
era chamado de Gambito P Veloz e o outro de Estrelaa, o Herdeiro. Paola 
me disse que sempre tive sentimentos republicanos e como se v, a primeira 
lio eu recebi justamente daqueles que fizeram do rei imperador da Etipia. 
Como se costuma dizer, so os caminhos da providncia. 

Perguntei a Amlia se meu av me contara a histria do leo. "Como no? 
No dia seguinte. Estava to feliz! Sentou-se em sua cama assim que o senhor 
acordou e contou-lhe toda a histria, mostrando a garrafinha." 

"E eu?" 

"O senhor, senhorzinho Yambo, parece que estou vendo, batia as mos e 
gritava muito bem vov, o senhor  melhor que gudn," "Que gudn? O que  
isso?" 

"Que sei eu? Mas gritava assim, juro, como se fosse agora mesmo." 

 No era gudn, era Gordon. Celebrava no ato de meu av a revolta de 
Gordon contra Ming, tirano de Mongo. 









13. SENHORINHA PLIDA 

 

 

Participei da aventura de meu av com o entusiasmo de um leitor de 
quadrinhos. Mas de meados de 1943 at o fim da guerra no havia mais nada 
entre as colees da capela. Apenas, de 45, as tiras que consegui com os 
libertadores. Talvez da metade de quarenta e trs  metade de quarenta e 
cinco no se publicassem mais quadrinhos ou no chegassem a Solara. Ou 
talvez, depois do 8 de setembro de 43, tenha testemunhado eventos reais to 
romanescos, os par-tigiani, as Brigadas Negras que passavam diante de casa, 
a chegada de folhas clandestinas, que superavam tudo o que minhas 
revistinhas poderiam me contar. Ou j me sentia grande demais para os 
quadrinhos e passei justamente naqueles anos  leitura mais apimentada do 
Conde de Montecristo ou dos Trs Mosqueteiros. 

Em qualquer caso, at o momento Solara no me restitura algo que fosse 
realmente e somente meu. Tudo o que descobri foi o que lera, mas assim 
como tantos outros leram. A isso reduzia-se toda a minha arqueologia:  
exceo da histria do copo inquebrvel e de uma espirituosa anedota sobre 
meu av (mas no sobre mim), eu no revivera a minha infncia, mas aquela 
de toda uma gerao. 

 

At o momento, as coisas mais claras me foram contadas pelas canes. Fui 
at o escritrio para ligar meu rdio, colocando discos escolhidos ao acaso. A 
primeira cano que o rdio me ofereceu era mais uma vez umas cias alegres 
loucuras que acompanhavam os bombardeios: 

 

Ontem  noite, quando passeava, me aconteceu um fato: um 
rapazinho doido se aproximou num salto. 

Convidou-me para ir a um caf muito escondido, depois com sotaque esquisito 
comeou a expor: 

conheo uma menina que  loura como ouro, mas nunca poderei falar de meu amor. 

Minha av Carolina dizia que em seu tempo apaixonados lhe diziam assim: 

quero beijar 
os teus cabelos negros, 
os lbios teus, 
os olhos teus, sinceros. 
Mas no posso diz-lo 
ao meu doce tesouro 
por causa do cabelo 
louro como ouro! 

 

A segunda cano era certamente mais antiga e mais lacrimognea: deve 
ter feito chorar minha me. 

 

Senhorinha plida 
doce vizinha do quinto andar. 
No h uma noite em que no sonhe Npoles, 
e so vinte anos que parti de IA. 

 
...o meu pequenino 
folheando um velho livro de latim 
achou! - adivinha! ~ um amor-perfeito... 

Por que nos olhos me brilhou uma lgrima? 
Quem sabe, quem sabe por qu? 

 

E eu? Os quadrinhos da capela diziam-me que passei pela revelao do 
sexo - mas e o amor? Paola foi a primeira mulher da minha vida? 

Era estranho que na capela no houvesse nada referente ao perodo entre 
os meus treze e os meus dezoito anos. E no entanto durante aqueles cinco 
anos, antes da desgraa, eu ainda freqentava a casa. 

Veio-me  cabea que entrevi, no nas estantes, mas apoiadas no altar, trs 
caixas. No dei muita ateno, tomado como estava pelo fascnio multicor das 
minhas colees, mas talvez ainda houvesse coisas para descobrir. 

A primeira caixa estava cheia de fotografias de minha infncia. Esperava 
sabe-se l que revelaes, mas no. Senti apenas uma sensao de grande e 
religiosa comoo. Depois de ter visto as fotos de meus pais no hospital e de 
meu av no escritrio, identificava minha famlia, nas diversas pocas, usando 
como referncia as roupas, re-conhecendo-os mais jovens ou mais velhos 
segundo a medida das saias de minha me. Eu devia ser aquele menino com 
chapu de sol que espetava uma lesma em cima de uma pedra; a menininha 
compungida que segurava pela mo era Ada, Ada e eu ramos as crianas de 
branco, quase um fraque para mim, quase um vestido de noiva para ela, no dia 
da Primeira comunho ou da Crisma, eu era o segundo Balilla da direita, 
alinhado com um pequeno mosquete abraado sobre o peito, um p adiante; e 
era o maiorzinho ao lado de um soldado americano de pele negra que sorria 
com sessenta e quatro dentes, talvez o primeiro libertador que encontrei e 
com o qual me fiz eternizar depois de 25 de abril. 

S uma foto comoveu-me de verdade: era um instantneo ampliado, um 
pouco fora de foco, e representava um menino que se inclinava um pouco 
embaraado enquanto uma menininha menor erguia-se sobre um par de 
sapatinhos brancos, colocava-lhe os braos ao redor do pescoo e o beijava no 
rosto. Assim minha me e meu pai nos surpreenderam, quando Ada 
espontaneamente, cansada de posar, me dava o prmio de seu fraternal afeto. 

Sabia que aquele era eu e aquela era ela, no podia deixar de 
enternecer-me quela viso, mas era como se a tivesse visto num filme, 



comovido como um estranho diante de uma representao do amor fraterno. 
O mesmo que se emocionar diante do Angelus de Millet, do Beijo de Hayez 
ou da Oflia que flutua pr-rafaelita sobre uma colcha de junquilhos, 
nenfares e asfdelos. 

 

Eram asfdelos? Sei l, mais uma vez  a palavra que manifesta seu poder, 
no a imagem. As pessoas contam que temos dois hemisfrios no crebro, o 
esquerdo que preside as relaes racionais e a linguagem verbal, o direito que 
rege as emoes e o universo visual. Talvez meu hemisfrio direito estivesse 
paralisado. Mas no, c estou eu morrendo de consumio na busca de algo, e 
a busca  uma paixo, no um prato que se come frio como a vingana. 

 

Deixei as fotos de lado, inspiravam-me apenas nostalgia do desconhecido, 
e passei para a segunda caixa. 

Continha pequenas imagens sacras, muitas de Domingos Savio, um aluno 
de Dom Bosco que os pintores representavam ardente de piedade retratando 
suas calas amarrotadas com bolsas sob os joelhos, como se as civesse dobradas 
o dia inreiro, imerso em oraes. Depois um pequeno volume encadernado 
em preto, de corte vermelho como um brevirio, O jovem prevenido, do 
mesmo Dom Bosco. Era uma edio de 1847, em mau estado, sabe-se l quem 
me deu. Leituras edificantes e coletneas de hinos e preces. Muitas as 
exortaes  pureza como virtude rainha. 

Outros opsculos tambm ofereciam incitaes  pureza, apelos a 
abster-se de espetculos indignos, de convivncias duvidosas, de leituras 
perigosas. De todos os mandamentos parecia que o mais importante fosse o 
sexto, no cometer atos impuros, e de forma bastante transparente os vrios 
ensinamentos diziam respeito a ilcitas manipulaes do prprio corpo, 
chegando at ao conselho de deitar-se  noite de barriga para cima e com as 
mos cruzadas no peito para impedir que o ventre roasse contra o colcho. 
Raras eram as recomendaes a no manter contato com o outro sexo, como 
se a eventualidade fosse remota, impedida por severas convenes sociais. O 
maior inimigo era, embora a palavra s fosse nomeada raramente, e na 
maioria das vezes com prudentes circunlocues, a masturbao. Um manual 
explicava que os nicos animais que se masturbam so os peixes: aludindo 
provavelmente  inseminao externa, quando muitos tipos de peixes 
espalham espermatozides e vulos na gua, que se ocupa depois da 
fecundao - mas nem por isso os pobres animais pecam por copular em vaso 
indevido. Nada sobre os smios, onanistas por vocao. E silncio sobre a 
homossexualidade, como permitir que um seminarista se tocasse no fosse 
pecado. 

 

Achei at um exemplar muito consumido de Pequenos martrios, de 
Dom Domnico Pilia.  a histria de dois piedosos jovens, ele e ela, que 
sofrem as mais horrveis torturas infligidas por maons anti-clericais 
consagrados a Satans, que querem inici-los nos prazeres do pecado por dio 
 nossa santa religio. Mas o crime no compensa. O escultor Bruno 
Cherubini, que esculpiu para os maons a Esttua do Sacrilgio, foi acordado 
durante a noite pela apario do companheiro de vcios Wolfgang Kaufman. 
Depois de sua ltima orgia, Wolfgang e Bruno firmaram um pacto: o primeiro a 
morrer apareceria para o amigo para contar o que era o alm. E Wolgang emerge post mortem dos vapores do Trtaro, envolvido num sudrio, os olhos 
escancarados no rosto de fidalgo mefistoflico. De suas carnes incandescentes 
emana uma luz sinistra. O fantasma se apresenta e anuncia: "O inferno existe, 
 l que eu estou!" E pede a Bruno, se quer uma prova tangvel, que estenda a 
mo direita; o escultor obedece e o espectro deixa cair em sua mo uma gota 
de suor que lhe transpassa a mo de lado a lado, como se fosse chumbo 
derretido. 

 

As datas do livro e dos opsculos, quando havia, no me diziam nada, pois 
eu poderia t-los lido em qualquer idade, logo era impossvel dizer se foi nos 
anos de guerra ou depois, ao retornar  cidade, que me entreguei a prticas de 
piedade. Reao aos eventos blicos, uma forma de enfrentar as tempestades 
da puberdade, uma srie de desenganos me jogaram nos braos acolhedores da 
Igreja? 

 

Os nicos resqucios verdadeiros de mim mesmo estavam na terceira caixa. 
Sobretudo em alguns nmeros de Radiocorriere, de quarenta e sete a 
quarenta e oito, com alguns programas sublinhados e anotados. A caligrafia 
era sem dvida minha, portanto aquelas pginas diziam-me o que s eu podia 
ouvir. Os sublinhados, exceto alguns programas noturnos dedicados  poesia, 
destacavam a msica de cmara e de concerto. Eram breves inseres entre 
uma transmisso e outra, de manh cedo,  tarde, ou tarde da noite: trs 
estudos, um noturno, no mximo uma sonata inteira. Coisa para apaixonados, 
colocada em horas de pouca audincia. Depois da guerra, portanto, de volta  
cidade, eu ficava  espreita de oportunidades musicais com as quais ia me 
drogando pouco a pouco, colado ao rdio, o volume baixo para no incomodar 
o resto da famlia. De meu av, havia alguns discos de msica clssica, mas 
quem disse que no os comprou depois, justamente para encorajar minha nova 
paixo? No comeo anotava como um espio as raras circunstncias em que 
poderia ouvir a minha msica, e quem pode dizer que raivas sentia quando, 
chegando na cozinha para um encontro esperado h dias, no podia ouvir 
nada por causa de pessoas que perambulavam de l para c, entregadores 
falastres, mulheres que trabalhavam ou estendiam a massa. 

Chopin era o autor sublinhado com maior nfase. Levei a caixa para o 
escritrio de meu av, liguei o toca-discos e o dial do meu Telefunken, e 
comecei minha ltima busca ao som da Sonata em si bemol menor opus 
35. 

 

Embaixo do Radiocorriere havia cadernos do tempo do liceu, entre 
quarenta e sete e cinqenta. Percebi que tive um professor de filosofia 
realmente grandioso, pois a maior parte do que sei sobre o assunto estava bem 
ali, em minhas anotaes. Em seguida vinham desenhos e vinhetas, 
brincadeiras que fazia com os colegas de escola e fotos da turma no final do 
ano, todos alinhados em trs ou quatro filas com os professores no meio. 
Aqueles rostos no me diziam nada, e tive dificuldade at para reconhecer-me 
a mim mesmo, seguindo mais que outra coisa por excluso, agarrando-me s 
ltimas mechas do topete de Topetinho. 

Misturado aos cadernos escolares surgiu um outro, que comeava com a 
data de 1948, mas apresentava diferenas caligrficas  medida que eu ia 
folheando, de forma que talvez contivesse textos escritos nos trs anos 
seguintes. Eram poesias. 

Poesias to ruins s podiam ser minhas. Acne juvenil. Acho que todos ns 
escrevemos poesia aos dezesseis anos,  uma fase da passagem entre 
adolescncia e idade adulta. No sei mais onde li que os poetas dividem-se em 
duas categorias, os bons poetas, que a certa altura destroem suas poesias ruins 
e vo vender armas na frica, e os maus poetas, que as publicam e continuam 
a escrev-las at a morre. 

Pode ser que as coisas no sejam bem assim, mas minhas poesias eram 
ruins. No horrveis ou repugnantes, que poderiam deixar entrever um gnio 
provocador, mas pateticamente bvias. Valia a pena ter voltado a Solara para 
descobrir que fui um escrevinhador? Mas pelo menos um motivo de orgulho 
eu podia ter, fechei aqueles abortos numa caixa, numa capela com a entrada 
murada e dediquei-me a colecionar livros de outros. Eu devia ser, por volta 
dos dezoito anos, admiravelmente lcido, criticamente incorruptvel. 

No entanto, mesmo sepultadas, conservei-as, de alguma forma aquelas 
poesias eram importantes para mim, mesmo depois de passada a acne. Como 
testemunho, Como se sabe, quem consegue expelir uma solitria conserva sua 
cabea em soluo alcolica e outros o fazem com um clculo extrado da 
vescula. 

As primeiras eram esboos, breves revelaes diante dos encantos da 
natureza, como deve fazer qualquer poeta iniciante: manhs de inverno que 
piscavam na geada um malicioso desejo de abril, emaranhados de reticncia 
lrica sobre a misteriosa cor de um entardecer de agosto, muitas, muitssimas 
luas, e um s momento de pudor: 

 

Que fazes no cu, lua, diz-me o qu'? 

Conduzo minha vida, 

minha vida desbotada, 

pois sou um amontoado 

de terra, e de mortos vales 

e tediosos vulces 

extintos. 

 



Deus meu, eu no podia ser to bobo assim. Talvez tivesse acabado de 
descobrir os futuristas, que queriam matar o luar. Logo em seguida li alguns 
versos sobre Chopin, sua msica e sua vida dolorosa. Imaginem, aos dezesseis 
anos no se faz poesia sobre Bach, que s se abalou no dia em que perdeu a 
esposa, e aos papa-defuntos que vieram perguntar como organizar as exquias, 
respondeu que perguntassem a ela. Chopin parece feito sob medida para fazer 
lacrimejar um rapazola, a partida de Varsvia com a fita de Constana no 
corao, a morte iminente no ermo de Valnemosa. S crescendo  que se 
percebe que comps boa msica; antes, se chora. 

As poesias seguintes eram sobre a memria. Mal sado dos cueiros, j me 
preocupava em colecionar lembranas ainda nem bem descoloridas pelo 
tempo. Uma delas dizia: 

 

Edifico-me 
lembranas. A vida 
dedico  essa miragem* 
A cada segundo que 
passa, a cada instante 
volto leve uma pgina 
com a mo que treme. 
E a lembrana  aquela 
onda que encrespa as 
guas rpida, e 
desaparece. 

 

Voltando muitas vezes ao comeo, como devo ter aprendido com os 
hermticos. 

Muitas poesias sobre a clepsidra, que tece o tempo como baba sutil e o 
entrega aos intensos celeiros da memria, um hino a Orfeu (sic), no qual o 
advertia de que no se volta duas vezes ao reino da recordao I para 
encontrar gasto I o frescor inesperado I do primeiro furto. 
Recomendaes a mim mesmo, no devia desperdiar I um s momento... 
Esplndido, bastou uma bombeada excessiva em minhas artrias e desperdicei 
tudo. Para a frica, para a frica a vender fuzis. 

Entre outras miudezas lricas, escrevia poesias de amor. Amava, portanto. 
Ou estaria enamorado do amor, como acontece nessa idade? Mas falava de 
uma ela, por enquanto impalpvel: 

 

Criatura encerrada neste 
mistrio lbil que te faz 
distante, talvez nascida 
apenas para viver esses 
versos, tu no o saibas. 

 

Versos trovadorescos a no mais poder e, com olhos de hoje, um tanto 
machistas. Por que a criatura nasceria s para viver os meus pobres versos? Se 
ela no existia, eu era um pax monogmico que fazia do sexo carne gentil 
para seu harm imaginrio o que, nesses casos, tem o nome de masturbao, 
mesmo quando se ejacula com 

 

uma pena de ganso. Mas, e se a Criatura Encerrada fosse real e realmente no 
soubesse? Ento, canhestro eu, mas e ela, quem era? 

No estava diante de imagens, mas de palavras, e s no sentia chamas 
misteriosas porque a rainha Loana me desiludira. Mas alguma coisa eu 
percebia, a ponto de poder antecipar certos versos  medida que ia lendo: um 
dia desaparecers I e talvez tenha sido um sonho. Um figmentum 
potico no desaparece nunca, voc escreve para torn-lo eterno. Se temia que 
se dissolvesse era porque a poesia constitua um gracioso Ersatz para algo de 
que no conseguia me aproximar. Incauto edifiquei I sobre a areia lbil 
dos momentos t diante de um rosto, apenas um rosto. I Mas no sei se 
lamentar o instante i em que me perdi a fabricar-me um mundo. O 
mundo eu j estava fabricando, mas para receber algum. 

E, de fato, li uma descrio que era detalhada demais para que se referisse 
a uma criao fictcia: 

 

Passava ignara com um corte novo 

dos cabelos, era maio, 

e o estudante ao lado 

(era velho alto e louro) 

do esparadrapo no pescoo 

dizia sorrindo aos amigos 

que era um sifilom. 

 

E mais adiante nomeava-se um casaco amarelo como se fosse a viso do 
Anjo da Sexta Trombeta. A moa existia, eu no podia ter inventado o 
miservel do sifiloma. E esta outra, entre as ltimas da seo amorosa? 

 

Uma tarde assim, 

trs dias antes do Natal 

decifrava o amor 

pela primeira vez. 

Uma noite assim, 

de neve pisada pelas ruas, 

fazia barulho debaixo de uma janela 
esperando que algum me visse a 
atirar bolas de neve e pensava que 
bastaria para pr-me entre os 
notveis do sexo. Agora quantas 
estaes mudaram-me as cluLts e os 
tecidos nem sei se perduro na 
lembrana. 

 

S a ti, s a ti 

nos confins de sabe-se l onde (onde ests?) 
como te encontro ainda no findo do msculo 
corao 

com o mesmo estupor de trs dias 
antes do Natal. 

 

A esta Criatura Encerrada, realssima, dediquei os trs anos de minha 
formao. Depois {onde ests?) eu a perdi. Talvez na poca em que perdi 
meus pais e me transferi para Turim, tenha resolvido acabar com tudo, como 
testemunham as ltimas duas poesias. Estavam enfiadas no caderno, porm 
no eram manuscritas, mas escritas  mquina. No creio que no liceu se 
usassem mquinas de escrever. Portanto, essas duas ltimas tentativas poticas 
remontavam ao incio dos anos universitrios. Estranho que estivessem ali, se 
todos me diziam que deixara de vir a Solara justamente no incio daqueles 
anos. Mas talvez, depois da morte de meu av e enquanto os tios liquidavam 
tudo, eu tivesse voltado  capeia justamente para sigilar as lembranas s quais 
renunciava e l enfiei tambm as duas folhas,  guisa de testamento e adeus. 
Elas soam como uma despedida, como a liquidao da poesia e dos suaves 
adultrios que estava deixando para trs. 

A primeira recitava: 

 

Oh as senhoras brancas de Renoir As 
damas nos balces de Manet 

Os bares com terraos sobre o bulevar 
E a sombrinha branca do landau 
Murcha como a ltima cadeia Ao extremo 

alento de Bergotte... Encaremos as 
coisas de frente: Odette de Crecy era 
uma grande puta. 

 

A segunda intitulava-se Ospartigiani. Era tudo que restava de minhas 
lembranas de quarenta e trs at o final da guerra: 

 

Talino, Gino, Ros, Lupetto, Sciabola 

que desciam num dia de primavera 

cantando sopra o vento, ruge a tempestade 

como queria ainda aqueles veres 

de fuziladas altas de repente 

no silncio do sol meridiano 

de tardes passadas  espreita, 

notcias espalhadas  meia voz, 

a Dcima vai embora, amanh descem 

os badoglistas, desmontam o posto de bloqueio 

pela estrada de Orbegno no se passa 

mais, carregam os feridos em carroas, 

eu os vi perto do Oratrio, 

o sargento Garrani est entrincheirado 

na Prefeitura... 

E de repente a cantilena diablica, 

o rumor infernal, o tiquetaque 

sobre o muro da casa, uma voz no beco... 

E a noite, silncio e poucos tiros, 

de San Martino, e os ltimos procurados... 

Queria sonhar aqueles vastos veres 

nutridos de certezas como sangue 

e os tempos em que 

 

 

ta* 

Talino, Gino e Ros tinham olhado 
talvez no rosto da verdade. 

 

Mas no posso, existe ainda o 
meu posto de bloqueio no 
caminho do Vallone. Fecho 
ento o caderno da memria. J 
se passaram as claras noites em 
que o partigiano no bosque 
velava os passarinhos para que 
no cantassem pois a bela 
precisava dormir. 

 

Esses versos conrinuavam a ser um enigma. Ento, eu vivi uma poca que 
para mim foi herica, pelo menos enquanto a via tendo os outros como 
protagonistas. No momento em que tentava liquidat qualquer pesquisa sobte 
minha infncia e adolescncia, no limiar da idade adulta, tentei recordar 
alguns momentos de exaltao e de certeza. Mas parei diante de uma barreira 
(o ltimo posto de bloqueio daquela guerra combatida na porta de casa) e 
rendi-me diante - de qu? De algo que no podia ou no queria mais 
rememorar e que tinha a ver com o Vallone. Mais uma vez o Vallone. Por que 
l encontrei as rnasche e esse enconrro me ensinou que devia apagar tudo? 
Quem sabe, visto que j estava consciente de ter perdido a Criatura Encerrada, 
transformei os outros dias, e o Vallone, na alegoria daquela perda - e por isso 
recolocava no escrnio inviolvel da capela tudo o que eu fora at aquele 
instante? 

Nada mais restava, pelo menos em Solara. S podia conjecturar que, depois 
daquela renncia, resolvera me dedicar, j estudante, aos livros antigos que 
me remetessem a um passado alheio, com o qual no pudesse me envolver. 

Mas quem foi a Criatura que, fugindo, me convencera a arquivar seja os 
anos de liceu, seja os de Solara? Teria eu tido tambm a minha senhorinha 
plida, doce vizinha do quinto andar? Nesse caso era ainda e to-somente uma 
outta cano que todos, mais cedo ou mais tarde, j cantaram. 

O nico que podia saber alguma coisa sobre isso era Gianni. Se voc se 
apaixona, e pela primeira vez, vai se confessar pelo menos com o companheiro 
de escola. 

Dias antes no quis que Gianni desfizesse a nvoa das minhas recordaes 
com a luz tranqila das suas, mas quela altura s podia recorrer  sua 
memria. 

Quando telefonei j era noite e falamos por algumas horas. Comecei 
divagando, falando de Chopin e confirmando que naquele tempo o rdio era 
realmente nossa nica fonte de grande msica, pela qual comevamos a nos 
apaixonar. S na poca do terceiro ano do liceu foi que surgiu, por fim, uma 
associao de amigos da msica na cidade, oferecendo um concerto de piano 
ou violino de vez em quando, no mximo um ttio, e da nossa turma ramos s 
quatro a comparecer, quase escondidos, porque os outros bandos s queriam 
descobrir um modo de entrar no cassino sem ter dezoito anos, e nos olhavam 
como se fssemos bichas. Bem, depois de alguns frmitos em comum, eu podia 
ousar. "Voc sabe se no primeiro ano do liceu eu comecei a pensar em alguma 
moa?" 



"At isso voc esqueceu, ento. H males que vm para o bem. Por que lhe 
interessa saber, j passou tanto tempo... Cuidado, Yambo, pense na sua sade." 

"No se faa de cretino, descobri por aqui umas coisas que me intrigam. 
Preciso saber." 

Ele parecia hesitar, depois deu rdeas  memria, e com grande 
participao, como se o apaixonado fosse ele. E a bem dizer, era quase isso 
(dizia-me), pois at aqueles dias ele se mantinha imune aos tormentos 
amorosos, inebriando-se com minhas confidncias como se as histrias fossem 
suas. 

"E depois, ela era mesmo a mais bonita da turma. Voc era exigente: se 
apaixonava,  verdade, mas s pela mais bonita." 

"Alors moi, j'aime qui?.,. Mais cela va de soi! I J'aime, mais c'est 
forc, la. plus belle qui soitf O qu? 

"No sei, me veio  cabea. Mas faie sobre ela. Como se chamava?" 

"Lila, Lila Saba." 

Bonito nome. Deixava que se derretesse em minha boca como se fosse mel. 
"Lila. Bonito. E da, o que aconteceu?" 

"No primeiro ano ns meninos ainda ramos uns fedelhos cheios de 
espinhas e de calas curtas. Elas na mesma idade j eram mulheres e nem 
olhavam para ns, s flertavam com os universitrios que esperavam na sada. 
Mas assim que a viu voc ficou cado. Tipo Dante e Beatriz, e no falo por 
acaso, porque no primeiro ano ns estudvamos a Vida Nova e as claras 
frescas doces guas, e era a nica coisa que sabia de cor, porque falava de voc. 
Em suma, fulminado. Por uns dias ficou atordoado com um n na garganta e 
incapaz de comer, tanto que seus pais pensaram que estava doente. Depois 
quis saber como ela se chamava, mas sem coragem de perguntar s pessoas 
com medo que todos percebessem. Por sorte estudava na turma dela a Ninetta 
Foppa, com uma carinha simprica de esquilo, que era sua vizinha e vocs 
brincavam juntos desde criana. Ento, encontrando-a na escadaria e como 
quem no quer nada, perguntou como se chamava a menina que estava com 
ela no dia anterior, E ficou sabendo pelo menos o nome." 

"E depois?" 

"Olhe, voc tinha se transformado num zumbi. E como na poca era muito 
religioso, procurou seu orientador espiritual, dom Renato, um daqueles padres 
que andavam de motoneta com uma boina basca e que todos diziam que era 
um homem de mentalidade aberta. Permitia at que lesse os autores que 
estavam no ndex, porque  necessrio exercitar o esprito crtico. Eu no teria 
coragem de ir contar uma coisa dessas a um padre, mas voc precisava falar 
com algum. Sabe, voc estava que nem o sujeito da piada que naufraga numa 
ilha deserta, sozinho com a atriz mais bonita e famosa do mundo, acontece o 
que tem que acontecer, mas ele no fica satisfeito e no sossega enquanto no 



a convence a se vestir de homem e desenhar uns bigodes de carvo para ento 
peg-la pelo brao e dizer: Gustavo, se voc soubesse quem eu comi..." 

"No venha com vulgaridades, para mim a coisa  sria. O que disse dom 
Renato?" 

"O que voc queria que um padre, mesmo aberto, dissesse? Que seu 
sentimento era nobre e belo e natural, mas que no deveria macul-lo 
transformando-o em relao fsica, pois devemos chegar puros ao casamento e 
que, portanto, deveria guard-lo como um segredo no fundo do corao." E 
eu? 

"Bem, como um bobo, guardou o que ele disse no fundo do corao. E 
tambm porque tinha um medo louco de chegar perto dela. S que o fundo do 
seu corao no foi suficiente e voc veio me contar tudo, at porque 
precisava de uma mozinha." 

"Mas como, se eu nem chegava perto?" 

"A questo  que voc morava bem atrs da escola e, na sada, s precisava 
dobrar a esquina e j estava em casa. As meninas, segundo o regulamento dos 
padres, saam depois de ns. E voc corria o risco de no v-la nunca mais, a 
no ser que ficasse plantado como um idiota na frente da escadaria do liceu. A 
maioria de ns, moas e rapazes, tinha que atravessar os jardins para chegar ao 
largo Minghctti, depois cada um seguia seu caminho. Ela morava bem no largo 
Min-ghetti. Ento voc saa, fazia de conta que me acompanhava at o fim dos 
jardins, esperava a sada das meninas e voltava, cruzando com ela quando 
vinha com as amigas. Cruzava com ela, s isso. Todo santo dia." 

"E fiquei satisfeito?" 

"Claro que no! Foi ento que comeou a aprontar de todas as formas. 
Enfiava-se em iniciativas beneficentes para obter permisso do diretor para 
vender l sei eu que bilhetes em todas as turmas, entrava na sala dela e dava 
um jeito de ficar meio minuto a mais junto  sua carteiia, fingindo que no 
encontrava o troco, por exemplo. Inventou uma dor de dentes porque o 
dentista de sua famlia ficava justamente no largo Minghetti e suas janelas 
davam para o balco da casa dela. Reclamava de dores tremendas, o dentista 
no sabia mais o que fazer e por escrpulo acabava obturando e assim voc fez 
inmeras vezes  toa, mas chegando sempre meia hora antes para ficar na 
salinha de espera espiando pela janela. Naturalmente, nem sombra dela no 
balco, nem sombra. Certa tarde saamos do cinema, nevava e, justamente no 
largo Minghetti, resolveu organizar uma guerra de bolas de neve gritando 
como um possesso, tanto que pensaram que estivesse bbado. E tudo na 
esperana de que ela ouvisse a balbrdia e chegasse  janela, d para imaginar 
o belo papel que faria. Em vez dela apareceu uma velhota de maus bofes 
gritando que chamaria a polcia. Mas depois, a idia genial. Organizou uma 
revista, um espetculo, o grande show do liceu. Quase perdeu o ano porque s 
pensava na tal revista, textos, msicas, cenografia. E finalmente o sucesso, trs 
recitais para que toda a escola, inclusive as famlias, pudesse assistir ao maior 
espetculo do mundo no auditrio. Ela veio duas noites seguidas. A grande 
atrao era a senhora Marini. A senhora Marini, professora de cincias 
naturais, era uma bem magra, de coque, sem busto, grandes culos de 
tarraruga e sempre de avental preto. Voc era magro como ela e travesti-lo foi 
uma tranqilidade. De perfil, era ela escrita. Quando entrou em cena foi uma 
ovao que parecia um Caruso. Mas durante a aula ela costumava tirar da 
bolsa uma pastilha para a garganta e durante meia hora girava a bala de uma 
bochecha  outra. Quando voc abriu a bolsa, fingiu colocar a pastilha na boca 
e passou a lngua de um lado ao outro, vou lhe contar, o teatro veio abaixo, 
um estrondo que durou cinco bons minutos. Com um nico golpe de lngua 
conseguiu levar centenas de pessoas ao xtase. Era um heri agora. Mas  claro 
que s ficou entusiasmado porque ela estava l e, finalmente, o vira." 

"Mas eu no pensei que naquela altura j poderia ousar mais?" 

"Sim, mas e a promessa a dom Renato?" 

"E portanto, exceto quando lhe vendia os tais bilhetes, nunca mais falei 
com ela?" 

"Algumas vezes. Por exemplo, uma vez levaram toda a escola a Asti para 
ver as tragdias alferianas: de tarde o teatro era todo nosso, e ns quatro 
conseguimos at um camarote. Voc procurava por ela nos outros camarotes e 
na platia e, enfim, viu que estava num assento extra no fundo da sala, de 
onde no se enxergava nada. No intervalo, deu um jeito de cruzar com ela, 
cumprimentou, perguntou se estava gostando. Ela lamentou-se por no 
conseguir ver nada e voc disse que estvamos em um timo camarote que 
ainda tinha um lugar vazio e convidou-a. Ela veio, seguiu todos os atos debru-
ada no balco e voc ficou num daqueles banquinhos do fundo. O palco voc 
no via, mas pde fitar sua nuca por duas horas. Quase um orgasmo." "E 
depois?" 

"Depois ela agradeceu e foi se juntar s amigas. Voc foi gentil e ela 
agradeceu. Eu disse, elas j eram mulheres, no davam a mnima para ns." 

"Mesmo depois de eu ter sido o heri do espetculo no liceu?" "Ora, voc acha 
que as mulheres se apaixonam por Jerry Lewis? Pensaram que voc era timo 
e pronto." 

 

Bem, Gianni estava contando a histria banal de um amor colegial. Mas foi 
quando continuava a histria que me ajudou a entender algo. Eu vivi o 
primeiro ano do liceu em delrio. Depois vieram as frias, e sofri como um 
animal porque no sabia onde ela estaria. Na volta, no outono, continuaram os 
meus silenciosos ritos de adorao (entrementes, continuava a escrever 
minhas poesias, e dessa vez era eu que sabia de algo que Gianni desconhecia). 
Era como viver a seu lado dia aps dia, e  noite tambm, imagino. 

Mas na metade do segundo ano, Liia Saba desapareceu. Deixou a escola e, 
como soube por Ninetta Foppa, tambm a cidade com toda a famlia. Era uma 
histria obscura, da qual at Ninetta pouco sabia, s algumas maledicncias. O 
pai dela teve problemas, tipo falncia fradulenta. Deixou tudo nas mos de 
advogados e conseguiu trabalho no exterior,  espera de que as coisas se 
arranjassem -e nunca se arranjaram pois eles nunca mais voltaram. 

Ningum sabia onde foram parar, ora falavam da Argentina, ora do Brasil. 
A Amrica do Sul, numa poca em que, para ns, Lugano era a Ultima Thule. 
Gianni bem que tentou: parece que sua melhor amiga era uma certa Sandrina, 
mas essa Sandrina por lealdade no queria falar. Estvamos certos que se 
correspondia com Lila, mas era um tmulo - e depois, por que iria dizer 
alguma coisa justamente a ns? 

Passei um ano e meio, antes dos exames de concluso do liceu, em estado 
de tenso e tristeza, transformado num trapo. S pensava em Lila, e em onde 
estaria. 

Depois, dizia Gianni, parece que esqueci de tudo quando fui para a 
universidade, Entre o primeiro ano e a formatura tive duas namoradas, e 
depois encontrei Paola. Lila ficaria como uma bela recordao da 
adolescncia, como acontece com todo mundo. E no entanto continuei a 
procur-la pelo resto de minha vida. At queria ir  Amrica Latina, 
esperando encontr-la, quem sabe, entre a Terra do Fogo e Pernambuco. Num 
momento de fraqueza confessei a Gianni que, em tantas aventuras, buscava 
em cada mulher o vulto de Lila. Queria v-la ao menos uma vez antes de 
morrer, no me importava como ela estivesse. Estragaria a lembrana, dizia 
Gianni. No me importava, no podia deixar aquela histria inacabada. 

"Passou a vida procurando Lila Saba. Eu achava que era uma desculpa para 
ter outras. No o levava muito a srio. S fui perceber que a coisa era sria em 
abril passado." 

"E o que aconteceu em abril?" 

"Yambo, no gostaria de falar dessa histria, porque j lhe contei e foi 
justamente uns dias antes do acidente. No digo que exista uma relao direta, 
mas pelo menos por esconjuro vamos deixar para l, de todo modo tem pouca 
importncia..." 

"No, agora voc precisa me contar tudo, seno minha presso vai subir. 
Cospe logo esse sapo." 

"Est bem. Fui para as nossas bandas nos primeiros dias de abril do ano 
passado, para levar flores ao cemitrio, como fao de vez em quando, um 
pouco por nostalgia de nossa velha cidade. Depois que a deixamos, 
permaneceu tal como era, de forma que quando volto me sinto jovem. E 
encontrei com Sandrina, ela, como ns, por volta dos sessenta, mas tambm 
no to mudada. Fomos tomar um caf, e relembramos os velhos tempos. 
Conversa vai, conversa vem, perguntei por Lila Saba. Voc no soube, 
disse-me (e como  que podia saber?), no soube que Lila morreu logo depois 
que acabamos o liceu? No me pergunte como e de qu, disse ela, mandei 
algumas cartas para o Brasil que sua me devolveu contando o acontecido. 
Imagine, coitadinha, morrer aos dezoito anos. Isso  tudo. Mas, no fundo, para 
a Sandrina tambm era uma coisa passada e acabada." 

 

Peregrinei durante quarenta anos ao redor de um fantasma. No incio da 
universidade rompi com o passado, entre todas aquela era a nica lembrana 
de que nunca me libertei e, na verdade, girei no vazio ao redor de uma tumba. 
Muito potico. E dilacerante. 

"Mas como era Lila Saba?", perguntei ainda. "Diga ao menos como era." 

"O que posso dizer: era bonita, eu tambm achava e quando dizia isso, 
voc ficava orgulhoso como um marido quando falam da linda mulher que 
tem. Tinha os cabelos louros que desciam quase at a cintuta, um rostinho 
entre anjo e demnio, e quando ria viam-se os dois incisivos superiores..." 

"Deve haver alguma forografia dela, as fotos de turma do liceu!" 

"Yambo, o liceu, nosso liceu daqueles tempos, pegou fogo nos anos 
sessenta, paredes, mveis, registros, tudo. Agora tem um novo, horrvel." 

"As amigas dela, Sandrina, devem ter fotos..." 

"Pode ser, se quiser posso tentar, embora no saiba muito bem como fazer 
para pedir. Alm disso o que pensa fazer? Nem Sandrina sabe dizer, cinqenta 
anos depois, em que cidade vivia, era um nome estranho, no era uma cidade 
famosa como o Rio. Vai molhar o dedo e passar em revista todos os guias 
telefnicos do Brasil para encontrar algum Saba? Talvez encontre mil. E quem 
pode garantir que, fugindo, o pai no tenha mudado de nome? E depois, quem 
voc iria encontrar? Os pais tambm devem ter morrido ou esto caducos, 
certamente j passaram dos noventa. Voc vai dizer desculpem, estava de 
passagem e gostaria de ver uma foto de sua filha Lila?" 

"Por que no?" 

"Deixe disso, por que correr atrs dessas fantasias? Quem morre jaz e quem 
vive lhe d paz. No sabe nem em que cemitrio procurar uma lpide. E 
depois, ela nem se chamava Lila." 

"E como se chamava?" 

"Ah, melhor ter ficado calado. Quem me falou disso foi Sandrina em abril, 
e eu logo lhe contei. A coincidncia me parecia curiosa, mas logo vi que a 
coisa tocou voc mais que o devido. Demais, se me permite, porque  
realmente uma coincidncia e nada mais. Est certo, vou cuspir esse sapo 
tambm. Lila era o diminutivo carinhoso de Sibilla," 

 

Um perfil visto numa revista francesa quando menino, um rosto 
encontrado nas escadarias do liceu quando rapazola e depois outros rostos que 
talvez tivessem algo em comum, Paola, Vanna, a holan-desinha bonita e assim 
por diante, at Sibilla, a viva, que logo vai se casar e que, portanto, irei perder 
tambm. Uma corrida de revezamento atravs dos anos em busca de algo que 
j no existia quando eu ainda escrevia minhas poesias. 

Recitei para mim mesmo: 

 

Estou s, apoiado na nvoa numa 
encruzilhada... e no tenho no 
corao seno a lembrana de ti 
plida, imensa, 

perdida nas frias luzes, distante 
de tudo entre as rvores. 

 

Esta  bonita porque no  das minhas. Lembrana imensa, mas plida. 
Entre todos os tesouros de Solara, faltava apenas uma foto de Lila Saba. Gianni 
recorda seu rosto como se fosse ontem e eu - o nico a ter esse direito - no. 

14.0 HOTEL DAS TRS ROSAS 
 

 

 

Ainda alguma coisa a fazer em Solara? Agora a histria mais importante da 
minha adolescncia est situada alhures, em uma cidade do final dos anos 
quarenta e no Brasil. Aqueles lugares (minha casa de ento, o liceu) no 
existem mais, e talvez tambm j no existam aqueles mais distantes em que 
Lila viveu os ltimos anos de sua breve vida. Os ltimos documentos que 
Solara pde me oferecer foram as minhas poesias, que me permitiram entrever 
Lila sem me oferecer seu rosto. Encontro-me de novo diante de uma barreira 
de nvoa. 

Assim pensava eu esta manh. J me sentia em ritmo de partida, mas 
precisava dar um ltimo adeus ao sto. Estava convencido de que no havia 
mais nada a procurar por l, mas movia-me o desejo impossvel de encontrar 
um ltimo vestgio. 

Voltei a percorrer aqueles espaos agora familiares: aqui os brinquedos, l 
os armrios de livros... Percebi que, enfiada entre os dois armrios, ainda 
havia uma caixa fechada. Eram outros romances, alguns clssicos como 
Conrad ou Zola, e narrativa popular como as aventuras da Prmula Vermelha 
da baronesa Orczy... 

Havia tambm um policial italiano do pr-guerra, O Hotel das Trs 
Rosas de Augusto Maria de Angelis. Mais uma vez o livro parecia contar a 
minha histria: 

Chovia em fios longos, que sob o reflexo dos faris pareciam de 
prata, A nvoa difusa, fumosa, penetrava suas agulhas no rosto. Nas 
caladas escorria ondeando o infinito cortejo dos guarda-chuvas. 
Automveis no meio da rua, alguns coches, os bondes cheios. As seis 
da tarde a escurido era densa naqueles primeiros dias do dezembro 
milans. 

Trs mulheres caminhavam com pressa, aos arrancos, em rajadas, 
parecia, rompendo como podiam as filas de passantes. Estavam todas 
as trs vestidas de negro,  moda de antes da guerra, com 
chapeuzinhos de gaze e perolinhas... 

E eram to parecidas uma com a outra que, sem as fitas de cor dife-
rente - malva, violeta, preto - amarradas num lao sob o queixo, 
qualquer um poderia acreditar numa alucinao, certo de estar vendo 
trs vezes seguidas a mesma pessoa. Subiam a rua Ponte Vetero vindas 
da rua deWOrso e, quando chegaram ao fim da calada iluminada, 
entraram todas as trs, em um pulo, na sombra da praa do Carmine... 

O homem, que as seguia e que hesitara em alcan-las quando 
atravessaram a praa, deteve-se diante da fachada, da igreja, sob a 
chuva... 

Teve um gesto de desagrado. Fitava a portinhola negra... Esperou, 
sempre olhando a portinhola da igreja. De quando em quando, alguma 
sombra negra atravessava a praa e desaparecia atrs dos batentes. A 
nvoa adensava-se. Passou-se uma boa meia hora. O homem parecia 
conformado... Apoiara o guarda-chuva contra a parede para que es-
corresse, e esfregava as mos com um movimento lento, rtmico, que 
acompanhava um monlogo interior... 

Esperou, fitando sempre a portinhola da igreja. De quando em. 
quando, alguma sombra negra atravessava a praa e desaparecia atrs 
dos batentes. A nvoa adensava-se... 

Da praa do Carmine tomou a rua Mercato e depois o Pontaccio e, 
quando se encontrou diante de uma grande porta envidraada que 
dava num vasto hall iluminado, abriu-a e entrou. Nos vidros da. porta 
lia-se em grandes letras: Hotel das Trs Rosas... 

 

Era eu: na nvoa difusa entrevi trs mulheres, Lila, Paola, Sibilla, que 
pareciam indistinguveis, mas dc repente elas desapareceram na sombra. Intil 
procur-las ainda, pois a bruma se adensava. A soluo talvez estivesse em 
outro lugar. Melhor dobrar na rua Pontaccio, entrar no trio iluminado de um 
hotel (mas o trio no se abriria para a cena do crime?). Onde ficar o Hotel 
das Trs Rosas? Para mim, em qualquer lugar. A rose by any other name. 

 

No fundo da caixa havia uma camada de jornais e embaixo deles dois 
tomos mais vetustos, em grande formato. Um deles era uma Bblia com 
gravuras de Dor, mas em to mau estado que s serviria como material para 
banquinhas. O outro tinha uma encadernao que no teria mais de cem anos, 
meio-couro, lombada muda e gasta, pastas em papel de um marmorizado 
descolorido. Apenas aberto revelava-se um volume provavelmente 
setecentista. 

A composio tipogrfica, o texto em duas colunas me puseram em estado 
de alerta e corri imediatamente para o frontispcio: Mr. William 
Shakespeares Comedies, Histories, & Tragedies. Retrato de Shakespeare, 
prnted by Isaac Taggard... 


Mesmo em condies normais de sade, era uma trouvaille de dar 
enfarte. No havia dvida e dessa vez no era uma brincadeira de Sibilla: 
aquele era o in-flio de 1623, completo, com poucas manchas de umidade e 
amplas margens. 

 

Como aquele livro chegara s mos de meu av? Provavelmente 
adquirindo material oitocentista em bloco, da velhota ideal que no regateara 
muito o preo, pois era como se vendesse bugigangas para um ambulante. 

Meu av no era um especialista em livros antigos, mas tambm no era 
ignorante. Seguramente percebeu que se tratava de uma edio de certo valor, 
feliz talvez por possuir a obra completa de Shakespeare, mas sem pensar em 
consultar catlogos de venda em leilo, que no possua. Assim, quando os tios 
jogaram tudo no sto, o in-flio acabou por l tambm e l estava h 
quarenta anos, como estivera antes em algum outro lugar,  espera por mais de 
trs sculos. 

Meu corao batia furiosamente, mas no dei ateno. 

 

Agora estou aqui, no escritrio de meu av, tocando meu tesouro com as 
mos trmulas. Depois de tantos ventos de monotonia, entrara no Hotel das 
Trs Rosas. No  a foto de Lila, mas  um convite a voltar a Milo, ao 
presente. Se aqui est o retrato de Shakespeare, l estar o retrato de Lila. O 
Bardo h de me guiar at minha Dark Lady. 

Com esse in-flio estou vivendo um romance mais excitante que todos os 
mistrios vividos entre os muros de Solara, durante quase trs meses de alta 
presso. A emoo me embaralha as idias, sobem a meu rosto lufadas de 
calor. 

 seguramente o grande golpe da minha vida. 



 

 

15. POR FIM VOLTASTE, AMIGA BRUMA 

 

 Percorro um tnel de paredes fosforescentes. Mergulho em direo a um 
ponto distante, que me parece de um cinza convidativo.  a experincia da 
morte? Ao que se sabe, quem passou por ela e depois voltou conta exatamente 
o contrrio, passa-se por um corredor escuro e vertiginoso que desgua em um 
triunfo de luz ofuscante. O Hotel das Trs Rosas. Portanto ou no estou 
morto, ou eles mentiam. 

Estou quase no fim do tnel, insinuam-se os vapores que se adensam alm. 
Neles me aqueo e quase sem perceber transito num frgil tecido de fumaas 
que flutuam. Esta  a nvoa: no lida, no contada por outros, nvoa 
verdadeira e eu estou dentro dela. Voltei. 

A meu redor, a nvoa se ergue pincelando o mundo de suave in-
consistncia. Se emergissem perfis de casas, veria a nvoa chegar, dissimulada 
a beliscar um teto mordendo-lhe um canto. Mas j engoliu tudo. Mas talvez 
seja nvoa nos campos e montes. No sei se flutuo ou se caminho, mas 
tambm no cho  s nvoa. Tenho a impresso de pisar em neve. Engolfo-me 
na nvoa, encho dela meus pulmes, sopro-a de volta, volteio como um 
golfinho, como sonhava nadar no creme um dia... A nvoa amiga me afronta, 
me rodeia, me recobre, me envolve, me respira, me acaricia as faces e depois 
enfia-se entre o colete e o queixo e me alfineta o colo - e sabe a coisas fortes, 
a neve, a bebida, a tabaco. Sigo como andava sob os prticos de Solara, onde 
nunca se estava a cu aberto, e os prticos etam baixos corno as arcadas de 
uma adega. Et, comme un bon nageur qui se pme dans 1'onde, / tu 
sillonesgaiement Vimmensit profonde I avec une indicible et mle 
volupt. 

 

Algumas silhuetas vm a meu encontro. Surgem inicialmente como 
gigantes de muitos braos. Emanam um tnue calor e  sua passagem a nvoa 
se dissolve, eu os vejo como que iluminar-se  luz enfraquecida de um farol, 
esquivo-me por temor de que se lancem sobre mim, penetro-os como 
acontece com os fantasmas e eles se dissipam.  como estar num trem e 
divisar sinais que se aproximam na escurido e depois v-los engolidos pelo 
escuro, e desaparecer. 

Emerge agora uma figura engraada, um palhao satnico envolvido numa 
malha verde e azulada, que aperta no peito uma forma flcida, como pulmes 
humanos, emitindo labaredas pela boca escancarada. Ataca lambendo-me 
como um lana-chamas e some, deixando um fino rastro de calor que por 
poucos instantes ilumina aquele fumifigium. Um globo gira a meu encontro 
encimado por uma guia imensa e por trs da ave emerge um rosto lvido, 
com cem lpis hirtos sobre a cabea como cabelos arrepiados de medo... Eu os 
conheo, eram meus companheiros quando tinha febre e me sentia imerso na 
massa real, numa purulncia de bolhas amarelas que ferviam a meu redor, 
enquanto eu cozinhava em seu caldo. Agora, como naquelas noites, estou no 
escuro do meu quarto quando de repente abrem-se as portas do velho armrio 
escuro e de l saem vrios tios Gaetano. Tio Gaetano tinha uma cabea 
triangular com o queixo agudo e os cabelos crespos que lhe formavam como 
que duas excrescncias nas tmporas, o rosto tsico, os olhos foscos, um dente 
de ouro no centro da arcada cariada. Como o homem dos lpis. Os tios 
Gaetanos saam primeiro em dupla, depois se multiplicavam e danavam pelo 
meu quarto com gestos de marionete, dobrando os braos de modo 
geomtrico, segurando s vezes uma 
rgua de madeira com dois metros de comprimento fazendo as vezes de 
bengala. Voltava, a cada gripe sazonal, a cada sarampo ou escarlatina, a 
atormentar-me naquelas tardinhas em que a febre sobe, e eu tinha medo. 
Depois desapareciam assim como apareceram -talvez retornassem para o 
armrio e depois, convalescente, eu ia abri-lo, temeroso, para examinar seu 
interior palmo a palmo sem nunca encontrar o tnel oculto de onde surgiam. 

Uma vez curado, encontrava tio Gaetano, raramente, domingo na avenida 
ao meio-dia, ele sorria com seu dente de ouro, acariciava-me o rosto, dizia 
muito bem, muito bem, e ia embora. Era um bom diabo, e nunca entendi por 
que vinha me atormentar quando estava doente, nem ousava perguntar a 
meus pais o que havia de ambguo, de escorregadio, de sutilmente ameaador 
na vida, no prprio ser de tio Gaetano. 

O que disse a Paola quando me impediu de jogar-me embaixo de um 
carro? Que sabia que os automveis atropelam as galinhas, que para desviar 
delas  preciso frear fazendo brotar uma fumaa negra e que depois  preciso 
que dois homenzinhos de jaleco com grandes culos escuros o reanimem com 
a manivela. Na poca no sabia, mas agora sei, que eles apareciam depois de 
tio Gaetano entre as bolhas do delrio. 

Eles esto aqui, encontro-os de improviso na bruma. 

 

Esquivo-me com dificuldade, o automvel  antropomorfica-mente 
horrvel e dele saem homens mascarados que tentam me agarrar pelas 
orelhas. Minhas orelhas agora so longussimas, astronmicamente, flcidas 
e peludas e chegam at a lua. Olhe que se no ficar bonzinho, alm do nariz 
de Pinquio, vo crescer orelhas de Meo! Por que o livro no estava em 
Solara? Eu estava vivendo dentro de As orelhas de Meo. 

Recobrei a memria. Salvo que agora - esmola demais - as lembranas 
volteiam a meu redor como morcegos. 

A febre est descendo depois da ultima cpsula de quinino: meu pai 
senta-se ao lado da cama e l para mim um captulo dos Quatro 
Mosqueteiros. No os trs, os quatro. Uma pardia radiofnica que 
mantinha o pas inteiro colado ao aparelho, pois era ligada a um concurso 
publicitrio: comprava-se o chocolate Perugina, em cada caixa havia 
figurinhas coloridas inspiradas na transmisso, que eram colecionadas 
depois em um lbum, e concorria-se a numerosssimos prmios. 

 

Mas s quem tivesse a sorte de encontrar a figura mais rara, o Feroz 
Saladino, ganhava uma Fiat Balilla, e era o pas inteiro a into-xicar-se de 
chocolate (ou a d-los de presente a todo mundo, parentes, amantes, 
vizinhos, superiores) para conquistar o Feroz Saladino. 

 

Na histria que vamos narrar / teremos chapus emplumados / lu-
vas, espadas, traies e duelos, I belas mulheres e jogos de amor... 
Publicaram at o livro, com muitas argutas ilustraes. Papai lia e eu ador-
mecia vendo as figuras do Cardeal Richelieu cercado de garos ou da Bela 
Sulamita. 

Por que em Solara (quando? ontem? mil anos atts?) havia tantos vestgios 
de meu av e nenhum de meu pai? Porque meu av comerciava livros e 
revistas, e livros e revistas eu podia ler, papel, papel, papel, enquanto meu pai 
trabalhava o dia inteiro e no se metia em poltica, talvez para manter o 
emprego. Enquanto estivemos em Solara, se tudo desse certo, vinha nos 
encontrar no final de semana, no mais ficava na cidade debaixo de 
bombardeios, e s aparecia, vigilante a meu lado, quando eu estava doente. 

 

Bang crack blam clamp splash craclde crackle crunch grunt pwutt roaaar 
rumble blop sbam buizz schranchete slam sprank blomp swoom bum thump 
clang tomp trac uaaaagh vrooom augh zoom... 

Das janelas de Solara, quando bombardeavam a cidade, viam-se os clares 
distantes e ouvia-se como um ribombar de troves. Ns olhvamos o 
espetculo sabendo que talvez naquele momento papai estivesse sendo 
arrastado pelo desabamento de um edifcio, mas s podamos saber a verdade 
no sbado, quando ele deveria voltar. s vezes bombardeavam s teras-feiras. 
Espervamos quatro dias. A guerra nos tornara fatalistas, um bombardeio era 
como um temporal. Ns crianas continuvamos a brincar tranqilamente na 
tera de tarde, quarta, quinta e sexta. Mas estvamos realmente tranqilos? 
No estvamos comeando a ficar marcados pela angstia, pela atnita e 
aliviada aflio que colhe quem passeia vivo em um campo coberto de 
cadveres? 

 

S agora percebo que amava meu pai e revejo seu rosto marcado por uma 
vida de sacrifcios - trabalhou duramente para conquistar o carro no qual 
morreria destroado e talvez o fizesse para sentit-se independente de meu 
av, alegre bon vivant sem preocupaes financeiras, aureolado at de 
herosmo por seu passado poltico e pela vingana contra o Merlo. 

Tenho meu pai junto a mim lendo as aventuras esprias de dAr-tagnan, 
que no volume aparecia de cales  moda zuava, de jogador de golfe. Sinto o 
perfume do seio materno, quando ia deitar na cama e mame, tanto tempo 
depois de ter eu sugado aquele seio, abandonava a Filoteu, cantava em tom 
suave um hino  Virgem que era para mim a ascenso cromtica do Preldio 
de Tristo. 

 

Como  que consigo recordar agora? Onde estou? Passo de panoramas 
nebulosos a imagens vividssimas de ambientes domsticos e vejo um 
soberano silncio. No percebo nada a meu redor, tudo est dentro de mim. 
Tento mover um dedo, a mo, a perna, mas  como se no tivesse corpo. 
Como se flutuasse no nada e planasse em direo a abismos que invocam o 
abismo. 

Terei sido drogado? Mas por quem? Onde estava da ltima vez que 
lembro? Algum que desperta em geral recorda o que fez antes de se deitar, 
at que fechou o livro e colocou na mesinha-de-cabe-ceira. Mas tambm 
acontece de acordarmos num hotel ou mesmo na prpria casa, mas depois de 
uma longa estada fora, procurando a luz  esquerda enquanto ela est  
direita, ou tentando sair da cama pelo lado errado, porque pensamos estar 
ainda em outro lugar. Lembro como se fosse ontem  noite, antes de 
adormecer, de papai que l os Quatro Mosqueteiros, sei que  coisa de pelo 
menos cinqenta anos atrs, mas tenho dificuldades de recordar onde estava 
antes de acordar-me aqui. 

No estava em Solara com o in-flio de Shakespeare nas mos? E depois? 
Amlia colocou LSD na sopa e eu agora flutuo aqui, na nvoa borbulhante de 
figuras que emergem de cada vereda de meu passado. 

 

Que tolice,  to simples... Em Solara tive um segundo incidente, 
pensaram que estivesse morto, sepultaram-me e acordei-me no tmulo. O 
enterrado vivo, situao clssica. Mas nesses casos a pessoa se agita, move os 
membros, bate contra as paredes da caixa de zinco, falta-lhe o ar,  presa de 
pnico. Eu, ao contrtio, no sinto um corpo, estou soberanamente tranqilo. 
Vivo apenas as lembranas que me assaltam, e delas desfruto. No  assim que 
se desperta no tmulo. 

 

Ento estou morto e o alm  esse territrio montono e tranqilo no qual 
por toda a eternidade reviverei minha vida passada, pior para mim se ela foi 
atroz (ser o inferno), do contrrio o paraso. Ora! Imagine que voc nasceu 
corcunda, cego e surdo-mudo ou que as pessoas que amava caram a seu redor 
como moscas, pais, mulher, filho de cinco anos e que o alm no fosse mais 
que a repetio, diferente, mas contnua, dos sofrimentos que viveu? O 
inferno no so les autres mas o rastto de morte que deixamos ao viver? Mas 
nem mesmo o mais maligno dos deuses poderia imaginar tal sotte para ns. A 
no ser que Gragnola tivesse razo. Gragnola? Tenho a impresso de t-lo 
conhecido mas  que as lembranas se empurram,  preciso colocar ordem, 
p-las em fila, seno me perco de novo na nvoa e reaparece o famoso 
fantasma do Thermogne. 

 

Talvez no esteja morto. Do contrrio no experimentaria paixes 
terrenas, amor por meus pais, inquietude pelos bombardeios. Morrer significa 
subtrair-se ao ciclo da vida e s palpitaes do corao. Por infernal que seja o 
inferno, poderia ver de distncias siderais o que fui. O inferno no  perder a 
pele no alcatro fervente. Voc contempla o mal que fez, nunca mais poder 
se libertar, e sabe disso. Mas seria puro esprito. Mas eu no apenas recordo, 
mas participo, pesadelos, afetos e alegrias. No sinto o corpo, mas conservo 
sua memria e sofro como se ainda o tivesse. Como acontece queles a quem 
cortaram uma perna e que ainda a sentem doer. 

 

Recomecemos. Aconteceu um segundo acidente e dessa vez mais forte que 
o primeiro. Excitei-me demais ao pensamento de Lila, primeiro, e diante do 
in-flio depois. A presso deve ter subido a alturas vertiginosas. Entrei em 
coma. 

De fora, Paola, minhas filhas, todos os que me amam (e Grata-rolo que se 
arranca os cabelos por ter permitido que eu partisse quando deveria ter me 
mantido sob controle feroz por seis meses, pelo menos), consideram-me em 
coma profundo. Suas mquinas dizem que meu crebro no d sinais de vida, 
e desesperam-se perguntando se devem desligar os aparelhos ou esperar, 
talvez durante anos. Paola segura minha mo, Carla e Nicolerta colocaram 
alguns discos porque leram que mesmo em coma um som, uma voz, um 
estmulo qualquer podem acord-lo de repente. E poderiam continuar assim 
por anos, enquanto eu continuo ligado a um tubo. Uma pessoa com um 
mnimo de dignidade diria vamos acabar logo com isso, que aquelas 
pobrezinhas sintam-se, por fim, desesperadas, porm livres. Mas eu consigo 
pensar que deveriam desligar os aparelhos, porm no esrou em condies de 
diz-lo. 

E no entanto, em coma profundo, todo mundo sabe, o crebro no d 
sinais de atividade, enquanto eu penso, sinto, rememoro. , mas isso  o que 
contam os de fora. O crebro produz um ence-falograma linear segundo a 
cincia, mas o que sabe a cincia das astcias do corpo? Talvez o crebro se 
mostre linear nas telas deles e eu pense com as vsceras, com a ponta dos ps, 
com os testculos. Eles acreditam que eu no tenho atividade cerebral, mas 
ainda tenho atividade interior. 

No digo que, com o eletroencefalograma linear, a alma, em algum lugar, 
ainda funcione. Digo apenas que as mquinas deles registram as minhas 
atividades cerebrais at certo ponto. Abaixo desse limiar eu ainda penso e eles 
no sabem. Se voltar a despertar e puder cont-lo,  dc ganhar o Nobel de 
neurologia e mandar  falncia todas aquelas mquinas. 

Poder reemergir das nvoas do passado e revelar-me, vivo e potente, a 
quem me amou e a quem me queria morto. "Olhe-me, eu sou Edmond 
Dantes!" Quantas vezes o Conde de Montecristo se 



apresenta a quem o deu por destrudo? A seus benfeitores de outrora,  amada 
Mercedes, queles que decretaram sua runa, "olhe-me, eu voltei, sou Edmond 
Dantes". 

Ou ento poder sair desse silncio, soprar incorpreo pelo quarto do 
hospital, ver os que choram diante de meu corpo imvel. Assistir aos prprios 
funerais e ao mesmo tempo voar, j sem o obstculo da carne. Dois desejos de 
todos, realizados de uma s vez. Em vez disso, sonho aprisionado em minha 
imobilidade... 

 

Na verdade no tenho vinganas s quais aspirar. Se tenho motivos de 
angstia,  porque me sinto bem e no posso diz-lo. Se pudesse mover ao 
menos um dedo, uma plpebra, enviar um sinal, quem sabe em cdigo Morse. 
Mas sou todo pensamentos e nenhuma atividade. Nenhuma sensao. Poderia 
estar aqui h uma semana, h um ms, h um ano e no sinto o corao bater, 
no percebo os estmulos da fome ou da sede, no tenho vontade de dormir 
(no mximo, assusta-me essa viglia contnua), no sei nem se evacuo (talvez 
atravs de tubos que fazem tudo sozinhos), se transpiro, nem sequer se 
respiro. Pelo que sei, fora e ao redor de mim no existe nem ar. Sofro ao 
pensamento do sofrimento de Paola, de Carla e Nicoletta, que pensam que 
estou inutilizado, mas a ltima coisa a fazer  render-me a este sofrimento. 
No posso assumir sobre mim 
a dor do mundo inteiro - concedam-me a ddiva de um feroz egosmo. Vivo 
comigo mesmo e para mim mesmo e sei aquilo que esqueci depois do primeiro 
acidente. Esta por ora, e talvez para sempre,  a minha vida. 

Donde, s me resta esperar. Se me despertam, ser uma surpresa para 
todos. Mas posso nunca mais despertar e devo preparar-me para esse 
rememorar ininterrupto. Ou quem sabe durarei ainda um pouco e depois 
apagarei e portanto  preciso aproveitat esses momentos. 

Se de repente deixasse de pensar, o que aconteceria depois? Recomearia 
uma outra forma de alm semelhante a esse reservadssimo aqum, ou seria a 
escurido e a inconscincia para sempre? 

Seria doido se desperdiasse o tempo que me  concedido co-locando-me 
tal problema. Algum, talvez o acaso, deu-me a oportunidade de recordar 
quem era. Aproveitemos. Se houver alguma coisa de que arrepender-se, farei 
o ato de contrio. Mas, para arrepender-me, devo primeiro lembrar o que fiz. 
Por aquele quinho de canalhice que me cabe, Paola, ou as vivas que iludi, j 
me tero perdoado. E enfim, como se sabe, o inferno, se exisre,  vazio. 

 

Antes de entrar nesse sono, encontrei em Solara a r de lata do sto,  
qual era associado o nome de Angelo Orso e a frase "os caramelos do doutor 
Osimo". Antes eram palavras. Agora vejo. 

O doutot Osimo  o farmacutico da avenida Roma, com a cabea pelada 
como um ovo e os culos azul-celeste. Cada vez que saio com mame para 
fazer compras e entramos na farmcia, o doutor Osimo, mesmo quando ela 
compra apenas um rolo de gaze hidrfila, abre um vidro altssimo cheio de 
bolinhas brancas perfumadas e me d um pacotinho de ctamelos de leite. Sei 
que no devo com-los todos de uma vez e que  preciso faz-los durar pelo 
menos trs ou quatro dias. 

No percebi - tinha menos de quatro anos - que na ltima sada mame 
exibia uma barriga fora do comum, mas certo dia, depois da ltima visita ao 
doutor Osimo, levaram-me para o andar de baixo, deixando-me aos cuidados 
do senhor Piazza. O senhor Piazza vive em um salo que parece uma floresta, 
cheio de animais que parecem vivos, papagaios, raposas, gatos, guias. 
Explicaram-me que em vez de sepult-los, ele os empalha, mas s quando os 
animais morrem por conta prpria. Agora deixaram-me sentado na casa dele, 
que me distrai explicando os nomes e as caractersticas das vrias bestas e 
passo no sei quanto tempo naquela maravilhosa necrpole na qual a morte 
parece gentil, egpcia, e que cheira a perfumes que s respiro ali, imagino que 
eram preparados qumicos, junto com o cheiro das plumagens poeirentas e das 
peles curtidas. A mais bela tarde de minha vida. 

Quando descem para buscar-me, levando-me de volta para casa, noto que 
durante a minha estada no reino dos mortos nasceu-me uma irmzinha. Foi 
trazida pela parteira que a encontrou numa couve. Da irmzinha transparece 
apenas, entre uma brancura de rendas, uma bola de um violceo 
congestionado na qual se abre um buraco negro de onde saem estrilos 
lancinantes. No  que ela esteja mal, dizem: quando uma irmzinha nasce faz 
assim porque  seu modo de dizer que est contente por ter agora uma mame 
e um papai, e um irmozinho. 

Estou agitadssimo e proponho dar-lhe um dos caramelos de leite do 
doutor Osimo, mas explicam-me que uma menina recm-nascida no tem 
dentes e suga apenas o leite da me. Seria bom jogar as bolinhas naquele 
buraco negro. Talvez ganhasse como brinde um peixinho vermelho. 

Corro at o armarinho de brinquedos e pego a r de lata. Claro que  
recm-nascida, mas uma r verde que coaxa quando se aperta sua barriga s 
pode diverti-la. Nada, guardo tambm a r e retiro-me decepcionado. Para 
que serve ento uma irmzinha nova? No seria melhor ficar com os velhos 
pssaros do senhor Piazza? 

 

A r de lata e Angelo Orso. No sto vieram-me  lembrana juntos 
porque Angelo Orso  associado  irmzinha, agora cmplice de minhas 
brincadeiras - e vida de caramelos de leite. 

"Pra com isso, Nuccio, Angelo Orso no agenta mais." Quantas vezes 
pedi a meu primo que parasse com suas torturas. Mas ele era maior que eu, 
tinham-no mandado para o colgio de padres, passava o dia inteiro cerceado 
pelo uniforme e quando voltava para a cidade desforrava-se. No final de uma 
longa batalha entre brinquedos, capturava Angelo Orso amarrando-o ao 
espaldar da cama e submetendo-o a inenarrveis terremotos. 

Angelo Orso, h quanto tempo eu o tinha? A memria de sua chegada 
perde-se l onde, como dizia Gratarolo, ainda no aprendemos a coordenar 
nossas lembranas pessoais. Angelo, amigo de pelcia, amarelento, com braos 
e pernas mveis como as bonecas, de modo que podia ficar sentado, caminhar, 
levantar os braos ao cu. Era grande, imponente, com dois olhos marrons 
brilhantes e vivssimos. Eu e Ada o elegramos rei dos brinquedos, dos sol-
dadinhos, como das bonecas. 

A velhice, consumindo-o, deixara-o ainda mais venervel. Adquirira uma 
claudicante autoridade, que ainda aumentava  medida que, como um heri 
de muitas batalhas, perdia um olho ou um brao. 

Virvamos de cabea para baixo o banquinho, que se transformava num 
navio, um veleiro pirata ou uma embarcao verniana com popa e proa 
quadradas: Angelo Orso sentava-se junto ao timo e diante dele 
embarcavam-se para aventuras distantes os Soldadinhos de Bengodi com o 
Capito La Patata, mais importantes por causa do formato, embora fossem 
mais cmicos que seus camaradas srios, os soldadinhos de argila, ainda mais 
invlidos que Angelo, alguns sem cabea ou sem um membro, de cujas carnes 
de material prensado, quebradio e j desbotado, emergiam pontas de fio de 
ferro, como se fossem vrios Long John Silver. Enquanto aquela embarcao 
gloriosa zarpava do Mar do Quartinho, percorria o Oceano do Corredor e 
aportava no Arquiplago da Cozinha, Angelo imperava entre seus sditos 
liliputianos e tanta desproporo no nos incomodava porque exaltava a sua 
gulliveriana majestade. 

Com o tempo - por causa de seu generoso servio, disposto como era para 
qualquer acrobacia, vrima das frias do primo Nuccio - Angelo Orso perdeu 
o segundo olho, o segundo brao e depois as pernas. Enquanto Ada e eu 
crescamos, de seu torso mutilado comeavam a sair tufos de palha. 
Difundiu-se junto a nossos pais o boato de que aquele corpo despelado 
comeava a atrair insetos, talvez culturas de bacilos e fomos incitados a nos 
livrar dele, sob a ameaa atroz de jog-lo no lixo quando estivssemos na 
escola. 

Em Ada e em mim, o amado plantgrado agora suscitava pena, to frgil, 
incapaz de erguer-se sozinho, exposto quele lento des-ventramento e aquele 
indecoroso defluxo de rgos internos. Aceitamos a idia de que deveria 
morrer - ou melhor, j deveria ser considerado defunto, de modo que era 
preciso dar-lhe uma honrosa sepultura. 

E bem cedo de manh, quando papai acabou de acender a caldeira, o 
termossifo que d vida a todos os radiadores da casa. Formou-se um lento e 
hiertico cortejo. Ao lado da caldeira esto enfileirados todos os soldadinhos 
sobreviventes, sob o comando do Capito La Patata. Todos em filas ordenadas, 
em posio de sentido, rendendo honras militares, como convm aos 
derrotados. Eu precedo trazendo uma almofada sobre a qual estende-se o 
quase extinto e seguem-se todos os membros da famlia, inclusive a diarista, 
unidos na mesma dolente venerao. 

Com compuno ritual estou introduzindo Angelo Orso na goela daquele 
Baal chamejante. Angelo, no mais que um recipiente de palha, extingue-se 
em uma nica chama. 

Cerimnia proftica, pois no muitos meses depois extinguia-se tambm a 
caldeira, que antes alimentava-se de antracito e depois, desaparecido o 
antracito, de vulos de p de carvo. 

Mas o avano da guerra racionou tambm estes ltimos e na cozinha foi 
preciso recuperar uma velha estufa, bem semelhante quelas que usaramos 
depois em Solara, que podia engolir lenha, papel, papelo e certos tijolos de 
matria cor de vinho aglomerada que queimavam mal, mas lentamente e 
tinham uma aparncia de chama. 


A morte de Angelo Orso no me causa dor nem me provoca nenhum 
aperto de nostalgia. Talvez isso tenha acontecido nos anos seguintes, talvez 
aos dezesseis o relembrasse quando me entregava  reconquista do passado 
prximo, mas agora no. Agora no vivo no fluxo do tempo. Estou, feliz de 
mim, em um eterno presente. Angelo est diante de meus olhos, o dia de suas 
exquias como os dias de seu triunfo, posso me deslocar de uma lembrana  
outra e vivo cada uma como um hic et nunc. 

Se essa  a eternidade,  esplndida, por que tive que esperar sessenta anos 
antes de merec-la? 

 

E o rosto de Lila? Deveria v-lo agora, mas  como se as lembranas 
chegassem em mim sozinhas, uma de cada vez, na ordem que escolheram. 
Bastava esperar. No havia outra coisa a fazer. 

Estou sentado em um corredor, ao lado a Telefunken. Transmitem uma 
comdia. Papai a acompanha sempre e estou em seu colo com o polegar na 
boca. No entendo nada daquelas histrias, tragdias familiares, adultrios, 
redenes, mas aquelas vozes distantes me induzem ao sono. Vou dormir 
pedindo que deixem aberta a porta 
de meu quarto, de modo que possa ver a luz do corredor. Tornei-me 
espertssimo com pouqussima idade e intu que na noite da Epifania, os 
presentes dos Reis Magos eram comprados por meus pais. Ada no acredita, 
no posso tirar as iluses de uma menina pequena, e na noite de 5 de janeiro 
esforo-me desesperadamente para ficar acordado e ouvir o que acontece por 
l. Ouo que esto arrumando os presentes. Na manh seguinte fingirei alegria 
e espanto com o milagre, porque sou interesseiro e no quero que esse jogo se 
interrompa. 

Sei de muita coisa, eu. Intu que os bebs nascem da barriga de mame, 
mas no digo nada. Mame fala com as amigas sobre coisas de mulher (aquela 
est em estado, hum, interessante; tenho aderncias, hum, nos ovrios), uma 
delas faz sinal para que se cale avisando que tem criana por ali e mame diz 
que no tem importncia, que nessa idade somos todos uns paspalhos. Eu 
espio atrs da porta e penetro nos segredos da vida. 

Da portinhola circular da mesa-de-cabeceira de mame surrupiei um livro, 
No  verdade que seja a morte, de Giovanni Mosca, uma elegia elegante e 
irnica sobre as belezas da vida cemiterial e sobre o deleite de jazer sob uma 
acolhedora cobertura de terra. Gosto desse convite ao falecimento, talvez seja 
meu primeiro encontro com a morte, antes dos troncos verdes do herico 
Valente, Mas certa manha, captulo cinco, a doce Maria que, depois de um 
momento de fraqueza, foi acolhida pelo coveiro, sente no ventre um bater de 
asas. At ento o autor fora pudico, aludira apenas a um amor infeliz e a uma 
criatura que viria. Mas agora permitia-se uma descrio realista que me 
aterrorizava: "O ventre, desde aquela manh, animou-se em voltas e frmitos 
como uma gaiola cheia de pssaros... O beb se movia." 

E a primeira vez que leio, em tons insuportavelmente realistas, sobre uma 
gravidez. No me espanto com o que aprendo, que s confirma o que 
compreendi sozinho. Mas o pensamento de que algum me surpreenda 
enquanro leio, e perceba que percebi, me assusta. Sinto-me pecador porque 
violei uma interdio. Recoloco o livro na mesinha tentando apagar qualquer 
trao de minha intruso. Conheo um segredo, mas me parece culposo 
conhec-lo. 

Isso acontece muito antes de ter beijado o rosto da bela diva da Novella, 
tem a ver com a revelao do nascimento, no com a do sexo. Como certos 
primitivos que, dizem, nunca conseguiram estabelecer uma relao direta 
entre o ato sexual e o nascimento (no fundo, nove meses so um sculo, dizia 
Paola), eu tambm segui adiante um bom tempo sem entender o lao 
misterioso entre o sexo, coisa de adulto, e os bebs. 

Meus pais tambm no se preocupam com o fato de que possa estat 
experimentando sensaes perturbadoras. Nota-se que a gerao deles deve 
t-las experimentado mais tarde ou que se esqueceram de sua infncia. Eu e 
Ada seguimos pela mo de nossos pais, encontramos um conhecido, papai diz 
que vamos ver La citt d oro, ele sorri com malcia olhando para ns, 
crianas, e sussurra que o filme " um pouco ousado". Papai responde 
despreocupado: "Bem, quer dizer que vamos ter que segur-lo pelo casaco." E 
eu com o corao na garganta seguindo os amplexos de Christina Son-
derbaum. 

No corredor de Solara, pensando na expresso "s raas e povos da terra", 
veio-me  mente uma vulva peluda. De fato, eis-me aqui, com alguns amigos, 
no escritrio do pai de um deles onde esto os volumes de Raas e povos da 
terra, de Biasutti. Folheia-se rapidamente para chegar  pgina onde aparece 
a foto de uma mulhei calmuca, a poil, e o tgo sexual est  mostra, a bem 
da verdade, seus plos. Calmucas, mulheres que fazem o prprio comrcio de 
si. 

 

Estou de novo na nvoa, que reina absoluta sobte a escurido do blecaute 
enquanto a cidade se esfora para desaparecer de sob os olhos celestes dos 
avies inimigos e, pelo menos dos meus, que a olham da terra, ela desaparece. 
Sigo naquela nvoa, como na figura do primeiro livro de leitura, segurando a 
mo de papai, com o mesmo chapu Borsalino do senhor do livro, porm um 
sobretudo menos elegante, mais gasto e de mangas raglan - e mais esdrxulo 
ainda  o meu, com a marca da casa do boto  direita, sinal de que foi 
reformado de um velho sobretudo paterno. Na mo direita papai segura, no 
uma bengala de passeio, mas uma lanterna eltrica, porm no daquelas de 
bateria: recarrega-se por atrito, como o farol da bicicleta, apertando-se com 
quatro dedos uma espcie de boto. Produz um leve ronronar e ilumina a 
calada apenas o suficiente para que se possa ver uma escada, uma esquina, o 
abrir-se de uma encruzilhada, depois os dedos abandonam a presa e a luz 
desaparece. Caminha-se mais alguns passos com base no pouco que se viu, 
como num vo cego, depois reacende-se por mais um instante. 

Na nvoa cruzamos com outras sombras, por vezes murmura-se um 
cumprimento ou uma palavra de desculpas, e me parece justo sussurrar 
embora, pensando bem, os bombardeios possam ver a luz, mas no ouvir os 
sons e, portanto, poderamos caminhar naquela nvoa cantando a plenos 
pulmes. Mas ningum o faz, pois  como se nosso silncio encorajasse a 
nvoa a proteger nossos passos, a nos tornar invisveis, ns e as ruas. 

 Serve para alguma coisa um blecaute to feroz? Talvez apenas para nos 
tranqilizar, mesmo porque, quando resolveram bombardear, vieram de dia. 
No meio da noite soaram as sirenes. Mame, chorando, nos acorda - no chora 
de medo das bombas, mas por nosso sono arruinado -, nos enfia um casaco 
em cima do pijama e descemos para o abrigo. No o de nossa casa, que  
apenas um poro reforado com traves e sacos de areia, mas o do edifcio em 
frente, construdo em trinta e nove, j prevendo o conflito. No se chega at l 
atravessando os ptios internos, separados por muros, mas fazendo-se a volta 
do quarteiro, correndo, confiando no fato de que as sirenes tenham soado 
quando os avies ainda estavam bastante distantes. 

O abrigo antiareo  bonito, com aquelas suas paredes de cimento sulcado 
por uns poucos fios d'gua, as luzes plidas, mas quentes, todos os grandes 
sentados em bancos a tagarelar e ns, os pequenos, correndo no meio. Os tiros 
da bateria antiarea chegam abafados, estamos todos convencidos de que, se 
uma bomba cair no edifcio, o abrigo resistir. No  verdade, mas ajuda. Com 
ar de entendido, o chefe do abrigo, que  meu professor do primrio, professor 
Mo-naldi, faz a ronda, humilhado por no ter conseguido envergar o 
uniforme de centurio da Milcia, com os gales de esquadrista. Na poca 
algum que tivesse participado da Marcha sobre Roma era como um 
sobrevivente das grandes batalhas napolenicas - e somente depois de 18 de 
setembro de quarenta e trs, meu av me explicou que tudo no passou de um 
passeio de ladres de galinha, armados de bengalas de passeio e que, se o rei 
tivesse dado ordem, algumas companhias de infantaria dariam cabo deles no 
meio do caminho. Mas o rei era o Gambito P Veloz e carregava a traio no 
sangue. 

Em suma, o professor Monaldi passeia entre os inquilinos, 
tran-qilizando-os, preocupa-se com as senhoras grvidas, explica que so 
pequenos sacrifcios a suportar pela vitria final. Soa a sirene de fim do alerta, 
as famlias enxameiam na rua. Um senhor, que ningum conhecia e que se 
refugiara entre ns por ter sido surpreendido pelo alarme quando estava na 
rua, acende um cigarro. O professor Monaldi o agarra pelo brao perguntando 
sarcstico se sabe que estamos em guerra e sob blecaute. 

"Mesmo que l em cima ainda houvesse algum bombardeiro, no poderia 
ver a luz de um fsforo", diz o homem e comea a fumar. 

"Ah, ento o senhor sabe?" 

"Claro que sei. Sou capito e piloto bombardeiros. O senhor j 
bombardeou Malta alguma vez?" 

Um verdadeiro heri. Fuga do professor Monaldi, espumando de raiva, 
comentrios divertidos dos inquilinos, eu sempre disse que era um balo 
inflado, os que mandam so todos assim. 

O professor Monaldi e suas redaes hericas. Vejo-me de noite com papai 
e mame em cima de mim. Na aula do dia seguinte teremos a redao para 
participar dos Jogos Agonais da Cultura. "Qualquer que seja o tema", diz 
mame, "ser sobre o Duce e a guerra. Trate de preparar umas belas frases que 
faam efeito. Por exemplo, fiis e incorruptveis guardies da Itlia e de sua 
civilizao  uma frase que sempre cai bem, no importa qual seja o assunto." 

"E se a redao for sobre a batalha do trigo?" 

"D-se um jeito de enfi-la assim mesmo, um pouco de imaginao!" 

"Lembre que os soldados regam com seu sangue as areias ardentes da 
Marmrica", sugere papai. "E no esquea de que nossa civilizao  nova, 
herica e santa. Sempre faz um bom efeito. Mesmo que seja a batalha do 
trigo." 

Querem um filho que ganhe boas notas. Aspirao justa. Quem ganha uma 
boa nota porque conhece o postulado das paralelas, estudou o livro de 
geometria, quem precisa falar dos Balila, sabe de cor o que deve pensar um 
Balilla. O problema no  ser justo ou no. No fundo, meus pais o sabiam, 
mas at o quinto postulado de Euclides vale apenas para superfcies planas, to 
idealmente planas que na realidade no existem. O regime era a superfcie 
plana  qual todos estavam agora adaptados. Ignorando os vrtices curvilneos 
nos quais as paralelas confluem ou divergem sem esperana. 

 

Revejo uma cena rpida que deve ter acontecido alguns anos antes. 
Pergunto: 

"Mame, o que  revoluo?" 

" uma coisa em que os operrios vo para o governo e cortam a cabea de 
todos os funcionrios como seu pai." 

 

Mas foi justamente dois dias depois da redao que aconteceu o episdio 
de Bruno. Bruno, com dois olhos de gato, dentes pontudos e a cabea 
cinza-rato em que apareciam peladas brancas, como de alopecia ou impetigo. 
Eram cicatrizes de crostas. As crianas pobres sempre tinham crostas na 
cabea, seja porque viviam em am- 

 

bientes pouco limpos, seja por avitaminose. No curso primrio, eu e De Caroli 
ramos os ricos da turma, era o que se pensava ento; de fato, nossas famlias 
pertenciam  mesma classe social do professor, eu porque meu pai era 
funcionrio e andava de gravata e minha me de chapeuzinho (e portanto no 
era uma mulher, mas uma senhora), e De Caroli porque seu pai tinha um 
pequeno negcio de tecidos. Todos os outros eram de classes mais baixas, 
ainda falavam dialeto com os pais e portanto cometiam erros de ortografia e 
gramtica, e o mais pobre de todos era Bruno. Bruno usava um aventalzinho 
preto rasgado, no tinha colete branco, ou quando tinha era sujo e gorduroso, 
e naturalmente no tinha o lao azul como os meninos de bem. Tinha crostas, 
logo era raspado a zero, nico tratamento que sua famlia conhecia, tambm 
contra os piolhos, com as peladas brancas das crostas j curadas  mostra. 
Estigmas de inferioridade. O professor era, somando-se tudo, um bom 
homem, mas, como antigo esquadrista, sentia-se obrigado a nos educar de 
modo viril, e distribua potentes safanes. Mas nunca em mim ou em De 
Caroli, pois sabia que contaramos a nossos pais, que eram seus pares. Como 
morava no mesmo quarteiro que eu, ofereceu-se para acompanhar-me at 
em casa todo dia na sada da escola, junto com seu filho, para que meu pai no 
tivesse o incmodo de vir me buscar. E porque minha me era prima de uma 
cunhada da diretora da escola e a gente nunca sabe. 

Com Bruno, entretanto, os safanes eram cotidianos, pois era vivo, donde 
de mau comportamento, e se apresentava em sala de aula com o avental todo 
sujo. Bruno era sempre mandado para trs do quadro, e era o pelourinho. 

Um dia Bruno chegou  escola depois de uma ausncia injustificada, e o 
professor j estava enrolando as mangas quando Bruno comeou a chorar e 
entre soluos deixou entender que seu pai morrera. O professor comoveu-se, 
pois at os esquadristas tm um corao. Naturalmente, entendia a justia 
social como caridade e pediu a todos ns que fizssemos uma coleta. Os nossos 
pais tambm deviam ter um corao, pois no dia seguinte todos voltaram com 
algumas moedas, uma roupa velha, um potinho de gelia, um quilo de po. 
Bruno teve seu momento de solidariedade. 

Mas na mesma manh, durante a marcha no ptio, ps-se a andar de 
quatro e todos pensaram que era realmente mau por fazer aquilo depois de seu 
pai ter morrido. O professor gritou que lhe faltava o mais elementar sentido 
de gratido. rfo h dois dias, logo depois de ser agraciado pelos colegas e j 
votado ao crime: vindo da famlia que vinha, no poderia mais ser redimido. 

Deuteragonista daquele pequeno drama, tive um momento de dvida. J 
me acontecera antes, na manh seguinte  redao, despertando inquieto e 
perguntando-me se realmente amava o Duce ou se era um menino hipcrita 
que apenas escrevia aquelas coisas. Diante de Bruno que andava de quatro 
compreendi que aquilo era um estremecimento de dignidade, um modo de 
reagir  humilhao que nossa generosidade pegajosa lhe infligira. 

Entendi melhor uns dias depois, numa daquelas reunies do sbado 
fascista em que ficvamos enfileirados, todos de farda, a nossa brilhante, a de 
Bruno parecendo um avental domingueiro, com o leno azul mal amarrado, e 
devamos recitar o Juramento. O centu-rio dizia: "Em nome de Deus e da 
Itlia, juro executar as ordens do Duce e servir com todas as minhas foras e, 
se necessrio, com meu sangue, a causa da Revoluo Fascista. Vocs juram?" 
E todos deviam responder: "Eu juro!" Enquanto todos gritavam 'eu juro', 
Bruno - que estava a meu lado e pude ouvir muito bem - gritou "Arturo!". 
Rebelava-se. Foi a primeira vez que assisti a um ato de revolta. 

Rebelava-se por iniciativa prpria ou porque o pai era bbado e socialista, 
como o menino da Itlia no mundo? Mas agora entendo que Bruno foi o 
primeiro a me ensinar como reagir  retrica que nos sufocava. 

Entre a redao dos dez anos e a crnica dos onze, no final da quinta srie, 
fui transformado pela lio de Bruno. Anrquico revolucionrio, ele, apenas 
ctico, eu, o seu Arturo transformou-se no meu copo inquebrvel. 

 

 claro que agora, no silncio do coma, compreendo melhor o que me 
aconteceu. Seria essa a iluminao que outros sentem quando o homem v 
chegar a sua hora, e naquele momento, como Martin Eden, compreende tudo, 
mas assim que sabe deixa de sab-lo? Eu, que ainda no cheguei na minha 
hora, tenho um ponto de vantagem sobre quem morre. Entendo, sei e at 
lembro (agora) que sei. Seria um privilegiado? 



 

 

16.SOPRA O VENTO 

 


 

Gostaria de lembrar de Lila... Como era Lila? Emergem da fuligem desse 
semi-sono outras imagens, e no  ela... 

 

E no entanto uma pessoa em condies normais deveria poder dizer quero 
lembrar das minhas frias no ano passado. Se guardou alguns vestgios, 
relembra. Eu no posso. Minha memria caminha por meio de progltides, 
como as solitrias, mas ao contrrio do verme no tem cabea, gira 
labirinricamente, qualquer ponto pode ser o comeo ou o fim da viagem. 
Tenho de esperar que as lembranas venham sozinhas, seguindo uma lgica 
sua. Assim se caminha na nvoa. Ao sol, voc v as coisas de longe e pode 
mudar de direo justamente para encontrar alguma coisa precisa. Na nvoa 
algo ou algum vem a seu encontro, mas voc no sabe o que ou quem  at 
que chegue perto. 

Talvez seja normal, no se pode ter tudo em um nico momento, fieiras de 
lembranas. O que Paola dizia mesmo do mgico nmero sete, do qual falam 
os psiclogos? De um grupo, recorda-se facilmente at sete elementos, depois 
no se consegue mais, E nem sete. Quem so os sete anes? Atchim, Dengoso, 
Soneca, Zangado, Dun-ga, Mestre... E ento? Falta sempre o stimo ano. E os 
sete reis de Roma? Rmulo, Numa Pomplio, Tlio Ostlio, Srvio Tlio, 
Tarquinio Prisco, Tarquinio, o Soberbo... E o stimo? Ah, Feliz. 

Acho que minha primeira recordao  um boneco vestido de tambor-mor 
da banda militar, de uniforme branco com um quepe, e que carregado com 
uma chavinha batia o seu ra-ta-plan.  isso mesmo ou assim aprendi a v-o 
no curso dos anos, usufruindo das recordaes de meus pais? No ser, quem 
sabe, a cena dos figos, eu ao p de uma rvore e um campons que se chamava 
Quirino subindo por uma escada para colher para mim o melhor figo - s 
que no sabia ainda pronunciar a palavra figo e dizia sigo? 

A ltima recordao: em Solara, diante do in-flio. Tero percebido, Paola 
e os outros, o que eu tinha nas mos quando adormeci de repente? Precisam 
entreg-lo a Sibilla, e logo, se eu ficar assim durante anos no conseguiro 
pagar as despesas, tero que vender o estdio, depois Solara e depois talvez 
ainda no seja suficiente, mas com o in-flio podem me pagar uma internao 
eterna, com dez enfermeiros, e bastaria que viessem me ver uma vez por ms 
e poderiam tocar suas vidas. 

 

Outra figura vem a meu encontro, rindo zombeteira, exibin-do-se em um 
gesto obsceno. E como se, vindo para cima de mim, me envolvesse em si e se 
dissolvesse na cerrao. 

 

Passa a meu lado o tambor-mor, de quepe. Eu me refugio nos braos de 
meu av. Sinto o cheiro do cachimbo quando encosto a face contra seu colete. 
Meu av fumava cachimbo e cheirava a tabaco. Por que no vi seu cachimbo 
em Solara? Foi jogado fora pelos malditos tios, no lhes parecia importante, 
com seu bocal comido pelo fogo de muitos fsforos, rua com as caneras, o 
papel absorvente, que sei eu, um par de culos e uma meia furada, a ltima 
caixa de tabaco pela metade. 

 

A nvoa est se dissipando. Lembro-me de Bruno que caminha de quatro, 
mas no me lembro do nascimento de Catla, do dia da minha formatura, do 
primeiro encontro com Paola. Antes no lembrava mais nada, agora lembro 
tudo dos primeiros anos de minha vida, mas no lembro quando foi que 
Sibilla entrou pela primeira vez no meu estdio procurando trabalho - ou 
quando escrevi minha ltima poesia. No consigo lembrar do rosto de Lila 
Saba. Record-lo valeria todo esse sono. No lembro do rosto de Lila, que 
busquei em toda parte durante a minha vida adulta, porque no lembro ainda 
da minha vida adulta, nem daquilo que, ao entrar na vida adulta, quis 
esquecei. 

Devo esperar ou preparar-me para circular eternamente entre as veredas 
dos meus primeiros dezesseis anos. Poderia bastar: se revivesse cada 
momento, cada evento, ficaria nesse estado por mais dezesseis anos. Suficiente 
para mim, chegaria a mais de setenta e seis, um perodo de vida razovel... E 
Paola a se perguntar se deve desligar os aparelhos. 

Mas a telepatia no existe? Poderia me concentrar em Paola e pensar 
intensamente em enviar-lhe uma mensagem. Ou tentar com a mente fresca e 
desanuviada de uma criana. "Mensagem para Sandro, mensagem para Sandro, 
aqui guia Cinzenta do Fernet Branca, aqui guia Cinzenta, responda. 
Cmbio..." Se ele me transmitisse: "Roger, guia Cinzenta, estou ouvindo alto 
e claro..." 

 

Na cidade me aborreo. Ns somos quatro brincando de calas curtas na 
rua diante de casa, onde s passa um automvel por hora, e devagar. 
Permitem que brinquemos l embaixo. Jogamos bolinha de gude, brinquedo 
pobre, bom tambm para quem no tem outros brinquedos. Algumas so de 
cermica, amarronzadas, outras de vidro com arabescos coloridos que se vem 
em transparncia, outras ainda de um branco leite veiado de vermelho. 
Primeira modalidade, a brica: do centro da rua jogam-se bolinhas de gude 
com um golpe preciso do indicador que desliza sobre o polegar (mas os 
melhores deslizam o polegar sobre o indicador), em um buraco escavado perto 
da calada. Tem quem jogue a bolinha na brica na primeira tentativa, mas, 
do contrrio, procede-se em turnos. Segunda modalidade, palmo menor, que 
em Solara chamamos de cicca spanna. Como na bocha, trata-se de chegar 
mais perto do bolim, porm no mais que um palmo medido com apenas 
quatro dedos. 

Admirao por quem  capaz de lanar um pio. No o pio dos meninos 
ricos, de metal e listras de vrias cores, com a haste de ponta arredondada, que 
se aperta vrias vezes para recarreg-lo, depois  s largar e ele roda 
desenhando vrtices multicoloridos, mas o pio de madeira, a pirla ou 
mongia, uma espcie de cone abaulado, uma pra barriguda que termina 
num prego, o corpo marcado por uma srie de incises em espiral. Enrola-se 
nele um barbante que penetra nas incises e depois, segurando a ponta livre, 
joga-se desenrolando o barbante e a mongia roda. Nem todos sabem fazer, eu 
no consigo porque fiquei viciado nos pies mais caros e mais fceis - e os 
outros riem de mim. 

Naquele dia no conseguimos jogar porque na calada esto uns senhores, 
de terno e gravara, que arrancam o mato com um sacho. Trabalham com 
pouco entusiasmo, lentamente, e um deles logo comea a falar conosco, 
informando-se sobre as vrias modalidades do gude. Conta que, quando era 
pequeno, jogava crculo: desenha-se um crculo na calada com giz, ou na 
terra com uma vareta, colocam-se as bolinhas dentro e depois, com uma bola 
maior,  preciso tirar as bolinhas do crculo, vencendo quem tirar o maior 
nmero. "Conheo seus pais", disse-me, "diga-lhes que o senhor Ferrara, da 
loja de chapus, manda seus cumprimentos." 

 

Relatei a histria em casa. "So os judeus", disse mame, "so obrigados a 
fazer esses trabalhos." Papai levantou os olhos para o cu e disse: aah! Mais 
tarde fui  loja de meu av e perguntei por que os judeus faziam aqueles 
trabalhos. Disse-me para trat-los com educao quando os encontrasse, pois 
era gente boa, mas que por enquanto no ia me explicar essa histria pois eu 
era muito pequeno. "Fique calado e no fale disso por a, sobretudo com o 
professor." Um dia ele me contaria tudo. S'as gira. 

Na poca, s me perguntei como  que podia os judeus venderem chapus. 
Os chapus que via nos cartazes colados nas paredes ou nas publicidades das 
revistas eram senhoris e elegantes. 

Ainda no tinha razes para preocupar-me com os judeus. S mais tatde, 
em Solara, meu av mostrou-me um jornal de 1938 que anunciava as leis 
raciais, mas em trinta e oito eu tinha seis anos e no lia jornais. 



Depois, certo dia, o senhor Ferrara e os outros no foram mais vistos 
limpando as caladas. Pensei ento que ao fim de uma pequena penitncia, 
permitiram que voltasse para casa. Mas depois da guerra ouvi algum dizer a 
mame que o senhor Ferrara morrera na Alemanha. Depois da guerra eu j 
sabia de muita coisa, no apenas como nascem os bebs (inclusive os atos 
preparatrios nove meses antes), mas tambm como morrem os judeus. 

 

Minha vida mudou com a mudana para Solara. Na cidade era um menino 
melanclico que brincava com os colegas de escola durante algumas horas por 
dia. Passava o resto do tempo enrodilhado com um livro ou andando de 
bicicleta. Os nicos momentos encantados eram os que passava na loja de meu 
av: ele conversava com alguns clientes e eu mexia e remexia, deslumbrado 
por contnuas revelaes. Mas minha solido aumentava e eu vivia sozinho 
com minhas fantasias. 

Em Solara, de onde j descia sozinho para a escola na cidadezinha e corria 
por campos e vinhas, eu era livre, um territrio inexplorado abria-se diante de 
mim. E tinha muitos amigos com os quais perambulava por toda parte. Nosso 
pensamento dominante era construir uma cabana. 

 

Revejo agora toda a vida no Oratrio* como um filme. Nada mais de 
progltides, mas uma seqncia seguida... 

Uma cabana no devia ser uma espcie de casa, com teto, pate-des e porta. 
Era, em geral, uma toca, uma fenda sobre a qual se instalava uma cobertura de 
ramos e folhas, de modo que ficasse aberta apenas uma fresta dominando o 
vale ou pelo menos uma esplanada. Apontvamos bastes e metralhvamos. 
Como em Dja-rabub, l s podiam nos pegar pela fome. 

Comecei a freqentar o Oratrio porque no fundo do campo de futebol, 
num montinho acima do muro que servia de cerca, descobrimos um lugar 
ideal para a cabana. Era possvel metralhar todos os vinte e dois jogadores da 
partida dominical. No Oratrio se ficava bastante livre, ramos reunidos 
somente por volta das seis horas para uma aula de catecismo e para a bno, 
no resto do tempo fazamos o que bem entendamos. Havia um carrossel 
rudimentar, alguns balanos, um teatrinho no qual galguei pela primeira vez 
os palcos, em O pequeno parisiense. L adquiri aquele domnio da ribalta 
que, anos depois, me tornou memorvel aos olhos de Lila. 

Vinham tambm meninos maiores e at mesmo uns rapazolas - para ns 
velhssimos - que jogavam pingue-pongue ou baralho, mas no a dinheiro. 
Aquele bom homem do dom Cognasso, diretor do Orattio, no lhes pedia 
nenhuma profisso de f, bastava que fossem para l em vez de ir em 

* Nas igrejas paroquiais italianas, prdio destinado a atividades recreativas para os jovens. (N. da T.) 


caravana, de bicicleta, para a cidade, correndo o risco at de um bombardeio, 
para tentar um assalto  Casa Vermelha, o bordel, famoso em toda a provncia. 

 

Depois de 8 de setembro, foi no Oratrio que ouvi faiar pela primeira vez 
nos partigiani. Primeiro eram apenas rapazes rentando escapar do novo 
recrutamento da Repblica Social ou das levas dos germnicos, que os 
enviavam para trabalhar na Alemanha. Em seguida, comearam a cham-los 
de rebeldes, pois eram nomeados assim pelos comunicados oficiais. Foi s 
depois de alguns meses, quando soubemos que dez deles foram fuzilados - e 
um era de Solara - e quando ouvimos na Rdio Londres as mensagens 
especiais que lhes eram enviadas,  que comeamos a cham-los de 
partigiani, ou patriotas, como eles preferiam. Na cidadezinha torcia-se por 
eles, pois eram todos rapazes daquelas bandas e quando apareciam, embora 
agora tivessem apelidos, Riccio, Saetta, Barbabl ou Ferruccio, ainda lhes 
davam os nomes pelos quais eram conhecidos antes. Muitos deles eram jovens 
que eu j vira no Oratrio, jogando escopa metidos em jaquetinhas exguas e 
esdrxulas, e que agora reapareciam com bon, cartucheira a tiracolo, 
metralha, cinturo com duas bombas de mo penduradas, alguns at com a 
pistola enfiada no coldre. Usavam camisas vermelhas ou casacos do exrcito 
ingls, ou calas e perneiras do exrcito real. Belssimos. 

Desde quarenta e quatro apareciam em Solara, em rpidas incurses nos 
momentos em que as Brigadas Negras no estavam. s vezes vinham os 
badoglistas, com seus lenos azuis, dizia-se que eram partidrios do rei e 
partiam para o ataque gritando Savia. s vezes eram os garibaldinos, com 
lenos vermelhos, que cantavam canes contra o rei e contra Badoglio, e 
soprei o vento, ruge a procela, ! sapatos rotos, mas h que seguir, Ipra 
conquistar a rubra primavera, I onde nasce o sol do porvir. Os 
badoglistas eram mais bem armados, dizia-se que os ingleses s ajudavam a 
eles, pois os outros eram todos comunistas. Os garibaldinos tinham 
metralhadoras de uso das Brigadas Negras, capturadas em algum confronto ou 
em alguma incurso contra um depsito de armas, os badoglistas exibiam Sten 
ingleses de ltimo tipo. 

O Sten era mais leve que a metralhadora, tinha a coronha vazia como se 
fosse um molde de arame e o carregador despontava no embaixo, mas do 
lado. Certa vez permitiram que eu disparasse um tiro. Em gerai, atiravam para 
fazer exerccio e para se mostrar diante das moas. 

Uma vez vieram os fascistas da San Marco, cantavam San Marco! San 
Marco! I o que importa se morrermos. 

As pessoas diziam que eram bons rapazes de boas famlias que tinham, 
talvez, feito a escolha errada, mas se comportavam bem com a populao e 
faziam a corte s mulheres com educao. 

Os das Brigadas Negras, ao contrrio, foram libertados de prises e 
reformatrios (havia alguns de dezesseis anos) e s o que queriam era meter 
medo em todos. Mas eram tempos duros e devamos desconfiar mesmo dos 
rapazes da San Marco. 

 

Estou indo  missa na cidade com mame e com ela est a senhora do 
casaro a alguns quilmetros de nossa casa. Tem sempre a lngua envenenada 
contra seu meeiro, que rouba na prestao de contas. E como o meeiro  um 
vermelho, ela virou fascista, pelo menos no sentido em que os fascistas so 
contra os vermelhos. Samos da igreja e dois oficiais da San Marco ficaram 
olhando as senhoras, que j no eram to jovens, mas ainda faziam boa figura 
- e depois, como todos sabem, os exrcitos beliscam onde podem. 
Aproximam-se com o pretexto de pedir uma informao, pois no so de l. 
As duas senhoras comportam-se com gentileza (afinal, so dois belos rapages) 
e perguntam como se sentem to longe de casa. "Lutamos para devolver a esse 
pais a sua honra, minhas senhoras, a honra que alguns traidores macularam", 
responde um deles. E a vizinha comenta: "Muito bem, justo, no como aquele 
senhor que eu disse." 

Um dos dois d um sorriso esttanho e diz: "Agradeceramos se nos dessem 
o nome e o endereo desse senhor." 

Mame fica plida, em seguida vermelha, mas se sai bem: "Oh, tenente, o 
senhor sabe, minha amiga est falando de um sujeito de Asti que apareceu por 
aqui nos ltimos anos, sabe-se l onde estar agora, dizem que foi mandado 
para a Alemanha." 

"Muito bem-feito", sorri o tenente e no insiste. Cumprimentos recprocos. 
Ao longo do caminho de volta, mame diz entre dentes  desmiolada que nos 
tempos que correm  preciso estar atenta ao que se diz, pois um nada pode 
levar uma pessoa ao paredo. 

 

Gragnola. Freqentava o Oratrio. Ele insistia que se pronunciava 
Grgnola, mas os outros o chamavam de Gragnola, aludindo a uma saraivada 
de tiros. Ele replicava que era um homem de paz e os amigos respondiam: 
"Olhe que sabemos muito bem..." Sussurrava-se que mantinha contato com as 
brigadas garibaldinas nas montanhas - era, alis, um grande chefe, diziam 
alguns, e arriscava-se mais vivendo na cidade que nos maquis, porque se um 
dia o descobrissem seria fuzilado num piscar de olhos. 

Gragnola atuara comigo no Pequeno parisiense e depois tomara-se de 
afeio por mim. Quis me ensinar a jogar trs-sete. Creio que no se sentia 
bem com os adultos e passava longas horas tagarelando comigo. Talvez fosse a 
sua vocao pedaggica, era professor, antes. Ou talvez percebesse que dizia 
tanta barbaridade que se contasse por a o chamariam de anticristo, e por isso 
s confiava num menino. 

Mostrava-me os jornais clandestinos que circulavam s escondidas. No os 
deixava comigo porque, garantia ele, se algum  preso com eles,  fuzilado. 
Foi assim que fiquei sabendo do massacre de Ardearine, em Roma. " para que 
essas coisas no aconteam mais", dizia Gragnola, 'que nossos companheiros 
esto l nas montanhas. E os alemes, kaputt1" 

 

Contava que os misteriosos partidos que se manifestavam atravs daqueles 
jornais j existiam antes do advento do fascismo e sobreviviam na 
clandestinidade, no exterior, que seus principais chefes eram pedreiros e que, 
quando descobertos pelos capangas do Duce, eram assassinados a pauladas. 

Gragnola ensinara no-sei-o-qu nas escolas de preparao para o 
trabalho, e costumava partir todas as manhs de bicicleta, voltando na metade 
da tarde. Depois teve que parar, alguns diziam que era para se dedicar de 
corpo e alma s atividades dos partigiani, outros murmuravam que no podia 
continuar porque era tsico. De tsico, Gragnola tinha todo o aspecto, um rosto 
cinreo com as maas de um vermelho doentio, as faces escavadas, a tosse 
persistente. Tinha dentes ruins, mancava e tinha uma insinuao de corcunda 
ou a coluna encurvada, com as omoplatas salientes e usava o colete do palet 
fechado at o pescoo, parecia ensacado dentro das roupas. No teatro fazia 
sempre os papis de vilo ou de guardio capenga de uma misteriosa manso. 

Era um poo de cincia, diziam todos, muitas vezes convidado para 
ensinar na universidade, recusando por amor a seus meninos. "Histrias", 
explicou-me depois. "Yambin, s ensinei em escolas de pobres, como suplente, 
porque com essa droga de guerra nem pude tirar o diploma. Com vinte anos 
fui mandado para a Grcia para me danar, fui ferido no joelho, ainda bem que 
se v pouco, mas no meio daquela lama peguei uma doena ruim e desde 
ento no parei mais de cuspir sangue. Se Crapone casse nas minhas mos, 
no o mataria porque, infelizmente, sou um covarde, mas ele ia levar ranto 
chute na bunda que ficaria quebrado pelo pouco tempo que espero que ainda 
lhe reste para viver, o judas, falso." 

Perguntei por que freqentava o Oratrio, j que todos diziam que era 
ateu. Respondeu que vinha porque era o nico lugar em que podia ver gente. 
E alm do mais no era ateu, era anarquista. Na poca no sabia o que era 
anarquista e ele explicou que eram pessoas que desejavam a liberdade, sem 
patres, sem rei, sem estado e sem padtes. "Sem estado, sobretudo, no como 
os comunistas que, na Rssia, tm um estado que diz at quando podem ir ao 
banheiro." 

Falou de Gaetano Brasci que, para punir o rei Umberto, que mandara 
massacrar os operrios em Milo, voltou da Amrica, onde podia viver 
tranqilo, escolhido por sorteio e sem passagem de volta e foi matar o rei. 
Depois foi morto na priso e disseram que se enforcara de remorso. Mas um 
anarquista nunca sente remorso pelas aes que pratica em nome do povo. 
Contou-me de anarquistas moderadssimos que tinham que emigrar de pas 
em pas, perseguidos por todas as polcias, e que cantavam Adeus Lugano 
bella. 

Voltou depois a falar mal dos comunistas que matatam os anarquistas na 
Catalunha. Perguntei por que, sendo contra os comunistas, estava com os 
garibaldinos, que eram comunistas. Respondeu que, nmero um, nem todos os 
garibaldinos eram comunistas e entre eles havia socialistas e at anarquistas, 
nmero dois, porque naquele momento o inimigo era o nazi-fascismo e em 
casos do genero no se deve ligar muito para sutilezas. "Primeiro se vence 
junto, depois se acertam as contas." 

Em seguida acrescentou que ia ao Oratorio porque era urna boa coisa. Os 
padres eram uma raa ruim, mas eram como os garibaldinos, entre eles 
tambm tinha gente boa. "Sobretudo nesses tempos em que no se sabe onde 
os meninos vo parar, at o ano passado ensinavam-lhes o livro e a espada. No 
Oratrio pelo menos no deixam que se estraguem, so educados para serem 
honestos, embora eles insistam um pouco demais na histria das punhetas, 
mas no importa, porque vocs continuam do mesmo jeito e no mximo se 
confessam depois. Portanto, venho ao Otatrio e ajudo dom Cog-nasso a 
entreter os meninos. Quando chega a hora da missa, fico no fundo da igreja 
em silncio, porque Jesus Cristo eu respeito, mas Deus no." 

Certo domingo, quando s duas da tarde ramos s meia dzia de garos 
pingados, contei-lhe a respeito de meus selos e ele disse que antigamente 
tambm fazia coleo, mas quando voltou da guerra no teve mais vontade e 
jogou tudo fora. Sobraram s uns vinte selos que ele me daria de bom grado. 

Fui  sua casa e os despojos eram memorveis, ele tinha dois selos das ilhas 
Fiji que namorei longamente no Yvert e Tellier. 

"Ah, voc tambm tem o Yvert e Tellier?", perguntou admirado. 

"Sim, mas  velho..." 

"So os melhores." 

As ilhas Fiji. Eis por que aqueles selos de Solara me encantaram tanto. 
Depois do presente de Gragnola, levei-os para casa e coloquei numa nova 
folha do lbum. Era uma tardinha de inverno, papai chegara no dia anterior, 
mas retornaria naquela mesma tarde, de volta  cidade at que pudssemos 
nos ver novamente. 

 

Estava na cozinha da ala grande, o nico ambiente aquecido da casa, 
porque tnhamos lenha suficiente para a chamin. A luz era baixa. No porque 
em Solara o blecaute contasse muito (quem iria nos bombardear?), mas porque 
a luminria era atenuada por um quebra-luz do qual pendiam uns fios de 
pequenas prolas, quase como enfeites para oferecer a selvagens fijianos. 

Sentado na mesa, cuidava da minha coleo, mame arranjava as coisas, 
minha irm brincava num canto. O rdio estava ligado. Terminara h pouco a 
verso milanesa de O que acontece na casa dos Rossi, um programa de 
propaganda da Repblica de Sal, em que os membros de uma mesma famlia 
discutiam poltica, concluindo naturalmente que os aliados eram nossos 
inimigos, os partigiani uns bandidos, renitentes ao recrutamento por pura 
indolncia, e que, no Norte, defendia-se a honra da Itlia ao lado dos 
camaradas germnicos. Mas havia, em noites alternadas, a verso "romana", 
em que os Rossi eram uma outra famlia, homnima, que vivia na Roma agora 
ocupada pelos aliados e que, finalmente, se dava conta de como se estava 
melhor quando se estava pior, invejando os compatriotas setentrionais, livres 
sob a bandeira do Eixo. Pelo modo como minha me sacudia a cabea, 
percebia-se que no acreditava, mas o programa era bastante animado. E era 
aquilo ou desligar o rdio. 

Mas depois (e chegava tambm meu av, que resistira at ento no 
escritrio com um braseirinho junto aos ps) podamos sintonizar a Rdio 
Londres. 

Comeava com uma srie de roques de tmpanos, quase como a Quinta de 
Beethoven, depois ouvia-se o persuasivo "boa-noite" do coronel Stevens, com 
sotaque tipo Gordo e Magro. A outra voz,  qual o governo do regime nos 
habituara, era de Mario Appelius, que conclua seus discursos de 
encorajamento  luta vitoriosa com "Deus superamaldioe os ingleses!". 
Stevens no superamaldioava os italianos, ao contrrio, convidava-nos para 
desfrutar com ele das derrotas do Eixo, que nos contava noite aps noite, com 
o ar de quem diz "viram o que o seu Duce est aprontando?". 

Mas suas crnicas no falavam apenas de batalhas campais. Descrevia nossa 
vida, de gente amiga colada todas as noites ao rdio para ouvir a Voz de 
Londres, superando os medos de que algum alcage-te os mandasse para a 
priso. Contava nossa histria de ouvintes seus e acreditvamos porque 
descrevia exatamente o que fazamos, ns, o farmacutico da esquina e at - 
dizia Stevens - o sargento dos carabineiros que sabia de tudo e dissimulava. 
Era o que ele dizia, e se no mentia sobre esse ponto, podamos confiar quanto 
ao resto. Todos sabamos, mesmo ns, as crianas, que aquilo tambm era 
propaganda, mas ramos atrados por essa propaganda feita a meio-tom, sem 
frases hericas e apelos  morte. O coronel Stevens fazia com que parecessem 
excessivas as palavras com que ramos alimentados diariamente. 

No sei o porqu, mas eu via esse senhor - que no era mais que uma voz 
- como Mandrake: elegante em seu fraque, com bigo-dinhos bem-cuidados, 
levemente frisados como os do mgico capaz de transformar qualquer pistola 
numa banana. 

Acabado o coronel, to misteriosas e evocativas quanto um selo de 
Montserrat, comeavam as mensagens especiais para as brigadas da 
Resistncia: Mensagem para a Franchi, Felice no est feliz, Acabou a 
chuva, Minha barba  loura, Giacomone beija Maom, A guia voa, O 
sol ainda nasce... 

Posso me ver ainda adorando os selos das Fiji, quando de repenre, entre as 
dez e as onze horas, ouve-se um zumbido no cu, as luzes se apagam e 
corremos at a janela para esperar a passagem de Pipetto. 

Podia-se ouvi-lo todos os dias mais ou menos  mesma hora, ou pelo menos 
assim queria a lenda. Alguns diziam que era um avio de reconhecimento 
ingls, outros que era um pra-quedista americano lanando pacotes, 
alimentos e armas para os partigiani nas montanhas, e talvez nem muito 
longe de ns, nas encostas das Langhe. 

 uma noite sem estrelas e sem lua, no se vem luzes no vale nem os 
perfis das colinas, e acima de ns passa Pipetto. Ningum nunca o viu:  
apenas um rumor na noite. 

Pipetto passou, por mais uma noite tudo ocorreu como habitualmente e 
voltamos s ltimas canes do rdio. Naquela noite talvez Milo seja 
bombardeada, os homens para os quais trabalha Pipetto talvez sejam 
perseguidos nas montanhas por parelhas de ces, mas o rdio, com aquela voz 
de saxofone no cio, canta L em Capocabana, em Capocabana a mulher  
rainha, a mulher  soberana, e posso imaginar uma lnguida star (talvez 
eu tenha visto uma foto em Novelio). Desce macia uma escada branca com 
degraus que se iluminam assim que ela pousa o p, cercada de jovens de fraque 
branco que levantam cilindros e ajoelham-se adorantes  sua passagem. Com 
Capocabana (no era Copacabana, era Capocabana mesmo), a sensualssima 
est passando uma mensagem to extica quanto os meus selos. 

Depois encerram-se as transmisses com os vrios hinos de vitria e 
revanche. Mas no se deve desligar imediatamente e mame sabe disso. 
Depois que a rdio deu a impresso de ter-se calado at o dia seguinte, ouve-se 
despontar uma voz angustiada que canta: 

 

Voltars 
para mim 

pois no cu est escrito que sim, 

voltars. 

Voltars 

sabes bem 

queu sou forte assim 
s porque creio em 
ti. 

Voltei a ouvir aquela cano em Solara, mas era uma cano de amor que 
dizia: Voltars para mim - pois o nico sonho tu s - do meu corao. - 
Voltars - tu porque - sem teus beijos lnguidos - no sei viver. 
Portanto, a cano que se ouvia naquelas noites era uma verso para os tempos 
de guerra, que no corao de muitos devia soar como uma promessa ou um 
apelo dirigido a algum distante, que talvez naquele momento gelasse numa 
estepe ou se perfilasse para um peloto de execuo. Quem punha no ar essa 
cano quela hora da noite? Um funcionrio nostlgico antes de fechar a 
cabine de transmisso ou algum que obedecia a uma ordem do alto? No o sa-
bamos, mas aquela voz nos acompanhava at o limiar do sono. 

So quase onze horas, fecho o lbum de selos, vamos dormir. Mame 
preparou o tijolo, um tijolo propriamente dito, colocado no forno at arder e 
no se poder segur-lo, que envolvemos em panos de l para enfiar sob as 
cobertas e aquecer toda a rea da cama.  confortvel para apoiar os ps e 
tambm para aliviar o prurido das frieiras que naqueles anos (frio, 
avitaminose, tempestades hormonais) inchavam os dedos de mos e ps e as 
vezes supuravam em feridas dolorosssimas. 

Um co late em uma herdade vale abaixo. 

 

Eu e Gragnola falvamos de tudo. Contava das minhas leituras e ele as 
discutia fervorosamente. "Verne", dizia, " melhor que Salgari porque  
cientfico. Cyrus Smith fabricando nitroglicerina  mais verdadeiro que aquele 
Sandokan que fere o prprio peito com as unhas s porque levou um fora de 
uma boboca de quinze anos." 

"Voc no gosta de Sandokan?" 

"Na minha opinio,  um pouco fascista." 

Falei que li o Cuore de De Amicis, ele disse que devia jog-lo fora porque 
De Amicis era um fascista. "Olhe s", dizia, "esto todos contra o pobre Franti, 
que vem de uma famlia desgraada, e se desdobram em quatro para agradar a 
um fascista de um professor. E de que falam? Do valente Garrone, que era um 
puxa-saco, da pequena vedeta lombarda, que morre porque um desgraado de 
um oficial do rei manda uma criana vigiar se o inimigo se aproxima, do 
tambo-rileiro sardo, que apesar da idade  enviado como mensageiro para o 
meio da batalha e, depois que o pobrezinho perde a perna, o nojento do 
coronel se joga em cima dele de braos abertos para beij-lo trs vezes no 
corao, coisas que no se faz com um recm-muti-ladinho, e at um coronel 
do real exrciro piemonts devia ter um pouco de bom senso. Ou do pai de 
Coretti, que passava sobre o filho a mo ainda quente da carcia daquele 
aougueiro do rei. Todos no paredo, no paredo! So pessoas como De Amicis 
que abriram caminho para o fascismo." 

Explicava quem foi Scrates e Giordano Bruno. Bakunin tambm, mas no 
consegui entender bem quem era e o que pensava. Contava de Campanella, 
Sarpi, Galileu, jogados na priso ou torturados pelos padres porque queriam 
difundir os princpios da cincia, e de alguns tiveram que cortar a garganta, 
como Ardig, porque os patres e o Vaticano j estavam preparando a forca 
para eles. 

Como li o verbete Hegel no Novssimo Melzi ("Ins. Fil. Al. da escola 
pantesta), perguntei quem era. "Hegel no era pantesta e o seu Melzi  um 
ignorante. Pantesta, no mximo, era Giordano Bruno. Um pantesta diz que 
Deus est em toda parte, at no coc da mosca que voc v bem ali. Bela 
satisfao, estar em toda parte  como no estar em parte alguma. Pois bem, 
para Hegel, no era Deus, mas o Estado que tinha de estar por toda parte, e 
pottanto era um fascista." 

"Mas ele no viveu mais de cem anos atrs?" 

"E o que importa? Joana D'Arc tambm, e era uma fascista de primeira 
ordem. Os fascistas sempre existiram. Desde os tempos... desde os tempos de 
Deus. Pegue Deus. Um fascista." 

"Mas voc no  ateu, no diz que Deus no existe?" 

"Quem disse isso? Dom Cognasso, que no entende nada de porra 
nenhuma? Eu acredito que Deus existe, infelizmente. S que  um fascista." 

"Mas por que Deus  fascista?" 

"Oua, voc  jovem demais para que possamos discutir teologia. Vamos 
partir daquilo que sabe. Recite os dez mandamentos, j que no Oratrio vocs 
so obrigados a sab-los de cor." 

E eu recitava. "Pois bem", dizia, "agora preste ateno. Entre esses dez 
mandamentos tem quatro, ateno, no mais que quatro, que aconselham boas 
coisas - se bem que at eles, hum, depois veremos. No matar, no roubar, no 
dar falso testemunho e no desejar a mulher do prximo. Esse ltimo  um 
mandamento para homens que sabem o que quer dizer honra, de um lado no 
transformar os amigos em cornos e, do outro, tentar manter de p a famlia, e 
isso pode at ser bom, embora a anarquia queira eliminar a famlia, no se 
pode fazer tudo de uma vez s. Quanto aos outros trs, certo, mas tambm  o 
mnimo que o bom senso aconselha. Mesmo que depois seja preciso dar um 
desconto, mentira todo mundo diz, talvez at com um objetivo bom, mas 
matar no, no se pode, nunca." 

"Nem quando o rei manda voc para a guerra?" 

"A est o ponto. Os padres dizem que se for mandado para a guerra pelo 
rei, voc pode, alis, deve matar. De qualquer forma a responsabilidade  do 
rei. Assim, justifica-se a guerra, que  uma besta imunda, sobretudo se quem o 
mandou para l foi Crapone. Note-se que os mandamentos no dizem que se 
pode matar na guerra. Dizem no matar e ponto final. Mas depois...." 

"Depois?" 

"Vamos ver os outros mandamentos. Eu sou o senhor teu Deus. Isso no  
um mandamento, seno seriam onze. E o prlogo. Mas  um prlogo 
vivaldino. Tente me seguir: aparece um sujeito para Moiss, a bem dizer, nem 
aparece, s se ouve a voz e sabe-se l de onde vem, e em seguida Moiss vai 
dizer aos seus que devem obedecer aos mandamentos porque vm de Deus. 
Mas quem falou que vm de Deus? A voz: 'Eu sou o senhor teu Deus.' E se no 
fosse? Imagine que eu paro voc numa estrada, digo que sou um carabineiro  
paisana e que tem que me dar dez liras de multa porque no se pode passar 
naquela estrada. Se for esperto, voc responde: e quem me garante que voc  
um carabineiro, talvez seja algum que se vira enrabando as pessoas. Deixe ver 
os documentos. Mas no, Deus demonstra a Moiss que  Deus porque diz isso 
e pronto. Tudo comea com um falso testemunho." 

"Voc acha que no foi Deus quem deu os mandamentos a Moiss?" 

"No, acho que era Deus mesmo. S estou dizendo que usou um truque. E 
sempre fez assim: tem que acreditar na bblia porque  inspirada por Deus, 
mas quem falou que a bblia  inspirada por Deus? A prpria bblia. Entendeu 
a manha? Mas vamos adiante, O primeiro mandamento diz que no ters 
outro Deus fora ele. Assim, esse senhor o probe de pensar, sei l, em Al, em 
Buda ou talvez em Vnus - que, a bem da verdade, ter como deusa um pedao 
de mulher daqueles no era nada mau. Mas quer dizer tambm que no se 
pode acreditar, sei l, na filosofia, na cincia, porque podem botar na sua 
cabea que o homem descende do macaco. S ele, e basta. Agora preste 
ateno, todos os outros mandamentos so fascistas, feitos para obrigar a 
aceitar a sociedade do jeito que . Guardar domingos e festas... O que acha?" 

"Bem, na verdade manda ir  missa aos domigos, o que h de mau?" 

"Isso  o que diz dom Cognasso, que, como todos os padres, no sabe nem 
onde fica a bblia da casa. Acorde! Numa tribo primitiva como aquela que 
Moiss andava levando para passear, isso significava observar os rituais e os 
rituais servem para engambelar o povo, dos sacrifcios humanos aos comcios 
de Crapone na praa Venezia! E depois? Honrar pai e me. Calado, no me 
diga que  justo obedecer aos pais, isso est bom para as crianas que precisam 
ser guiadas. Honrar pai e me quer dizer respeitar as idias dos mais velhos, 
no se opor  tradio, no pretender mudar o modo de vida da tribo. 
Entendeu? No cortar a cabea do rei, como ao contrrio, Deus manda - quer 
dizer, desculpe, como se deve fazer se tivermos a cabea, a nossa, no lugar, 
sobretudo com um rei como o ano de Savia que traiu seu exrcito e mandou 
seus oficiais para a morte. E ento se entende que at no roubar no  aquele 
mandamento inocente que parece, pois ordena que no se toque na 
propriedade privada, que  de quem enriqueceu roubando gente como voc. 
Mas quem dera fosse s isso. Ainda faltam trs mandamentos. O que significa 
no cometer atos impuros? Os vrios dom Cognasso querem que acredite que 
serve apenas para impedir que voc sacuda a coisa que tem no meio das 
pernas, mas incomodar as tbuas da lei por causa de umas punhetas me parece 
um desperdcio. O que devo fazer eu, que sou um fracassado, aquela boa 
mulher da minha me no me fez bonito, e ainda por cima manco e que uma 
mulher, uma mulher de verdade nunca toquei? Querem me tirar at esse 
desafogo?" 

Naquela poca j sabia como so feitos os bebs, mas acho que ainda tinha 
idias vagas sobre o que acontecia antes. De punhetas ou outtos toques s 
ouvira meus colegas falarem, mas no ousava me aprofundar. Mas no queria 
fazer m figura com Gragnola. Concordava mudo, compungido. 

"Deus podia dizer, sei l, pode trepar, mas s para fazer nenm, sobretudo 
porque naquela poca tinha muito pouca gente no mundo. Mas os dez 
mandamentos no dizem isso: de um lado, no se pode desejar a mulher do 
prximo e do outro no se deve cometer atos impuros. Resumindo, quando  
que se trepa? Ora,  preciso fazer uma lei que sirva para todo mundo, os 
romanos, que no eram Deus, quando fizeram leis foi coisa que serve at hoje, 
e Deus baixa um declogo que no diz as coisas mais importantes? Voc vai 
dizer: sim, mas a proibio dos atos impuros probe trepar fora do casamento. 
Est certo de que era isso mesmo? O que eram atos impuros para os hebreus? 
Eles tinham regras severssimas, por exemplo, no podiam comer carne de 
porco e nem boi abatido de certa maneira e, ouvi dizer, nem mesmo sardinhas 
ainda novinhas. Ento os atos impuros so todas as coisas que o poder proibiu. 
Quais? Todas as que o poder definiu como atos impuros.  s inventar, o 
Crapone considera impuro falar mal do fascismo e eles mandam voc para o 
exlio.  impuro ser solteiro e toca pagar uma taxa sobre o celibato. E impuro 
desfraldar uma bandeira vermelha. Etc. etc. etc. E agora chegamos ao ltimo 
mandamento, no desejar as coisas dos outros. Mas voc nunca perguntou o 
porqu desse mandamento, quando j tinha no roubar? Se voc deseja ter 
uma bicicleta como a de seu amigo  pecado? No, se no roub-la. Dom 
Cognasso diz que esse mandamento probe a inveja, que com certeza  coisa 
ruim. Mas tem uma inveja ruim, aquela que, quando o amigo tem uma bi-
cicleta e voc no, lhe d um desejo de que ele quebre o pescoo numa ladeira, 
e tem a inveja boa, aquela que faz voc desejar, voc tambm, uma bicicleta e, 
para poder comprar uma, mesmo usada, comea a rrabaihar que nem um 
doido, e a inveja boa  o que faz girar o mundo. E depois tem uma outra 
inveja, que  a inveja da justia, que leva a no aceitar que algum tenha tudo, 
enquanto tem gente que morre de fome. E se voc sente essa bela inveja, que  
a inveja socialista, comea a trabalhar para realizar um mundo em que a 
riqueza seja mais bem distribuda. Mas  justamente isso que o mandamento 
probe; no desejar mais do que tem, respeitar a ordem da propriedade. Nesse 
mundo tem quem tenha dois campos de trigo s porque herdou e tem quem  
obrigado a ro-lo por um bocado de po, e quem roa no pode desejar o 
campo do patro seno o estado desmorona e esramos em plena revoluo. 
Portanto, meu caro rapaz, no mate e no roube os pobres como voc, mas 
deseje sim as coisas que os outros tiraram de voc. Esse  sol do futuro e  por 
isso que os companheiros esto l em cima na montanha, para dar um fim no 
Crapone, que chegou ao poder financiado pelos proprietrios de terras, e pelos 
pequeno-burgueses de Hitler que queria conquistar o mundo para ajudar 
aquele Krupp, que constri cada Berta desse tamanho, a vender mais canhes. 
Mas voc, o que vai entender dessas coisas, voc que foi criado aprendendo a 
repetir de cor juro obedecer s ordens do DuceV 

"No, esrou entendendo, mas nem tudo." Espero. 



Naquela noite sonhei com o Duce. 

 

Um dia fomos andar pelas colinas. Pensei que Gragnola fosse falar das 
belezas da natureza, como fez uma vez, mas naquele dia s me mostrou coisas 
mortas, esterco de boi seco, sobre o qual zumbiam as moscas, uma gavinha 
cheia de peronosporales, uma fila de lagartas encaminhando-se para matar 
uma rvore, batatas com a broca maior que o tubrculo, que eram de se jogar 
fora, a carcaa de um animal abandonada num fosso e no dava mais para ver 
se era fuinha ou lebre porque j estava em adiantado estado de putrefao. E 
fumava um Milit depois do outro, timo para a tsica, dizia, desinfeta os 
pulmes. 

"Est vendo, meu rapaz, o mundo  dominado pelo mal. Alis, Mal com 
maiscula. E no falo s do mal de quem mata um semelhante para roubar 
dois tostes ou do mal das SS que enforcam nossos companheiros. Estou 
falando do Mal em si, que faz meus pulmes apodrecerem, uma colheita 
estragar, uma tempestade de granizo que pode levar  misria o proprietrio 
de uma pequena vinha que  tudo que ele tem. Nunca se petguntou por que 
existe o Mal no mundo, e antes de mais nada a morte, por que as pessoas 
gostam tanto de viver, mas um belo dia, ricos ou pobres, a morte vem lev-las, 
s vezes ainda crianas? j ouviu falar da morte do universo? Eu que leio sei: o 
universo, quero dizer inteito, as estrelas, o sol, a via lctea,  como uma 
lanterna eltrica que vai funcionando, funcionando, mas vai descarregando 
tambm e um dia se esgota. Fim do universo. O Mal dos males  que o prprio 
universo est condenado  morte. Desde o nascimento, por assim dizer. Mas 
ser mesmo um belo mundo, esse em que o Mal existe? No seria melhor um 
mundo sem Mal?" 

", sim", filosofava eu. 

"Certo, pode-se dizer que o mundo nasceu por engano, o mundo  uma 
doena do universo que j no andava to bem sozinho e um belo dia lhe 
nasce um furnculo que  o sistema solar, e ns com ele. Mas as estrelas, a via 
lctea e o sol no sabem que devem morrer, logo, no se incomodam. No 
entanto, da doena do universo nascemos ns, que para a nossa desgraa 
somos uns espertos e acabamos descobrindo que  preciso morrer, E assim, 
no somos apenas vtimas do Mal, mas temos que saber disso. Que alegria!" 

"Mas quem diz que o mundo no foi feito por ningum so os ateus e voc 
diz que no  ateu..." 

"No sou porque no sou capaz de acreditar que todas essas coisas que vemos a 
nosso redor e o modo como crescem as rvores e os frutos, e o sistema solar, e 
o nosso crebro nasceram por acaso. So bem-feitos demais. Logo, deve ter 
existido uma mente criadora. Deus." L entaor 

"Ento como acertar Deus com o Mal?" "Assim, como assim, no sei, deixe-me 
pensar..." " claro, deixe-me pensar, diz ele, como se durante sculos e sculos 
as mentes mais sagazes no tivessem pensado nisso..." "E a que concluso 
chegaram?" 

"A um figo podre. O Mal, disseram, foi introduzido no mundo pelos anjos 
cados. Mas como? Deus v e prev tudo e no sabia que anjos cados se 
rebelam? Por que os criou se sabia que se rebelariam? Como algum que 
fizesse pneus de carro de modo que arrebentassem depois de dois quilmetros. 
Seria um idiota. Mas no, ele criou os anjos e depois ficou satisfeitssimo, olha 
que esperto que sou, que sei at fazer anjos... Depois esperou que se 
rebelassem (e sabe-se l quanto se deleitou esperando que dessem esse passo 
em falso) e jogou-os no inferno. Mas ento  uma hiena. Outros filsofos pen-
saram diferente: o Mal no existe fora de Deus, ele o tem dentro de si, como 
uma doena, e passa a eternidade tentando se libertar. Pobrezinho, talvez seja 
assim. Mas eu, como sei que sou tsico, nunca vou colocar crianas no mundo 
para no criar mais desgraados, porque a tsica passa de pai para filho. E um 
Deus que sabe que tem essa doena l dele e se mete a fazer um mundo que, 
por melhor que seja, ser sempre dominado pelo Mal?  pura ruindade. E 
mais, um de ns pode fazer um filho sem querer, porque se empolgou certa 
noite e esqueceu de usar camisinha, mas Deus, ele fez o mundo porque queria 
mesmo." 

"E se foi uma coisa que escapou, como nos escapa o xixi?" 

"Voc pensa que est dizendo uma coisa engraada, mas  justamente o que 
pensaram outros grandes crebros. A Deus, o mundo lhe escapuliu como nos 
escapa o xixi. O mundo  um efeito de sua incontinncia, como algum com a 
prstata inchada." U que e prstata? 

"No importa, faz de conta que dei um outro exemplo. Mas olhe, acreditar 
que o mundo tenha lhe escapulido, que Deus realmente no tenha conseguido 
se segurar e que tudo isso seja efeito do Mal que ele carrega consigo, essa  a 
nica maneira de desculpar Deus. Estamos na merda at o pescoo, mas ele 
tambm no est melhor que ns. Mas ento caem como peras maduras todas 
as lindas coisas que contam no Oratrio, sobre Deus que  o Bem e que  o ser 
perfeitssimo criador do cu e da terra. Foi o criador do cu e da terra justo 
porque  imperfeitssimo. E assim construiu estrelas como uma lanterna que 
no se pode recarregar." 

"Desculpe, mas Deus pode ter construdo um mundo no qual ns estamos 
destinados a morrer, mas o fez para nos colocar  prova e permitir que 
ganhssemos o paraso e, portanto, a felicidade eterna." 

"Ou gozssemos do inferno." 

"Os que cedem s tentaes do diabo." 

"Voc fala como um telogo, s que todos eles falam de m-f. Dizem como 
voc que o Mal existe, mas Deus nos deu o mais belo presente do mundo que  
o livre-arbtrio. Podemos livremente fazer o que Deus ordena ou o que o 
diabo sugere, e se depois vamos para o inferno  porque no fomos criados 
como escravos, mas como homens livres, s que usamos mal a nossa liberdade 
e isso foi uma deciso nossa." Isso. 

"Isso? Mas quem lhe disse que a liberdade  um presente? Ou melhor, 
tome cuidado para no confundir as coisas. Nossos companheiros na 
montanha esto lutando pela liberdade, mas  a liberdade contra outros 
homens que queriam nos transformar em um monte de maquinetas. A 
liberdade  uma coisa bela entre homem e homem, voc no tem o direito de 
me fazer agir e pensar o que quiser. E os nossos companheiros eram livres 
para decidir se deviam ir para as montanhas ou esconder-se em algum lugar. 
Mas a liberdade que Deus nos deu, que liberdade  essa? E a liberdade de ir 
para o paraso ou para o inferno, sem alternativas. Voc nasce e j  obrigado a 
jogar essa partida de bisca, e se perder, vai sofrer por toda a eternidade. E se 
eu no quisesse jogar? Crapone que, entre tanta coisa ruim, algo de bom deve 
ter feito, proibiu os jogos de azar, pois h lugares em que as pessoas so 
tentadas e acabam se arruinando. E no vale dizer que o homem  livre para ir 
ou no. Melhor no induzir as pessoas  tentao. Mas isso  um presente?  
como se eu o jogasse daquele penhasco e lhe dissesse para ficar tranqilo 
porque voc tem a liberdade de agarrar um arbusto qualquer e subir de volta 
ou de deixar-se cair at o fundo, at se reduzir quela carne moda que eles 
comem em Alba. Voc poderia dizer: mas por que me empurrou se eu estava 
to bem aqui? E eu respondo: para que voc pudesse provar se era mesmo 
bom. Grande brincadeira. Voc no queria provar que era bom, contentava-se 
em no cair." 

"Agora estou confuso. Qual  a sua idia, ento?" 

" simples, s que ningum pensou nisso antes. Deus  mau. Por que os 
padres dizem que Deus  bom? Porque ele nos criou. Mas essa  justamente a 
prova de que  mau. Deus  o Mal. Talvez, visto que  eterno, no fosse mau 
h milhares de anos. Ficou mau como aquelas crianas que no vero se 
entediam e comeam a arrancar asinha de mosca, para passar o tempo. Preste 
ateno, se voc pensa que Deus  mau, todo o problema do Mal fica 
clarssimo." 

"Todos maus, ento, at Jesus?" 

"Ah, no! Jesus  a nica prova de que pelo menos ns, homens, sabemos 
ser bons. Para dizer tudo, no estou seguro de que Jesus fosse filho de Deus, 
como uma matria boa assim pode nascer de um pai cuja maldade  tanta coisa 
que no sei explicar. Tambm no estou seguro de que Jesus realmente existiu. 
Talvez ns o tenhamos inventado, mas  justamente esse o milagre, que 
tenhamos tido uma idia to bonita. Ou talvez tenha existido, era o melhor de 
todos e dizia ser filho de Deus por bom corao, para nos convencer de que 
Deus era bom. Mas se voc l bem o Evangelho, percebe que ele tambm se 
deu conta no final de que Deus era mau: assustou-se no monte das Oliveiras e 
pediu que afastasse dele aquele clice, e necas, Deus no lhe d ouvidos; gfita 



na cruz, pai, por que me abandonaste, e necas, Deus estava virado para o outro 
lado. Mas Jesus nos ensinou o que um homem pode fazer para reparar a mal-
dade divina. Se Deus  ruim, podemos ao menos tentar ser bons, perdoar-nos 
uns aos outros, no nos ferir mutuamente, cuidar dos doentes e no nos 
vingarmos das ofensas. Ajudar-nos entre ns j que aquele l no nos ajuda. 
Entendeu como era grande a idia de Jesus? E quem sabe como Deus ficou 
irritado. Jesus  o nico verdadeiro inimigo de Deus, nada de diabo. Jesus  o 
nico amigo que ns, pobres cristos, temos." 

"Voc no seria um herege como aqueles que foram queimados..." 

"Eu sou o nico que entendeu a verdade, s que para no ser queimado 
no posso andar espalhando por a e s contei a voc. Jura que no vai dizer 
nada a ningum." 

"Juro", e cruzei os dedos sobre os lbios. "Cruzin, cruzam.." 

 

Percebi que Gragnola carregava sempre consigo, sob a camisa, um saquinho 
comprido de couro pendurado no pescoo. "O que  isso, Gragnola?" "Um 
bisturi." "Voc estudava medicina?" 

"Estudava filosofia. Quem me deu o bisturi foi o mdico do meu regimento 
na Grcia, antes de morrer. 'J no me serve mais', disse ele, 'quem abriu 
minha barriga foi aquela granada. Para mim seria melhor uma caixinha como 
aquela que as mulheres tm, com agulha e linha. Mas esse buraco no d mais 
para costurar. Guarda o bisturi como recordao de mim/ E eu o carrego 
sempre comigo." ror quer 

"Porque sou um covarde. Com as coisas que fao e as coisas que sei, se a SS 
ou as Brigadas Negras me pegam, vo me torturar. E se me torturam eu vou 
falar, porque o mal me faz medo. E mando meus companheiros para a morte. 
Ento, se me pegarem, corto a garganta com o bisturi. No di,  um segundo, 
sguiss. E engano rodos eles: os fascistas, que no vo ficar sabendo de nada, os 
padres, porque me suicido e  pecado, e Deus porque morro na hora que 
escolhi e no quando ele decidiu. Vo ter que engolir essa." 

 

Os discursos de Gragnola me davam tristeza. No porque estivesse seguro 
de que eram ruins, mas porque temia que fossem bons. Fiquei tentado a falar 
sobre eles com meu av, mas no sabia o que ele acharia da histria. Talvez 
ele e Gragnola no se entendessem, embora ambos fossem antifascistas. Meu 
av resolveu sua questo com Merlo, e com o Duce, de um jeito hilarianre. 
Meu av salvou os quatro rapazes na capela, zombou das Brigadas Negras e 
ponto final. No era de igreja, mas isso no queria dizer que fosse ateu, do 
contrrio no faria o prespio. Se acreditava em Deus, era um Deus alegre, que 
deve ter dado umas boas risadas vendo o Merlo tentando vomitar a alma - 
meu av poupou a Deus a pena de mandar o Merlo para o inferno, depois de 
todo aquele leo, mandou-o com certeza s para o purgatrio onde poderia se 
descarregar em paz. Gragnola, ao contrrio, vivia em um mundo entristecido 
por um Deus mau e s o vi sorrir com ternura quando falou de Scrates e de 
Jesus. E, alis, dizia eu comigo mesmo, os dois foram mortos e, portanto, no 
vejo neles nenhum motivo para rir. 

E no entanto no era m pessoa, queria bem s pessoas que o cercavam. 
Seu problema era s com Deus, e devia ser um trabalho, porque era como 
atirar pedras num rinoceronte, ele nem percebe e continua fazendo as suas 
coisinhas de rinoceronte, enquanto voc fica vermelho de raiva e acaba tendo 
um ataque. 

 

Quando foi que, com os colegas, comecei o Grande Jogo? Em um mundo 
onde todos atiram contra todos, era bom ter um inimigo. Escolhemos os 
meninos de San Martino, cidadezinha em cima do pico que mergulhava no 
Vallone. 

O Vallone era ainda pior do que descrevera Amlia. No dava mesmo para 
subir - sem falar em descer - porque a cada passo o p caa em falso. Onde 
no tinha sara a terra se desfazia toda, via-se um matagal de esponjeiras ou 
uma moita de amora e bem no meio abria-se um buraco, quando se pensava 
ter finalmente encontrado a trilha certa, e era uma pedreira surgida por acaso, 
depois de dez passos se comeava a escorregar, caindo numa das margens e 
despencando pelo menos vinte metros. Mesmo quem chegava vivo ao fundo, 
sem quebrar os ossos, tinha os olhos furados pelos abru-nheiros. Anda por 
cima, dizia-se que estava cheio de serpentes. 

A gente de San Martino dei Vallone sofria de um medo inato, tambm por 
causa das masche, e gente que coloca San Antonino em casa, uma mmia que 
parecia sada da tumba para talhar o leite das lactantes, tem que acreditar em 
masche. Eram os inimigos ideais, pois para ns eram todos fascistas. No era 
bem assim, na verdade: dois irmos que moravam l partiram com as Brigadas 
Negras e na aldeia ficaram os dois menores, que eram os manda-chuvas do 
bando l de cima. Resumindo, a cidadezinha era ligada queles dois filhos em 
guerra, e na gente de San Martino, murmurava-se em Solara, no se pode 
confiar. 

Fascistas ou no, dizamos que os meninos de San Martino eram ruins feito 
bicho. E que se voc vive num lugar como San Martino precisa inventar cada 
dia uma nova para se sentir vivo. Para ir  escola tinham que descer para 
Solara e ns da cidade olhvamos para eles como se fossem ciganos. Muitos de 
ns trazamos merenda, po com gelia, e eles tinham sorte quando traziam 
uma ma bichada. Em suma, alguma coisa tinham que fazer e muitas vezes 
nos massacraram com pedras quando estvamos na porta do Otatrio. E ti-
nham que pagar. Donde, tnhamos que subir a San Martin o e atac-los 
quando estivessem jogando bola na praa da igreja. 

Mas s se chegava a San Martino pela tal estrada toda reta, sem voltas, e da 
praa da igreja dava para ver quando algum subia. Assim nunca 
conseguiramos peg-los de surpresa. At o dia em que Durante, um campons 
com a cabea grande e preto como um abissnio, disse que podamos peg-los 
subindo pelo Vallone. 

Para subir pelo Vallone era necessrio treinamento. Fizemos uma escala, 
no primeiro dia tentvamos dez metros, guardando na memria cada passo e 
cada quebrada, e tentvamos descer colocando o p onde tnhamos colocado 
na subida e no dia seguinte passvamos aos prximos dez metros. De San 
Martino no se via quem subia e tnhamos todo o tempo que quisssemos. No 
se podia improvisar, tnhamos que ficar como os animais que se sentem em 
casa no Vallone, as serpentes e os lagartos. 

Dois de ns quase se deram mal, um por pouco no morre e esfolou a 
palma da mo para conseguir frear a descida, mas no final ramos os nicos no 
mundo que sabamos como subir o Vallone. Certa tarde nos arriscamos e 
escalamos durante uma hora e at mais, tanto que chegamos sem flego, mas 
emergimos de um matagal exatamente na base de San Martino, onde, entre as 
casas e o precipcio, havia uma viela protegida por uma mureta, exatamente 
para evitar que os habitantes cassem quando passavam de noite. E bem na 
sada do nosso percurso a mureta tinha uma fissura, uma rachadura, e dava 
para passar por ela. Diante dessa abertura, abria-se uma estradinha onde ficava 
a porta da casa paroquial e que desembocava bem na praa da igreja. 

Irrompemos na praa justamente quando eles estavam jogando cabra-cega. 
Belo golpe: um no podia nos ver e os outros saltavam de c para l rentando 
desviar dele. Lanamos as nossas munies, pegamos um deles bem na testa, 
os outros fugiram para a igreja pedindo ajuda ao padre. Por enquanto bastava, 
escapamos pela es-tradinha at a abertura no muro e para baixo pelo Vallone. 
O padre mal teve tempo de ver nossas cabeas desaparecendo entre os arbus-
tos e gritou ameaas horrveis, enquanto Durante gritava "toma!", batendo 
com a mo esquerda no brao direito. 

 

Mas agora os meninos de San Martino j sabiam. Quando entenderam que 
subamos pelo Vallone, puseram sentinelas na rachadura.  verdade que se 
podia chegar quase embaixo da mureta antes que eles percebessem, mas s 
quase: os ltimos metros ficavam a descoberto, entre espinheiras muito baixas 
que atrapalhavam o caminho e a sentinela tinha tempo para dar o alarme. No 
fundo da estradinha eles prepararam bolas de lama secas ao sol e 
alvejavam-nos do alto antes que pudssemos ganhar a viela. 

Era uma pena tanto esforo para aprender como subir pelo Vallone para 
abandonar tudo. At que Durante disse: "Vamos aprender a subir na nvoa." 

Como o outono estava comeando, havia naquelas bandas tanta nvoa 
quanto se poderia desejar. Nos dias de nvoa, se era das boas, Solara 
desaparecia l embaixo, desaparecia ar a casa de meu av, e no meio de todo 
aquele cinza mal e mal despontava o campanrio de San Martino. Quem 
estava no campanrio tinha a impresso de estar num dirigvel voando sobre 
as nuvens. 

Em casos do gnero era possvel chegar at a mureta, onde a nvoa 
acabava e eles no podiam passar o dia inteiro olhando para o vazio, sobretudo 
quando descia a escurido. Mas quando ficava tinhosa, a nvoa superava at a 
mureta e invadia a praa da igreja. 

Aprender a subir pelo Vallone com nvoa era muito diferente de subir no 
sol. Tinha que aprender tudo realmente de cor, saber dizer que ali tem aquela 
pedra, l, ateno que comea uma espinheira com a largura de cinco passos 
(cinco, no quatro ou seis), mais  direita a terra desliza que  uma beleza, 
quando se chega  pedra grande, bem  sua esquerda comea a falsa trilha e 
quem for por ali mergulha no penhasco. Etc. 

Fazamos portanto exploraes nos dias claros e depois, por uma semana, 
reperamos de memria os passos a fazer. Eu tentei desenhar um mapa, como 
nos livros de aventuras, mas metade dos meus amigos no sabia como ler um 
mapa. Pior para eles, eu o imprimi na cabea e poderia andar pelo Vallone de 
olhos fechados - e uma noite de neblina era quase a mesma coisa. 

Depois que todos aprenderam o caminho, ainda treinamos por mais alguns 
dias, na cerrao fechada, depois do pr-do-sol, para ver se conseguamos 
chegar  mureta quando eles ainda no tivessem sado para jantar. 

Depois de muitas provas, tentamos a primeira expedio. Como fizemos 
para chegar l em cima eu no sei, mas chegamos e justamente quando eles, 
na praa ainda livre dos vapores, estavam contando vantagem - porque num 
lugar como San Martino, ou voc fica na praa fazendo nada ou vai para a 
cama logo depois de ter comido uma sopa de po dormido e leite. 

Chegamos  praa, bombardeamos como se deve, rimos da cara deles 
enquanto tentavam se refugiar nas casas e descemos. Descer era pior que 
subir, porque se voc escorrega subindo ainda pode se agarrar a um arbusto, 
mas se escorrega descendo, voc est frito e antes de conseguir parar suas 
pernas j vo estar sangrando e as calas arruinadas para sempre. Mas 
chegamos, vitoriosos e triunfantes. 

Depois daquela arriscamos outras incurses e eles no podiam botar 
sentinelas no escuro, mesmo porque a maior parte deles tinha medo das 
masche. ramos do Oratrio e para ns as masche no significavam 
realmente nada, pois sabamos que bastava dizer meia ave-maria e elas 
ficavam como que paralisadas. E assim continuamos por alguns meses. Depois 
cansamos: subir no era mais um desafio e sabamos faz-lo com qualquer 
tempo. 

Em minha casa ningum ficou sabendo da histria do Vallone, do 
contrrio eu la levar um monte de pancada, e das vezes que subimos no 
escuro, disse que ia ao Oratrio para os ensaios da comdia. Mas no Oratrio 
todos sabiam e nos pavonevamos porque ramos os nicos da cidadezinha a 
tet intimidade com o Vallone. 

 

Era meio-dia de um domingo. Algo estava acontecendo, todos j tinham 
percebido: chegaram a Solara dois caminhes de alemes, revistaram meia 
cidade, depois foram para a estrada de San Martino. 

Descera uma grande nvoa de manh bem cedo e a nvoa do dia  pior 
que a da noite, porque est claro, mas voc precisa se mover como se estivesse 
escuro. No se ouvia nem o som dos sinos, como se aquele cinza servisse de 
silenciador. At as vozes dos passarinhos enregelados entre os ramos das 
rvores chegavam como que atravs de um algodo. Tinha o funeral de 
algum, os sujeitos do cemitrio no queriam pegar a estrada para o cemitrio 
e o coveiro mandou dizer que no sepultava ningum naquele dia porque ia se 
enganar na hora de baixar o caixo e cairia ele na cova. 

Dois sujeitos da cidade seguiram os alemes para ver o que queriam e os 
viram chegar com dificuldade, com os faris acesos que s dava para ver a 
menos de um metro, at o incio da subida para San Martino e depois 
pararam, sem saber como prosseguir. Certamente no com os caminhes, 
porque no sabiam o que havia dos lados daquela ladeira e no queriam acabar 
em algum penhasco -talvez pensassem tambm que houvesse curvas 
traioeiras. Mas nem a p se aventuraram, pois no conheciam as paragens. 
At que algum explicou que s se podia subir at San Martino por aquela 
estrada e que com aquela nvoa ningum conseguia descer pelo outro lado, 
por causa do Vallone. Ento puseram cavaletes no fundo da estrada e l 
ficaram com os faris acesos e as armas apontadas, para impedir a passagem, 
enquanto um deles gritava num telefone de campanha, talvez pedindo 
reforos. Os que espiaram ouviram repetir muitas vezes vobunde, volsunde. 

Gragnola logo explicou que certamente estavam pedindo Wolfshunde, ou 
seja, ces policiais. 

Enquanto os alemes estavam l, por volta das quatro da tarde, quando 
tudo ainda era cinza espesso, mas claro, entreviram algum que descia de 
bicicleta. Era o padre de San Martino que fazia aquela estrada ningum sabe 
h quantos anos e sabia descer freando at com os ps. Vendo um padre, os 
alemes no atiraram porque, como ficamos sabendo depois, no estavam 
procurando padres, mas cossacos. O padre explicou, mais com gestos do que 
com qualquer outra coisa, que uma pessoa estava morrendo em uma herdade 
vizinha de Solara e queria os santos leos (mostrava todo o necessrio dentro 
de uma bolsa amarrada ao guido) e os alemes acreditaram. Deixaram-no 
passar e o padre foi at o Oratrio parlamentar com dom Cognasso. 

Dom Cognasso no era uma pessoa que se metesse em poltica, mas sabia 
quem e como, e quase sem falar pediu que lhe dissesse o que havia a dizer a 
Gragnola e companhia, porque ele no queria e nem podia se imiscuir 
naquelas histrias. 

Logo se formou um grupo de jovens ao redor da mesa das partidas de 
escopa e eu me enfiei entre os ltimos, um pouco acocorado para que no me 
notassem. E ouvi a narrativa do padre. 

Havia um destacamento de cossacos com as tropas alems. Ns no 
sabamos, mas Gragnola estava informado. Foram feitos prisioneiros na frente 
russa, mas por alguma razo l deles os cossacos no queriam saber de Stalin, 
de modo que muitos deles se deixaram convencer (por dinheiro, por dio aos 
soviticos, para no apodrecer nos campos de prisioneiros ou at mesmo para 
poder deixar, com tudo que possussem, o paraso sovitico) a alistar-se nas 
tropas auxiliares. A maior parte lutava nas regies orientais, como em Carnia, 
onde eram temidssimos por ser gente dura e feroz. Mas havia uma diviso 
turquistanesa tambm na regio pavesa, mas l eram chamados de mongis. 
Ex-prisioneiros russos, embora no fossem exatamente cossacos, giravam 
tambm pelo Piemonte com os partigiani. 

Mas agora rodos j sabiam como a guerra estava acabando, e alm do mais 
os oito cossacos dos quais se falava eram pessoas com seus princpios 
religiosos. Depois de terem visto queimar duas ou trs aldeias e enforcar uma 
dzia de gente pobre, e mais, depois que dois deles tambm foram fuzilados 
por se recusarem a disparar contra velhos e crianas, pensaram que com os SS 
no podiam mais ficar. "No  s isso", explicava Gragnola, "mas se os alemes 
perdem a guerra, e j est perdida, o que faro os americanos e os ingleses? 
Capturam os cossacos e entregam aos russos, visto que so aliados. Na Rssia, 
aqueles l, kaputt. Portanto, tentavam ficar com os aliados de modo que, 
depois da guerra, consigam abrigo em algum lugar, fora das garras daquele 
fascista do Stalin." 

"De fato", dizia o padre, "esses oito ouviram falar dos partigiani, que 
combatem com os ingleses e americanos e esto tentando se juntar a eles. Tm 
as suas idias e esto bem-informados: no querem ficar com os garibaldinos, 
mas com os badoglistas." 

Desertaram no sei onde, dirigindo-se a Solara s porque algum dissera 
que os badoglistas ficavam por aquelas bandas. Fizeram quilmetros e 
quilmetros a p, fora das estradas, movendo-se apenas de noite e levaram, 
portanto, o dobro de tempo, mas a SS estava em seus calcanhares e era um 
milagre que tivessem conseguido chegar at ns, mendigando comida em 
algumas casas, correndo sempre o risco de esbarrar em gente que serve de 
espia, comunicando-se como podiam porque rodos mastigavam um pouco de 
alemo, mas s um sabia italiano. 

Quando perceberam que a SS os descobrira e estava para alcan-los, 
subiram no dia seguinte para San Martino, pensando que l podiam fazer 
frente a um batalho poi alguns dias e depois se tinham que morrer, melhor 
morrer como bravos. E tambm porque algum disse que havia por l um 
certo Talino que conhecia um outro que poderia ajud-los. Agora no eram 
mais que um bando de desesperados. Chegaram em San Martino  noite e 
encontraram o tal Talino que disse, no entanto, que havia l uma famlia de 
fascistas, e numa aldeia com to poucas casas todo mundo logo fica sabendo de 
tudo. A nica coisa que lhe ocorreu foi abrig-los na casa paroquial. O padre 
os recebeu, no por motivos polticos e nem por simples bom corao, mas 
porque compreendeu que deix-los circulando por ali era pior que 
escond-los. Mas no podia mant-los ali por muito tempo. No tinha o 
suficiente para alimentar oito pessoas e estava amarelo de medo, pois quando 
os alemes chegassem, logo iam revistar as casas, a paroquial inclusive. 

"Rapazes, tentem entender", dizia o proco, "vocs tambm leram o 
manifesto de Kesselring, eles pregaram em toda parte. Se forem encontrados 
aqui, queimam a cidade inteira, e se eles atirarem, seremos todos mortos." 

Infelizmente, ns tambm vramos o manifesto do feldmarechal 
Kesselring e mesmo sem manifesto todo mundo sabia que a SS no era dada a 
sutilezas e j queimara vrias cidades. 

 

"E ento?", perguntou Gragnola. 

"Ento, tendo em vista a nvoa que, por graa de Deus, caiu sobre ns, e 
tendo em vista que os alemes no conhecem o lugar, algum de Solara ter 
que ir buscar os benditos cossacos, traz-los para baixo e lev-los at os 
badoglistas." 

"E por que ns, de Solara?" 

"Primeiro, a bem da verdade, porque se eu falar com algum de San 
Martino, o boato comea a circular, e nos tempos que correm, quanto menos 
boatos circularem, melhor. Segundo, porque os alemes controlam a estrada e 
por ali ningum passa. Portanto, no resta seno passar pelo Vallone." 

Ao ouvir nomearem o Vallone todos disseram que estavam doidos, com a 
nvoa que havia, e perguntavam por que o tal de Talino no desce, e coisas do 
gnero. Mas o maldito padre, depois de lembrar que Talino tinha mais de 
oitenta anos e no descia de San Martino nem quando tinha sol, acrescentou 
- e eu acho que era para se vingar das palpitaes que lhe causamos, ns do 
Oratrio: "Os nicos que sabem como se anda pelo Vallone, mesmo quando 
tem neblina, so os seus tapazes. J que aprenderam essa diabrura s para 
traquinagens, que pelo menos uma vez usem seus talentos para uma boa causa. 
Desam os cossacos com a ajuda de um dos seus meninos." 



A "Ratto del nolo appdlo ind!ri7;Ato dal Ff Idmarv&dallo 
Kcuclrinj agti Italian!, lo sfesso FeldmareKiallo ha ora Impartilo 
alk propric trappe 1 .*.>:tiPti orJ.ni 

1. - Iniziare nella forma pi enrgica l'azione contro le 
bande annate dl ribelli, contre  sabotatori cd i criminali che 
comunque con la loro opera deletria intralciano Ia 
condotta delia guerra e (urbano 1'ordinc e la sicurezza 
pubblica. 
2. - Costiluire una perccntuale di ostaggi in quelle 
localit dove risuitano esistere bande arniate e pas-sarc per 
le armi detti ostaggi tutte le volte che ncllc localit Stesse si 
verilicassero atti di sabotaggio. 
3. - Compiere atti di rappresaglia fino a bruciare le 
abitaztoni poste nelle zone da dove siano stati sparati colpi 
di arma da fuoco contro reparti o singoti militari germamei. 
4. - Impiccarc nellc pubbliche piazze quegli dementi 
ritenuti rcsponsabi di omicidi o capi di bande armate. 
5. - Rendere responsabi gli abitanti di quei paesi dove 
si verificassero interruzioni di lince tclcgrafiche o 
telefoniche nonch atti di sabotaggi rctatvi alla 
cirolazionc stradale (spargimento di rottami di vetro, 
chiodi o altro, su piani stradali, danneggamento di ponti, 
ostruzioni delle strade). 



"Cristo", disse Gragnola, "mesmo que o fizssemos, quando chegarem l, o 
que fazer com eles? Se estiverem em Solara na segunda-feira de manh, sero 
encontrados conosco, no com vocs, de modo que  a nossa casa que vo 
queimar?" 

No grupo estavam tambm Stivulu e Gigio, os dois que foram com meu 
av e Masulu dar leo de rcino ao Merlo, e logo se viu que eles tambm 
tinham alguma relao com a Resistncia. "Calma", disse Stivulu, que era mais 
esperto, "os badoglistas esto nesse momento em Orbegno, e at l nem as 
Brigadas Negras nem a SS conseguiram chegar, porque esto no alto e podem 
controlar todo o vale com suas metralhadoras inglesas, que so uma 
canhonada s. Daqui a Orbegno, mesmo com nvoa, algum que conhece a 
estrada como o Gigio, na caminhonete de Bercelli, que mandou colocar faris 
especiais, chega em duas horas. Digamos trs porque j est escurecendo. 
Agora so cinco, Gigio chega l s oito, d o aviso, eles descem um pouco mais 
e esperam na bifurcao para Vignoletta. Depois a caminhonete volta mais ou 
menos s dez, digamos onze, e fica escondida no bosque ao p do Vallone, 
onde fica a capelinha da Madona. Um de ns, depois das onze, sobe pelo 
Vallone, pega os cossacos na casa paroquial, desce com eles at a caminhonete 
e antes que amanhea eles j estaro com os badoglistas." 

"E vamos fazer toda essa ciranda, arriscando a pele por quatro mamelucos, 
calmucos ou mongis que sejam que at ontem estavam com a SS?", perguntou 
algum de cabelos vermelhos que acho que se chamava Migliavacca. 

"Ora, rapaz, eles mudaram de idia", disse Gragnola, "e j  uma boa coisa, 
e so oito marmanjos que atiram bem e portanto podem servir, nada de 
histrias." 

"Podem servir aos badoglistas", carregou Migliavacca. 

"Badoglistas ou garibaldinos, so todos combatentes da liberdade, e como 
sempre se disse, as contas se ajustam depois, no antes. Temos que salvar os 
cossacos." 

"Voc tem razo. Depois so cidados soviticos e, portanto, da grande 
ptria do socialismo", disse um certo Martinengo, que no entendera bem toda 
aquela reviravolta. Mas eram meses em que acontecia de tudo, como a histria 
de Gino, que era das Brigadas Negras, e dos mais fanticos, depois acabou 
fugindo para se juntar aos partigiani reaparecendo com o leno vermelho e 
que, como no tinha nenhum critrio, apareceu por causa de uma moa 
quando no devia e foi pego pelas Brigadas Negras, que o prenderam e fuzi-
laram em Asti certa manh ao amanhecer. 

"Resumindo, d para fazer", disse Gragnola. 

"S que tem um problema", falou Migliavacca. "Como disse o reverendo, 
para subir pelo Vallone s os meninos e eu no botaria um menino no meio de 
uma coisa to delicada.  parte o bom senso,  fcil que depois eles saiam por 
a falando." 

"No", disse Stivulu. "Por exemplo est aqui o Yambo, que ningum 
percebeu mas j estava ouvindo tudo. Se o av dele souber que estou dizendo 
isso, me mata, mas Yambo anda pelo Vallone como se fosse sua casa e  um 
menino no s de juzo, como tambm daqueles que no falam, boto a mo no 
fogo, e depois a famlia dele pensa como ns e portanto no tem perigo." 

 

Fiquei coberto de suor frio e comecei a dizer que j era tarde e que j 
estavam me esperando em casa. 

Gragnola puxou-me de lado e disse um monte de coisas bonitas. Que era 
pela liberdade e para salvar oito pobres desgraados, que at na minha idade se 
pode ser heri, que no fim das contas eu j andara pelo Vallone tantas vezes 
que aquela no seria diferente das outras, salvo que havia oito cossacos para 
carregar, e ateno para no perd-los no caminho porque os alemes estavam 
l no fundo da ladeira esperando como um monte de babacas, mas que no 
sabiam nem onde ficava o Vallone, que ele viria comigo, embora doente, pois 
dianre do dever no fugia, que no amos s onze, mas  meia-noite, quando 
meus parentes j estariam dormindo e eu podia escapulir sem que ningum 
notasse e na manh seguinte me veriam na cama como se nada tivesse 
acontecido. E continuava a me hipnotizar dessa maneira. 

No final eu disse que sim. No fundo era uma aventura que eu poderia, 
depois, contar por a, uma coisa de partigiano, uma daquelas proezas que 
nem mesmo Gordon realizava na floresta de Ar-bria. Nem sequer 
Tremal-Naik na Floresta Negra. Melhor que Tom Sawyer na caverna 
misteriosa. Que por selvas assim nem a Patrulha do Marfim ousou se 
aventurar. Enfim, seria o meu momento de glria, e era pela Ptria, a boa, no 
a errada. E sem andar por a me pavoneando, de bandoleira e Sten, sem 
armas, de mos nuas como Dick Fulmine. Enfim, tudo o que j lera agora 
voltava direitinho. E se eu tinha que morrer, veria finalmente os fios da relva como troncos. 

Mas como era um menino sensato deixei as coisas bem claras com 
Gragnola. Ele dizia que para carrregar oito cossacos corria-se o risco de 
perd-los pelo caminho, portanto precisava de uma corda longa para nos 
amarrar como fazem os alpinistas, assim um seguia o outro mesmo que no 
visse aonde ia. Eu dizia que no, que com uma corda assim o primeiro que cai 
arrasta todos os outros consigo. Eram necessrios dez pedaos de corda: cada 
um seguraria tanto a ponta da corda de quem estava na frente quanto a de 
quem estava atrs, assim, se sentisse que algum caa, podia pelo menos largar 
a corda do seu lado, pois  melhor um que todos. Voc  esperto, disse 
Gragnola. 

Perguntei todo excitado se ele estaria armado e ele disse que no, primeiro 
porque no seria capaz de fazer mal a uma mosca, depois porque, Deus queira 
que no, se houvesse um confronto os cossacos estavam armados e, enfim, se 
por um maldito acaso o prendessem, ele estaria desarmado e talvez isso 
evitasse que o pusessem imediatamente no paredo. 

Fomos at o padre para dizer que concordvamos, que deixasse os cossacos 
de prontido depois da uma da madrugada. 

Por volta das sete voltei para casa para jantar. O encontro seria  
meia-noite na capelinha da Madona, e para chegar l eram necessrios 
quarenta e cinco minutos a passos largos. "Voc tem relgio?", perguntou 
Gragnola. "No, mas s onze, quando todos vo se deitat, eu vou para a sala de 
jantar onde fica o pndulo." 

Jantar em casa com a cabea em chamas, fingir, depois do jantar, que ouve 
rdio e examina os selos. O problema  que meu pai, que com toda aquela 
nvoa no se arriscou a ir para a cidade, esperando poder partir na manh 
seguinte, estava presente. Mas foi deitar bem cedo, e mame junto com ele. 
Ser que faziam amor, meus pais, naquela poca, depois dos quarenta anos? 
Isso eu pergunto agora. A sexualidade do pai e da me, creio eu,  sempre um 
mistrio para todos, e a cena primria  uma inveno de Freud. Imagine se 
iam se deixar ver. Mas lembro de uma conversa de minha me com algumas 
amigas, no comeo da guerra, quando ela devia ter passado dos quarenta h 
pouco (eu a ouvira dizer com forado otimismo "no fundo, a vida comea aos 
quarenta"); "Ah, o meu Duilio fez a parte dele no seu tempo..." Quando? At o 
nascimento de Ada? E depois, meus pais no copulavam mais? "Sabe-se l o 
que Duiio apronta sozinho na cidade com a secretria de sua empresa", 
brincava minha me de vez em quando na casa de meu av. Mas dizia isso 
para rir. Ter meu pobre pai apertado a mo de algum na hora dos bom-
bardeios para manter o moral? 

s onze, a casa imersa em silncio, eu estava na sala de jantar, no escuro. 
De vez em quando acendia um fsforo para ver o pndulo. s onze e quinze 
deslizei pela porta, dirigindo-me na nvoa para a capela da Madona. 

 

O medo toma conta de mim. Agora ou na poca? Vejo imagens que no 
tm nada a ver. Talvez as masche existam mesmo. Espe-rando-me atrs de 
um esboo de touceira que no dava para ver na neblina; estariam l, primeiro 
insinuantes (quem disse que aparecem como velhas desdentadas? Talvez 
usassem saias com fendas), depois apontariam suas metralhadoras contra mim, 
dissolvendo-me em uma sinfonia de furos avermelhados. Vejo imagens que 
no tm nada a ver.,. 



 

 

Gragnola estava l e lamentava-se pelo atraso. Percebi que tremia. Eu no. 
Eu agora estava no meu ambiente. 

Gragnola passou-me a ponta da corda e comeamos a caminhar Vallone 
acima. 

 

O mapa estava na minha cabea, mas Gragnola dizia, a cada passo, ai meu 
Deus que estou caindo, e eu o confortava. Eu era o chefe. Sabia muito bem 
como andar na selva quando os thugs de Suyo-dhana o acossam. Movia os ps 
como quem segue a partitura de uma msica, acho que  isso que um pianista 
faz - digo, com as mos, no com os ps - e no errava um passo sequer. Mas 
ele, embora me seguisse, tropeava a toda hora. Tossia. Tinha que me virar 
para pux-lo pela mo. A nvoa era densa, mas se ficssemos a meio metro um 
do outro podamos nos ver. Puxava a corda e Gragnola emergia de vapores 
que de espessos tornavam-se rarefeitos de uma hora para outra e ele surgia de 
repente como um Lzaro que se libertasse do sudrio. 

A subida durou uma boa hora, mas estvamos na mdia. S recomendei a 
Gragnola que tomasse cuidado quando chegssemos  pedra. Se em vez de 
contorn-la retomando o caminho reto, ele virasse  esquerda por engano por 
causa de algum pedregulho sob os ps, acabaria no barranco. 

Chegamos l em cima, na abertura da mureta, e San Martino era uma coisa 
nica e invisvel. Vamos reto, disse eu, e tomamos a estradinha. Contando 
vinte passos estaremos na porta da casa paroquial. 

Batemos na porta segundo o combinado, trs batidas, uma pausa e mais 
trs batidas. Quem abriu foi o padre, de uma palidez poeirenta como as 
clematites ao longo da estrada, no vero. Os oito cossacos estavam l, armados 
como bandoleiros e assustados como crianas. Gragnola falou com o que sabia 
italiano. Falava bastante bem, exceto por um sotaque esquisito, mas como se 
deve fazer com os estrangeiros, Gragnola lhe falava no infinitivo. 

"Voc ir na frente de seus homens e seguir o menino e eu. Voc dizer aos 
outros o que eu dizer e eles fazer o que eu dizer. Entendeu?" 

"Entendi, entendi. Estamos prontos." 

O padre, que estava a ponto de se borrar todo, abriu a porta 
encaminhando-nos para a estradinha. Mas bem naquele momento 
ouviram-se, distantes, vindas do lado onde a estrada desemboca na 
cidadezinha, vozes teutnicas e um latir de ces. 

"Droga de Deus", disse Gragnola, mas o padre no deu ateno. "Chegaram 
os boches e esto com os ces, que no esto nem a para a nvoa porque 
seguem no faro. Porca misria, o que a gente vai fazer?" 

O chefe dos cossacos disse: "Sei como eles fazem. Um co para cada cinco. 
Ns seguimos como combinado, talvez encontremos algum sem cachorro." 



"Rien ne vasplus \ disse Gragnola, que era culto. "Vamos devagar. E 
atirar s se eu mandar. Preparar lenos ou trapos e outras cordas." Depois 
explicou-me: "Seguimos pela estradinha e paramos na esquina. Se no tiver 
ningum, num pulo estaremos na mureta e pronto. Se chegar algum e se 
estiverem com os ces, nos fodemos. No pior dos casos, atiramos neles e nos 
ces, vai depender de quantos forem. Mas se estiverem sem ces, deixamos 
que passem, pegamos eles por trs, amarramos e enfiamos os trapos na boca de 
cada um, assim no podero gritar." 

"E depois deixamos l mesmo?" 

"Gnio. Claro que no, carregamos eles pelo Vallone, no podemos fazer 
outra coisa." 

Explicou rapidamente as coisas para o cossaco, que repetiu para os outros. 

O padre nos deu alguns trapos e cordes dos paramentos sagrados. Vo, 
vo, dizia, e que Deus os proteja. 

Adentramos a estradinha. Da esquina ouviam-se as vozes dos alemes 
provenientes da esquerda, mas sem latidos ou uivos de ces. 

Encolhemo-nos atrs da esquina. Ouviam-se dois deles que se 
aproximavam falando entre si, provavelmente imprecando porque no 
conseguiam ver aonde estavam indo. "So s dois", explicou Gragnola por 
sinais. "Vamos deixar passar e depois, em cima deles." 

Os dois alemes, que foram mandados para revistar aqueles lados enquanto 
os outros circulavam com os ces pela praa, avanavam quase s apalpadelas 
com os fuzis apontados, mas no viram nem a esquina e passaram direto. Os 
cossacos pularam sobre as duas sombras e mostraram que sabiam fazer seu 
trabalho. Depois de um segundo, os dois estavam no cho com um trapo na 
boca, seguros cada um por dois daqueles danados, enquanto um terceiro 
amarrava suas mos nas costas. 

"Pronto", disse Gragnola. "Agora voc, Yambo, joga os fuzis do outro lado 
da mureta e vocs vo empurrar os alemes atrs de ns dois, por onde ns 
andarmos." 

Eu estava aterrorizado, mas agora o chefe era Gragnola. Passar a mureta foi 
fcil, Gragnola distribuiu as cordas. S que, excero o primeiro e o ltimo, cada 
um ia ficar com as duas mos ocupadas, uma pela corda da frente e outra pela 
de trs. Mas quem tivesse que guiar os dois alemes amarrados no poderia 
segurar a sua corda e nos primeiros dez passos o grupo seguiu aos 
trambolhes, at que nos enfiamos no primeiro matagal. Nessa altura 
Gragnola tentou reorganizar a fileira, os dois que puxavam os alemes 
amarraram a prpria corda no cinturo de seu prisioneiro, os dois que os em-
purravam seguravam-nos pelo colete com a mo direita e com a esquerda 
agariavam a corda do companheiro seguinte. Mas assim que comeamos a nos 
mover de novo um dos alemes tropeou e caiu em cima do guardio que o 
precedia, levando consigo aquele que o segurava e a cadeia se desfez. Os 
cossacos sibilavam entre os dentes coisas que na casa deles deviam ser 
blasfmias, mas tinham o bom senso de no gritar. 

Um dos alemes, depois da primeira queda, tentou se levantar e afastar-se 
do grupo, dois cossacos correram atrs dele e quase o perdem - se no fosse o 
fato de que ele tambm no sabia onde enfiar as botas e depois de uns poucos 
passos escorregou com a cara para baixo e foi pego. Na correria caiu-lhe o 
capacete. O chefe dos cossacos nos fez entender que no poderamos deix-lo 
ali porque se os ces viessem poderiam seguir o cheiro e nos encontrar no 
faro. S naquele momento percebemos que o segundo alemo estava de cabea 
descoberta. "Deus do cu", murmurou Gragnola, "o capacete deve ter cado 
quando os pegamos na viela, se chegarem l com os ces eles vo ter um 
rastro!" 

Nada a fazer. E de fato percorremos mais alguns metros antes de ouvir 
vozes que vinham do alto e o latido dos ces. "Chegaram  viela, os animais 
farejaram o capacete e esto dizendo que viemos nessa direo. Calma e 
sangue-frio. Primeiro eles tm que reconhecer o terreno e para quem no sabe 
no  fcil. Depois, tm que descet. Se os ces no confiam e seguem devagar, 
eles tambm descero devagar. Se os ces vo depressa, no vo conseguir 
segur-los e vo dar com a bunda no cho. Eles no tm voc. Yambo, v na 
frenre o mais rpido que puder, coragem." 

"Vou tentar, mas estou com medo." 

"No, no est com medo, s nervoso. Respira bem fundo e vai embora." 

Estava para me borrar todo como o padre, mas sabia que tudo dependia de 
mim. Cerrei os dentes, naquele momento preferia ser Giraffone ou Jojo, mais 
que Romano, o legionrio; Horcio ou Cla-rabela, mais que Mickey na casa 
dos fantasmas; seu Pampurio em seu apartamento mais que Flash Gordon nas 
paludes de Arbria, mas quem est na chuva tem que se molhar. Lancei-me 
Vallone abaixo o mais rpido que podia, repetindo mentalmente os passos. 

Os dois prisioneiros retardavam a marcha, porque com os trapos na boca 
respiravam com dificuldade e paravam a cada minuto. Depois de quinze 
minutos bem contados tnhamos chegado  pedra e eu sabia ro bem que 
tinha que estar l que a toquei com as mos esticadas antes mesmo de v-la. 
Tnhamos que circund-la ficando bem pertinho, porque mais  direita ficava 
a margem e cairamos. Ainda se ouviam distintamente as vozes do alto, mas 
no dava para entender se era porque os alemes gritavam mais alto para 
incitar os ces renitentes ou se tinham ultrapassado a mureta e estavam se 
aproximando. 

Ouvindo as vozes dos companheiros, os dois prisioneiros estavam 
tentando empurrar, e quando no caam de verdade, fingiam, tentando rolar 
de lado, sem medo de se machucar. Perceberam que no podamos atirar neles 
para que no nos ouvissem e que, onde quer que fossem parar, os ces 
poderiam pesc-los de volta. No tinham mais nada a perder e, como todos 
que no tm nada a perder, tornaram-se perigosos. 

De repente ouvimos algumas rajadas. Como no conseguiam descer, os 
alemes resolveram atirar. Porm, antes de qualquer coisa, tinham diante 
deles o Vallone num ngulo de quase cento e oitenta graus e no sabiam onde 
estvamos, disparando, portanto, em todas as direes. Ademais, no tinham 
uma idia clara de como o Vallone descia rapidamente e atiravam quase na 
horizontal. Quando conseguiam disparar na nossa direo ouvamos as balas 
assobiarem sobre nossas cabeas. 

"Vamos, vamos", dizia Gragnola, "de qualquer jeito, no vo conseguir nos 
pegar." 

Mas os primeiros alemes devem ter comeado a descer e a avaliar a 
inclinao do terreno, e os ces apontavam uma direo precisa. Agora 
atiravam para baixo e mais ou menos na nossa direo. Ouvia-se nas moitas o 
zumbido das balas que caam perto de ns. 

"No medo", disse o cossaco, "conheo a Reichweite das Maschinen 
deles." 

"O alcance dessas metralhadoras", sugeriu Gragnola. 

"E, isso. Se no descerem mais e ns andarmos depressa, as balas no 
chegam mais em cima de ns. Logo, rpido." 

"Gragnola", disse eu  beira das lgrimas, sentindo um desejo enorme de 
minha me, "posso andar mais rpido, mas vocs no. 

No podem carregar esses dois,  intil que eu siga adiante como um cabrito, 
porque eles nos fazem perder tempo. Vamos deix-los aqui, seno juro que me 
desabalo vale abaixo por conta prpria!" 

"Se os deixarmos aqui, vo se livrar em dois tempos e chamar os outros", 
disse Gragnola. 

"Eu mato eles com a coronha da arma, no faz barulho", sibilou o cossaco. 

A idia de matar aqueles dois desgraados gelou-me o sangue e levantei 
ouvindo Gragnola que rosnava: "No d, Deus, mesmo que os deixemos aqui 
mortos, os ces vo descobri-los e os outros vo ficar sabendo que caminho 
tomamos", e na excitao no falava mais no infinitivo. "S h um jeito, fazer 
com que caiam numa direo que no  a nossa, assim os cachorros vo para l 
e ns ganhamos uns dez minutos, talvez at mais. Yambo, aqui  direita no 
fica a falsa trilha que leva para o penhasco? Bem, vamos jog-los de l, voc 
disse que quem vai por ali no percebe a escarpa e cai sem saber como, assim 
os ces arrastaro os alemes para o fundo. Antes que se recuperem da queda 
ns estaremos no vale. Quem cai dali morre, no ?" 

"No, no falei que quem cai morre com certeza. Quebra os ossos, se tiver 
azar bate com a cabea..." 

"Porra, como  que voc primeiro diz uma coisa, depois outra. Desse jeito 
as cordas podem se solrar durante a queda e eles ainda podem chegar l 
embaixo com flego suficiente para gritar avisando os outros para tomarem 
cuidado!" 

"E portanto devem cair quando j estiverem mortos", comentou o cossaco, 
que sabia como as coisas se passavam nessa droga de mundo. 

Eu estava pertssimo de Gragnola e podia ver seu rosto. Se alguma vez ele 
foi plido, agora estava mais btanco que nunca. Com os olhos revirados para 
cima, como se buscasse inspirao no cu. Naquele momento ouvimos um frr 
frr de balas que passavam perto da altura de um homem, e um dos alemes 
deu um empurro no seu guarda caindo ambos no cbo e o cossaco comeou a 
se lamentar porque ele lhe dava cabeadas nos dentes, jogando o tudo ou nada 
e tentando armar barulho. Foi naquele momento que Gragnola se decidiu e 
disse: "Ou eles ou ns. Yambo, virando  direita quantos passos tenho que dar 
at chegar  borda?" 

"Dez passos, dez dos meus, oito, digamos, dos seus, depois esticando o p j 
se sente o declive. Do incio do declive at a borda so quatro passos. Por 
prudncia, conte trs." 

"Ento", disse Gragnola dirigindo-se ao chefe, "eu vou na frenre, dois de 
vocs arrastam os boches, segurem forte pelos ombros. Os outros ficam aqui e 
esperam." 

"O que vai fazer?", perguntei batendo os dentes. 

"Quieto e calado. Estamos em guerra. Espere aqui voc tambm.  uma 
ordem." 

Desapareceram  direita da pedra, absorvidos pelo fiimifkgium. 
Esperamos alguns poucos minutos, ouvimos um rolar de pedras e alguns 
tombos, depois Gragnola e os dois cossacos reapareceram sem os alemes. 
"Vamos", disse Gragnola, "agora podemos prosseguir mais depressa." 

Colocou uma mo em meu brao, senti que tremia. Quando chegou mais 
perto pude v-lo: estava com um suter at o pescoo e agora o estojo com o 
bisturi pendia sobre seu peito, como se o tivesse tirado. "O que fez com eles?", 
perguntei chorando. 

"No pense nisso, est certo assim. Os ces vo sentir o cheiro de sangue e 
arrastaro os outros para l. Estamos salvos, siga adiante." 

E vendo que eu tinha os olhos esgazeados: "Ou eles ou ns. Dois contra 
dez. E a guerra. Vamos." 

Depois de quase meia hora, sempre ouvindo gritos raivosos e lamentosos 
vindos do alto, mas no na direo da nossa descida e cada vez mais distantes, 
chegamos ao fundo do Vallone, na estrada. No muito longe a caminhonete 
de Gigio esperava no bosque. Gragnola mandou que os cossacos subissem. 
"Vou com eles para ter certeza de que chegaro at os badoglistas", disse. 
Tentava no me olhar e tinha pressa de ver-me partir. "Pegue por ali e volte 
pata casa. Foi muito corajoso. Merecia uma medalha. E no pense no resto. 
Voc cumpriu o seu dever. Se algum tem alguma culpa nisso tudo, sou eu." 

 

Cheguei em casa suado, com aquele frio, e exausto. Refugiei-me em meu 
quartinho e gostaria de ter passado a noite em claro, mas foi pior, adormecia 
esgotado por uns poucos minutos de cada vez e via tios Gaetanos que 
danavam com a garganta corrada. Talvez estivesse com febre. Preciso me 
confessar, preciso me confessar, dizia a mim mesmo. 

Mas a manh seguinte foi pior. Tive que acordar mais ou menos  mesma 
hora que os outros para cumprimentar meu pai que parria e mame no 
entendia por que estava to lerdo. Algumas horas mais tarde Gigio chegou e 
foi logo confabular com meu av e Masulu. Quando estava saindo fiz um sinal 
para que fosse me encontrar na vinha, ele no podia me esconder nada. 

Gragnola acompanhou os cossacos at os badoglistas e depois, com Gigio e 
o caminho, voltou para Solara. Os badoglistas disseram que no podia andar 
de noite desarmado: sabiam que um destacamento das Brigadas Negras estava 
em Solara dando uma mo a seus camaradas. Deram-lhe um mosquete. 

Entre ir e voltar da bifurcao de Vignoletta levaram umas trs horas ao 
todo. Devolveram a caminhonete  granja do Bercelli e tomaram a estrada 
para Solara. Pensavam que rudo estivesse acabado, no se ouvia nenhum 
rumor e seguiam tranqilos. Pelo que dava para perceber naquela nvoa, 
estava quase amanhecendo. Depois de toda aquela tenso encorajavam-se 
mutuamente com tapinhas nas costas e fazendo barulho. Foi assim que no 
perceberam que os Brigadas Negras estavam acoitados num fosso e foram 
apanhados a dois quilmetros da cidade. Pegos com as armas em cima no 
podiam contar lorotas. Foram jogados dentro de um furgo. Eram apenas 
cinco, dois na frente, dois dentro vigiando-os e um de p no pra-choque 
dianteiro para enxergar melhor na nvoa. 

No foram nem amarrados, de qualquer modo os dois vigias estavam 
sentados com as metralhadoras nos joelhos e eles foram jogados no fundo 
como dois sacos. 

A certa altura Gigio ouviu um barulho estranho, como se um tecido se 
rasgasse e sentiu um lquido viscoso respingar-lhe a cara. Um dos fascistas 
ouviu um estertor, acendeu uma lanterna e viu Gragnola com a garganta 
dilacerada e o bisturi na mo. Os dois fascistas deram de blasfemar, mandaram 
parar o furgo e, com a ajuda de Gigio, retiraram Gragnola para um lado da 
estrada. Estava morto, ou estava para morrer, espalhando sangue por todo 
lado. Os outros trs desceram tambm e cada um botava a culpa no outro, 
diziam que no podia ter empacotado daquele jeito porque no comando iam 
faz-lo falar e agora iam prender todos eles, idiotas que no amarraram os 
presos. 

Enquanto berravam diante do corpo de Gragnola, esqueceram-se de Gigio 
por um instante, e ele, naquela confuso, pensou  agora ou nunca. Jogou-se 
de lado, alm do fosso, sabendo que havia ali um declive. Comearam a atirar 
aqui e l, mas ele rolou at embaixo como uma avalanche, jogando-se em 
seguida num matagal. Com aquela nvoa era como procurar agulha num 
palheiro e os fascistas no tinham interesse em armar muito barulho, porque 
era evidente que agora teriam que esconder o cadver de Gragnola e voltar ao 
comando fazendo de conta que no tinham pego ningum naquela noite, para 
no ter problemas com os chefes. 

Naquela manh, depois que as Brigadas Negras partiram para se juntar aos 
alemes, Gigio levou alguns amigos ao local da tragdia e, depois de procurar 
um pouco nos fossos, encontraram Gragnola. O padre de Solara no queria 
aceitar o corpo na igreja porque Gragnola era um anarquista e todos j sabiam 
que era um suicida, mas dom Cognasso mandou que o levassem para a 
igrejinha do Oratrio, pois o Senhor conhece as regras certas melhor que seus 
sacerdotes. 

Gragnola estava morto. Salvou os cossacos, deixou-me em segurana, 
depois morreu. Sabia muito bem como as coisas unham se passado, ele me 
antecipara muitas vezes. Era um covarde e temia, se o torturassem, contar 
tudo, dar nomes e mandar seus companheiros para a morte. Assim, sguisss, 
como eu tinha certeza que fizera com os dois alemes, e talvez como 
compensao. A morte corajosa de um covarde. Pagou o nico ato de 
violncia de sua vida, pagando assim tambm o remorso que carregava 
consigo e que devia ser insuportvel. Enganou todo mundo, fascistas, alemes 
e Deus, em uma nica tacada. Sguisss. 

E eu estava vivo. No conseguia me perdoar. 

 

Tambm nas lembranas a nvoa comeava a se desfazer. Vejo agora os 
partigiani que enttam vitoriosos em Solara, dia 25 de abril chega tambm a 
notcia da libertao de Milo. Gente enxameando pelas ruas, os partigiani 
atiram para cima, chegam empoleirados nos pra-lamas de seu furges. Alguns 
dias depois vejo chegar pela alameda de castanheiros, de bicicleta, um soldado 
vestido de verde-oliva. Explica que  brasileiro e segue alegremente para 
explorar aqueles locais exticos. At os brasileiros estavam com os ingleses e 
americanos? Nunca me disseram nada. Drle de guerre. 

Passa-se uma semana e chega o primeiro destacamento americano. Todos 
negros. Instalam-se com suas barracas no ptio do Oratrio e fao amizade 
com um sargento catlico que me mostra uma imagem do Sagrado Corao 
que ele traz sempre no bolso, d de presente alguns jornais com as tiras de Li'1 
Abner e DickTracy e uns chewing-gums que fao durar longamente tirando 
o bolo da boca  noite e colocando num copo d'gua como os velhos fazem 
com a dentadura. Em troca me d a entender que quer comer espaguete, e eu 
o convido para vir l em casa onde tenho certeza que Maria h de lhe preparar 
at uns agnootti com molho de lebre. Mas quando chegamos o sargento v 
que no jardim est sentado um outro negro, com divisas de major. Pede 
desculpas e parte, desapontado. 

Os americanos procuravam hospedagem decente para seus oficiais, e 
pediram tambm a meu av, e a famlia ps  disposio 

 

um belo quarto na ala esquerda, bem ali onde Paola instalou depois o nosso 
quarto. 

O major Muddy  gordinho, com um sorriso de Louis Armstrong, e 
consegue se fazer entender por meu av; de resto, sabe algumas palavras em 
francs, a nica lngua estrangeira que as pessoas educadas daquela poca 
conheciam, e em francs fala com mame e com as outras senhoras dos 
arredores que chegam na hora do ch para ver o libertador - at aquela 
fascista que odiava o meeiro. Todos ao redor de uma mesinha no jardim, 
aparelhada com o melhor servio, perto das dlias. O major Muddy diz "mersi 
bocu" e "oui, madam, moi ossi j'aime le champm". Comporta-se com a 
afetao formal de um negro que finalmente  recebido em casa de brancos, e 
alm do mais de boa condio. As senhoras sussurram entre si, vejam que 
gentileza e dizer que eram pintados como selvagens embriagados. 

 

Chega a notcia de que os alemes se renderam, Hitler est morto. A 
guerra acabou. Em Solara fazem uma grande festa pelas ruas, abraam-se, 
alguns danam ao som de um acordeo. Meu av decidiu que voltamos 
imediatamente para a cidade, embora o vero j esteja comeando, porque de 
campo todos j tivemos o suficiente... 

Saio da tragdia, no meio de uma multido de pessoas radiantes, com a 
imagem dos dois alemes que mergulham no penhasco e de Gragnola, virgem 
e mrtir, por medo, por amor e por despeito. 

 

No tenho coragem de procurar dom Cognasso para confessar... o qu, 
alis? O que no fiz, e nem vi, mas apenas adivinhei? No tendo nada para me 
fazer perdoar, tambm no posso ser perdoado. O bastante para que me sinta 
danado para sempre. 

17.0 JOVEM PREVENIDO 

 

 

Oh, sinto tanto tormento e dor I ao pensar que o ofendi  
Senhor... Ensinaram-me no Oratrio ou costumava cant-la j na cidade? 

Na cidade reacendem-se as luzes noturnas, as pessoas recomeam a andar 
pelas ruas  noite, a beber cerveja ou tomar sorvere depois do trabalho ao 
longo do rio, inauguram-se os primeiros cinemas ao ar livre. Estou s, sem os 
amigos de Solara, e ainda no reencontrei Gianni, que s vou ver no reincio 
das aulas. Saio com meus pais,  noitinha, e no me sinto  vontade, porque 
no seguro mais suas mos, mas ainda no me afasto sozinho. Em Solara eu era 
mais livre. 

Vamos muito ao cinema. Descubro novos modos de lutar a guerra com 
Sargento York e A cano da vitria, onde o sapateado de James Cagney 
me revela a existncia da Broadway. Im Yankee Doodle Dandy... 

 

Conhecera o sapateado nos velhos filmes de Fred Astaire, mas o de Cagney 
 mais violento, liberatrio, assertivo. O de Fred Astaire era diverttssement, 
este eu o sinto como empenho e, de fato,  at patritico. Um patriotismo que 
se exprime no sapateado  uma revelao, chtquettes em vez de granadas e 
uma flor na boca. E alm disso, o fascnio do palco como modelo do mundo e 
da inexorabilidade do destino, the show must go on. Educo-me para um 
mundo novo em musicais que chegam com atraso. 

 

 Casablanca. Victor Laszlo que canta a Marselhesa... Logo, vivi minha 
tragdia do lado certo... Rick Blaine que atira no major Strasser... Gragnola 
unha razo, guerra  guerra. Por que Dick teve que abandonar Usa Lundf 
Ento no se deve amar? Sam  certamente o major Muddy, mas quem  
Ugarte?  Gragnola, perdido e desventurado covarde que no final ser pego 
pelas Brigadas Negras? No, por seu risinho sarcstico deveria ser o capito 
Renault, mas depois ele se afasta na nvoa com Rick para juntar-se  
Resistncia em Brazzaville e vai alegremente ao encontro de seu destino com 
um amigo... 

 
Gragnola, porm, no poder seguir-me no deserto. Com Gragnola vivi, 
no o incio, mas o fim de uma bela amizade. E para sair de minhas 
lembranas no tenho salvo-condutos. 

As bancas esto cheias de jornais com novos nomes e revistas provocantes, 
a capa mostra senhorinhas decotadas ou com uma camiseta to esticada que 
modela o bico dos seios. Seios fartos invadem os cartazes cinematogrficos. O 
mundo renasce a meu redor em forma de mamilo. Mas tambm de cogumelo. 
Vejo a foto da bomba que cai em Hiroshima. Aparecem as primeiras imagens 
do Holocausto. Ainda no so os amontoados de cadveres que se viram 
depois, mas as fotos dos primeiros libertados, com os olhos fundos, o peito 
esqueltico com todas as costelas  mostra, o cotovelo enorme que une as duas 
varetas do brao e do antebrao. Da guerra at agora s tive notcias indiretas, 
cifras, dez avies abatidos, tantos mortos e tantos prisioneiros, boatos sobre 
fuzilamentos de partigia-ni da nossa regio, mas, salvo a noite do Vallone, 
no estive mais exposto  viso de um corpo aviltado - e nem naquela noite, 
alis, pois da ltima vez que vi os dois alemes eles estavam vivos, e o resro s 
vivi nos meus pesadelos noturnos. Busco naquelas fotos o rosto do senhor 
Ferrara, que sabia jogar bola de gude, mas mesmo que estivesse, j no poderia 
reconhec-lo. Arbeit machtjrei. 

 

No cinema ri-se com as caretas de Gianni e Pinotto. Bing Crosby e Bob 
Hope chegam com a inquietante Dorothy Lamour, com o saarong de 
costume, viajando para Zanzibar ou Timbuctu (Road to...), e todos pensam, 
como em 1944, que a vida  bela. 

 

Todo meio-dia, de bicicleta, procuro um tipo que faz mercado negro e que 
garante para ns, crianas, todo dia, dois pezinhos de massa branca, os 
primeiros que comeamos a comer depois daqueles espetos amarelados e 
malcozidos que roemos durante alguns anos, feitos de uma fibra filamentosa 
(de farelo, diziam) que s vezes continha um pedao de barbante ou at uma 
barata. Vou de bicicleta pegar o smbolo de um bem-estar que est renascendo 
e paro diante das bancas de jornais. Mussolini pendurado na praa Loreto e 
Cla-retta Petacci com um alfinete de fralda preso na saia entre as duas pernas, 
por alguma mo piedosa que decidiu poup-la dessa ltima vergonha. 
Celebraes por partigiani mortos. No sabia que fuzilaram e enforcaram 
tantos. Aparecem as primeiras estatsticas sobre os mortos da guerra 
recm-terminada. Cinqenta e cinco milhes, dizem. O que  a morte de 
Gragnola diante desse massacre? Deus  realmente mau? Leio sobre o processo 
de Nuremberg, todos enforcados exceto Goering, que se envenena com 
cianureto que a mulher lhe passou ao dar-lhe o ltimo beijo. A carnificina de 
Villarbasse marca o retorno da violncia livre, agora j se pode matar as 
pessoas de novo por puro interesse pessoal. Depois so presos, todos fuzilados 
ao alvorecer. Continuam a fuzilar, sob o signo da paz. Condenada Leonarda 
Cianciuli, que durante a guerra saponificava suas vtimas. Rina Fort massacra 
a marteladas a mulher e os filhos de seu amante. Um jornal descreve a 
brancura de seu seio que enlouqueceu o amante, um homem magro de dentes 
cariados como tio Gaetano. Os primeiros filmes que me levam para ver 
mostram uma Itlia de ps-guerra com inquietantes "senhorinhas", todas as 
noites sob aquele lampio, como antes. Sozinho sigo pela cidade... 

 segunda-feira, manh de feira. Por volta de meio-dia chega o primo 
Possio. Como se chamava? Possio foi Ada quem inventou, dizia que, em vez 
de "posso", ele dizia "possio", o que me parece impossvel. O primo Possio era 
um parente muito distante, mas nos conhecera em Solara e no podia passar 
pela cidade sem vir nos cumprimentar. Todos sabiam que esperava um convite 
para o almoo, pois no podia pagar um restaurante. Nunca entendi que 
trabalho fazia, mais que outra coisa, procurava por um. 

Vejo o primo Possio sorvendo seus raviolini ao caldo de carne sem deixar 
que se perdesse uma gora, com a cara bronzeada e escavada, os poucos cabelos 
cuidadosamente penteados para trs, os cotovelos do palet brilhantes. 
"Entende, Duilio", dizia toda segunda-feira, "no quero um trabalho especial. 
Um emprego, em uma repartio paraestatal, um salrio mnimo. Para mim 
basta uma gota. Mas todo dia uma gota, todo ms trinta gotas." Fazia um gesto 
de ponte dos suspiros, imitava a gota que lhe batia na cabea quase calva, 
deliciava-se com a imagem daquele suplcio benfico. Uma gota, repetia, mas 
todo dia. 

"Hoje quase consegui, fui falar com o Carloni, sabe, aquele do consrcio 
agrrio. Uma potncia. Tinha uma carta de recomendao, voc sabe, hoje em 
dia voc no  ningum sem uma carta de recomendao. Hoje de manh, ao 
partir, comprei um jornal na estao. Duilio, eu no fao poltica, pedi um 
jornal qualquer e depois nem pude ler porque fiquei de p no trem e mal 
conseguia me equilibrar. Dobrei e enfiei no bolso, como se faz com os jornais, 
mesmo que no tenha lido  sempre bom no dia seguinte para enrolar alguma 
coisa. Fui at o Carloni, ele me recebeu todo gentil, abriu a carta, mas vi que 
me olhou enviesado por cima da folha de papel. Depois me liquidou em 
poucas palavras, no h contrataes em vista. Saindo me dei conta de que o 
jornal que tinha no bolso era L'Unita. Sabe, Duilio, que eu concordo com o 
governo, sempre, pedi um jornal qualquer, nem me dei conta. Ele viu L'Unita 
no bolso e me liquidou. Se pegava o jornal do outro lado, a essa hora, quem 
sabe... Quando se nasce desgraado... E destino." 

Na cidade abriram um salo de baile e o heri  o primo Nuccio, que 
escapou do colgio: j  um rapazinho ou, como se diz, um almofadinha (j me 
parecia terrivelmente adulto quando espancava Angelo Orso). Saiu at uma 
caricatura dele no semanrio local, para grande orgulho dos parentes, com ele 
se dobrando em mil contores (como um tio Gaetano, porm mais 
articulado) na dana que enlouquece, o boogie-woogie. Eu ainda sou muito 
pequeno, no tenho coragem e no posso entrar naquela sala, sinto esses 
rituais como uma ofensa a garganta cortada de Gragnola. 

Voltamos bem no comeo do vero e eu me aborreo. Ando de bicicleta, s 
duas da tarde, pela cidade quase deserta. Esgoto-me de espao para suportar o 
tdio daqueles dias mormacentos. Talvez no seja o mormao, mas uma 
grande melancolia que carrego dentro de mim, nica paixo de uma 
adolescncia febril e solitria. 

 

Ando de bicicleta, sem parar, entre as duas e as cinco da tarde. Em trs 
horas se faz o priplo da cidade vrias vezes, basta apenas variar os percursos, 
lanar-se pelo centro em direo ao rio, depois pegar a perimetral, dar 
meia-volta quando se atravessa a provincial que vai para o sul, retomar a 
estrada do cemitrio, dobrar  esquerda antes da estao, refazer o centro, mas 
por ruas secundrias, retas e vazias, entrar na grande praa do mercado, larga 
demais, circundada de prticos e sempre ensolarada, no importa para que 
lado gire o sol, que s duas da tarde esto mais desertos que um Saara. A praa 
est vazia e pode-se atravess-la de bicicleta, seguro de que ningum est 
espiando ou vai cumpriment-lo de longe. Mesmo porque, se passasse l no 
fundo algum conhecido, voc iria v-lo muito pequeno, assim como ele, um 
perfil aureolado de sol. Depois gira pela praa em amplos crculos 
concntricos, como um abutre sem carcaas para espreitar. 



No circulo ao acaso, tenho uma meta, mas a perco muitas vezes e de 
propsito. Vi na banca de jornais da estao uma edio, talvez antiga de 
alguns anos, a julgar pelo preo que parece de antes da guerra, de L'Atlantide 
de Pierre Benoit. Tem uma capa atraente, uma ampla sala com muitos 
convidados de pedra, que me promete uma histria nunca ouvida antes. Custa 
pouco, mas no bolso s tenho aquela quantia e mais nada. s vezes me arrisco 
a chegar  estao, deso, coloco a bicicleta apoiada na calada, entro, 
contemplo o livro por um quarto de hora. Est em uma pequena vitrine e no 
posso abri-lo para intuir o que poderia me oferecer. Na quarta visita o 
jornaleiro me olha com suspeita, e tem todo o tempo que precisa para 
vigiar-me porque naquele trio no tem ningum, ningum que chegue, 
ningum que parta, ningum que espere. 

A cidade  s espao e sol, pista para a minha bicicleta de pneus 
remendados, o livro na estao  a nica garantia de que, atravs da fico, 
poderei reentrar numa realidade menos desesperada. 

Por volta das cinco aquela longa seduo - entre mim e o livro, entre o 
livro e mim, entre o meu desejo e a resistncia do espao infinito -, aquela 
pedalada amorosa no vcuo estivo, aquela dilacerante fuga concntrica tm 
um fim: decido-me, tiro do bolso o meu capital, compro o Atlantide, volto 
para casa e deito-me para f-lo. 

Antinia, a belssima femme fatale, apresenta-se vestida com um klafi 
egpcio (o que  um klafti Deve ser alguma coisa magnfica e tentadora, que 
vela e revela ao mesmo tempo) que desce sobre seus cabelos bastos e 
ondulados, azuis de to negros, e as duas pontas do pesado tecido dourado 
chegam at suas ancas delicadas. 

"Tinha uma tnica de vu negro de reflexos dourados, muito leve, ampla, 
fechada apenas por uma echarpe de musselina branca, bordada de ris de 
prolas negras." Sob aquelas vestes aparece uma donzela esbelta, de longos 
olhos negros, com um sorriso como jamais se viu entre as mulheres do 
Oriente. No se adivinha o corpo sob aqueles faustosos paramentos diablicos, 
mas sua tnica  ousadamente aberta do lado (ah, a fenda), o colo delicado 
est descoberto, os braos nus e sombras misteriosas se adivinham sob os vus. 
Tentadora e severamente virginal. Por ela, pode-se morrer. 

Embaraado fecho o livro quando meu pai volta, s sete, mas ele pensa que 
quero simplesmente esconder o fato de que estava lendo. Observa que leio 
demais e vou arruinar a vista. Diz a minha me que eu deveria sair mais, dar 
alguns belos passeios de bicicleta. 

No gosto do sol e no entanto eu o suportava bem em Solara. Observam 
que aperto freqentemente os olhos, franzindo o nariz: 

"Parece que no enxerga, e no  verdade", ralham. Espero as nvoas do 
outono. Por que tinha que amar a nvoa, se foi na nvoa do Vallone que se 
consumou minha noite de terror? Porque tambm foi a nvoa que me 
protegeu, deixando-me ainda um libi extremo. Havia nvoa, eu no vi nada. 

Com as primeiras nvoas reencontro minha antiga cidade, onde os espaos 
exagerados e sonolentos so cancelados. Os vazios desaparecem e do 
cinza-leitoso,  luz dos lampies, espiges, ngulos, repentinas fachadas 
emergem do nada. Conforto. Como no blecaute. Minha cidade foi feita, 
pensada, desenhada por geraes e geraes para ser vista no lusco-fusco, 
andando-se rente aos muros. Assim torna-se bela e protetora. 

 

Foi naquele ano ou no seguinte que surgiu Grand Hotel, a primeira revista 
em quadrinhos para adultos? A primeira imagem da primeira fotonovela me 
tenta, e me induz  fuga. 

Nada a ver com algo que reencontrei depois na loja de meu av, uma 
revista francesa que, quando abri, me fez queimar de vergonha. Peguei-a, 
enfiando-a na camisa, e zarpei. 

Estou em casa, deitado na cama folheando-a de barriga para baixo, 
apertando o pbis contra o colcho, exatamente como os manuais de piedade 
desaconselham. Numa pgina bem pequena, mas imensamente evidente, uma 
foto de josephine Baker com os seios nus. 

 

Fixo aqueles olhos pintados de bistre para no ver os seios, depois o olhar 
se desloca, so (creio) os primeiros seios de minha vida, pois aquelas coisas 
amplas e flcidas das calmucas poil no eram seios. 

Uma onda de mel percorre minhas veias, sinto um gosto acre no fundo da 
garganta, uma presso na fronte, um desfalecimento na virilha. Levanto-me 
assustado e mido perguntando que terrvel doena me acometeu, deliciado 
com aquela liquefao em um caldo primordial. 

Acho que foi minha primeira ejaculao: penso que  uma coisa mais 
proibida do que cortar a garganta de um alemo. Pequei de novo: naquela 
noite no Vallone sendo testemunha muda do mistrio da morte, agora sendo o 
intruso que penetrou nos mistrios proibidos da vida. 

 

Estou num confessionrio. Um capuchinho chamejante discorre 
longamente sobre as virrudes da pureza. 

No me diz nada que eu j no tivesse lido nos manuais de Solara, mas 
talvez tenha sido depois de suas palavras que voltei ao Jovem prevenido de 
Dom Bosco: 

 

Mesmo na vossa tenra idade o demnio estende laos para roubar vossa 
alma... H de ser muitssimo til para preservar-vos das tentaes 
permanecer distante das tentaes, das conversaes escandalosas, de es-
petculos pblicos, onde nada existe de bom... Procurai estar sempre ocu-
pados, quando no souberdes o que fazer, adornai altares, arranjai imagens 
ou quadros... Se mesmo assim a tentao continuar, fazei o sinal da santa 
cruz, beijai alguma coisa sagrada dizendo: So Lus, fazei com que eu no 
ofenda meu Deus. Nomeio tal santo porque foi proposto pela Igreja para ser 
o protetor especial da juventude... 

Antes de tudo, evitai a companhia das pessoas de sexo diferente. Que 
fique bem entendido: quero dizer que os meninos no devem estabelecer 
familiaridade com as meninas jamais... Os olhos so as janelas pelas quais o 
pecado abre caminho para os vossos coraes... donde, no demorai-vos 
remirando coisas que sejam, mesmo pouco, contrrias  modstia. So Lus 
Gonzaga no queria nem que lhe vissem os ps ao deitar-se ou levantar-se. 
No se permitia fitar no rosto apropria me... Esteve por dois anos com a 
rainha da Espanha na qualidade de pajem de honra e jamais a olhou no 
rosto. 

 

A imitao de So Lus no  fcil, ou melhor, o preo para escapar da 
tentaes parece bastante elevado, dado que o jovenzinho, flagelando-se at 
sangrar, colocava pedacinhos de madeira sob os lenis para atormentar-se 
mesmo durante o sono, sob as roupas escondia esporas de cavalo porque no 
tinha cilcios; buscava o prprio desconforto no estar, no sentar, no 
caminhar... Mas o confessor prope como exemplo de virtude Domingos 
Savio, com as calas deformadas de tanto ficar ajoelhado, mas menos cruento 
que So Lus em suas penitncias, e exorta-me a contemplar, como exemplo 
de santa beleza, o dulcssimo rosto de Maria. 

 
Tento exaltar-me com uma feminilidade sublimada. Canto no coro dos 
meninos, na abside da igreja e durante os passeios dominicais a algum 
santuiio: 

 
Do que a aurora Tu surges mais bela com 
Teus raios que alegram a terra e entre os 
astros que o cu encerra no h estrela que 
Tu mais bela. 

 

Bela Tu s qual o sol, 

branca mais do que a lua, 

e as estrelas mais belas 

no so belas como s Tu. 

Teus olhos so mais belos que o mar, 

Tua fronte tem a cor do lrio, 

Tuas faces, beijadas pelo Filho, 

so duas rosas e os lbios so flor. 

Talvez, esteja me preparando para o encontro com Lila, que dever ser 
assim rambm inatingvel, esplndida em seu Empreo, beleza grati mi, livre 
da carne, capaz de ocupar a mente sem solicitar os lombos, com os olhos que 
olham alhures, para outro senhor, e no se fixam maliciosos sobre mim como 
os de Josephine Baker. 

 

Tenho o dever de pagar na meditao, na prece e no sacrifcio, os pecados, 
meus e de quem me cerca. De dedicar-me  defesa da f, enquanto as 
primeiras revistas e os primeiros cartazes murais comeam a falar da ameaa 
vermelha, dos cossacos que esperam dar de beber a seus cavalos nas guas 
bentas de So Pedro. Pergunto perdido como  que os cossacos, inimigos de 
Stalin, que at combateram com os alemes, transformaram-se agora em seus 
mensageiros de morte, e talvez queiram assassinar todos os anarquistas como 
Gragnola. Vejo-os muito parecidos com o preto que estuprava a Vnus de 
Milo e talvez o desenhista ainda fosse o mesmo, reciclado para uma nova 
cruzada. 

 

Exerccios espirituais num pequeno convento em campo aberto. Cheiro de 
rano no refeitrio, passeios no claustro com o bibliotecrio que me aconselha 
a ler Papini. Depois do jantar, ir para o coro da igreja,  luz de uma vela 
apenas e todos juntos recirando o Exerccio da Boa Morte. 

O diretor espiritual nos l passagens sobre a morte do Jovem prevenido: 
no sabemos onde a morte nos surpreender - no sabe se o pegar no leito, 
no trabalho, na rua ou alhures, o rompimento de uma veia, um catarro, um 
mpeto de sangue, uma febre, uma praga, um terremoto, um raio  suficiente 
pata priv-lo de vida e isso pode ser daqui a um ano, um ms, uma semana, 
uma hora ou talvez mal acabe a leitura dessa reflexo. Nesse momento, 
sentiremos a cabea tonta, os olhos doloridos, a lngua spera, a garganta 
fechada, oprimido o peito, o sangue gelado, a carne consumida, o corao 
transpassado. Tendo expirado a alma, nosso corpo vestido de uns poucos 
farrapos ser jogado em uma fossa e l os ratos e os vermes roero todas as 
carnes e de ns nada restar seno os ossos descarnados e um pouco de ftido 
p. 

Enfim a prece, uma longa invocao listando todos os ltimos 
estremecimentos de um moribundo, os espasmos de cada membro, os 
primeiros frmitos, o insurgir-se da palidez at o desenhar-se da fcies 
hipocrtica e o estertor final. A cada descrio das catorze fases do traspasse 
(lembro vividamente apenas cinco ou seis), definida a sensao, a postura do 
corpo, a angstia do momento, termina-se com misericordioso Jesus, tende 
pie/iode de mim. 

 

Quando meus ps imveis me advertirem que minha carreira neste 
mundo est prestes a ter fim, misericordioso Jesus, tende piedade de mim. 

Quando minhas mos trmulas e entorpecidas no mais puderem 
apert-lo, Crucifixo bem meu, e contra a minha vontade eu deix-lo cair no 
leito de minha dor, misericordioso Jesus, tende piedade de mim. 

Quando minhas faces plidas e lvidas inspirarem aos presentes com-
paixo e terror e meus cabelos banhados pelo suor da morte, eriando-se 
sobre minha cabea, anunciarem o meu fim prximo, misericordioso fesus, 
tende piedade de mim. 

Quando minha imaginao, agitada por horrendos e aterrorizantes 
fantasmas, mergulhar em mortais tristezas, misericordioso Jesus, tende 
piedade de mim. 

Quando tiver perdido o uso de todos os sentidos e o mundo inteiro tiver 
desaparecido de mim e eu gemer nas angstias da extrema agonia e nos 
estertores de morte, misericordioso Jesus, tende piedade de mim. 

 

Salmodiar no escuro pensando na minha morte. Isso alivia, para no 
pensar mais na dos outros. No revivo aquele Exerccio com terror mas com 
conscincia do fato de que todos os homens so mortais. Essa educao ao Ser 
para a Morte preparou-me para meu destino, que , alis, o destino de todos. 
Gianni contou em maio a historinha daquele doutor que aconselhou a areao 
a um doente terminal. "Faz bem, doutor?" "No  que sirva para muita coisa, 
mas voc se acostuma a ficar enterrado." Agora estou me habituando. 

 

Certa noite o ditetor espiritual colocou-se de p diante da balaustrada do 
altar, iluminado - ele, ns, toda a capela - por uma nica vela que o aureolava 
de luz deixando seu rosto na obscuridade. Antes de dispensar-nos, contou um 
episdio. Uma noite, num convento de educandas, morreu uma menina, 
jovem, pia e belssima, e na manh seguinte, depois de estend-la em um 
catafalco na nave, todos recitavam para ela as preces dos defuntos. Mas de 
repente o cadver levantou-se, com os olhos abertos e o indicador apontado 
para o celebrante, e pronunciou com voz cavernosa: "Padre, no reze por 
mim! Esta noite concebi um pensamento impuro, um s -e agora estou 
condenada!" 

Um estremecimento percorre o auditrio e propaga-se pelos bancos da 
igreja e pelas abbadas e parece fazer oscilar a chama da vela. O diretor nos 
exorta a ir deitar, mas ningum se move. Forma-se uma longa fila diante do 
confessionrio, todos preocupados em s se entregar ao sono depois de ter 
confessado at mesmo a menor esfumatura de pecado. 

 

No conforto ameaador de naves escuras, fugindo dos males do sculo, 
gasto meus dias em glidos ardores, nos quais at os cantos natalcios, e aquele 
que um dia foi o confortvel prespio de minha infncia, transformam-se no 
nascimento do Menino para os horrores do mundo. 

 

Dorme, no chores, Jesus dileto, dorme, 
no chores, meu Redentor... os olhos 
amveis, lindo menino, corre a fechar no 
fosco horror. Sabes por que picam a palha 
e o feno? porque tuas luzes velam ainda. 

Corre a fech-las que o sono ao menos ser 
remdio para qualquer dor. Dorme, no 
chores, Jesus dileto, Dorme, no chores, 
meu Redentor. 

 

Um domingo, meu pai, torcedor de futebol, meio desiludido com aquele 
filho que passava dias inteiros arruinando os olhos em cima dos livros, 
levou-me para assistir a um jogo. E uma partida secundria, as arquibancadas 
esto quase vazias, manchadas pelas cores dos poucos presentes, ndoas nas 
brancas escadarias inflamadas pelo sol. A um apito do juiz, o jogo se 
interrompe, um dos capites o contesta, os outros jogadores movem-se pelo 
campo sem rumo. Desordem de camisetas de duas cores, vagar de atletas 
entediados na grama verde numa desordem esparsa. Tudo estanca. Tudo o que 
acontece escorre em cmera lenta, como num cinema paroquial onde o som 
termina de repente num miado, os movimentos se fazem mais cautelosos, 
acabam em saltos num fotograma imvel, e a imagem se desfaz na tela como 
cera derretida. 

E naquele instante sou tomado por uma revelao. 

Percebo agora que foi a sensao dolorosa de que o mundo era desprovido 
de objetivo, fruto preguioso de um mal-entendido, mas naquele momento s 
consegui traduzir o que sentia como: "Deus no existe." 

Saio da partida tomado por lancinantes remorsos e corro de imediato para 
o confessionrio. O confessor chamejante da ltima vez agora sorri indulgente 
e benvolo, pergunta como me ocorreram idias to insensatas, menciona a 
beleza da natureza que postula uma vontade criadora e ordenadora, depois 
difunde-se no consensus gentium: "Meu filho, acreditaram em Deus escritores 
como Dante, Manzoni, Salvaneschi, grandes matemticos como Fantappi, e 
voc quer desacreditar?" O consenso das gentes me acalma por alguns 
momentos. Deve ter sido culpa da partida. Paola me disse que nunca fui a 
jogos de futebol, no mximo acompanhava na televiso as partidas decisivas 
das Copas do Mundo. Deve ter se fixado em minha cabea, depois daquele dia, 
que quem assiste a uma partida perde a alma. 

 

Mas existem outros modos de perd-la. Os colegas de escola comeam a 
contar histrias sussurradas entre risinhos. Fazem insinuaes, trocam revistas 
e livros que roubaram em casa, falam da misteriosa Casa Vermelha onde no 
se pode entrar na nossa idade, desdobram-se para ver filmes cmicos com 
mulheres despidas. Mostram-me uma foto de Isa Barzizza de biquni 
desfilando na passarela em um espetculo de revista. No posso deixar de 
olhar para no passar por beato, olho e, como se sabe, pode-se resistir a tudo 
menos  tentao. Entro furtivo no cinema nas primeiras horas da tarde 
esperando no encontrar ningum que me conhea: em Os dois r-fozinhos 
(com Tot e Carlo Campanini), Isa Barzizza, com outras alunas, desprezando 
os conselhos da madre superiora, vai tomar banho de chuveiro nua. 

 Os corpos das alunas no so vistos, so sombras atrs das cortinas do 
chuveiro. As jovens fazem suas ablues como se fosse uma dana. Eu deveria 
me confessar, mas aquelas transparncias me trazem  mente um livro que 
logo fechei em Solara, temeroso daquilo que estava lendo. Trata-se de O 
homem que ri, de Hugo. 

Na cidade no o tenho, mas tenho certeza de que h um exemplar na loja 
de meu av. Encontro-o, e enquanto meu av fala com algum, acocorado aos 
ps da prateleira, chego febrilmente  pgina proibida. Gwynplaine, 
horrendamente mutilado pelos comprachicos, que o transformaram em uma 
mscara de circo de horrores, em um rebotalho da sociedade, de repente  
teconhecido como Lord Clancharlie, herdeiro de uma imensa fortuna, par do 
reino da Inglaterra. Antes mesmo de compreender plenamente o que lhe 
aconteceta,  introduzido, esplendidamente vestido como um fidalgo, em um 
palcio encantado e a srie das maravilhas que descobre (sozinho naquele 
deserto resplandecente), a seqncia de quartos e gabinetes faz girar no 
somente a sua cabea, mas tambm a do leitor. Vaga de quarto em quarto at 
chegar a uma alcova onde, na cama, ao lado de uma banheira pronta para um 
banho virginal, v uma mulher nua. 

No literalmente nua, adverte Hugo maliciosamente. Estava vestida. Mas 
com uma longussima camisa to impalpvel que parece molhada. E aqui 
comeam sete pginas de descrio de como  uma mulher nua e como 
aparece para O homem que ri, que at ento amara castamente apenas uma 
moa cega. A mulher surge para ele como uma Vnus adormecida na 
imensido de sua espuma e, mo-vendo-se lentamente no sono, compe e 
descompe curvas sedutoras com os vagos movimentos do vapor d agua, que 
no azul do cu forma as nuvens. Comenta Hugo: "A mulher nua  a mulher 
armada." 

De improviso, a mulher, Josiane, irm da rainha, desperta, reconhece 
Gwynplaine e comea uma furibunda obra de aliciao  qual o infeliz j no 
consegue resistir, s que a mulher o leva ao cmulo do desejo mas no se 
concede. Irrompe em uma srie de fantasias, ainda mais alucinantes que sua 
prpria nudez, em que se manifesta como virgem e como prostituta, ansiosa 
para gozar no somente dos prazeres da teratologia que Gwynplaine lhe 
promete, mas tambm do estremecimento que o desafio ao mundo e  corte 
ir lhe proporcionar, em cuja perspectiva se inebria, Vnus  espera de um 
duplo orgasmo, a posse privada e a exibio pblica de seu Vulcano. 

No momento em que Gwynplaine est pronto a ceder, chega uma 
mensagem da rainha comunicando  irm que o Homem que Ri foi 
reconhecido como o legtimo Lord Clancharlie e lhe  destinado como 
marido. Josiane comenta "Est bem", levanta-se, estende a mo e (passando do 
tu para o vs) diz quele com quem queria selvagemente se unir: "Retirai-vos." 
E comenta: "A partir do momento em que sois meu marido, retirai-vos... No 
tendes o direito de estar aqui. Este  o lugar do meu amante." 

 

Sublime corrupo - no de Gwynplaine, de Yambo. Josiane no s me d 
mais do que me prometera Isa Barzizza atrs da cortina, mas conquista-me 
com sua impudcia: "Sois meu marido, retirai-vos, este  o lugar do meu 
amante." Ser possvel que o pecado seja assim to heroicamente envolvente? 

Existem no mundo mulheres como Lady Josiane e Isa Barzizza? Vai me 
acontecer de encontr-las? Serei fulminado - sguiss -, justa punio por 
minhas fantasias? 

Existem, pelo menos na tela. Sempre  tarde, furtivo, fui ver Sangue e 
areia. A adorao com que Tyrone Power aperta o rosto contra o colo de Rita 
Hayworth convence-me da existncia de mulheres armadas mesmo que no 
estejam nuas. Desde que sejam despudoradas. 

Ser intensamente educado para o horror ao pecado e depois ser 
conquistado por ele. Digo a mim mesmo que a proibio deve inflamai a 
fantasia. Decido portanto que, para fugir  tentao,  preciso escapar das 
sugestes de uma educao para a puteza: ambas so manobras do demnio e 
sustentam-se uma  outra. Esta intuio, talvez heterodoxa, me chega como 
uma chibatada. 


Retiro-me para um mundo todo meu. Cultivo a msica, sempre grudado 
no rdio nas horas vespertinas ou de manh cedinho, mas s vezes apresentam 
um concerto sinfnico  noite. A famlia preferia ouvir outra coisa. "Chega 
dessas lamrias", lamenra-se Ada, impermevel s musas. Um domingo de 
manh na avenida encontro tio Gaetano, j um velho. Perdeu at o dente de 
ouro, ralvez o tenha vendido durante a guerra. Informa-se afavelmente sobre 
meus estudos, meu pai lhe diz que nesse perodo estou obcecado pela msica. 
"Ah, a msica", diz deliciado tio Gaetano, "eu o entendo muito bem, Yambo, 
adoro msica. E toda, sabe? De qualquer tipo, basta que seja 
msica." Reflete um instante e acrescenta: "A no ser quando  msica 
clssica. A eu desligo, claro." 

Sou um ser excepcional exilado entre os filisteus. Fecho-me ainda mais 
orgulhosamente em minha solido. 

Na antologia da quarta srie ginasial topo com os versos de alguns poetas 
contemporneos, descubro que  possvel iluminar-se de imensido, encontrar 
o mal de viver, ser arrebatado por um raio de sol. No compreendo tudo, mas 
me agrada a idia de que s isso te podemos dizer hoje, o que no somos, o 
que no queremos. 

Encontro na loja de meu av uma antologia dos simbolistas franceses. 
Minha torre de marfim. Confundo-me em uma tenebrosa e profunda unidade, 
busco em toda parte msica antes de qualquer coisa, ouo os silncios, 
percebo o inexprimvel, fito as vertigens. 



Mas para enfrentar livremente esses livros,  preciso que me liberte de 
muitos interditos e escolho o diretor espiritual de quem me falou Gianni, o 
padre de viso ampla. Dom Renato assistira a O bom pastor, com Bing Crosby, 
onde os padres catlicos americanos vestem-se como clergyman e cantam ao 
piano Too-ra-loo-ra-lo-ral, Too-ra-loo-ra-li a donzelas em adorao. 
 

Dom Renato no pode se vestir  americana, mas pertence  nova gerao 
dos padres que usam boina basca e andam de motoneta. No sabe tocar piano, 
mas tem uma pequena coleo de discos de jazz e ama a boa literatura. Digo 
que me aconselharam Papini e ele diz que o Papini mais interessante no  o 
de depois da converso, mas o de antes. Empresta-me Um homem acabado, 
pensando talvez que as tentaes do esprito possam me salvar das tentaes 
da carne. 

 a confisso de algum que nunca foi criana e teve uma infncia infeliz 
de velho sapo cismador e irascvel. No sou eu, minha infncia {nomen omeri) 
foi solar. Mas eu a perdi, por uma nica noire sabtica. O sapo irascvel sobre 
o qual leio agora salva-se na mania de saber, consumindo-se sobre volumes 

"com a lombada verde e desfiada, com vastas pginas, largas, amarfanhadas, 
acastanhadas de umidade, muitas vezes rasgadas ao meio ou sujas de rinra". 
Sou eu, no somente no sto de Solara, mas na vida que escolhi depois. 
Nunca sa dos livros: agora o sei, na viglia contnua de meu sono, mas entendi nesse momento que ora rememoro. 

Este homem, acabado desde o nascimento, no apenas l, mas escreve. Eu 
tambm poderia escrever para acrescentar monstros meus queles que 
percorrem o fundo dos mares com suas patas silenciosas. Aquele homem 
arruina os olhos nas pginas sobre as quais verte suas obsesses com a tinta 
limosa de calamares com o fundo viscoso de borra, como um caf turco. 
Arruinou-os desde rapazola lendo  luz de velas, arruinou-os na penumbra das 
bibliotecas com as plpebras avermelhadas. Escreve com a ajuda de lentes 
fortes, no temoi contnuo de ficar cego. Se no cego, ficar paraltico, os ner-
vos esto gastos, sente dores e entorpecimentos em uma perna, movimentos 
involuntrios dos dedos, grandes pontadas na cabea. Escreve com os culos 
espessos quase tocando a folha. 

Eu vejo bem, ando de bicicleta, nem sou um sapo - talvez at j tenha o 
meu sorriso irresistvel, mas de que me serve? No lamento que outros no me 
sorriam,  que no encontro razes para sorrir aos outros... 

Eu no sou como o homem acabado, mas gostaria de me tornar. Fazer de 
sua fria bibliomanaca a minha possibilidade de fuga no conventual do 
mundo. Construir-me um mundo todo meu. Mas no estou caminhando para 
uma converso, no mximo estou re- 
tornando. Buscando uma f alternativa, enamoro-me dos decadentes. Irmos, 
tristes lrios, langueso de beleza... Transformo-me num eunuco bizantino que 
olha passarem os grandes brbaros brancos compondo acrsticos indolentes, 
instalo com a cincia o hino dos coraes espirituais, na obra de minha 
pacincia percorro atlas, herbrios e rituais. 

Ainda posso pensar no eterno feminino, sim, mas desfigurado pelo artifcio 
e por alguma palidez doentia. Leio, e me inflamo, tudo de cabea: 

Aquela moribunda cujas vestes tocava queimava-o como a mais ardente 
das mulheres. No havia devadssi das margens do Ganges, odalisca dos 
banhos de Istambul, jamais haveria bacante nua que pudesse fazer ferver com 
maior intensidade o miolo de seus ossos que o contato, o simples contato 
daquela mo frgil e febril, cuja umidade sentia atravs da luva que a cobria. 

 

No preciso nem confess-lo a dom Renato.  literatura e posso 
freqent-la, mesmo se fala de nudezas perversas e ambigidades andrginas. 
Suficientemente distantes da minha experincia para que possa ceder  sua 
seduo.  verbo, no  carne. 

 

Por volta do fim do segundo ano de ginsio, cai em minhas mos o  
rebours de Huysmans. Seu heri, Des Esseintes, vem de uma famlia de 
guerreiros robustos e montonos, de bigodes  iatag, mas gradativamente os 
retratos dos antepassados deixam entrever um sucessivo empobrecimento da 
raa, extenuada por excessivos casamentos consanguneos: seus antepassados j 
mostram os sinais de um sangue entristecido pela linfa, exibem traos 
efeminados, rostos anmicos e nervosos. Des Esseintes nasce marcado por esses 
males atvicos: tem uma infncia fnebre, ameaada pela escrfula e por febres 
obstinadas, sua me, longa, silenciosa e branca, sempre sepultada num quarto 
escuro de um de seus castelos,  luz plida de um abajur que a defende dos 
excessos de luz e rumor, morre quando ele tem dezessete anos. O rapaz, 
abandonado a si mesmo, folheia livros e nos dias de chuva erra pelos campos. 
"Sua grande alegria era descer ao vale para chegar a Jutigny", uma aldeia 
plantada aos ps da colina. No Vallon. Deita-se nos prados, ouve o rumor 
surdo dos moinhos de gua, depois sobe as encostas de onde se v o vale do 
Sena, que foge a perder de vista confundi ndo-se com o azul do cu, as igrejas e a torre de Provins, que parecem tremer ao sol na pulverescncia dourada do 
ar. 

L e fantasia, embebeda-se de solido. Adulto, desiludido dos prazeres da 
vida e da mesquinhez dos homens de letras, sonha uma tebaida refinada, um 
deserto privado, uma arca imvel e tpida. Assim constri seu eremitrio, 
totalmente artificial, onde, na penumbra aquosa de vidraas que o separam do 
espetculo obtuso da natureza, transforma a msica em sabores e os sabores em 
msica, encanta-se com o latim balbuciante da decadncia, roa com os dedos 
dalmticas exangues e duras pedras, manda engastar na carapaa de uma 
tartaruga viva safiras, turquesas do Ocidente, jacintos de Compostella, 
guas-marinhas e rubis de Sundermania, ardsia clara. 

 
Entre rodos os captulos, amo aquele em que Des Esseintes decide sair pela 
primeira vez de sua casa para visitar a Inglaterra.  tentado pelo tempo 
enevoado que v a seu redor, pela abbada celeste que se estende toda igual 
diante de seus olhos como um forro acinzentado. Para sentir-se em harmonia 
com o lugar para onde ir, escolhe um par de meias cor de folha morta, uma 
roupa cinza-rato, axadrezada de cinza-Iava e pontilhada de cor de marta, pe 
na cabea uma cartola, pega uma bolsa com fole, um saco de dormir, uma 
chapeeira, guarda-chuvas e bengalas, e avia-se para a estao. 

Porm, chegando j exausto a Paris, roda de carro pela cidade chuvosa  
espera da hora da partida. Os lampies a gs, que piscam entre a nvoa no 
meio de um halo amarelado, j sugerem uma Londres tambm pluvial, 
colossal, imensa, de sabor ferruginoso, fumacenta na bruma, com suas filas de 
docks, de gruas, de guindastes, de sacos. Em seguida, entra em uma espcie de 
taverna, ampub freqentado por ingleses, entre filas de barris decorados com o 
braso real, com mesinhas cobertas de biscoitos Palmers, bolachinhas salgadas, 
mince pies e torradas e degusta a srie de vinhos exticos que o ambiente lhe 
oferece, Old Port, Magnificent OU Regina, Cockburns Very Fine... A seu 
redor sentam-se os ingleses: plidos eclesisticos, rostos de tripeiros, colares de 
barbas semelhantes s de certos smios, cabelos de estopa. Abandona-se, ao 
som de vozes estrangeiras, quela Londres fictcia, ouvindo os rebocadores que 
ululam no rio. 

Sai atordoado, o cu agora desceu para tocar o corpo das casas, as arcadas 
da rue de Rivoli lhe aparecem como uma fosca galeria escavada sob o Tmisa, 
entra em outra taverna onde projetam-se no balco as torneiras de onde 
espirra cerveja, observa robustos anglo-saxes de dentes largos como palhetas, 
de mos e ps longussimos, que se dedicam com aplicao a um pastelo de 
carne cozida com molho de cogumelos e revestido por uma crosta, como uma 
torta. Pede um oxtail, um haddock, roastbeef, dois pints de ale, belisca um 
pouco de Stilton, termina com um copo de brandy. 

Enquanto pede a conta, a porra da taverna se abre e enrra uma gente que 
traz consigo um cheiro de cachorro molhado e de carvo fssil. Des Esseintes 
se pergunta por que atravessar a Mancha: no fundo, j esteve em Londres, 
cheirou seus perfumes, saboreou seus alimenros, viu a moblia caracterstica, 
satutou-se de vida britnica. Manda que o carro o leve de volta  estao de 
Sceaux e retorna com as malas, as bolsas, as cobertas e os guarda-chuvas para 
seu refgio costumeiro, "sentindo todo o cansao fsico e moral de um homem 
que volta para casa depois de uma longa e perigosa viagem". 

 

Assim estou ficando: mesmo nos dias de primavera posso me mover em 
uma nvoa uterina. Mas somente a doena (e o fato de que a vida me recusa) 



poderia justificar plenamente a minha recusa da vida. Devo provar a mim 
mesmo que minha fuga  boa, e virruosa. 

Descubro-me, portanto, enfermo. Ouvi dizer que as doenas do corao se 
revelam atravs da cor violeta dos lbios e exatamente naqueles anos minha 
me est acusando distrbios cardacos. Talvez no graves, mas entretm mais 
que o devido a famlia inteira, no limite da hipocondria. 

Uma manh, olhando-me no espelho, vejo meus lbios violceos. Deso  
rua, comeo a correr desabaladamente: ofego e percebo pulsaes anmalas no 
peito. Estou, portanto, doente do corao. Votado  morte, como Gragnola. 

Essa doena cardaca transforma-se no meu absinto. Espio seus progressos, 
vendo meus lbios cada vez mais escuros, as faces cada vez mais magras, 
enquanto as primeiras flores da acne juvenil do a meu rosto rubores 
morbosos. Morrerei jovem, como So Lus Gonzaga e Domingos Savio. Mas, 
atravs de uma cabriola de meu esprito, reformulei lentamente o meu 
Exerccio da Boa Morte: pouco a pouco deixei o cilcio pela poesia. 

Vivo em ofuscantes crepsculos: 

 

Dia vir: eu sei Que este 
sangue ardente De um golpe 
faltar, Que minha pena far 
um trao estridente ... e 
ento morrerei. 

 

Estou morrendo, no mais porque a vida  m, mas porque, em sua 
loucura,  banal e repere cansadamente seus rituais de morte. Penitente laico, 
mstico logorrico, conveno-me de que a mais bela de todas  a ilha nunca 
achada, que s vezes aparece, mas s de longe, entre Tenerife e Palma: 

 

Roam com suas proas a margem beata: entre flores 
nunca vistas alteiam sumas palmas, odora a divina 
floresta espessa e viva, chora o cardamomo, 
transudam as gomas... 

Anuncia-se com perfume, como uma cortes, a Ilha 
Nunca-Achada... Mas se o piloto avana, rpida se 
dissipa como aparncia v, e tinge-se na azulada cor 
da distncia. 

 

A f no imperceptvel permite que feche meu parntese penitencial. Uma 
vida de jovem prevenido prometera-me, como prmio, aquela que era bela 
como o sol e plida como a lua. Mas um s pensamento impuro poderia 
roub-la de mim para sempre. A Ilha Nunca-Achada, ao contrrio, permanece, 
enquanto inatingvel, sempre minha. 

Educo-me para o encontro com Lila. 



18. BELA S COMO O SOL 

 

 

Lila tambm nasceu de um livro. Estava entrando no liceu, s vsperas dos 
dezesseis anos e na loja de meu av topei com Cyrano de Bergerac de Rostand, 
traduo italiana de Mario Giobbe. Por que no estava em Solara, no sto ou 
na capela, no sei. Talvez o tenha lido e relido tantas vezes que acabou se 
desfazendo. Hoje, poderia recit-lo de cor. 

A histria todos conhecem, acho que se me perguntassem sobre Cyrano 
mesmo depois do acidente eu poderia dizer do que se tratava, um dramalho 
de romantismo exacerbado, que as companhias itinerantes apresentam de 
quando em quando. Mas s saberia dizer o que qualquer um diria. O restante 
no, s agora o recupero como coisa ligada a meu crescimento e a meus 
primeiros estremecimentos amorosos. 

Cyrano  um espadachim admirvel, poeta genial, mas  feio, oprimido por 
aquele seu nariz monstruoso {Isso  breve e no tem graa alguma. I 
Poder-s'ia dizer... mas tanta cousa, em suma!... I variando o tom de voz... 
assim: dai-me ateno: I Agressivo: "Senhor, tamanho narigo I Fosse meu, 
que, sem d lhe apararia o topo!" I Corts: "Esse nariz mergulha-vos no copo: 
I usai dum canjiro para beber melhor. " / Descritivo: "E rochedo!  cabo! 
Inda  maior: / promontrio! E mais:  o Novo Continente!"]. 

Cyrano ama sua prima Roxana, prcieuse de divina beleza {Eu amo,  
natural, a mais bela que existe!). Talvez ela o admire por sua 
bravura, mas ele no ousaria declarar-se, temeroso da prpria feira. Uma 
nica vez, quando lhe pede um encontro, tem esperana de que algo possa 
acontecer, mas a desiluso  cruel: ela confessa estar enamorada do belssimo 
Cristiano, que acabava de entrar para os cadetes da Gasconha, e pede que o 
proteja. 

Cyrano cumpre o extremo sacrifcio e decide amar Roxana fa-lando-lhe 
pelos lbios de Cristiano. A Cristiano, belo, corajoso, mas inculto, ele sugere as 
mais doces declaraes de amor, escreve cartas ardentes e, certa noite, o 
substitui sob o balco da amada para sussurrar-lhe o clebre elogio do beijo: 
mas depois  Crisriano quem sobe para colher o prmio de tamanha bravura: 
"Pois bem! Vinde buscar a vvida centelha!,.. - ...A flor sem rival! - ...O rumor 
de abelha! /...O corao no lbio!..." "Avia-te, animal!", faz Cyrano 
empurrando o rival e, enquanto os dois se beijam, chora na sombra 
saboreando sua frgil vitria, pois no lbio que beija, em frvola doudice / 
Roxana est beijando as frases que eu lhe disse. 

Cyrano e Cristiano partem para a guerra, Roxana, cada vez mais 
apaixonada, vai a seu encontro, conquistada pelas cartas que Cyrano envia 
todo dia, mas confessa ao primo ter percebido que em Cristiano amava, no a 
beleza fsica, mas o corao ardente e o esprito elevado. Am-lo-ia mesmo 
que fosse feio. Cyrano compreende ento que  ele o amado e est para revelar 
tudo, mas naquele momento, Cristiano, atingido por uma bala inimiga, morre. 
Sobre o cadver do infeliz, Roxana inclina-se s lgrimas e Cyrano 
compreende que nunca mais poder falar. 

Os anos passam, Roxana vive retirada em um convento, pensando sempre 
no amado desaparecido e relendo dia aps dia sua ltima carta, manchada com 
seu sangue. Cyrano, amigo e primo fiel, vai visit-la todo sbado. Mas naquele 
sbado ele, ferido por adversrios polticos ou literatos invejosos, esconde de 
Roxana que, sob o chapu, ele traz uma faixa ensangentada. Roxana lhe 
mostra, pela primeira vez, a ltima carta de Cristiano, Cyrano l em voz alta, 
mas Roxana percebe que a noite caiu e no entende como ele pode decifrar 
aquelas palavras esmaecidas, e num repente tudo fica claro: ele recita de cor a 
sua ltima carta. Ela amara, em Cristiano, Cyrano. E dizer que ele fez, 
quatorze anos a fio, I Esse papel jovial de amigo prestadlo! No, tenta negar 
Cyrano, no  verdade, no, no! Meu caro amor! Eu nunca vos amei! 

Mas j o heri vacila, chegam os amigos fiis e, reprovando-o por ter 
deixado o leito, revelam a Roxana que ele corre o risco de morrer. Cyrano, 
apoiado a uma rvore, faz a mmica de seu ltimo duelo contra as sombras de 
seus inimigos, e cai. Enquanto diz que s h uma coisa que levar imaculada 
para o cu, o seu penacho, mon panache (e este ltimo mote encerra o drama), 
Roxana se inclina para ele e o beija na testa. 

Este beijo  to-somente nomeado no texto, nenhum personagem fala dele, 
um diretot insensvel poderia at ignor-lo, mas para meus olhos de 
adolescente era a cena central e eu no apenas via Roxana inclinando-se, mas 
com Cyrano sentia pela ptimeira vez, bem junto ao rosto, seu hlito 
perfumado. Este beijo em articulo mortis compensava Cyrano pelo outro, 
roubado, com o qual todos se enterneceram no teatro. Este ltimo beijo era 
belo porque no momento mesmo em que o recebia, Cyrano morria e Roxana, 
portanto, mais uma vez lhe fugia. E era exatamente disso que, identificado 
com o personagem, eu me orgulhava. Expirava feliz sem ter tocado a amada, 
deixando-a em sua condio celestial de sonho incontaminado. 


Com o nome de Roxana no corao, s me faltava dar-lhe um rosto. E foi o 
rosro de Lila Saba. 

Como Gianni disse, eu a vi descendo um dia a escadaria do liceu e Lila 
tornou-se minha para sempre. 

Papini escrevia sobre sua temida cegueira e sua miopia voraz: "Vejo tudo 
confuso, como numa nvoa, leve, leve, por ora, mas universal e contnua. De 
longe,  noite, todas as figuras se confundem: um homem encapotado para 
mim pode parecer uma mulher; uma pequena chama tranqila, uma longa 
linha de luz vermelha; um barco descendo o rio, uma mancha negra na 
corrente. Os rostos so manchas claras; as janelas manchas escuras sobre as 
casas; as rvores manchas escuras e compactas que se erguem da sombra e 
apenas trs ou quatro estrelas de primeira grandeza brilham no cu para mim." 
Isso  o que me acontece agora, em meu vigilssimo sono. Sei tudo, desde que 
me acordei para os favores da memria (alguns segundos atrs? mil anos?), das 
feies de meus pais, de Gragnola, do doutor Osimo, do professor Monaldi e 
de Bruno, encarei tudo isso perfeitamente diante de mim, senti o cheiro e ouvi 
os sons das vozes. Mas vejo tudo clarssimo a meu redor, exceto o rosto de Lila. 
Como naquela foto em que os rostos so embaados para salvaguardar a 
privacy dos suspeitos menores de idade ou da esposa inocente do monstro, 
vejo de Lila a silhueta delicada em seu aventalzinho preto, o andar suave 
enquanto a sigo como um sicofanta, vejo por trs o balanar dos cabelos, mas 
ainda no consigo ver o semblante. 

Ainda estou lutando contra um bloqueio, como se temesse no poder 
aceitat aquela luz. 


Revejo-me escrevendo para ela minhas poesias, Criatura Encerrada 
naquele mistrio lbil, e me consumo no s na recordao do meu primeiro 
amor, mas no sofrimenro de no poder reconhecer, nesse momento, o sorriso, 
aqueles dois dentinhos de que falava Gianni - ele que, maldito, sabe e 
recorda. 

Vamos com calma, deixemos  nossa memria o seu tempo prprio. Por 
ora me basta, se tivesse uma respirao, ela se faria mais tranqila, pois 
percebo que cheguei a meu lugar. Lila est a dois passos. 

Vejo-me entrar na turma das meninas para vender bilhetes, vejo os olhos 
de doninha de Ninetta Foppa, o perfil meio desbotado de Sandrina, depois, 
eis-me diante de Lila, dizendo alguma gracinha divertida, enquanto procuro o 
troco e no encontro para prolongar minha estao diante de um cone que se 
desfaz como a tela de uma televiso que entra em tilt. 

Sinto no corao o infinito orgulho da noitada teatral, acabei de fingir que 
punha na boca a pastilha da senhora Marini. O teatro explode, sinto uma 
indizvel sensao de poder ilimitado. No dia seguinte, tentei explic-lo a 
Gianni: "Foi", dizia eu, "o efeito amplificador, as maravilhas do alto-falante: 
com um mnimo de dispndio de energia voc provoca uma deflagrao e 
sente que gera uma fora imensa com pouco gasto. Posso, no futuro, me 
transformar num tenor que faz enlouquecer as multides, num heri que 
arrasta dez mil homens para o massacre ao som da Marselhesa, mas certa-
mente no poderei mais experimentar uma sensao to inebriante como a de 
ontem  noite." 

 

Agora experimento exatamente o mesmo. Estou ali, com a lngua que passa 
e repassa contra a bochecha, ouo os rumores provenientes da sala, tenho uma 
vaga idia de onde Lila pode estar, porque espiei antes do espetculo, 
afastando as cortinas, mas no posso virar a cabea naquela direo, pois 
estragaria tudo: a senhora Marini, enquanto a pastilha lhe viaja pelas 
bochechas, deve continuar de perfil. Movo a lngua, falo quase a esmo com 
voz chocha (a senhora Marini no era, alis, muito mais conseqente), estou 
concentrado em Lila, que no vejo, mas ela me v. Vivo aquela apoteose como 
um amplexo, em relao ao qual a primeira ejaculatio praecox com Josephine 
Baker no passava de um inspido espirro. 

 

Deve ter sido depois daquela primeira experincia que decidi mandar dom 
Renato e suas exortaes ao diabo. De que vale conservar esse segredo nas 
profundezas do corao, se no podemos nos inebriar a dois. E depois, se est 



apaixonado, vai querer que ela saiba tudo de voc. Bonum est dijjusivum sui. 
Agora vou lhe dizer tudo. 

 

Tratava-se de encontr-la, no na sada da escola, mas quando estava 
voltando para casa, sozinha. s quintas-feiras tinha aula de educao fsica e 
ela voltava por volta das quatro. Preparei durante dias e dias o discurso de 
abordagem. Precisava de algo espirituoso, tipo no tenha medo, no  um 
assalto, ela riria, eu lhe diria que estava me acontecendo uma coisa estranha, 
que eu nunca experimentara antes, e que talvez ela pudesse me ajudar... O que 
pode ser, pensaria ela, mal nos conhecemos, talvez esteja gostando de uma de 
minhas amigas e no tem coragem. 

Mas depois, como Roxana, ela entenderia num piscar de olhos. No, no, 
meu caro amor, eu nunca vos amei. Era isso, uma boa tcnica. Contar-lhe que 
no a amava e desculpar-me por tal desateno. Ela perceberia a artimanha 
(no era uma prcieuse?) e talvez se inclinasse para mim dizendo, sei l, que 
deixasse de brincadeiras, mas com inesperada ternura. Enrubescendo, 
tocar-me-ia as faces com os dedos. Resumindo, o comeo seria uma 
obra-prima de argcia e fineza, irresistvel - pois, amando-a, no podia 
conceber que ela no tivesse os mesmos sentimentos que eu. Estava enganado, 
como todos os apaixonados, emprestava-lhe minha alma e pedia que fizesse o 
que eu teria feito, mas assim so as coisas, h milnios. Ou no existiria 
literatura. 

Escolhi o dia, a hora, tendo criado todas as condies para o desenlace feliz 
da Oportunidade, faltavam dez para as quatro quando me postei diante do 
porto de sua casa. Cinco minutos depois pensei que havia muita gente 
passando e resolvi esperar l dentro, aos ps da escada. 

Depois de alguns sculos, transcorridos entre cinco para as quatro e quatro 
e cinco, ouvi que ela entrava no saguo. Cantava. Uma cano que falava de 
um vale, s consigo cantarolar um vago motivo, no a letra. Eram anos em que 
as canes eram horrveis, no como as de minha infncia, mas canes tolas 
de um tolo ps-guerra, Eullia Torricelli de Forli, Os bombeiros de Viggiii,  
que mas, que mas, Os cadetes de Guascogna, no mximo lacrimosas 
declaraes de amor como V serenata celeste ou Adormecer assim entre seus 
braos. Eu as odiava. Meu primo Nuccio pelo menos danava ritmos ame-
ricanos. A idia de que ela pudesse gostar daquelas coisas enregelou-me por 
um instante (ela tinha que ser especial como Roxana), mas no tenho certeza 
se naquele momento conseguia raciocinar muito. De fato, no ouvia, 
simplesmente antecipava sua apario e tive pelo menos dez bons segundos 
para sofrer uma eternidade ansiosa. 

Apresentei-me justamente quando ela chegava  escada. Se outra pessoa 
me contasse a histria, observaria que nesses momentos uma arcada  mesmo 
necessria, para sustentar a espera e criar o ambiente. Mas naquele instante 
bastava-me a miservel cano que mal ouvia. O corao me batia com tal 
violncia que daquela vez, daquela sim, eu poderia resolver que estava doente. 
Mas, ao contrrio, sentia-me cheio de uma energia selvagem, pronto para o 
momento supremo. 

Ela apareceu na minha frente e parou surpreendida. Perguntei-lhe: 
"Vanzetti mora aqui?" Ela respondeu que no. 

Eu disse obrigado, desculpe, devo ter me enganado. E fui embora. 

Vanzetti (quem era afinal?) foi o primeiro nome que, tomado pelo pnico, 
me veio  cabea.  noite, depois, convenci-me de que era justo que tivesse 
acontecido daquela forma. Foi a ltima astcia. Se ela comeasse a rir, se 
perguntasse o que lhe deu na cabea, voc  muito querido, agradeo, mas 
sabe, renho outia pessoa na cabea, o que eu faria depois? Esqueceria? A 
humilhao me levaria a pensar que ela era uma tola? Teria grudado atrs dela 
dia e noite como papel de mosca, nos dias e meses seguintes, esperando uma 
segunda ocasio, transformando-me no palhao do liceu? Calando, ao 
contrrio, conservei tudo o que j tinha e no perdi nada. 

 

Era evidente que ela tinha algum em mente. s vezes, vinha esper-la na 
sada da escola um estudante universitrio, alto, alourado. Chamava-se Vanni 
- no sei se era nome ou sobrenome - e certa vez apareceu com um 
esparadrapo no pescoo e disse aos amigos, com ar gaiatamente devasso, que 
era s um sifiloma. Mas uma vez ele veio de Vespa. 

A Vespa surgira h pouco. S quem tinha, como dizia meu pai, eram os 
rapazes viciados. Para mim, ter uma Vespa era como ir ao teatro para ver 
danarinas de biquni. Estava no campo do pecado. Alguns colegas matavam 
aula na sada da escola ou,  tardinha, vinham  pracinha onde nos soltvamos 
em longas prosas nos bancos, diante de um chafariz geralmente quebrado, e 
alguns deles contavam de casas de tolerncia e espetculos de revista com 
Wanda Osiris -e quem j sabia adquiria aos olhos dos outros um morboso 
carisma. 

A meus olhos, uma Vespa era a transgresso. No era uma tentao, pois 
no conseguia nem pensar em possuir uma, era antes a evidncia solar e 
nebulosa do que poderia acontecer se algum se afastasse com uma amiga 
montada na garupa como uma amazona. No era um objeto de desejo, era um 
smbolo de desejos insatisfeitos, e insatisfeitos por deliberada recusa. 

Naquele dia, voltando ao liceu pela praa Minghetti s para cruzar com ela 
junto com as amigas, ela no estava no grupo. Enquanto apressava o passo 
temendo que alguma divindade ciumenta a tivesse roubado de mim, algo de 
muito horrendo acontecia, algo de muito menos sagrado, ou - se sagrado 
fosse - nfero. Ela ainda estava l, diante da escadaria do liceu, como quem 
espera. E eis que chega (de Vespa) o tal Vanni. Ele a ajudava a subir, ela se 
abraava a ele, como de hbito, passando os braos sob as axilas, segurando na 
cintura, e at logo. 

J era a poca em que as saias quase acima do joelho dos anos de guerra, e 
em forma de sino, cobrindo os joelhos, que embelezavam 
as namoradas de Rip Kirby nos primeiros quadrinhos americanos do 
ps-guerra, estavam sendo substitudas por saias longas, amplas, at a metade 
da perna. 

No eram mais comportadas que as outras, pelo contrrio, tinham, uma sua 
graa perversa, uma elegncia area e insinuante, mais ainda quando 
ondulavam esvoaantes enquanto a moa desfalecia abtaada a seu centauro. 

 

Aquela saia era um flutuar pudico e malicioso ao vento, uma seduo por 
interposto e amplo estandarte. A Vespa afastava-se rgia como um barco que 
deixa em seu rastro uma espuma cantante, um cabriolar de golfinhos msticos. 

Naquela manh, ela se afastava na Vespa. E, para mim, a Vespa 
transformava-se mais que nunca no smbolo de um dilaceramento, de uma 
paixo intil. 

Ainda uma vez, porm, vejo a saia, o auriflgido de seus cabelos, e ela 
sempre de costas. 

 

Foi Gianni quem me contou. Passei uma representao inteira, em Asti, 
olhando apenas para sua nuca. Mas Gianni no lembrou -ou no lhe dei tempo 
para tanto - uma outra noitada teatral. Chegou  cidade uma companhia que 
apresentava Cyrano. Era a primeira vez que tinha oportunidade de v-lo em 
cena e consegui convencer quatro amigos a reservar lugares na galeria. 
Antegozava o prazer, e o orgulho, de antecipar as falas nos momentos cruciais. 

Chegamos com antecedncia, estvamos na segunda fila. Pouco antes do 
incio colocou-se na primeira fila, bem diante de ns, um grupo de moas. 
Eram Ninetta Foppa, Sandrina, outras duas, e Lila. 

Lila sentou-se na frente de Gianni, que estava a meu lado, portanto, s 
podia v-la outra vez de costas, porm, movendo a cabea, podia enttever seu 
perfil (agora no, Lila est ainda e sempre sola-rizada). Cumprimentos rpidos, 
oh, vocs por aqui, mas que coincidncia boa, e s. Como dizia Gianni, ramos 
jovens demais para elas, e se consegui ser um heri com a pastilha na boca, foi 
como Abbott e Costello, de quem se ri, mas que no se namora. 

Para mim, de qualquer jeito, bastava. Seguir o Cyrano, fala por fala, com 
ela na minha frente multiplicava minha vertigem. J no sei dizer como era a 
Roxana que atuava no palco, pois tinha a minha Roxana de costas e de soslaio. 
Tinha a sensao de perceber quando ela seguia o drama com emoo (quem 
no se comove com Cyrano, escrito para fazer chorar at um corao de 
pedra?) e decidi soberanamente que se comovia, no comigo, mas por mim, e 
para mim. No poderia desejar mais nada: eu, Cyrano, e ela. O resto era mul-
tido annima. 

Quando Roxana inclinou-se para beijar a fronte de Cyrano, eu e Lila 
formvamos um s. Naquele momento, embora no o soubesse, ela no podia 
no me amar. Afinal, Cyrano esperara anos e anos para que ela enfim 
compreendesse. Eu tambm poderia esperar. Naquela noite cheguei a poucos 
passos do Empreo. 

 

Amar uma nuca. E o casaco amarelo. Aquele casaco amarelo com que ela se 
apresentou um dia na escola, luminosa no sol primaveril - e sobre o qual 
poetei. Desde ento, nunca mais pude ver uma mulher de casaco amarelo sem 
sentir um chamado, uma insuportvel nostalgia. 

S agora entendo o que Gianni dizia: busquei durante toda a vida, em 
todas as minhas aventuras, o rosto de Lila. Por toda a vida esperei recitar a 
cena final de Cyrano. O choque que me levou ao acidente talvez tenha sido a 
revelao de que aquela cena me estava proibida para sempre. 

Compreendo agora que foi Lila quem me deu, aos dezesseis anos, a 
esperana de esquecer a noite no Vallone, abrindo-me para um novo amor 
pela vida. Minhas pobres poesias substituram o Exerccio da Boa Morte. Com 
Lila por perto, no digo minha, mas diante de mim, teria vivido os anos do 
liceu - como dizer - num movimento ascendente e teria lentamente me 
reconciliado com minha infncia. Com Lila bruscamente desaparecida, vivi 
at as vsperas da 

universidade num limbo incerto e em seguida - quando os smbolos mesmos 
daquela infncia, meu av e meus pais, desapareceram definitivamente - 
renunciei a qualquer tentativa de releitura benevolente. Apaguei, e recomecei 
do zero. De um lado, a fuga para um saber confortvel e promissor (obtive 
meu diploma com a Hypnero-tomachia Poliphili, justamente, e no com a 
histria da Resistncia), de outro o encontro com Paola. Mas se Gianni tinha 
razo, restou uma insatisfao de fundo. Recalquei tudo, exceto o rosto de 
Lila, e ainda procurava por ele na multido, esperando reencontr-lo, no 
andando para trs, mas para a frente, numa busca que agora sei que  intil. 

A vantagem de meu sono de agora, com seus curtos-circuitos repentinos, 
labirnticos - de modo que, embora reconhea a escanso de pocas diversas, 
posso repercorr-las em ambas as direes, abolindo a flecha do tempo -, a 
vantagem  que agora posso reviver tudo, sem que exista mais um adiante e 
um atrs, num crculo que poderia durar eras geolgicas; e neste arco, ou 
espiral, Lila est sempre e de novo a meu lado em cada instante de minha 
dana de abelha seduzida, tmida ao redor do plen amarelo de seu casaco. 
Lila est presente como Angelo Orso, ou o doutot Osimo, ou o senhor Piazza, 
Ada, papai, mame, meu av e, daqueles anos, reencontrei os perfumes e os 
cheiros da cozinha, compreendendo com equilbrio e piedade at mesmo a 
noite do Vallone, e Gragnola. 

 

Sou um egosta? Paola e as meninas esperam l fora, e  graas a elas que 
durante quarenta anos pude me permitir essa busca de Lila, mantida l no 
fundo, enquanto eu vivia com os ps na terra. Elas me fizeram sair de meu 
mundo fechado e embora tenha girado entre incunbulos e pergaminhos, 
pude todavia gerar vida nova. Elas esto sofrendo e eu me declaro feliz. Mas 
enfim, que culpa tenho, para fora no posso voltar e, portanto,  justo que 
goze desse estado de suspenso. To suspenso que posso at suspeitar que, 
entre agora e o momento em que despertei aqui onde estou, apesar de ter 
revivido quase vinte anos, s vezes momento por momento, no se passaram 
mais que uns poucos segundos - como nos sonhos, nos quais parece que basta 
dormir uns instantes para, num piscar de olhos, viver uma histria 
longussima. 

 
Talvez esteja, sim, em coma, mas nesse coma no recordo, sonho. Sei de 
certos sonhos em que se tem a impresso de recordar e se acredita que o que 
foi lembrado  verdadeiro, mas depois, ao acordar, se  obrigado a concluir a 
contragosto que aquelas lembranas no eram nossas. Sonhamos falsas 
lembranas. Por exemplo, lembro que sonhei mais de uma vez que finalmente 
voltava a uma casa que no visitava h muito tempo, mas  qual j deveria ter 
retornado, pois era uma espcie de apartamentozinho secreto onde vivi e 
onde deixei muitas coisas minhas. No sonho recordava precisamente cada 
mvel e cada aposento da casa e no mximo irritava-me porque sabia que 
deveria existit, depois da sala, no corredor que leva ao banheiro, uma porta 
que dava em outro quarto, mas a porta, ao contrrio, no estava l, como se 
algum a tivesse murado. Assim, despertava cheio de desejo e nostalgia 
daquele refgio escondido, mas mal me levantava e j percebia que a 
lembrana pertencia ao sonho, e que eu no podia me lembrar daquela casa 
porque - pelo menos na minha vida - ela nunca existira. Tanto que muitas 
vezes pensei que nos sonhos nos apossamos das recordaes de outros. 

Porm, j me aconteceu de, num sonho, sonhar um outro sonho, como 
estaria fazendo agora? Eis a prova de que no estou sonhando. Ademais, nos 
sonhos as lembranas so desfocadas, imprecisas, e nesse momento eu recordo 
pgina por pgina, imagem por imagem de tudo aquilo que folheei em Solara 
nos ltimos dois meses. Recordo coisas que realmente aconteceram. 

Mas quem garante que tudo aquilo que recordei no curso desse sonho 
realmente me aconteceu? Talvez minha me e meu pai no tivessem aquele 
rosto, talvez jamais tenha existido nenhum doutor Osimo, nem Angelo Orso, 
e eu jamais tenha vivido a noite do Vallone. Pior, sonhei tambm que 
despertava em um hospital, que perdera a memria, que tinha uma mulher 
que se chamava Paola, duas filhas e trs netinhos. Nunca perdi a memria, eu 
sou um outro -e s Deus sabe quem - que por algum acidente encontra-se 
nessa situao (coma ou limbo) e todo o resto so figuras que emergiram da 
nvoa por iluso de tica. Do contrrio, tudo aquilo que pensei recordar at 
agora no estaria dominado pela nvoa, que nada mais era que o sinal de que 
minha vida era sonho. Fiz uma citao. E se todas as outras citaes, as que 
fazia para o doutor, para Paola, para Sibilla, para mim mesmo, no fossem 
mais que o produto do mesmo sonho persistente? Carducci ou Eliot, Pascoli 
ou Huysmans nunca teriam existido, com todo o resto que eu acreditava 
fossem recordaes enciclopdicas. Tquio no  a capital do Japo, Napoleo 
no apenas no morreu em Santa Helena, mas nem sequer nasceu, se alguma 
coisa existe fora de mim  um universo paralelo no qual sabe-se l o que 
acontece ou aconteceu, e talvez meus semelhantes - e eu mesmo - 
tenhamos a pele coberta de escamas verdes e quatro antenas rerrteis sobre 
um nico olho. 

No posso estabelecer que as coisas no sejam realmente assim. Mas se 
tivesse concebido todo um universo a partir do interior do meu crebro, um 
universo em que no somente existem Paola e Sibilla, mas onde foi escrita a 
Divina Comdia e inventada a bomba atmica, teria posto em jogo uma 
capacidade de inveno que supera as possibilidades de um indivduo - 
admitindo-se sempre que eu seja um indivduo, e humano, e no uma 
madrpora de crebros conectados entre si. 

E se porventura Algum estivesse projetando um filme diretamente em 
meu crebro? Eu poderia ser um crebro em uma soluo qualquer, em um 
caldo de cultura, no recipiente de vidro onde vi os testculos de co, sob 
formol, e algum me envia estmulos que me fazem crer que tenho um corpo 
e que outros existiram a meu redor - embora existam apenas o crebro e o 
Estimulador, Mas se fssemos crebros em formol poderamos supor que 
somos crebros em formol ou afirmar que no o somos? 

Se fosse assim, nada teria a fazer seno esperar outros estmulos. 
Espectador ideal, viveria este sono como uma interminvel noitada 
cinematogrfica, acreditando que o filme fala de mim. Ou no, isso que estou 
sonhando  apenas o filme nmero dez mil novecentos e noventa e nove, 
outros dez mil e passa j sonhei, num deles identificava-me com Jlio Csar, 
atravessava o Rubico, sofria como um boi no matadouro com as vinte e trs 
punhaladas, no outro era o senhor Piazza e empalhava doninhas, em outro 
ainda, Angelo Orso que se perguntava por que o estavam queimando depois 
de tantos anos de servios prestados. Num deles, poderia ter sido Sibilla a se 
perguntar angustiada se eu conseguiria um dia recordar a nossa histria. Nesse 
momento seria um eu provisrio, amanh serei talvez um dinossauro que 
comea a sofrer o advento da glaciao que ir mat-lo, depois de amanh 
viverei a vida de um abric, de um pssaro, de uma hiena, de um galho seco. 

No consigo abandonar-me, quero saber quem sou. Uma coisa percebo 
com clareza. As memrias que reemergiram desde o incio daquilo que penso 
ser meu coma so obscuras, nebulosas e esto dispostas como um mosaico, 
com solues de continuidade, incertezas, laceraes, fragmentaes (por que 
no consigo recordar o rosto de La?). As de Solara, e as de Milo depois do 
despertar no hospital, so, ao contrrio, claras, escorrem segundo uma 
seqncia lgica, posso reordenar suas fases temporais, posso dizer que en-
contrei Vanna no largo Cairoli antes de comprar os testculos de co naquela 
banquinha no Cordusio.  verdade que poderia estar sonhando ter lembranas 
imprecisas e lembranas claras, mas a evidncia dessa diferena me leva a uma 
deciso. Para conseguir sobreviver (curiosa expresso para algum como eu, 
que pode j estar morto), preciso decidir que Gratarolo, Paola, Sibilla, o 
estdio, Solara inteira com Amlia e as histrias de leo de rcino de meu av, 
so lembranas de vida verdadeira. E assim que fazemos tambm na vida 
normal: podemos supor que estamos sendo enganados por um gnio maligno, 
mas para poder seguir adiante nos comportamos como se tudo aquilo que 
vemos fosse real. Se nos abandonssemos, se duvidssemos da existncia de 
um mundo fora de ns, no agiramos mais, e na iluso produzida pelo gnio 
maligno cairamos das escadas ou morreramos de fome. 

Foi em Solara (que existe) que li minhas poesias que falavam de uma 
Criatura, e foi em Solara que Gianni me disse pelo telefone que tal criatura 
existia e se chamava Lila Saba. Portanto, mesmo no interior do meu sonho, 
Angelo Orso pode ser iluso, mas Lila Saba  realidade. Por outro lado, se eu 
apenas sonhasse, por que o sonho no seria generoso o suficiente para 
resrituir-me o rosto de Lila? Nos sonhos aparecem at mesmo os defuntos para 
segredar os nmeros da Loto, por que justamente Lila me deve ser negada? Se 
no consigo recordar tudo  porque fora desse sonho existe um posto de 
bloqueio que me impede por alguma razo de passar adiante. 

 bem verdade que nenhum dos meus confusos raciocnios se sustenta. 
Posso muito bem estar sonhando que sofro um bloqueio, pode ser que o 
Estimulador se recuse (por malignidade ou piedade) a enviar-me a imagem de 
Lila. Nos sonhos, nos aparecem pessoas conhecidas, sabemos que so elas e, no 
entanto, no podemos olh-las nos olhos... Coisa alguma, da qual eu possa me 
convencer, resiste a uma prova lgica. Mas exatamente o fato de que possa 
apelar para uma lgica prova que no estou sonhando. O sonho  ilgico e so-
nhando voc no reclama que o seja. 

Decido portanto que as coisas so de um certo modo, e quero ver quem  
que vai poder me contradizer. 

Se conseguir ver o rosto de Lila, vou me convencer que existia. No sei a 
quem pedir ajuda, tenho que fazer tudo sozinho. No posso implorar a algum 
fora de mim e tanto Deus quanto o Estimulador - se  que existem - esto 
fora do sonho. As comunicaes com o lado de fora esto interrompidas. 
Talvez possa me dirigir a alguma divindade particular, cuja fugacidade 
conheo, mas que deve pelo menos ser-me grata por ter-lhe dado vida. 

 

A quem mais seno a rainha Loana? Sei, volto a me entregar  minha 
memria carrcea, mas no estou pensando na rainha Loana dos quadrinhos, 
mas na minha, fantasiada de formas bem mais etreas, a guardi da chama da 
ressurreio, que pode fazer retornarem os cadveres petrificados de um 
remoto passado qualquer. 

Estou louco? Essa tambm  uma hiptese sensata: no estou em coma, 
estou fechado em um autismo letrgico, creio que estou em coma, creio que o 
que sonhei no  verdade, creio ter o direito de fazer com que se torne veraz. 
Mas como pode um louco criar uma hiptese sensata? Alm do mais, s se  
louco em relao a normas de outros, e aqui no h outros, a nica medida sou 
eu e a nica coisa verdadeira  o Olimpo das minhas memrias. Estou encar-
cerado em meu isolamento cimrio, nesse feroz egotismo. Mas ento, se 
minha condio  essa, por que fazer diferena entre minha me, Angelo Orso 
e a rainha Loana? Tenho o poder soberano de criar meus prprios deuses, e 
minhas prprias Mes. 


E, portanto, ora rezo: "Oh, boa rainha Loana, em nome de teu amor 
desesperado, no te peo que despertes de seu sono de pedra as tuas vtimas 
milenares, mas apenas que me restituas um rosto... Eu, que da nfima laguna 
de meu sono forado vi aquilo que vi, peo-te que me leves mais acima, em 
direo a uma aparncia redentora." 

No acontece de ficarem curados os que recebem uma graa apenas por 
terem expresso sua f no milagre? Donde, quero intensamente que Loana 
possa me salvar. Estou to tenso nessa esperana que, se j no estivesse em 
coma, teria um ataque. 

 
E por fim, santo Deus, eu vi. Vi como o apstolo, vi o centro do meu 
Aleph do qual transluzia no o infinito mundo, mas a miscelnea de minhas 
recordaes. Assim a neve ao sol se desvela e assim ao vento nas folhas leves 
reaflora a sentena de Sibilla. 

 
Ou melhor, com certeza eu vi, mas a primeira parte da minha viso foi to 
ofuscante que foi como se, em seguida, eu mergulhasse de novo num sono 
nebuloso. No sei se num sonho se pode sonhar que se dorme, mas  certo 
que, se sonho, sonho tambm que agora estou desperto e recordo aquilo que 
vi. 

Estava diante da escadaria do meu liceu, que subia branca em direo s 
colunas neoclssicas que enquadravam a porta de entrada. Fui arrebatado em 
esprito e ouvia como que uma voz poderosa que dizia "o que agora vers 
podes escrever em teu livro, pois ningum o ler, j que ests apenas 
sonhando que o escreves!" 


E no topo da escada apareceu um trono e no trono havia um homem com 
o rosto de ouro, de sorriso monglico e atroz, a cabea coroada de chamas e 
esmeraldas, e todos erguiam seus clices para render homenagem a ele, Ming, 
Senhor de Mongo. 

 E no trono estavam quatro Viventes, Thun com rosto de leo, e Vultano 
com asas de falco, e Barin, prncipe de Arbria, e Uraza, rainha dos Homens 
Magos. E Uraza estava descendo a escada envolta em chamas e parecia uma 
grande meretriz amantada em prpura e escarlate, adornada de ouro, pedras 
preciosas e prolas, bria do sangue dos homens vindos da Terra; e ao v-la 
assombrava-me um grande assombro. 

E Ming sentado no trono dizia querer julgar os homens da terra e 
casquinava lbrico diante de Dale Arden, ordenando que fosse dada em pasto 
a uma Besta vinda do mar. 

E a Besta tinha um horrvel chifre na testa, a goela escancarada e os dentes 
aguados, as patas de rapinador e a cauda como mil escorpies. E Dale chorava 
e implorava ajuda. 

Vindos em seu socorro, subiam a escada os cavaleiros de Undina montados 
em monstros rostrados com duas patas apenas e uma longa cauda de peixe 
marinho... 

E os Homens Magos fiis a Gordon em um carro de ouro e corai puxado 
por grifos verdes de longos pescoos crisrados de escamas... 

E os Lanceiros de Fria sobre Pssaros das Neves de bicos retorcidos como 
cornucpias douradas e, por fim, numa carruagem branca, ao lado da Rainha 
das Neves, chegava Flash Gordon e gritava a Ming que estava para ter incio o 
grande torneio de Mongo e ele iria pagar por todos os seus crimes. 



E a um sinal de Ming, caram do cu sobre Gordon os Homens-Falco, que 
encobriam as nuvens como enxames de gafanhotos, enquanto os 
Homens-Leo com redes e tridentes pontiagudos espalhavam-se pela praa 
dianre da escadaria e tentavam capturar Vanni e outros estudantes, que 
chegaram com um outro enxame, este de Vespas, e a batalha era incerta. 

E, incerto sobre a batalha, Ming fez outro sinal e seus foguetes celestes 
ergueram-se altos no sol e lanavam-se sobre a Terra quando, a um sinal de 
Gordon, outros foguetes celestes do doutot Zarkov levantaram vo, e no cu 
acendeu-se um majestoso duelo entre silvos de raios mortais e lnguas de fogo, 
e as estrelas do cu pareciam cair sobre a terra, e os foguetes penettavam no 
cu e enrolavam-se liquefeitos como um livro que se enrola, e era chegado o 
dia do Grande Jogo de Kim, e envoltos por outras chamas multicoloridas 
destroavam-se agora no cho os outros foguetes celestes de Ming, arrastando 
sobte a praa os Homens-Leo. E os Homens-Falcao despencavam envoltos 
em chamas. 



E Ming Senhor de Mongo soltava um urro de animal feroz e seu trono 
desmoronava e rodava pela escada do liceu arrastando seus pvidos cortesos. 



E, morto o tirano, desaparecidas as Besras vindas de toda parte, enquanto 
um abismo escancaiava-se sob os ps de Uraza, que mergulhava numa 
voragem de enxofre, agora erguia-se l em cima, dian-re da escadaria do liceu 
e sobre o liceu, uma Cidade de Cristal e outras pedras preciosas, propulsada 
por foguetes de todas as cores do arco-ris. E sua altura era de doze mil 
estdios, e seus muros de jaspe semelhante a vidro tambm tinham cento e 
quarenta e quatro cvados. 

 

Naquele momento, depois de um tempo que foi ao mesmo tempo de 
chamas e vapores, a nvoa se tornava rarefeira e eu agora via a escadaria, livre de qualquer monstro, branca no sol de abril. 


Voltei  realidade! Esto soando sete trombetas e so aquelas da Orquestra 
Cetra do Maestro Pippo Barzizza, da Orquestra Meldica do Maestro Cinico 
Angelini e da Orquestra Rtmico-Sinfnica do Maestro Amberto Semprini. As 
portas do liceu escancaram-se e so mantidas abertas pelo doutor molieresco 
das Pastilhas Fiat, batendo com um basto para anunciar o desfile dos 
Arcontes. 

E eis que desfilam descendo por ambos os lados da escadaria os meninos 
que saram primeiro, dispostos como uma fileira de anjos para a descida de 
todos os sete cus, de palets listrados e calas brancas, como incontveis 
pretendentes de Diana Palmer. 

 

E aos ps da escadaria aparece agora Mandrake The Magician que gira sua 
bengala com desenvoltura. Sobe cumprimenrando com a cartola erguida 
enquanto, a cada passo, a base da escada se ilumina, e ele canta I'll build a 
Stairway to Paradise, with a new step ev'ry day, I'm going to get there at any 
price, Stand aside, I'm on my way! 

Mandrake agora aponta o basto para o alto, anunciando a descida da 
Dragon Lady, envolta em seda negra, e a cada degrau os estudantes 
ajoelham-se e estendem o chapu em adorao, enquanto ela canta, com voz 
de saxofone no cio Sentimental essa noite infinita, esse cu outonal, essa rosa 
esmaecida, tudo fala de amor a minh'alma que espera, e espera essa noite, a 
alegria de uma hora, de uma hora contigo. 

E atrs dela descem, finalmente de volta ao nosso planeta, Gordon, Dale 
Arden e o doutor Zarkov, entoando Blue skies, smiling at me, nothing but 
blues skies do I see, Bluebirds, singing a song, nothing but bluebirds, all day. 

E Georges Formby os segue com seu uquelele, arranhando com sorriso 
eqino It's in the air this funny feeling everywhere, that makes me sing 

without a care today, as I go on my way, it's in the air, it's in the air... Zoom 
zoom zoom zoom high and low, zoom zoom zoom zoom we go... 

 

E baixam os sete anes recitando ritmicamente o nome dos sete reis de 
Roma, menos um, e depois Mickey e Minnie de braos dados com Horcio e 
Clarabeia, sobrecarregada com os diademas de seu tesouro ao ritmo de Pippo 
Pippo no sabe. Seguem-nos Pippo, Pertica e Palia, e Cip e Gallina, e Alvaro 
antes corsrio com Alonzo Alonzo, dito Alonzo, j preso por furto de girafa e, 
de braos dados como um sem-nmero de confrades, Dick Fulmine, Zambo, 
Barreira, Mscara Branca e Flattavion, vociferando o partigiano no bosque, e 
depois todos os rapazes do Cuore, Derossi  frente, com a Pequena Vedeta 
Lombarda e o Tamborileiro Sardo, e o pai de Coretti com a mo ainda quente 
da carcia do rei, cantando adeus Lugano bela, expulsos sem culpa os 
anarquistas partem, enquanto Franti, na ltima fila, arrependido, sussurra 
dorme, no chora, Jesus dileto. 

Explodem fogos de artifcio, o cu assolado  um esplendor de estrelas de 
ouro, e precipitam-se escada abaixo o homem do Thermogne e quinze tios 
Gaetanos, a cabea hirta de lpis Presbtero, desarticulando os membros num 
sapateado furibundo, I'm yankee doodle dandy, enxameiam grandes e 
pequenos da Biblioteca dos meus Meninos, Gigliola di Collefiorito, a tribo dos 
Coelhos Selvagens, a senhorita de Solmano, Gianna Preventi, Carletto di 
Kernoel, Rampichino, Editta de Ferlac, Susetta Monenti, Michele di Valdarta 
e Melchiorre Fiammati, Enrico di Valneve, Valia e Tamarisco, encimados pelo 
fantasma areo de Mary Poppins, todos com os chapeuzinhos militares dos 
rapazes da rua Paal e narizes longussimos  Pinquio. Tap dancing com o 
Gato e a Raposa e os gendarmes. 

Em seguida, a um sinal do psicopompo, aparece Sandokan. Est vestido 
com uma tnica de seda indiana fechada na cintura por uma faixa carmesim 

ornada dc pedras preciosas, o turbante fixo por tun diamante grande como 
uma avel. Da chita despontam as coronhas de duas pistolas de requintada 
feitura e uma cimitarra com a bainha cravejada de rubis. Entoa baritonante 
Mailu, sob o cu de Singapura, num manto de estrelas d'ouro, nasceu o nosso 
amor e seguem-no os seus tigrinhos, iatag entre os dentes, sedentos de 
sangue, louvando Mompracen, flotilha nossa, da Inglaterra a zombar, vitoriosa 
em Alessandria, Malta, Suda e Gibraltar... 

Eis que surge agora Cyrano de Bergerac, a espada desembainhada, que, 
com voz baritonamente nasal e gesro amplo, interroga a multido: "Conhece 
minha prima, que tipo original, moderna, linda menina, nunca vers igual. Ela 
dana o boogie-woogie, fala um pouco de ingls e de maneira assaz corts sabe 
sussurrar for you." 

Atrs dele vem suave Josephine Baker, mas desta vez  poil, como as 
calmucas de Raas e povos da terra, salvo um saiote de cascas de banana  
cintura, e acena maciamente Oh sinto tanto tormento e dor, ao pensar que o 
ofendi, oh Senhor. 

 

Desce Diana Palmer cantando il n'y a pas, il n'y a pas d'amour heureux, 
Yanez de Gomera gorgeia ibrico  Maria la O, deixa-te beijar,  Maria la O, 
eu te quero amar, basta um teu olhar e j no te posso recusar, chega o 
carrasco de Lille com Milady de Winter, ele chorando solua so fios d'ouro 
teus cabelos louros e tua boquinha odora, e ento corta-lhe a cabea com um 
s golpe, e a adorvel cabea de Milady, marcada por um lrio gravado a fogo 
em sua testa, gita at o fundo da escadaria, quase at meus ps, enquanto os 
Quatro Mosqueteiros cantam em falsete she gets too hungry for dinner at 
eight, she likes the theater and never comes late, she never bothers wirh 
people she'd hate, that's why Milady is a tramp! Desce Edmond Dantes 
cantarolando desta vez amigo meu, pago eu, pago eu, e o abade Faria, que o 
segue envolto em seu sudrio de pano de saco, o aponta e diz  ele,  ele,  
mesmo ele, enquanto Jim, o doutor Livesey, Lord Trelawney, o capito 
Smollett e Long John Silver 

(travestido de Joo Bafo-de-Ona, que em cada degrau bate um toque com o 
p e trs com a prtese) contestam seus direitos sobre o tesouro do pirata 
Flint, e Ben Gun com o sorriso do Escovinha diz entre seus dentes caninos 
cheesel Com clangores de botas teutnicas desce o camarada Richard fazendo 
ressoar suas claquetes ao ritmo de New York, New York, its a wonderful 
town! The Bronx is up and thc Battery's down, e o Homem que Ri de braos 
com Lady Josiane, nua como s uma mulher armada pode ser, fazendo pelo 
menos dez passos para cada degrau, escande I got rhythm, I got music, I got 
my girl, who could ask for anything more? 

E ao longo da escada estende-se agora, por milagre cnico urdido pelo 
doutor Zarkov, um monocarril cintilante, ao longo do qual a Fibtea chega ao 

topo, penetra no trio do liceu e como de um alegre alvear descem, 
repercorrendo a escada at embaixo, vov, mame, papai que segura uma Ada 
pequenssima pela mo, o doutor Osimo, o senhor Piazza, dom Cognasso, o 
proco de San Martino e Grag-nola, com o pescoo enfaixado por uma 
armadura que sustenta tambm a nuca, como Eric von Stroheim, quase 
esticando as costas, e todos modulam: 

 

A famlia cantadeira da manh a noite inteira 

quieta, quieta, pianinho, vai em surdina o Trio Lescano 

uns s querem Boccaccini, outros a orquestra Angelini, 

uns de orelha serelepe para Alberto Rabagliati. 

A me quer a melodia, mas a filha aceita s 

o maestro Petraa quando faz o acorde em sol. 

 

E, enquanto acima de todos plana Meo, com suas grandes orelhas ao 
vento, soberbamente asinino, irrompem em fileira desordenada todos os 
rapazes do Oratrio, porm, com o uniforme da Patrulha do Marfim, 
empurrando Fang, a flexuosa pantera negra; e salmodiando exticas, seguem 
as caravanas do Tigrai. 

Em seguida, depois de alguns crack crack em rinocerontes de passagem, 
erguem armas e chapus para saud-la, a ela, a rainha Loana. 

Ela se mostra em seu casto suti, com uma saia que quase he descobre o 
umbigo, o rosto oculto por um vu branco, um penacho na cabea e um 
amplo manto movido por um vento suave, bamboleando graciosa entre dois 
mouros vestidos de imperadores incas. 

Desce em minha direo como uma mocinha das Ziegfield Folhes, sorri, 
faz um sinal de encorajamento mostrando-me o enquadramento da porta da 
escola, na qual agora se perfila Dom Bosco. 

 

Dom Renato o segue em clergymdn, entoando s suas costas, mstico e de 
viso ampla, duae umbrae nobis una facta sunt, infra la-ternam stabimus, olim 
Lili Marlene, olim Lili Marlene. O santo, com expresso risonha, com as 
vestes enlameadas e os ps apertados pelos sapatos salesianos, a cada rap e tip 
que tenta, de degrau em degrau, segura estendido diante de si, como se fosse a 
bengala de Mandrake, O jovem prevenido, e tenho a impresso de que vai 
dizendo omnia munda mundis, e a noiva est pronta e foi-lhe concedido 
vestii-sc com um bisso esplndido e puro e seu esplendor ser como gema 
preciosssima, vim contar-te o que deve acontecet em breve... 

 Obtive o consenso... Os dois religiosos colocam-se nas extremidades 
opostas do ltimo degrau e fazem um sinal indulgente em direo ao porto, 
do qual saem as meninas do feminino, carregando um grande vu 
transparente no qual se envolvem, dispostas em forma de cndida rosa e, na 
contraluz, nuas, erguem as mos mostrando de perfil os seios virginais.  
chegada a hora. Vai aparecer, ao final desse radioso apocalipse, Lila. 

 
Como ser? Tremo e antecipo. 

Parecer uma jovem de dezesseis anos, bela como uma rosa que se fecha 
em todo o seu frescor aos primeiros raios de uma bela manh orvalhada, com 
uma longa veste cerlea coberta da cintura ao joelho por um retculo de prata, 
imitar a cor de suas pupilas, bem distantes de igualar-lhes o etreo 
azul-celeste, o macio e lnguido esplendor das outras, e estar submersa no 
difuso volume das cabe- 

leiras louras, suaves e luzidias, presas apenas por uma coroa de flores, ser 
uma criatura de dezoito anos de brancura difana, a carnao que se anima 

numa esfumatura rosada, ganhando em torno dos olhos um plido reflexo de 
gua-marinha, deixando entrever sobre a fronte e nas tmporas pequenas 
veias azuladas, seus finos cabelos louros cairo ao longo das faces, seus olhos, 
de um azul tnue, parecero suspensos num qu de mido e cintilante, seu 
sorriso ser o de uma menina, mas quando fica sria uma ruga leve e vibrante 
marcar de ambos os lados os seus lbios, ser uma donzela de dezessete anos, 
esbelda e elegante, de cintura to fina que uma mo bastaria para circund-la, 
de pele como uma flor recm-desa-brochada, com uma cabeleira que lhe 
desce em pitoresca desordem como uma chuva de ouro sobre o branco corpete 
que lhe cobre o seio, uma fronte audaz dominar seu rosto de um oval 
perfeito, a carnao ter a brancura opaca, o frescor aveludado de uma ptala 
de camlia apenas iluminada por um raio de sol, a pupila, negra e brilhanre, 
deixar entrever levemente, nos dois ngulos das plpebras franjadas por 
longos clios, a transparncia azulada do globo ocular. 

No. Sua tnica audaciosamente aberta do lado, os braos nus, as sombras 
misteriosas que se adivinham sob os vus, lenta desfar o lao de alguma coisa 
sob os cabelos e as longas sedas que a envolvem como um sudrio de repente 
cairo por terra, meu olhar percorrer todo o seu corpo, coberto apenas por 
uma afilada veste branca, presa na cintura por uma serpente de ouro com duas 
cabeas, enquanto ela tem os braos cruzados sob o seio, enlouquecerei diante 
de suas formas andrginas, de suas carnes brancas como o miolo do sambuco, 
aquela sua boca de lbios de presa, aquela fita azul exatamente sob o queixo, 
anjo de missal vestido de virgem louca por obra de um miniaturista perverso, 
sobre o seu peito chato os seios, pequenos mas precisos, iro se erguer 
distintos e agudos, a linha da cintura ir se alargar um pouco nas ancas e se 
perder nas pernas longussimas de uma Eva de Luca de Leyda, os olhos 
verdes de olhar ambguo, a boca grande e o sorriso inquietante, os cabelos 
com a flavescncia do ouro velho, toda a cabea desmentir a inocncia do 
corpo, quimera ardente, esforo supremo da arte e da volpia, monstro 
fascinante, ir se revelar em todo o seu esplendor secreto, dos losangos de 
lpis-lazli partiro arabescos e de incrustaes de madreprola deslizaro 
luzes de arco-ris e fogos de prisma, seria como Lady Josiane, no ardor da 
dana os vus iro se desfazer, os brocados cairo, estar vestida apenas de 
ourivesaria, de luzidios minerais, um cinturo lhe apertar a cintura como um 
espartilho e, qual soberbo fecho, uma jia maravilhosa dardejar seus lumes 
na diviso dos seios, as ancas estaro envoltas numa faixa que esconde a parte 
superior das coxas, sobre as quais bate um gigantesco pendente versando um 
rio de carbnculos de esmeralda, sobre seu corpo agora nu o ventre se 
arquear inciso por um umbigo cuja fossa lembrar um lacre de nix de tons 

latiginosos, sob as luzes ardentes que se irradiaro em torno  sua cabea, 
todos os lustros das gemas se inflamaro, as pedras iro se animar desenhando 
seu corpo com ttaos incandescentes, iro ferir-lhe o colo, as pernas, os braos 
como pontas de fogo, vermelhas como brasas, violceas como jatos de gs, 
azuis como chamas de lcool, brancas como raios de estrelas, aparecer para 
mim implorando que a flagele, segurando entre as mos um cilcio de 
abadessa, sete cordas de seda por injria aos sete pecados capitais, e sete ns 
em cada corda pelos sete modos de cair em pecado mortal, as rosas sero as 
gotas de sangue que florescero de sua carne, ser sutil como um crio do 
templo, o olho transpassado por espada de amor e eu em silncio desejarei 
depor sobre a fogueira o meu corao, hei de querer que, mais plida que a al-
vorada, mais branca que cera, as mos recolhidas sobre o peito liso, tenha-se 
ereta em sua veste, rubra do sangue dos coraes mortos sangrando por ela. 

 

No, no, por que m literatura estou me deixando seduzir, no sou mais 
um adolescente pruriginse. Hei de quer-la simples como era e como a amei 
ento, s um rosto sobre um casaco amarelo. 

Hei de querer a mais bela que se possa conceber, mas no a belssima por 
quem outros se perderam. Ela me bastaria mesmo grcil e doente, como deve 
ter estado em seus ltimos dias no Brasil e lhe diria ainda s a mais bela das 
criaturas, no trocaria teus olhos pisados e tua palidez pela beleza dos anjos do 
cu! Gostaria de v-la surgir em meio  corrente, s e imvel enquanto olha 
em direo ao mar, criatura transformada por encanto em um bizarro e belo 
pssaro marinho, as longas pernas nuas e esbeltas, delicadas como as de uma 
gaivota, e sem perturb-la com meu desejo hei de deix-la em suas lonjuras de 
princesa distante... 

No sei se  a misteriosa chama da rainha Loana que est ardendo em 
meus lobos empergaminhados, se algum elixir est tentando lavar as folhas 
acastanhadas da minha memria de papel, ainda afetadas por muitas ndoas 
que tornam ilegvel aquela parte do texto que ainda me escapa, ou se sou eu 
que tento obrigar meus nervos a um esforo insuportvel. Se nesse estado 
pudesse tremer, tremeria, por dentro sinto-me sacudido como se, fora, 
flutuasse em um mar borrascoso. Mas , ao mesmo tempo, como que o 
anncio de um orgasmo, em meu crebro os corpos cavernosos se enchem de 
sangue, algo est para explodir - ou para desabrochar. 

 

Agora, como naquele dia no saguo, estou finalmente prestes a ver Lila, 
que descer ainda pudica e maliciosa em seu aventalzinho negro, bela como o 
sol, branca como a lua, gil e ignara de ser o centro, o umbigo do mundo. 

Verei seu rosto gracioso, o nariz bem desenhado, a boca que mal e mal 
mostrar os dois incisivos superiores, ela, coelho angora, gata Mat que mia, 
movendo lentamente o plo macio, pomba, arminho, esquilo. Descer como a 
primeira geada e h de me ver e estender ligeiramente a mo, sem 
convidar-me, mas para impedir que eu fuja outra vez. 

Finalmente saberei como recitar ao infinito a cena final do meu Cyrano, 
saberei o que busquei pela vida afora, de Paola a Sibilla, "e poderei 
reconjungir-me. Estarei em paz. 

Ateno. No poderei perguntar outra vez "Vanzetti mora aqui?" 
Finalmente deverei colher a Ocasio. 

 

Mas um leve fumifugium cor de rato est se espalhando no topo da 
escadaria, velando a enrrada, 

Sinto uma rajada de frio, alo os olhos. Por que o 
sol se est fazendo negro? 
